Depois de Yavin

3 6 meses depois da Batalha de Yavin


Jyn e Cassian se despediram de Yavin IV ao mesmo tempo que todos os outros, mas enquanto os rebeldes seguiam para a nova base, eles iam para um canto diferente da galáxia. Era estranho estarem sendo levados por outros pilotos como se precisassem de babá. Mas sabiam que aquela nave não poderia continuar no planeta com eles, mesmo que estivesse bem escondida. Alguém precisaria levar ela de volta a Rebelião.

Andelm IV estava localizado na orla exterior, no setor Svivreni, e era conhecido pela fabricação de blasters. Eles se mudariam para as montanhas afastadas, perto, mas não o bastante, de alguma vila rural. E lá ficariam longe do vigilante olhar da Ordem.

A viagem duraria uns seis dias, e mesmo que fosse um Corvette, uma nave consular confortável, não era nem um pouco agradável esperar tanto tempo, mesmo para Cassian que estava acostumado.

Desde que a notícia sobre a explosão da estrela da morte se espalhou, muitas pessoas subitamente criaram o interesse em se juntar a Aliança. E agora, ele não sabia mais se podia confiar naqueles que o rodeava. Talvez estivessem ali com todo seu coração, ou só tivessem entrado porque finalmente achavam que valia a pena lutar. Cassian se sentia impotente, não havia muito o que se podia fazer.

Com o canto dos olhos, viu como Jyn cuidadosamente alisava o lado do seu corpo, com uma protuberância estranha, como se estivesse escondendo alguma coisa. Provavelmente era um blaster, talvez por hábito. Ele pensou em dizer que era perigoso carregar armas caso parassem a nave. Supostamente era uma viagem diplomática. Mas o homem decidiu pelo silêncio, estava tudo bem se a fazia se sentir segura.

— Não acredito que não quis conhecer o Han Solo e Luke Skywalker. – Comentou suavemente a garota, sem levantar os olhos enquanto aninhava sua mochila com poucas coisas no colo.

— A rebelião não é uma brincadeira. Você não entra na hora que quiser para ficar se sentindo um herói.

— É por que eles aceitaram as medalhas?

Cassian não respondeu. As mãos estavam cerradas uma sobre a outra. Quando conseguiram voltar, tinham oferecido aos dois, grandes medalhas brilhantes pelo seu sacrifício. Pareceu errado. Depois de tudo que tinham feito, depois de tudo que tinham perdido, seria como menosprezar a vida daquelas pessoas por malditas moedas brilhantes. E o crédito não era deles, era de seus amigos e parceiros que tinham trabalhado juntos e dado suas vidas pela missão, era errado estarem sendo homenageados porque tinham sobrevivido quando outros morreram.

— Não é só por isso. Han Solo também é um bandido, ouvi dizer.

Ela deu sorriu fracamente, os lábios quase sempre entreabertos se juntaram enquanto oferecia um olhar de implicância.

— Você pode estar errado no seu julgamento de vez em quando, sabia? Eu sou um exemplo disso.

— Acha mesmo que eu estava errado sobre você?

Jyn pareceu surpresa com a resposta, e Cassian lhe devolveu um sorriso firme que não alcançou seus olhos.

— Eu sei que estava. – E mesmo que soubesse que ela já esperava essa resposta, não conseguiu evitar achar graça quando Jyn pareceu aliviada.

— Vamos usar o hiperespaço na passagem de Hydian, depois tomamos a Rota Comercial de Triellus e chegamos lá pela Rota dos Cinco Véus. Vai ser uma viagem de seis dias. – Falou um dos pilotos, olhando para trás com um tom forçado de autoridade.

O olhar de descrença de Cassian sobre ele era cheio de julgamento. Tinha mesmo a presunção de pensar que precisava explicar isso para ele? Quem achava que Cassian era? Algum civil que nunca tinha saído do próprio planeta? Suspirou fundo, talvez estivesse se tornando cada vez mais amargo. Não imaginou que isso fosse possível.

— Qual seu nome? – Perguntou, para um dos dois rapazes, um com olhos azuis e um sorriso meigo e infantil.

— Dak Ralter, capitão.

— Não me chame assim, não sou mais capitão de nada.

Jyn notou como seu tom de voz estava incomumente ríspido, mais que o normal. Olhou para ele com as sobrancelhas franzidas e os olhos profundos, mas Cassian não retornou o olhar.

— E você? – Apontou para o homem sentando ao lado de Dak.

— Zev Senesca... Senhor. – Respondeu o outro piloto, um rapaz de aparência rechonchuda e bochechas rosadas. Os lábios eram apenas uma linha fina no rosto.

Cassian se recostou na própria poltrona. Zevs e Daks eram o que restavam para a Aliança agora. E não podia fazer nada, estava preso no seu próprio corpo inútil sem ser capaz de lutar. Fechou os olhos, tentando sentir firmeza em suas mãos. Não conseguiu. Ainda as sentia tremer.

