Depois de um sonho
10 ... e dois passos à frente
Notas iniciais
... e dois passos a frente.
Shizuo
Segurando firmemente o tornozelo de Izaya, Shizuo tinha certeza que pegara o informante.
O moreno diante de si estava em uma posição plenamente desconfortável. O guarda-costas mal podia segurar a vontade de rir diante da imobilidade do outro. Sabia que agora mesmo o informante estava pensando em uma maneira de escapar daquela situação. Mas, ao mesmo tempo, havia visto quando ele soltou o canivete que tinha em mãos com a o impacto do puxão.
“Não tem escapatória, pulga!”, pensava divertido diante da resistência silenciosa do informante, apertando ainda mais a mão que segurava Izaya.
– Ok, Shizu-chan. Você não é o mesmo. Me pegou. Agora me solte para podermos recomeçar. – arriscou dizer.
– Calado, pulga. – “Oh, você deve estar bem desesperado para tentar esta tática idiota, pulga!”, refletiu. “Não há forma de escapar agora!”.
Quando ia, porém, mover sua outra mão em direção ao informante para iniciar uma sequencia de socos, sentiu seu corpo sendo empurrado para trás, em direção ao chão.
Só percebeu o que havia acontecido ao sentir as costas do informante bater com força contra seu peito e ouviu uma risada.
Izaya se soltara e agora estava sobre dele, gargalhando e mantendo-o imobilizado abaixo de si. Shizuo levara todo o impacto da fuga bem sucedida de Izaya.
“Pulga maldita!”.
Raiva emanava de seus poros. Sabia que o informante se levantaria a qualquer momento e se poria a correr. Rápido como só ele era capaz de fazer. Assim, no momento no qual se levantasse já seria tarde demais para segui-lo.
Tinha certeza que Izaya escaparia com sucesso.
Izaya, porém, não escapava.
Ele se movia, mas não escapava.
Não só não escapava, mas virava-se para olhá-lo.
Um misto de sentimentos inundou o peito do guarda-costas.
Sabia que aqueles olhos só o encaravam para debochar de sua situação. Sentia raiva por isso. Mas, mesmo sabendo dos motivos cruéis por detrás daquele olhar, não podia deixar de se sentir inquieto ao ter aqueles olhos voltados para si. Encarou-os de volta. Aqueles olhos castanhos com tons avermelhados estavam presos nos seus. Ele estava preso a eles. Preso a cada uma daquelas nuances de cor. Preso ao negro de suas pupilas, que se dilatavam ao retribuir seu olhar.
– Escapei, Shizu-chan.
“Escapei”, aquela palavra invadiu sua mente e lhe soou absurda. Não havia escape para aquilo. Ele estava completamente submerso naqueles olhos. Não achava sequer que um dia esta palavra tivesse atribuído a ela algum sentido. Escapar. Isso nem existe, não é? Não existe escape para isso, não é?
– É. – respondeu em voz alta a pergunta que invadia sua mente.
A voz de Izaya invadiu novamente sua mente. Não percebeu inteiramente o que ele dissera, mas entendia perfeitamente uma parte: “Agora tenho que ir”.
“Tem que ir? Pra onde? Pra que? Escapar daqui?”.
Preparou-se para sentir o peso sobre seu corpo aliviar-se. Preparou-se para ver os olhos castanho-avermelhados pararem de fita-lo. Preparou-se para a fuga do outro — daquele que, aparentemente, podia escapar.
Mas nada aconteceu. Esperou por um tempo a mais. Entretanto, o peso continuava ali, os olhos ainda fitavam-no, a fuga não se fez.
“Ele também não pode escapar!”.
Um alívio estranho, nunca antes sentido, invadiu-o. Um peso, que não o do informante, saiu de seu peito. Sentiu-se leve. Sua leveza fez com que seu próprio corpo acabasse por fazer-se livre. Sentiu-se leve como se pudesse flutuar.
A próxima coisa que sentiu foi o pescoço do informante chocar-se contra seus lábios.
Demorou alguns instantes para perceber que não fora exatamente o pescoço a chocar-se contra seus lábios, mas seus lábios a pousarem no pescoço.
Não sabia exatamente como aquilo tinha acontecido. Com sua mente nublada pela leveza que sentia, a única teoria que podia tecer era de que seu corpo havia flutuado até o de Izaya, se elevado sozinho até ele. Simples e natural como uma libélula atraída pela luz.
Um suspiro engasgado invadiu seus ouvidos. Aparentemente, Izaya havia sido pego de surpresa tanto quanto ele mesmo por aquele movimento.
Tão involuntária quanto a anterior aproximação, fez-se a distância entre eles. Shizuo afastou-se lentamente do moreno, voltando a pousar suas costas no chão. A força que havia impulsionado seu tronco impulsionou seu braço esquerdo e fez sua mão substituir levemente o lugar anteriormente ocupado por seus lábios.
Os olhos castanho-avermelhados, com pupilas negras dilatadas, continuavam nos seus. Por mais preso a eles que se sentisse, obrigou-se a desviar-se deles para encontrar a fonte dos suspiros que continuavam a chegar aos seus ouvidos.
Seus olhos foram, então, capturados por avermelhados lábios entreabertos.
Olhos vermelhos, lábios vermelhos.
