Depois da Morte

1 Vermelho sangue


Tudo aconteceu rápido demais. Rápido o suficiente para que meu corpo reagisse antes que minha mente pudesse compreender.

Aquele homem surgiu diante de mim como um lampejo de luz.

Não houve tempo para perguntar quem ele era, de onde havia vindo ou por que estava se aproximando. Apenas senti seus braços me envolverem com força, puxando-me contra o próprio corpo. O abraço foi tão repentino e intenso que perdi o ar por um instante.

Então veio o disparo. O estampido explodiu ao meu redor. Foi alto demais.

Senti o impacto reverberar contra nós e, por uma fração de segundo, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. O mundo ficou reduzido ao som abafado do meu próprio coração e à pressão daqueles braços me protegendo.

Depois, o chão.

Meu corpo atingiu o asfalto e, por alguns segundos, permaneci imóvel, esperando pela dor. Ela não veio. Não havia aquela dor aguda que eu esperava. Nenhuma sensação imediata que correspondesse ao que minha mente entendia ter acontecido.

Havia apenas uma coisa. Sangue. Muito sangue. No meu vestido. Nas minhas mãos.

Desci os olhos para o próprio corpo, procurando desesperadamente o ferimento. Minha respiração ficou curta enquanto tentava encontrar de onde vinha todo aquele vermelho.

Segui o rastro mais intenso. E então compreendi.

Não era meu. Era dele.

A constatação me atingiu com uma força quase maior que o próprio disparo. Ele havia tomado a bala por mim.

— Não...

Virei o corpo do homem com dificuldade. Ele era mais pesado do que eu imaginava, e meus braços tremiam enquanto tentava posicioná-lo. Procurei rapidamente o ferimento, verificando se havia um ponto de saída.

Havia.

Para minha sorte — e, principalmente, para a dele — o projétil havia atravessado seu corpo.

Não pensei. Apenas agi.

Pressionei as mãos contra o ferimento com toda a força que consegui reunir.

— Ajuda! Alguém, por favor!

Minha voz saiu antes mesmo que eu percebesse que estava gritando.

Talvez fosse o treinamento. Talvez fosse apenas instinto. Naquele momento, pouco importava.

— Precisamos de uma ambulância!

Uma mulher que estava próxima ouviu meus gritos. Manteve certa distância, mas imediatamente pegou o celular e começou a chamar o socorro.

Foi quando, pela primeira vez, consegui olhar para ele. De verdade. E alguma coisa dentro de mim silenciou.

Ele estava consciente. Por enquanto. Seus olhos permaneciam fixos em mim. Não no ferimento.

Não nas próprias mãos cobertas de sangue. Em mim.

Havia algo estranhamente calmo naquele olhar. Não exatamente tranquilidade — aquilo seria impossível naquela situação —, mas uma serenidade incomum, quase desconcertante.

E havia um pequeno sorriso em seus lábios.

Um sorriso que não deveria estar ali.

Talvez estivesse em choque.

Eu precisava acreditar que era isso.

Porque, naquele momento, comecei a perceber coisas que não deveria estar percebendo.

O cabelo loiro caía de maneira desordenada sobre a testa. Algumas mechas estavam fora do lugar por causa da queda. Seu rosto estava pálido, e havia tensão em sua mandíbula, sinais claros de que seu corpo começava a cobrar o preço do ferimento.

Ainda assim, havia alguma coisa nele.

Algo difícil de explicar.

Sua presença parecia ocupar espaço demais.

Mesmo ferido, mesmo deitado no chão, mesmo perdendo sangue, aquele homem tinha uma presença que me prendia a atenção de uma maneira absurda.

Eu não sabia quem ele era.

Não sabia seu nome.

Não sabia por que havia se colocado entre mim e uma bala.

E, ainda assim, quando nossos olhos se encontraram, senti uma espécie de reconhecimento que não fazia sentido.

Como se alguma parte irracional de mim tivesse percebido algo antes que o restante pudesse acompanhar.

Foi então que ele se moveu.

Senti seus dedos tocarem minhas mãos.

Parei por um segundo.

As mãos dele estavam quentes apesar do frio que começava a tomar seu corpo. Seus dedos envolveram os meus, ainda pressionados contra o ferimento.

Como se quisesse me impedir de afastá-las.

Como se quisesse ter certeza de que eu continuaria ali.

Levantei os olhos. Ele estava sorrindo novamente. Dessa vez, um pouco mais. E eu simplesmente não consegui desviar o olhar.

Aquele sorriso não combinava com a situação.

Mas combinava com ele.

Ou talvez fosse justamente o fato de ser tão inadequado que o tornava impossível de ignorar.

Meu coração acelerou.

Não sabia se era pelo medo, pela adrenalina ou por alguma coisa muito mais inexplicável.

Provavelmente pelas duas primeiras.

Era o que eu dizia a mim mesma.

Precisava ser.

— Você está me ouvindo?

Ele não respondeu.

Apenas continuou me olhando.

Seus olhos tinham uma intensidade desconcertante. Havia algo quase íntimo naquela maneira como me observava, como se, apesar de todas as pessoas ao redor, eu fosse a única coisa que ele conseguia enxergar.

E talvez eu estivesse fazendo exatamente a mesma coisa.

Eu deveria estar pensando no ferimento.

Na ambulância.

Na quantidade de sangue.

Na possibilidade de ele estar entrando em choque.

Mas, por alguns segundos, tudo o que consegui pensar foi que nunca havia visto olhos como aqueles.

E que era estranho sentir-me tão atraída por alguém que eu sequer conhecia.

Alguém que, naquele instante, poderia morrer diante de mim.

— Quem é você?

A pergunta escapou dos meus lábios.

Não era a pergunta mais importante.

Eu sabia disso.

Mas era a única que consegui formular.

Ele permaneceu em silêncio.

Seus olhos ainda estavam presos aos meus.

Então percebi a mudança.

As pálpebras começaram a pesar.

O sorriso desapareceu aos poucos.

— Ei...

Apertei suas mãos.

— Não. Fique acordado.

Ele piscou lentamente, como se estivesse lutando contra o próprio corpo.

— Olhe para mim.

Minha voz tremeu.

— Você precisa ficar acordado, está me ouvindo?

As sirenes finalmente começaram a se aproximar.

O som cresceu ao fundo, misturando-se aos gritos, aos passos e ao movimento das pessoas que começavam a se aproximar.

Mas eu só conseguia olhar para ele.

— Não feche os olhos.

Apertei ainda mais o ferimento.

— Por favor.

Seus olhos encontraram os meus uma última vez.

E, por um breve instante, tive a estranha sensação de que ele queria dizer alguma coisa.

Talvez meu nome.

Talvez o dele.

Talvez nada.

Seus olhos se fecharam.

— Não!

Minha voz saiu em um grito desesperado.

— Fique comigo! Você precisa lutar!

Mas ele não respondeu.

As sirenes ficaram cada vez mais próximas.

E então tudo ao meu redor começou a desaparecer.

Primeiro os sons.

Depois os rostos.

Depois a sensação das mãos dele sobre as minhas.

Até que restou apenas uma claridade intensa diante dos meus olhos.

E então...

houve luz.

Notas finais
Inspiração de música para história: Lisboa - ANAVITÓRIA, Lenine