E então a loucura veio, como uma nuvem que cobre o sol e esconde a luz por um tempo, mas a loucura não era temporária, a loucura era amiga, era fiel, companheira. Eu já não me lembro de uma época sem ela, é quase como se tivéssemos nascidas juntas, geradas no mesmo ventre, aprendendo a conviver desde a concepção.

Ela me envolve, me faz acreditar que está tudo bem viver com ela ao meu lado para sempre, mas há essa parte de mim que sabe, entende as consequências de tê-la comigo. Então, racionalmente, eu fujo, me escondo, brincamos de quem acha primeiro, ela me acha e me destrói ou eu a acho e a sufoco.

Sufocar. Palavra forte para descrever uma ação para com algo que nasceu contigo, porém é a mais pura verdade. O véu fino o qual nos separa como pessoa e parasita constantemente me enforca para deixa-la viver, então nada mais justo do que eu sufoca-la vez ou outra a fim de manter a minha sobrevivência.

A loucura se desagarra eventualmente, ela sai para ter suas próprias aventuras e me deixa sozinha, desamparada. Quando isso ocorre sem minha permissão é quase como ter que aprender a andar novamente, a balbuciar as primeiras palavras, é quase como... nascer outra vez.

A sensação de liberdade é confortante a princípio, ser apenas eu, ter a mim apenas para mim. Com o tempo, porém, a falta de uma companheira machuca, ficar sozinha nesse mundo cruel e turvo me dá um sentimento que só posso comparar com uma presa fácil no meio de leões. Eu vou, então, em busca da loucura novamente e me obrigo convida-la a voltar.

Vivemos assim, nesse ritmo de “esconde esconde”, uma eterna brincadeira de criança, numa eterna codependência. Acho que é isso, crianças, eu sou um ser e a loucura é outro, e nós duas juntas somos Mulder e Scully, Doctor e sua Tardis, Xena e Gabrielle, leais e completamente dependentes uma da outra.