Shizuo sentia-se algemado em uma prisão vermelha.
Considerou que aquele talvez fosse o motivo pelo qual sentia todo o seu sangue correr para a ponta dos dedos que tocavam a pele de Izaya. Izaya chamava a ele tudo o que fosse vermelho, tudo o que fosse quente. Izaya queimava tudo.
A sensação do sangue pulsando continuamente em seu punho esquerdo chamou sua atenção para aquele local. Libertou seus olhos aprisionados no vermelho fogo de Izaya e encarou a própria pele.
No instante seguinte o que encarava, porém, não era mais sua própria pele. A sensação de liberdade durava pouco quando se tratava do informante e logo se viu preso à pele abaixo da sua: a pele pálida do pescoço do Izaya.
Como se influenciado pela ardência emanada pelo moreno, sentiu vontade de marcar em vermelho aquela pele pálida.
A ideia de avançar novamente seus lábios dançava divertida em sua mente. Mas isso significaria tirar seus olhos de Izaya, e ele sentia, mais do que qualquer outra coisa, que aquela era uma tarefa muito difícil.
Na tentativa de emancipação, obrigou seu olhar a desviar-se do pescoço de Izaya. O máximo que pode fazer, porém, foi abaixá-lo, de forma que agora ele descia acompanhando a linha da clavícula do informante. A descida foi brutalmente interrompida pela visão de botões soltos, fora de suas respectivas casas. Três botões, em específico.
Se Shizuo em algum momento pensou que aquele movimento em direção contrária ao rosto de Izaya iria ajuda-lo a livrar-se de seu transe, naquele momento, no qual viu aqueles três botões fora de suas casas em uma camisa branca, teve certeza que aquele método de escape era o mais ineficiente de todos.
O que eles três botões abertos revelavam eram um peito que subia e descia em uma curva perfeita causada por uma respiração irregular. O que aquele três botões abertos em uma camisa branca traziam era o fato de que Izaya ainda vestia sua camisa. O que aqueles botões não escondiam era como a camisa de Shizuo, com três botões abertos, vestia perfeitamente Izaya.
Shizuo levou sua mão livre ao lugar onde um quarto botão, perfeitamente encaixado em sua casinha, sustinha-se. Em um único movimento, tirou-o de seu lugar.
– Ainda está com minha camisa, Izaya. – disse desconcentrado enquanto descia sua mão direita pela camisa, desabotoando lentamente cada um dos botões restantes. Tinha vontade de arrancar de uma vez todos os botões com força o suficiente para fazê-los voar metros de distância, mas tinha que confessar que observar cada novo pedaço de pele que cada botão aberto revelava o deixava em êxtase.
Ao terminar com todos os botões, pousou a mão no peito, agora nu, de Izaya. Não era como se desconhecesse o corpo do outro. Pelo contrário, não podia negar certa familiaridade com ele depois do que havia ocorrido no último sábado no apartamento do informante. Mas, de maneira alguma podia evitar sentir-se tão atraído por ele quanto como na primeira vez que o havia visto. A textura, o cheiro, as formas: tudo aprisionava seus sentidos.
Relutantemente, ergueu seus olhos do tronco para o rosto do informante. Surpreendeu-se ao encontrar o rosto do outro tão próprio ao seu. “A pulga se inclinou para me olhar desabotoar a camisa?!”, perguntou-se com um misto de incredulidade e satisfação. Incredulidade porque sentia que Izaya estava passivo e calado demais naquela situação. Satisfação porque não era necessário ser um gênio da percepção para notar que Izaya, com sua respiração pesada e dentes contendo os lábios, ficara tão empolgado quanto ele com o processo lento da abertura dos botões. “Ele está calado por que está expectante?”.
“Já que está caladinho deste jeito, acho que é hora de mostrar quem aqui vence o jogo!”.
Shizuo sorriu maliciosamente. Não podia deixar de sentir-se triunfante diante do silêncio e da expectativa dócil do informante.
Com os olhos presos nos de Izaya, subiu a mão esquerda, que ainda descansava no pescoço do moreno, até o queixo e o puxou sutilmente, forçando a mandíbula a deslocar-se levemente para baixo e soltar os lábios até então presos pelos dentes.
Alargando ainda mais seu sorriso divertido, Shizuo tirou a mão direita do peito de Izaya e usou seu braço direito como apoio para elevar seu tronco. Sua mão esquerda, ao mesmo tempo, moveu-se do queixo para os cabelos negros do informante.
Passou sua língua de leve pelos próprios lábios ainda abertos em um sorriso e, sem aviso prévio, cravou os próprios dentes onde outrora estavam cravados os dentes de Izaya.
Com a mesma rapidez com a qual o tomou para si, soltou o lábio inferior de Izaya, para em seguida puxar com brusquidão os cabelos morenos e forçar o informante a expor completamente a pele pálida do pescoço.
Com o mesmo furou com o qual havia atacado o lábio inferior, Shizuo direcionou seus dentes à curva entre o pescoço e o ombro de Izaya, decidido a, finalmente, marcar em vermelho toda aquela região. Quase podia sentir o gosto de sangue em sua boca, sabia que bastaria um pouco mais de força para rasgar aquela pele pálida. Mas, ao mesmo tempo em que sentia que podia machucar Izaya a qualquer momento o tanto quanto desejasse, sentia que aquela sensação de poder fazer tudo a seu bel-prazer era mais do que o suficiente. De alguma forma, a fragilidade de seu inimigo o desarmava completamente. Acima disso, enganaria a si mesmo se dissesse que não estava satisfeito com o rumo que seus dentes e unhas tomavam.
