Depois de Yavin

1 7 dias depois da Batalha de Scarif


A primeira coisa que sentiu foi dor.

Toda a extensão do seu corpo parecia queimar com uma febre insistente. Os dedos pinicavam como se houvessem pequenas formigas lhe dando mordidas. Seus pensamentos estavam desorientados, e demorou um pouco antes de conseguir ter noção de qualquer coisa ao redor. Em um momento de lucidez repentina, conseguiu formar um pensamento.

A primeira coisa que pensou foi Cassian.

Seus lábios murmuraram o nome dele em meio ao sono. Involuntariamente, levantou os braços, como se procurasse agarrar algo perto.

— Acalme-se. – Ouviu uma voz robótica lhe dizer com um tom indiferente.

Foi então que reconheceu os barulhos confusos da bagunça que parecia girar ao seu redor. Ao longe ouvia pessoas correndo e discutindo. E todos os tons de voz que passavam pelo corredor eram um misto de agitados e preocupados. Por algum motivo, sabia que não era por causa dela.

— Não tente se levantar. – Repetiu o droid.

— Cassian. – Ela murmurou, repetindo o nome. Os lábios secos como areia de Tatooine, mal se separando ao falar.

Ainda não conseguia abrir os olhos para ver a ausência de personalidade do seu quarto, as paredes brancas desprovidas de qualquer alegria ou vida. O que combinava com todo o resto da ala médica.

Ela pensou nos amigos, vultos do que tinha acontecido na praia. Sua garganta queimou e sentiu o peito pesar como se mãos pressionassem seus pulmões. Um constante medo e desespero inundava sua mente, seu corpo respondeu com espasmos involuntários e um tremor constante.

— Onde está Cassian? – Perguntou ela com urgência, como se tudo que importasse agora fosse saber se ele estava bem.

Onde estavam os outros?

Ela sabia onde, e mesmo assim não podia dizer em voz alta. Os olhos ardiam como quando chegava perto demais do fogo. Sem notar, estava chorando. As lágrimas desciam com uma naturalidade inconsciente. Não saíam sons da sua boca além de gemidos incompreensíveis, mas ela sabia o quanto incontrolavelmente doía. Precisava encontrar Cassian.

— Você acordou muitas vezes nos últimos dias. Não pode levantar assim. O paciente Cassian Andor está na ala de emergências, mas você...

Ela não deixou o droid terminar, levantou-se da cama como uma criatura meio morta que cambaleia sem saber aonde vai. Lhe faltou força nas pernas, nos braços e até mesmo na cabeça. Caiu no chão com o rosto em um impacto direto. A agulha do soro em sua veia voou longe e ela sentiu toda a dor da queda.

— Senhorita Erso. — Exclamou o droid no mais próximo que ele conseguiria chegar de preocupação.

Jyn se apoiou nos cotovelos fracos, os cabelos soltos de maneira desuniforme em volta do seu rosto. As mãos hesitantes de fraqueza doíam. E a única coisa que lhe dava força era pensar que ele estava em algum lugar ali. Depois de tanto, estaria com ele por todo o caminho. Ignorou o droid que tentou se colocar na frente de sua passagem. Ignorou e passou por ele como uma baleada.

O chão frio não incomodava mais do que toda a dor. Não a dor do seu corpo, a dor de dentro do seu coração. Era dilacerante. Parecia que tinha abrigado uma criatura selvagem no peito, e que agora se voltava contra ela e tentava trucidá-la de dentro. Enquanto chorava silenciosamente, sentia a respiração falhando e a cabeça tremer.

Só precisava encontrá-lo.

Não sabia o que a guiava, mas um sentido maior do que podia entender quase a empurrava entre os corredores. Estavam vazios como túneis subterrâneos, e só se ouvia gritos distantes de fora da ala médica. Os únicos que encontrava eram pacientes em camas e os droids que cuidavam deles.