— A senhorita é Jyn Erso, não é? – Perguntou o piloto gordinho, se virando para ela com animação. – Ouvimos alguns boatos sobre como você foi a líder rebelde que guiou nossos companheiros na Batalha de Scarif.

Podia ser a força ou qualquer outra coisa que ele não acreditava, mas mesmo sem abrir os olhos, sabia que ela tinha uma expressão triste sobre os pilotos.

— Não fui só eu. Foi o capitão Cassian que reuniu o grupo e nos liderou, tudo que eu fiz foi me rebelar.

Os dois homens olhavam simultaneamente para o rebelde sentado na sua cadeira. As pernas erguidas na mesa, os braços cruzados e a cabeça tombada para trás como se descansasse. Engoliram em seco, ele não parecia alguém disposto a dar um discurso motivacional a ninguém.

Jyn se levantou, seus passos decididos na direção de Cassian. Sentou-se ao lado dele, e o viu se remexer quando seus braços ligeiramente inquieto quando se tocaram.

— Está cansado? – Perguntou ela.

Sem virar seu rosto ou abrir os olhos, ele respondeu:

— Por que estaria? Estamos sentados há horas.

A mulher não se deu por vencida, tirou a mão dele do aperto de seus braços cruzados e a segurou com força. No começo se perguntava se ele tinha ficado pior mentindo, ou se ela que estava começando a conhecê-lo bem demais, hoje em dia sabia a resposta.

— Você sabe o que eu quero dizer.

Ele sentiu a textura calejada da mão dela, mas que ainda era suave em comparação a sua, e se acalmou um pouco.

— Sim, estou cansado.

E ela sabia o que isso significava.

Não trocaram mais nenhuma palavra até alcançarem a passagem de Hydian. Era uma das mais usadas da Galáxia, por isso havia muito atividade imperial, então precisavam tomar cuidado.

Zev e Dak estavam apreensivos quando deixaram a navegação em modo piloto automático. Se voltaram para seus passageiros, com as mãos atrás das costas.

— Temos os suprimentos de proteínas diários, acho melhor já comerem.

— Ótimo, agora precisam nos dizer a hora de comer. – Reclamou Cassian, e sem esperar que lhe dessem permissão, andou até onde guardavam as porções.

Pegou uma para Jyn e jogou para ela através da cela. A garota agarrou no ar e olhou para ele agradecida. Cassian abriu sua própria barra de porção e foi comendo em grandes mastigadas. Em menos de um minuto, tinha engolido tudo e marchado de volta ao seu lugar.

Os pilotos pareciam ansiosos e incertos, nervosos para fazer perguntas, mas sem coragem de continuar. Por fim, a curiosidade venceu o medo e eles começaram com o assunto que tinham vontade de entrar desde o início da viagem:

— Capitão Andor, sargento Erso, gostaríamos de ouvir a história da batalha de Scarif. Se não se incomodarem. Sobre como escaparam.

Cassian acomodou-se na cadeira, e Jyn, que ainda estava sentada ao seu lado, tremeu levemente. Tinha certeza que ela estava tão ansiosa para dividir suas proezas quanto ele, ou seja, preferia ficar em silêncio. Mas talvez fosse o olhar ansioso dos rapazes ou a vontade crescente de se enturmar com aquelas pessoas e se sentir parte da rebelião, mas Jyn começou a falar com a voz hesitante:

— Eu achei que estava tudo perdido. Tinha aceitado. Eu ia morrer em paz. – Os seus lábios provocantemente entreabertos fizeram uma pausa, como se reunisse as palavras. – Mas quando descemos até a praia, havia um TIE fighter abandonado pelos stormtroopers. Pensávamos que ele ainda tava lá porque tinha quebrado, mas quando chegamos perto vimos que era porque todos os soldados dele tinham morrido.

O homem ao seu lado recolheu-se ainda mais. Sabia que quando tinha chegado a hora, embora estivesse pronto para a própria morte, não estava pronto para vê-la partir. Não ela, com aquela chama de intensidade estrondosa no peito. Talvez fosse uma fraqueza passageira que não conseguia explicar, mas tinha sentido aquilo desde Jedha. Quando não precisava ter voltado para buscá-la, quando ela tinha cumprido a missão e era inútil. E ainda assim, voltou.

E em seus momentos finais, pensou em todas as pessoas que tinha matado pela rebelião. E percebeu que tudo o que mais queria, era que ela saísse viva daquela vez. Que tivesse uma chance de ter uma vida, mesmo que não conseguisse pensar em uma companhia melhor para seu último momento.

— Cassian tomou a frente, mesmo destruídos, entramos na nave. Não havia mais tempo, o raio da estrela da morte tinha acertado o horizonte. Vimos a luz brilhante e pensamos que era o fim. Eu achei que ia acabar ali, e não sei se queria mesmo fugir. Mas então ele agiu por impulso. Ativou o hiperdrive da praia, de onde estávamos. Entramos no hiperespaço sem nenhuma rota, nenhum cálculo. Se não fosse a morte iminente, teria sido estúpido. Mas era correr o risco ou morrer sem tentar.