Uma vez que seus lábios tocavam aquela pele sua mente esvaziava-se completamente, só uma, apenas uma, pequena e brilhante ideia pulsava repetidamente em sua mente: tocá-la cada vez mais. Seu corpo se apegava a esta ideia e a tomava como ordem absoluta. Não havia forma, portanto, de evitar que seus lábios descessem famintos pelo pescoço e sugassem cada pedaço de pele que encontrasse pelo caminho.
Mas apenas aqueles toques não eram o bastante. A seus lábios juntaram-se suas mãos e, com elas, explorava os lugares que seus lábios negligenciavam, apalpando fortemente.
Viu Izaya soltar fortemente a respiração e um gemido junto a ela.
Incentivado pelo gemido levou sua língua até o mamilo direito do informante e o viu prender novamente a respiração.
Não sabia se aquela era a intenção de Izaya, mas o fato é que cada pequeno gesto que fazia deixava o guarda-costas ainda mais fora de si.
Shizuo desceu uma das mãos até o cós da calça do moreno e preparou-se para livrar-se do último botão que ainda o irritava. Desta vez, incapaz de se segurar e desabotoa-lo lentamente, o puxou e arrancou, fazendo-o voar longe e bater contra uma das carteiras escolares que estavam ao redor deles. No silêncio daquele lugar, com dois homens a prender a respiração, a batida daquele botão contra o ferro da carteira soou alta como um sino.
O som distraiu Shizuo, e fez com que parasse os movimentos com a língua e olhasse para o rosto de Izaya.
Para sua surpresa, Izaya também o olhava.
Aparentemente, o som ecoando pela sala havia desperto também o informante do transe silencioso que mantinha. Ou, ao menos, foi o que Shizuo pensou quando viu que ele se impulsiona para levantar e sentiu os braços do moreno deixando a posição na lateral de sua cabeça.
Qual não foi sua surpresa, porém, ao ver o informante apoiar o quadril em o seu baixo ventre.
Com o tronco nu reto e sentado no colo de Shizuo, Izaya o encarava.
Seus olhos estavam semicerrados e embriagados. Seus lábios vermelhos novamente presos em seus dentes bancos. Gradativamente, porém, sua língua foi tomando o lugar de seus dentes, umedecendo seus lábios. Quando Shizuo achou que iria enlouquecer com este gesto, Izaya deu o golpe final: distendeu seus lábios em um sorriso malicioso e, apoiando ambas as mãos no peito de Shizuo, começou a se desfazer dos botões do colete do guarda-costas.
Num único impulso, Shizuo, que ainda estava deitado com as costas apoiadas no chão, segurou as coxas de Izaya e moveu o corpo para frente.
Riu alto ao ver o sorriso malicioso de Izaya dissolver-se rapidamente e transformar-se em uma careta de dor ao sentir seu corpo batendo contra o chão.
– Tão cruel, Shizu-chan. Nada delicado.
– Alguém um dia me disse que “dor e prazer são dois lados de uma mesma moeda”. – disse rindo e ajeitando melhor o corpo entre as pernas de Izaya, de modo a ficar ajoelhado entre elas e com as coxas de Izaya envolvendo a lateral de seu quadril.
– Alguém muito sábio, suponho eu. – respondeu Izaya retribuindo o sorriso malicioso de Shizuo.
– Sabedoria? Na verdade é só uma pulga irritante, – disse provocando – mas não me importo de testar um pouco essa teoria dele.
Shizuo inclinou seu corpo frente e mordeu com força o ombro de Izaya.
– Então? O que acha da teoria da pulga irritante?
– Acho que ela não foi feita levando em consideração dentes de monstros.
– Acha que pode fazer melhor então? – perguntou levantando provocador uma de suas sobrancelhas. Normalmente, sentia-se irritado ao ser chamado de monstro. Sabia que este era um dos motivos pelos quais Izaya insistia tanto em chama-lo daquela forma. Mas, naquele momento, sequer levou em consideração a provocação.
– Com certeza. – respondeu debochado enquanto puxava Shizuo pela gola da camisa, forçando-o a se inclinar ainda mais sobre ele.
Shizuo sentiu seu sangue ferver ao notar os dentes de Izaya na pele de seu pescoço. Tinha certeza de que aquela mordida havia sido forte o suficiente para arrancar sangue de qualquer pessoa que não fosse Heiwajima Shizuo. Sabia que aquela forte mordida não era o suficiente para rasgar sua pele. Mas, ainda assim, não pode deixar de sentir-se irritado pela força aplicada por Izaya.
– Maldito, não acha que essa merda foi muito forte?!- rosnou para o informante.
Izaya, entretanto, não pareceu se importar com o tom ameaçador de Shizuo e o mordeu novamente, um pouco acima de onde mordera anteriormente, perto da orelha do loiro. Ao terminar a nova mordida, aproximou os lábios do ouvido de Shizuo e murmurou.