O que não tinha em energia, compensava em determinação. Pensava que sabia para onde estava indo. Entrou na ala de emergência. E como se guiada pela força, flutuou incerta até o primeiro quarto que viu.

E foi com dor que percebeu que lá estava ele.

Não aguentou a agonia que era vê-lo tão perto e imaginar o quão perto tinha chegado de perdê-lo. O peito vibrava e fazia vibrar todo seu corpo, não era alívio, era pura angústia. Precisou chegar ainda mais perto dele, os olhos gentis descansando, com uma serenidade que não lhe cabia normalmente.

Ela lembrou de todos; Chirrut, Bohdi, Baze, K-2SO e seu pai. E se inflou de lágrimas, como se tristeza fosse o sangue de suas veias. Se aproximou devagar e deitou com cuidado ao lado de Cassian. O rosto pacífico dele não expressava o menor pesar.

Era um choro silencioso, como se fossem soluços que se recusavam a sair e travavam sua garganta.

— Jyn? – A voz dele era igualmente fraca quando acordou, talvez até mais.

Ela levantou os olhos verdes que reluziam como joias por causa do pranto, mas que pareciam manchados de cinza, como nas tempestades. Os lábios vermelhos e inchados, a expressão perdida.

Cassian abria os olhos devagar, a bela pele morena estava pálida e sem vida. Sentiu o coração afundar quando percebeu que ela era a primeira coisa que via quando acordava.

— Eles... todos eles do Rogue One... – Ela começou, mas não conseguiu terminar, as palavras morreram no ar.

No entanto, para Cassian, não foi realmente necessário concluir.

— Eu sei. – Sussurrou ele, erguendo vagarosamente as mãos para tocar os cabelos castanhos da mulher.

Ele entendia a dor, mas dor era algo tão constante para o homem que não conseguia mais diferenciar a parte da sua alma que era levada toda vez que perdia alguém, a parte mais humana. Talvez tenha sido a firmeza de seu espírito que o tornou um bom espião, um bom rebelde, e também o tornou terrivelmente sozinho. Tudo que conseguia era ouvi-la chorando, e ouvir os sons do próprio corpo, por dentro e por fora.

Ela está tremendo. As suas lágrimas são secas, suas emoções são secas, e ela se prende a camisa branca dele e o agarra como se o vento pudesse o levar embora.

E chorou até alcançar o vazio. O vazio de quando as lágrimas acabam, e você não sabe direito o que mais sentir. É um vazio quase espiritual, ele te preenche e te faz pensar que tudo não passou de um sonho. Você está apenas flutuando pela sua vida, e a dor não é real, o presente não é real.

Permaneceram ali, não havia quem chegasse para dizer que não podiam. Desmanchando-se no calor um do outro. De alguma forma, reconhecendo-se como familiar. Cassian não tinha forças para falar mais nada, e adormeceram ouvindo os ruídos do lado de fora, sem se importar com significado do mundo ao redor. Sem saber que na base rebelde, eles comemoravam a destruição da Estrela da Morte.

Notas finais
Enquanto escrevia, fazia minhas notas no texto: 1 - Primeiro capítulo, por enquanto aquele cliché de que eles acordam e vão atrás do outro. Depois vai mudar. 2 - "Depois de tanto, estaria com ele por todo o caminho" - Eu assisti dublado uma vez só, aquela frase: Are you with me? All the way. Não sei o que falam em português. 3 - Carrie Fisher disse: Pegue seu coração partido e o transforme em arte. Eu fiz isso. Uma coisa aconteceu, e enquanto eu chorava, escrevia o que estava sentindo como referência. 4 - ABY - After Batlle of Yavin - Depois da Batalha de Yavin, é o calendário usado em Star Wars, e o nome de todos os outros capítulos vão usar a destruição estrela da morte como referência de tempo. Por favor! Tenho sofrido tanto com falta de comentário! A gente escreve para saber o que vocês pensam. Se puderem, me digam o que acham que pode mudar e o que acharam.