O mais gordinho olhava para a garota com uma atenção religiosa, mantendo as mãos unidas como se pudesse imaginar a tensão.

— Não colidimos com nenhuma estrela durante o caminho, mas quando paramos, nossa nave foi atingida por uma grande chuva de meteoros. Só tivemos tempo de enviar um sinal de ajuda aos rebeldes. Ficamos inconscientes por muito tempo antes de sermos encontrados. Sobrevivemos por pura sorte.

Dak remexia nos cabelos castanhos, os olhos azuis brilhando de curiosidade, tinha medo de perguntar demais, mas mesmo assim não conseguia evitar.

— Nos contem da missão, de quando decidiram desafiar o conselho.

Cassian olhou para os dois de rabo de olho. Grande parte dele se recusava a dividir, queria guardar para si mesmo, porque não imaginava que os outros entenderiam a dimensão do sacrifício que tinham feito. Mas sabia que não podia fazer isso. Se não contasse a história dos grandes rebeldes que morreram nas areias daquela praia, não muitas outras pessoas fariam.

— Você acha que foi glorioso? Quer ouvir como lutamos bravamente até o fim? – O tom amargo da sua voz era triste, fez uma pausa, e deu um longo suspiro como se estivesse desistindo. — Eram o grupo de homens e mulheres mais corajosos que eu já tinha visto. – E quando dizia isso, olhava diretamente para Jyn. — Foi ela que inspirou nossos homens, que nos fez sentir grandes. Não tínhamos alternativa, era o certo a fazer. Eu escolhi confiar nela e os outros escolheram confiar em mim. Nem todos lá eram da rebelião, mas todos lutaram como rebeldes.

Seus olhos se tornavam melancolicamente distantes. As mãos encaixavam-se umas nas outras como se fossem peças de uma máquina. Como se milhões de ideias se formassem na sua cabeça, mas ele só fosse capaz de dizer algumas.

— Eu estive sempre sozinho, e encontrar aquelas diferentes vozes de pessoas, cada uma de um lugar, mas todos juntos como uma mesma força. É diferente, é diferente ver aqueles que realmente encaram a morte de frente e decidem enfrentá-la. Todos ali estavam prontos para isso. Sei que seus nomes não serão lembrados, seus feitos e seu passado vão se tornar irrelevantes com o andar do tempo. Mas eles eram heróis, eram meus amigos. E sei que cada um deles soube como era se sentir vivo antes do final. Estávamos protegendo a Rebelião, a liberdade, mas acima de tudo, protegíamos a esperança.

— Naquele dia, fizemos dez homens parecerem cem. – Completou Jyn, olhando para ele com os olhos que tão demoradamente tinha aprendido a decifrar.

— O sacrifício deles não vai ser esquecido enquanto eu estiver nessa vida. E vou ensinar sobre os tripulantes de Rogue One aos meus filhos e eles vão ensinar aos filhos deles. E se for o único jeito de mantê-los vivos, é o que eu vou fazer.

Os dois pilotos olharam para o casal com uma admiração que tomava seus olhares, aqueles eram verdadeiros heróis. Não do tipo idealizados pelo povo, eram os que aceitavam a tribuna para que todos recebessem a glória. O tipo de abnegação que mostrava quão pequena podia ser sua vida em comparação a toda uma causa, a todo um ideal.

Zev e Dak os deixaram em Andelm IV depois dos seis dias planejados. E quando voltaram para a base, decidiram fazer parte do recém-formado esquadrão Rogue, inspirados pela história de luta e sacrifício. Com essas naves, ambos morreriam em Hoth.

Notas finais
1 - Acreditem quando eu digo que só para esse cap, pesquisei os setores, planetas e as passagens do hiperespaço. Pelo menos agora sei localizar os planetas mais importantes de SW no mapa da Galáxia. Achei até um site que faz os cálculos de tempo entre as viagens. 2 - Imagino que tenha dado para perceber, os dois são pilotos do esquadrão Rogue que voam com Luke. Zev inclusive era Rogue Two. Não existia um esquadrão Rogue na época de Rogue One, então gosto de pensar que o criaram para homenagear nosso pessoal. (óbvio que não é verdade, já que não tinham pensado neles no episódio 4) 3 - A Rebelião sai de Yavin IV quatro 6 meses ABY mesmo, ou seja seis meses depois da explosão da estrela da morte. 4 - PELO AMOR DE DEUS E COMPAIXÃO DOS SEUS CORAÇÕES! Alguém fala alguma coisa! Não tem ninguém lendo essa coisa de fanfic! Gente, tô fazendo até edição meio lixo pros capítulos. Dei meu sangue por essa fanfic. Por favor... Alguém.. Estou tão sozinha...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.