– Essa é uma mordida adaptada para monstros. Você não reclamou daquela vez que a usei em suas coxas.
A última frase de Izaya, sussurrada no pé de seu ouvido, lançou uma corrente elétrica por todo o corpo de Shizuo e implantou em sua mente memórias nada puras. Imagens de Izaya chupando-o e mordendo suas coxas dançavam em seus pensamentos.
“Maldito, Izaya! Maldito deliciosamente sugestivo...”, não pode reprimir o pensamento de como o informante sabia provoca-lo perfeitamente.
“Mas agora, Izaya-kun” – pensou divertido – “quem está por cima sou eu. Quem ditará as regras sou eu.”.
– Concordo. Parece uma boa mordida. – olhou para Izaya, que sorria triunfante – Tão boa que não posso simplesmente receber sem retribuir. O que acha, pulga? Acha que vai gostar de uma mordidinha mais pesada?
Viu o sorriso triunfante de Izaya se desfazer e seus olhos arregalarem-se. Por mais estranhamente pervertido que o informante fosse, Shizuo sabia que a ameaça de usar toda sua força em uma mordida o faria tremer.
As mãos de Izaya, que outrora puxavam a gola da camisa de Shizuo em direção a seu próprio corpo, passaram a empurrar o peito do guarda-costas.
– Não gostou da ideia, pulga?! Mas você me pareceu tão satisfeito usando-a em mim. – provocava Shizuo enquanto forçava cada vez mais seu corpo de encontro ao de Izaya. – Suas mãos estão atrapalhando, I-za-ya-kun. – disse cantando o nome de Izaya enquanto segurava os punhos do informante e os forçava para si longe, prendendo-os juntos com uma única mão acima da cabeça do moreno.
Shizuo divertia-se com o desespero do informante por soltar-se. Ambos sabiam que Izaya não podia competir com Shizuo quando se tratava de força física. Ambos sabiam que qualquer movimento de Izaya na tentativa de livrar-se de Shizuo era inútil. Saber que Izaya estava fazendo movimentos desesperadamente inúteis mesmo tendo a certeza da inutilidade deles era divertido para Shizuo.
“Quem está na mão de quem agora, pulga?”.
Com um sorriso nos lábios, Shizuo aproximou os dentes do colo de Izaya e pressionou-os nele. Izaya se contraiu com seu toque, mas, em seguida relaxou completamente: Shizuo não estava mordendo-o, Shizuo apenas roçou seus dentes de leve, mas, em seguida os substituiu por sua língua e lábios e iniciou uma massagem por toda a extensão do pescoço, peito e barriga do informante.
Conforme descia seus lábios pelo corpo de Izaya, Shizuo viu-se na obrigação de soltar os pulsos do moreno. Tão logo o fez, sentiu os dedos de Izaya entrelaçarem-se em seus cabelos e puxá-los com força em sua direção.
Com as mãos livres, Shizuo recomeçou a empreitada iniciada antes de ser distraído pelo som do botão sendo lançado longe: tirar as calças e roupa íntima de Izaya.
– Tem certeza que você ficou assustado com minha ameaça? Essa sua parte – tocou de leve com o indicador a glande do pênis ereto de Izaya – não parece nada assustada.
A reposta de Izaya foi um gemido lânguido.
Shizuo riu e começou a se afastar para terminar de retirar as roupas de Izaya, foi impedido, porém, pela mão de Izaya que puxava com força seus cabelos e empurrava seu corpo contra o dele.
O riso se tornou alto e Shizuo fez algo que nunca se imaginou fazendo: envolveu os lábios no pênis de Izaya. Em reposta, Izaya curvou o corpo e soltou os cabelos de Shizuo. Ao sentir-se livre, Shizuo afastou-se definitivamente e terminou de retirar as roupas restantes de Izaya.
– Calma, pulga. – respondeu rindo ao ver no olhar de Izaya a reprovação por sua distância.
Aproximou-se novamente e tomou o membro de Izaya em seus lábios, contornando-o com sua língua e sugando-o fascinado.
Se Shizuo olhasse para si mesmo naquele instante se sentiria extremamente desconcertado. Quando decidira entrar no jogo de Izaya, dissera a si mesmo que nunca seria capaz de retribuir a primeira aproximação do informante. Havia jurado que nunca colocaria em sua boca o pênis do outro. Isso era, afinal, pensava ele, algo extremamente íntimo e nojento. Só Izaya, desequilibrado como era, seria capaz de simplesmente tomar em sua própria boca o membro de outro cara. Principalmente se o outro cara fosse Izaya. Izaya era uma pulga nojenta, definitivamente ter o pênis dele tocando-o era algo estranho. Ou, ao menos, era isso o que Shizuo pensava. Agora, de alguma forma estranha, Shizuo se movia como se nunca tivesse pensando que fazer aquilo era repugnante. Ao contrário disso: Shizuo movia-se como se estivesse ansioso por aquilo. Seus lábios, sua língua, sua mão: tudo movia-se naturalmente.
Ouviu o som dos gemidos de Izaya intensificarem-se e, juntando-se a eles, intensificou os movimentos de sucção. Não demorou muito para que sentisse o gozo de Izaya invadir sua boca.
