Depois de Yavin
2 2 meses depois da Batalha de Yavin
As suas mãos tremiam, o olhar firme e pesado recaía sob os dedos que não mais podia confiar. O jeito como hesitantemente trêmulo segurava o blaster. Os olhos falhavam em mostrar a indiferença a sua condição, eram tomados de pesar e pragmatismo. Levantou a arma na altura de seus olhos, e mirou no alvo branco com formato da silhueta de um stormtrooper.
Atirou, sentindo sua oscilação e o repuxo da arma. Não acertou nem mesmo perto. O tiro voou muitos metros distante. Atirou mais uma vez, e mais uma vez falhou em se impressionar, acertando caixas de ferro que carregavam suprimentos. Os tiros então se tornaram constantes, seguidos um atrás do outro, e não chegaram a acertar o stormtrooper falso nem mesmo uma vez.
Cassian gritou com seus pulmões, o rosto se repuxando em uma expressão de raiva e angústia. A garganta ardeu enquanto ele gritava e dava passos desesperados para mais perto do alvo. Gritava com todo seu corpo enquanto continuava atirando e marchando. Não conseguia, não importava o quanto tentasse, não conseguiu acertar nem mesmo um tiro.
Tocou a ponta fria do blaster no que deveria ser a cabeça de um stormtrooper.
Ofegava, com o peito em um ritmo inconstante e doloroso.
Suas mãos tremiam.
Deixou seu corpo cair no chão, os joelhos cansados rangiam no metal enquanto esticava suas mãos para tocar o solo sem vida da base.
Viu todo o braço tremer, lhe faltava tudo que tinha tido antes. Firmeza, força. Era o fim para ele. Os médicos tinham dito que poderiam tentar uma substituição por mãos robô. Mas os nervos estavam danificados demais, e talvez não conseguissem fazer a conexão. E mesmo que fizessem, não seria mais capaz de tocar a terra, o metal, as flores ou sentir o toque suave de outra pessoa. Talvez devesse correr os riscos, e dar tudo de si para a rebelião mais uma vez, mas se sentia tão genuinamente destruído.
Se amaldiçoou e amaldiçoou seu destino. De que valia ter sobrevivido para viver uma vida fútil e vazia? Não restara nada para ele. Cada rachadura e caos da sua alma gritavam em voz alta.
Gritou mais uma vez, gritou como se gritar fosse a única coisa que pudesse aliviar sua dor. O arranhar no peito queimava como fogo, e ele se sentia capaz de respirar fumaça. Os olhos tremiam como as mãos, enquanto imaginava todo o futuro que fora destruído pela sua incapacidade de líder, seu fracasso. Não havia mais esperança para ele.
— Cassian?
O capitão se virou imediatamente, ele tinha procurado como um louco o som daquela voz em momentos muito piores. Quando tudo desabou, entre o caos da guerra, tudo que importava foi encontrá-la e passar seus últimos momentos dividindo o fardo da sua vida com aquela alma que tão tristemente refletia a sua. Não importava a distância, saberia ouvir quando ela o chamasse.
E o peito dele esfriou como se mergulhasse no gelo de Hoth. Vê-la era procurar sinais e pistas do que poderia sentir, do que poderia existir. A intimidade e carinho que dividiram quando acharam que morreriam era um tipo de generosidade que nunca tinham lhe mostrado. Tremia no seu peito como se carregasse aquele pequeno calor do momento.
Mas agora, era distante como uma lembrança de fora do seu corpo.
Jyn olhava para ele com aquela verdade ardente dos seus olhos, a determinação de quem havia nascido com o espírito dos fortes. E agora, toda vez que a via, podia jurar que a mulher reluzia como fogo solar.
E mesmo que a culpa assinasse o seu nome e sua alma, não conseguia ignorar o alívio de vê-la. Jyn deu passos quase amedrontados na sua direção. Nunca o tinha visto perder verdadeiramente a calma.
Cassian não se levantou, nem mesmo quando ela encostou os joelhos gastos de batalhas no chão que arranhava sua calça.
— Acho que estou me perdendo. – Sussurrou o homem.
E seus olhos, surpreendentemente gentis, reviravam a sua frente como tempestades ao longe no mar. As ondas rugiam com violência, mas tudo que você via era a sombra delas, sem ter a verdadeira noção da força da tormenta distante.