Entre todos os momentos os quais considerava nojentos na ideia de chupar Izaya, aquele era o que mais o enojava... Izaya gozando na sua boca era algo inimaginavelmente estranho. Sentir o líquido espesso dele invadir sua boca era absurdamente asqueroso. Ou, ao menos, era isso o que Shizuo pensava.
Mas aquele era, aparentemente, um dia de quebrar paradigmas.
Ao sentir o gozo de Izaya invadir sua boca, Shizuo sentiu-se satisfeito.
Era mais uma vez aquela sensação estranha de dar prazer ao outro e sentir-se bem com isso. Confessava que não era agradável. A textura era estranha e grudenta e o gosto não era dos melhores. Mas isso não superava a sensação anormalmente prazerosa de ter feito Izaya gozar.
Mas, mesmo que não tivesse sido de todo ruim chupá-lo ou deixa-lo gozar em sua boca, engolir era um passo grande demais para Shizuo. Assim, tão logo o informante acabou, Shizuo afastou-se novamente e soltou o líquido que segurava na boca na própria mão.
Tendo se desfeito do que o incomodava, voltou seus olhos novamente para Izaya.
– Porra! – soltou em um suspiro baixo.
Diversos foram os palavrões que inundaram a mente de Shizuo no momento no qual pôs seus olhos em Izaya. Izaya estava com um das mãos nos próprios cabelos, puxando-os de leve, e a outra pousada relaxadamente em sua barriga. Seu peito subia e descia enquanto sua respiração ia aos poucos retornando à normalidade. Seus olhos estavam fechados e seus lábios tremiam levemente. Seu corpo, em geral, ainda estava tenso e arrepiado pelo recente orgasmo. Shizuo tinha que admitir que Izaya lhe parecia terrivelmente sexy naquele momento.
Talvez por sentir os olhos de Shizuo em si, Izaya acabou por abrir os próprios olhos. Shizuo viu surpresa em seus olhos quando o encarou e sentiu que, talvez, o olhar que lançava a ele estivesse demasiado intenso.
A surpresa nos olhos de Izaya não durou muito, entretanto, e logo foi substituída pela embriaguez. Agora, o olhar que via Izaya lançar a si era tão intenso e desejoso quanto o seu próprio.
Sem deixar de encara-lo, viu Izaya estender a mão outrora apoiada na barriga em sua direção, ao mesmo tempo em que a mão que antes segurava os cabelos desceu até o pescoço.
Izaya estava convidando-o.
– Merda, Izaya! – disse num misto de suspiro e rosnado, sentindo-se perder novamente naquele mar de emoções em fogo que era Izaya.
Começou a inclinou-se na direção de Izaya, mas foi detido pela mão dele em seu peito.
Surpreendeu-se ao ver Izaya levantar o tronco e sentar-se diante dele. Mas qualquer ideia de que o outro estava planejando uma fuga foi varrida de sua mente ao ver Izaya começar a desabotoar novamente seu colete, tirá-lo e depois voltar-se aos botões de sua camisa, tirando-os um por um de suas respectivas casas.
Ao terminar com os botões, Izaya desfez o nó da gravata de Shizuo e o ajudou a tirar seu colete e camisa.
Agora nu da cintura para cima, Shizuo sentia-se pronto para iniciar um novo ataque a Izaya, mas, mais uma vez, foi detido por ele.
– Calma, Shizu-chan. – disse Izaya rindo maliciosamente. – Ainda temos algumas peças aqui, certo? – apontou para as pernas de Shizuo.
Shizuo sorriu de volta e relaxou sua posição, sentando-se confortavelmente e esperando que Izaya terminasse com suas roupas.
– Bem melhor assim... – ouviu Izaya sussurrar, ajoelhando-se diante de Shizuo, abrindo o botão das calças e baixando o zíper. – Uma ajudinha agora seria legal, sim? Será que você pode levantar essa bunda?
– Para alguém tentando tirar as calças de outra pessoa, você está bem grosseiro, Izaya-kun. – disse Shizuo rindo com a impaciência do outro. Tinha que admitir que ele próprio queria se desfazer o mais rápido possível de suas calças, mas não podia deixar de divertir-se com a ideia de Izaya retirando-as para ele.
Izaya encarou-o debochadamente e acariciou o membro do guarda-costas por cima das calças.
– Para alguém tão desesperado para tirar as calças, você está muito engraçadinho, Shizu-chan.
Shizuo suspirou e deu-se por vencido. Izaya estava certo. Uma parte dele sentia raiva e outra se culpava por cair nas provocações de Izaya.
– Na verdade, eu já gozei. Posso simplesmente levantar e ir embora, Shizu-chan. Nesse jogo, eu já ganhei uma partida. Então se quiser ficar de cu doce, pra mim tudo bem.
– Cala a boca, pulga. – rosnou Shizuo irritado, encarando raivoso o informante. Mas, ao encarar o informante, encontrou também seu trunfo e replicou irônico. – Para alguém que já gozou, você está bem animadinho também, pulga. Boa sorte indo pra casa de pau duro.
Sem esperar a resposta de Izaya à sua provocação, Shizuo levantou o quadril e tirou as calças junto com sua cueca, ficando completamente nu.
Shizuo viu Izaya o olhar devassamente e abrir a boca.
– Calado, pulga. Você sempre fala merda. – disse cortando-o e o puxando para si, fazendo-o bater de encontro ao seu peito.
– E você sempre é muito bruto. – respondeu ajeitando o corpo e sentando-se no meio das pernas de Shizuo, com cada uma das pernas de um lado do quadril do guarda-costas, de forma que seus membros eretos tocavam-se. – Viu, com jeitinho é bem melhor, certo?
Shizuo poderia pensar em milhões de coisas para responder e trilhões de pragas para soltar contra Izaya por sua petulância e ousadia, mas não tinha como negar: olhar para Izaya nu diante de si, sentir o corpo nu de Izaya contra o seu, sentir o pênis ereto de Izaya tocando o seu, fazia com que todas as palavras do mundo lhe fugissem.
Com uma das mãos, Shizuo tocou os dois pênis juntos e começou uma lenta masturbação. Olhou de relance para Izaya e viu um sorrisinho vencedor estampado em seu rosto. Ao mesmo tempo, viu o tronco de Izaya afastar-se do seu e seu quadril aproximar-se: o moreno agora apoiava o peso nos braços, que se estendiam em diagonal às costas de Izaya, em um ângulo de 45º.
“Izaya, maldito! Vai me deixar fazer tudo!”, era o que pensava, mas no fundo sentia que aquela era a melhor forma de fazer qualquer coisa. Sentindo a pênis de Izaya no seu, sentindo seus fluidos se combinando durante a masturbação, aumentando ou diminuindo o ritmo a seu bel-prazer, olhando as expressões e ouvindo os gemidos de Izaya... tinha certeza que aquela era a melhor forma de fazer aquilo.
Mas ele estava enganado. Aquela não era a melhor forma. Teve certeza disso quando sentiu a mão de Izaya juntar-se a sua e forçar um ritmo mais intenso. Num impulso, puxou com força o tronco de Izaya em direção ao seu e intensificou o contato entre os corpos deles.
Izaya o olhou surpreso pela aproximação repentina.
Olhou-o com aqueles olhos castanho-avermelhados em brasa.
Preso.
Preso por aqueles olhos.
Preso novamente pelo vermelho daqueles olhos.
Preso em êxtase.
Shizuo apertou a cintura de Izaya e, num só movimento, fez uma coisa ainda mais inesperada do que levar o pênis de Izaya aos próprios lábios. Uma coisa que antes lhe parecia o mais absurdo. Uma coisa da qual se arrependeu no instante no qual começou, mas que, uma vez iniciada, só pode ser parada por um baque forte.
Shizuo beijou Izaya.
****
Izaya
Izaya tinha que confessar, estava adorando todo aquele jogo. Shizuo estava descontraído e ainda não tinha feito nenhuma merda. E isso o fazia relaxar também.
Talvez todas aquelas preocupações das quais não havia conseguido livrar sua mente nos últimos dias não tivessem sentido algum. Talvez fosse só porque Shizuo era um maldito monstro imprevisível. Talvez as ações dele não tivessem explicações como as de pessoas normais.
Quando o assunto era ser imprevisível, Shizuo, na opinião de Izaya, era o mais incrível. Mas, ainda que passasse tanto tempo observando de perto a imprevisibilidade de Shizuo – e aquele cenário, o colégio, era prova mais do que suficiente que Izaya estava já há um tempo considerável observando as reações de Shizuo – ele nunca deixava de se surpreender com o guarda-costas.
Das surpresas que tivera naquele dia, tinha que admitir, a mais incrível foi ver Shizuo seduzindo-o e depois chupando-o.
Izaya estava em êxtase. Nunca imaginou Shizuo agindo daquela forma.
Ele sabia que sentiria alguma culpa dali algumas horas por ter se permitido levar pelo momento e perdido algumas das expressões que o ex-barman fizera. Mas, não podia negar, Shizuo era bom naquilo. Nunca achou que usaria aquela palavra com Shizuo, mas, inegavelmente, ele era extremamente habilidoso.
“Extremamente habilidoso com a boca, Shizu-chan?! Hahaha... isso é incrível. Mas, pensando bem, para alguma coisa além de falar merda ela devia servir”.
Então, de certa forma, pouco se culpava naquele momento por se deixar levar pela habilidade de Shizuo. Não era como se ele se importasse tanto com isso de sentir prazer físico com Shizuo. O problema era deixar Shizuo totalmente no controle e isso, ele se orgulhava, não havia acontecido.
Izaya preferia ignorar como tudo aquilo havia começado por vontade de Shizuo em ataca-lo enquanto ele planejava fugir, e focar-se em Shizuo fazendo exatamente como ele queria no exato momento.
Olhou para a expressão de Shizuo. “Você realmente parece empolgado com isso, Shizu-chan. Gosto da sua determinação.”, pensou rindo.
Izaya olhou novamente para a mão de Shizuo, segurando firmemente seu pênis junto ao dele e friccionando-os juntos. Franziu o cenho e fechou os olhos. Não havia dúvidas, Shizuo era realmente bom.
Aquilo tudo era ótimo, na verdade. Izaya satisfazia-se com Shizuo fazendo todo o trabalho enquanto ele aproveitava calmamente.
Quando sentiu que estava prestes a gozar, juntou uma das mãos à de Shizuo e intensificou os movimentos.