Jyn passou suas mãos pelos seus ombros, abraçando-o como já tinha feito. Temia a súbita intimidade entre eles, também pensava que o fugaz último momento tinha sido apenas isso, um momento. E mesmo assim, não deixava de ser assombrada pelos espectros do que tinha acontecido. E mesmo assim, seus braços instintivamente abraçaram seu corpo, seu rosto acariciou suas bochechas e seus corpos misturaram-se em uma beleza inocente.
O abraçou como se fosse perdê-lo de novo. As mãos entrelaçadas nos cabelos de obsidiana que caíam em mechas desorganizadas sobre o rosto. O calor dele a invadia, como se pertencessem juntos. Ela não podia perder ele também, não depois de tudo que tinham tirado dela.
Cassian suspirou fundo, o peso nos seus pulmões aliviando-se. Como se ela pudesse confortá-lo mesmo sem nada dizer.
— Eu ouvi o que planejam. – Respirou Jyn, as palavras deslizando com uma naturalidade incomum.
— Vão me mandar para Andelm IV. Para perto das montanhas, onde o Império não vai poder me achar. Dizem que me querem fora por um tempo, que estou instável.
Ela, temerosamente, deixou seu rosto descansar no casaco grosso de Cassian. Ele ainda tinha o mesmo cheiro: óleo de blaster e terra seca. Tinha começado a associar esse cheiro a um sentimento bom; e por causa dele, lembrava-se de Cassian quando estava desmontando ou montando as armas, ou quando tinha a sorte de poder andar um pouco pela floresta e deitava na terra.
— Eu vou ir com você. – As palavras saíram deliberadamente dos seus lábios.
— O quê? – Perguntou o homem de cabelos escuros com um sotaque profundo, afastando-se e olhando para ela com incompreensão.
Ele sentiu os ombros enrijecerem e se distanciou ainda mais. Os braços dela tombaram ao lado do corpo. Cassian estava decidido a encarar de volta os olhos verdes como cristais, sem fraquejar.
— A estrela da morte foi destruída, os rebeldes estão se reorganizando e vão partir em alguns meses para outra base. Quando te mandarem para Andelm, eu quero ir com você.
— Você ainda tem o que fazer aqui. Não vai jogar fora isso por minha causa.
Ela abaixou o rosto, sem ter coragem de encará-lo ou de explicar porque queria tão desesperadamente segui-lo.
— A rebelião finalmente está em vantagem. Eu estou fugindo desde que meu pai morreu. Agora, quero um momento para me ver de verdade.
Queria poder dizer também que não aguentaria se separar dele de novo, que era tudo que tinha lhe restado. Mas deixou que o silêncio das palavras não ditas os preenchesse.
E aquela resposta não o convenceu, mas poderia ser egoísmo ou até mesmo a própria solidão gritando mais alto, ele não a questionou mais. Se fosse mandado para Andelm IV, estaria como quando tinha começado, completamente sozinho. Não reprogramaria um robô para lhe fazer companhia dessa vez. Seria apenas ele, como tinha sido a maior parte da sua vida. Não queria que seu destino voltasse a isso.
A parte em negação da sua mente repetia que não precisava se sentir culpado. Quando ela percebesse a vida vazia que levavam, se arrependeria e voltaria correndo para a rebelião.
A ideia de que Jyn o acompanharia era tentadora demais, e se deixava levar. E mesmo que quisesse argumentar que ela estava errada, não conseguia. Porque naquele momento, precisava tanto da garota, quanto ela dele. Não conseguiria se afastar da moça, deixar que fosse embora. E pensava ver a mesma dependência nos seus olhos, e isso o confortava de uma maneira triste.
A batalha não tinha apenas esmagado seus espíritos, tinha os destruído por completo. E não acreditava que um dia voltariam a ser os mesmos.
— Eu não sou nada sem a rebelião. Nunca fui. Não me lembro como é a vida sem estar lutando.
A mulher segurou sua mão, do mesmo jeito que tinha feito antes. E o conforto que isso lhe deu era irreal. Quando ela tinha ganhado todo esse poder sobre ele?
— Vamos descobrir juntos, então. Vamos descobrir quem somos longe de todo o barulho da guerra.
E Jyn lhe ofereceu um sorriso, ordinariamente comum, e ainda assim, ele poderia dizer com certeza que o sol chegou mais perto e seu coração ficou mais quente. E os dois hesitaram, enquanto se olhavam no escuro com os olhos brilhando.
Do mesmo jeito que não tinha forças para lutar, não tinha coragem para ir contra ela. Tinha aprendido, quando Jyn queria alguma coisa, era como uma força da natureza. Incansável e magnífica.
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