Já mal podia controlar seus gemidos e sequer tentava, sabia que eles tiravam completamente Shizuo do sério, mais do que qualquer palavra ou insulto que já tivesse dirigido a ele.
Uma quebra de expectativa, porém, atrasou seu eminente orgasmo: Shizuo o havia puxado contra ele e unido seus corpos. Olhou-o surpreso, com os olhos nublados pelo prazer e um pouco de raiva por ter retardado seu ápice, não o feria feito, porém, se soubesse o que encontraria nos olhos diante de si.
Os olhos de Shizuo pareciam em brasa, encarando-o com uma intensidade que poderia ser capaz de queimar.
Pela primeira vez desde que se aproximaram — mais do que quando ele o perseguia, mais até do que quando o ameaçava ou acertava-o – Izaya sentiu medo de Shizuo. Um medo indecifrável. Um aperto forte e uma dor intensa no estômago. O medo intenso do que ele pudesse fazer e, mais do que tudo, medo do que o que Shizuo faria causaria a ele.
Antes que pudesse se afastar, porém, sentiu seus lábios tomados.
Num primeiro momento, foi apenas um pressionar de lábios. Pressionar que parece ter efeito direto no seu peito, apertando-o.
Depois uma leve mordida seguida de uma sugada em seu lábio inferior. Sentia que tudo o que tinha era tomado por Shizuo junto com seus lábios.
Mandou quaisquer pensamentos que tivesse à merda e resolveu que já que Shizuo parecia disposto a tirar tudo dele: sua sanidade, o controle de seu próprio corpo, tudo, ele não resistiria mais. Sabia que não podia competir com Shizuo quando se tratava de força. Estranhamente, aquela era justamente a vez que mais sentia que o que travava com Shizuo era uma batalha de força, já que sentia toda a sua força ser drenada e seus membros desistirem. Se esse era o caso, e parecia ser, ele não podia fazer mais nada a não ser desistir.
Izaya desistiu e abriu a boca, dando passagem à língua de Shizuo.
Batalha perdida.
Talvez um acordo de paz seja possível. Aliar-se ao inimigo...
Izaya levantou a bandeira branca e entrelaçou sua língua à de Shizuo.
O beijo que mais parecia um acordo silencioso de paz se demorava. Intensificava-se, demorava-se. Pausava e recomeçava.
Contrariando qualquer comentário que o mundo pudesse fazer, o beijo entre eles não era uma batalha. Era um acordo.
E, incrivelmente, o corpo de Izaya mantinha-se completamente aliado à decisão de seus lábios em selar aquele acordo.
Em um último e intenso espasmo, Izaya sentiu-se derramar nas mãos de Shizuo e, pelo que pode perceber pela pulsação em sua própria mão, o mesmo havia acontecido a Shizuo.
Mas aquele não era o ápice. O ápice ainda acontecia. O ápice era Shizuo morder seu lábio. O ápice era o desesperado sentido ao ver que uma pausa para respiração era necessária. O ápice era o recomeço depois da pausa.
– Shizu-chan... – ouviu uma voz suspirar durante uma dessas pausas.
Um choque percorreu seu corpo.
Aquela era sua voz. Mais rouca e mais baixa que o normal. Mas, ainda assim, sua voz.
O choque de ouvir sua própria voz naquele tom entregue o despertou.
Mesmo que não fosse um homem de combate direto, levantou seu punho e desferiu um soco na pessoa diante de si, afastando-a.
– Por que você sempre faz essas merdas? – perguntou aos berros, sem saber direito a quem direcionava aquela pergunta, se a si mesmo ou ao homem parado diante de si encarando-o confuso.
Levantou-se rápido, recolheu suas roupas, vestiu-se rapidamente e correu porta afora, não sem antes lançar um último olhar e algumas lâminas encontradas no bolso de sua calça no homem que ainda o encarava.
****
“Merda! Shizu-chan, seu merda! Seu grande filho de uma puta!”, pensava Izaya esfregando fortemente com a esponja de banho cada pedaço de seu corpo.
Izaya havia entrado num taxi e ordenado uma corrida sem escalas até seu apartamento em Shinjuku logo após sair da Academia Raira.
Chegado a seu destino, jogou sem cuidado algumas notas para o taxista e correu até seu banheiro, passando rapidamente por seu escritório, sem olhar para sua secretária que sabia, com certeza, estaria ali àquela hora.
Meteu-se rapidamente debaixo do chuveiro e empenhou-se em lavar de si cada vestígio de saliva ou sêmen que ainda o cobrisse.
Terminado o banho, submergiu-se na banheira que havia deixado a encher durante a ducha.
Sentia seu corpo queimar de raiva.
Por mais imprevisível que alguém fosse, deveria existir um limite para os absurdos cometidos.
Beijo? A porra de um beijo?!
Isso era mais do que qualquer um poderia tolerar.
Sexo era uma coisa.
Izaya não se importava em tomar em sua boca o pênis de Shizuo. Não se importava em gozar nas mãos dele. Não se importaria, inclusive, se eles tivessem de fato transado. Mas um beijo? Um beijo era íntimo. Era nojento fazer isso com seu inimigo.
“Mas, se é assim tão nojento, porque correspondi?”, era a pergunta que pulsava na mente de Izaya e não o deixava em paz.
Izaya já havia passado do tempo de criar desculpas para o que fizera. Procurar desculpas para suas reações não o levava a lugar nenhum, nem agora, nem nos últimos dias.
Ele não podia dizer apenas que se deixou levar pelo momento ou que foi forçado por Shizuo. Era fato: ele havia correspondido ao beijo. Havia se entregado a ele, e por mais que odiasse admitir, havia gostado.
Saiu da banheira e olhou-se no espelho. O seu pescoço estava coberto de marcas vermelhas, ora de dentes, ora de sangue prensado.
“Caralho, Shizu-chan!”.
Saiu do banheiro para buscar em seu guarda-roupa uma toalha limpa. Tentando ignorar um amontoado de roupa em seu quarto, começou a secar-se. Seus olhos, porém, eram constantemente atraídos para aquela pequena pilha de roupa.
– Merda! Merda! Maldito, Shizu-chan! Será assim então! – rosnou para a pilha de roupas.
Caminhou até as roupas e as recolheu do chão.
Estavam sujas. Talvez pela perseguição, talvez pelo atrito no chão da sala de aula da Academia Raira.
– Foda-se que estão sujas. É assim que você as merece, Shizu-chan.
Vestiu-se rapidamente, e saiu do quarto.
– Vai sair de novo? – ouviu sua secretária perguntar com curiosidade.
– Sim, Namie. Tenho que devolver umas coisinhas e resolver outras tantas. – disse sorrindo debochadamente, parando diante da mesa da secretária. “E buscar outra”, pensou lamentando seu canivete deixado no pátio externo do colégio. Sabia que precisaria dele no lugar para onde estava indo. – Interessada?
– Nem um pouco. – respondeu sem levantar os olhos de seu computador – Só perguntei para saber se terei que ligar a Shinra mais tarde.
– Você bem que gostaria disso, não é? – disse com um falso bico – Mas não. Será uma conversa perfeitamente saudável a que terei agora. Nada que colocaria em risco minha bela pele.
Namie desviou seu olhar de seu computador ao sentir o tom estranho de seu empregador. Deteve seus olhos por alguns instantes em seu rosto, para depois analisar lentamente as marcas em seu pescoço e pulsos.
– Estão nessa, é? Eca! Não vejo nada de saudável nisso.
– Tem razão. Talvez seja melhor eu procurar por Mairu ou Kururi e me apaixonar por uma delas. – respondeu Izaya com uma leve piscadela.
– Talvez você devesse checar seu chá antes de toma-lo da próxima vez.
– Hahaha... Você é má, Namie. Ameaçando seu chefe de envenenamento assim...
Izaya se afastou da mesa de Namie e dirigiu-se à porta, virando-se para acenar antes de sair.
****
Shizuo
Shizuo sabia o que havia feito. Passara toda a volta para casa a refletir sobre isso.
Fizera todo o caminho da Academia Raira até seu apartamento a pé, com a última frase de Izaya reverberando em sua mente.
Por que você sempre faz essas merdas?
Mesmo que tivesse escolhido o caminho mais longo e andado por incontáveis ruas de Ikebukuro, não encontrara uma resposta adequada para aquela pergunta.
Pensando sobre aquilo, percebera somente que aquela não fora a única vez na qual vira aquele olhar estranho no rosto de Izaya e que não fora a primeira vez que ele foi afastado de forma brusca. Por isso, talvez, o sentimento lhe parecesse tão familiar, ainda que aumentado em diversas vezes.
A primeira vez que sentira isso foi em seu próprio apartamento quando, ao acariciar Izaya, havia levado um tapa na mão. Dessa vez, foi um soco na cara, um pouco mais enfático e bruto do que na primeira vez, mas, ainda assim, sentia que as intenções outrora e agora tivessem sido as mesmas: dize-lo que estava passando dos limites. E tinha que admitir, tanto naquela vez quanto agora, sabia que tinha passado dos limites.
O sentimento que o tomara também fora o mesmo da outra vez: a necessidade extrema de tocar Izaya, de intensificar o contato entre eles. A necessidade tão gritante que não podia desobedecer.
Sua cabeça estava confusa e ele decidiu que, pelo menos por agora, seria inútil refletir profundamente sobre tudo.
Tudo o que precisava era tomar um banho e dormir.
O banho já era tarefa cumprida quando ouviu sua campainha tocar.
Pensou que pudesse ser Tom, perguntando o motivo de não ter voltado para o trabalho depois de perseguir Izaya, ou mesmo Celty, que ficara sabendo da perseguição e estava preocupada com ele.
Seus olhos arregalaram ao ver quem estava parado diante de sua porta.
– Vim apenas devolver esta camisa. – disse o moreno olhando-o intensamente, com um braço estendido na sua direção.
Shizuo piscou algumas vezes antes de segurar a camisa e a tomar para si. Por um momento, pensou que Izaya iria embora agora que havia cumprido seu objetivo anunciado. Mas, assim como mais cedo naquele dia, Izaya permanecia parado diante de si.
Involuntariamente agarrou o braço ainda estendido de Izaya e o puxou para dentro do apartamento, ao mesmo tempo no qual fechava com um empurrão forte a porta de entrada.
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