Depois Do Fim
1 Um.
Notas iniciais
*Esse capítulo traz apenas uma ideia de como as coisas começaram. A intensidade e profundidade da história vem em conjunto a partir do capítulo quatro.
Um. (Introdução)
Teve um apocalipse do caralho no mundo. Como o vírus foi transimitido pelo toque, todos foram infectados em pouco tempo. Porém o vírus era inofensivo, até se mutar e infectar todos de uma vez, quando o mundo inteiro já tinha adquirido a doença. Acho que 95% da população já era e tá tudo muito fudido.
Faz uns anos que, na TV, o carinha lá da globo tava anunciando que a Austrália tava fechando os portos por uma pandemia esquisita. Diariamente, passavam diversas reportagens sobre ataques canibais no meio da rua e muita gente morrendo, se suicidando, etc.. Nas primeiras horas, eu ainda tava na escola quando começaram os boatos. Falavam que eram sais de banho ou uma droga parecida, mas não tem nada a ver, só a parte de comer o rosto dos outros mesmo.
De início eu não tava entendendo nada, foi quando cheguei em casa que fui entender melhor vendo TV e pá. Quer dizer, até hoje ainda tô confuso sobre como tudo aconteceu, mas que eu saiba foram os russos que tavam tentando desenvolver uma vacina aí, mas deu merda. Vasou a paradinha de gás lá do laboratório deles, e uma galera teve que ficar em quarentena lá em Moscou. Não detectaram vírus nenhum no sangue deles, porque uma das características dele, segundo o repórter, era que na sua fase inofensiva ele não demonstrava sinais de aparição.

Bem, sei lá, não entendo porra nenhuma de medicina. Nem sei se era vírus mesmo, ou bactéria ou qualquer coisa do tipo. O que rola é que infectou todo mundo e de primeira ninguém sabia que tava infectado. Daí do nada deu um surto e todo mundo passou a ficar maluco, comendo gente. Pálidos pra caramba. A última reportagem que vi foi na globo também, parece que a doença mutou-se transformando os hospedeiros nesses troços, e quando uma pessoa infectada que já tinha o vírus mutado tocava em outra pessoa também infectada, esta sofria a mutação também. Enfim, deu merda, eu to enrolado tentando escrever tudo.
Não durou nem uma semana que já tava todo mundo doido. Na boa, eu achei que se algum dia algo do tipo fosse acontecer, o exército dava conta, mas pô, o exército tava infectado também. Todo mundo tava, eu não sei como EU não fiquei, mas me lembro bem de que desde que eu vi a primeira notícia do surto na TV, eu fiquei com uma baita duma gripe e passei uns 3 dias em casa ainda. Entediado, eu via televisão e me informava de tudo, e pensava se meus amigos iam pegar essa merda também. Quando teve a gripe suína, tipo eu pensava essas coisas também, mas no fundo tinha certeza que não ia acontecer nada sério com minha família, amigos e pá se alguém pegasse a doença; mas dessa vez foi diferente, ah se foi. Eu morava com meus pais ainda, daí eles foram trabalhar e tavam demorando pra chegar. Eu ligava, ligava, e cadê?
Uma hora meu pai atendeu. Ele tava num trânsito enorme e disse que eu tinha que trancar o apartamento inteiro. Falou que tava tendo arrastão, assalto, e muita loucura na rua. Ele falou, na verdade, que era um protesto ou sei lá, por isso que tinha tanta polícia e tanta gente fazendo merda na rua. Claro que ele tava errado, mas pouca gente tava entendendo BEM o que tava acontecendo na hora. Sério, tava muito confuso.

Meu primo, que morava conosco, pegou e falou "oa bora pegar as bikes e ver o que é. Tá um tédio aqui, e fora que eu to preocupado. Essas revoltas tão cheias de assaltante se aproveitando, e muito baderneiro também". Eu aceitei, porque realmente eu não aguentava mais ficar gripado em casa, na bosta. Ele levou o revólver .44 do meu pai com ele sem eu saber, mas eu não diria que foi má ideia.
Saímos de casa, achando estranho até o intenso barulho de buzinas na avenida. Minha rua era muito silenciosa e mal passava carro, mas era só virar à direita que tinha a avenida. Carro pra se fuder. E nenhum saia do canto! O transito tava realmente intenso, e olhe lá, eram umas onze da noite. Eu e meu primo fomos pedalando de boa procurando saber o que era, e também procurando o carro do meu pai. Nessa brincadeira, fomos pedalando, pedalando... pedalando por umas meia hora, até que ele comentou, e eu me lembro perfeitamente desse comentário porque eu gelei na hora: "ei, notasse que tem carro sem ninguém dentro?".
Eu olhava pro lado e realmente, tinha não. Aí eu diria que a porra ficou séria. Fiquei com muito medo, sem entender, e obviamente associei isso ao que vi na televisão. As luzes ofuscantes dos faróis e postes passavam borradas enquanto eu só pedalava, sem ouvir nada pelo meu raciocínio focado, que me tirou a atenção do ambiente. Eu tava tão atento nos meus pensamentos, ligando tudo que vi na TV, que por isso meu susto foi tão grande. Um cara de camisa polo verde e calça jeans começou a gritar e surrar o vidro de um carro, como se tivesse drogado e querendo assaltar. Ele tava à uns 50m de mim, daí freiei a bike e fiquei encarando, desta vez confuso demais pra pensar em uma sequer palavra.
Meu primo olhava bem cada detalhe e apontou que tinha sangue na janela do carro. "Fudeu", ele disse. Eu fiquei preocupado com meu pai, e liguei de novo pra ele enquanto me afastava rapidamente dali do cara. Ele atendeu, ofegante, dava pra perceber que ele tava correndo enquanto falava comigo no celular. Trotava, dizia ele. Falou que tava tendo muito arrastão e que se ele continuasse no carro ia levar um tiro ou coisa pior, daí tirou a chave e saiu correndo. Ele disse pra eu encontrar ele numa esquina que tinha do lado de um posto de gasolina lá perto.
A gente atravessou a rua e fomos pelo meio, pra não ter que passar pelo cara maluco do carro. Eu sabia que ele tava infectado com aquela porra louca lá, mas eu não entendia bem como funcionava, eu não sabia que a pessoa simplesmente deixava de ser ela e ficava querendo matar. Eu só achava que ela tinha um surto de raiva ou algo do tipo e depois passava, acho que porque prestava mais atenção no salgadinho que eu comia enquanto assistia, do que na própria reportagem.
Pedalamos rápido. No caminho, um mendigo barbudo passou correndo e pulou em cima de outro cara de bicicleta, bem na minha frente. Ele começou a fazer uns ruídos tensos e espancar o cara, depois mordeu ele. Eu fiquei tipo, "que porra é essa?" e só vi meu primo gritando pra eu acelerar e dar o fora dali. Foi quando estávamos perto do posto que eu vim descobrir que meu primo tava com a arma. Chegou um rapaz, com cara de trombadinha (e de desesperado) mandando eu sair de cima da bicicleta. Ele tava com uma arma debaixo da camisa, como que assaltante mesmo. Meu primo puxou a arma e deu um tiro no joelho dele fazendo ele cair e derrubar a arma, e mandou eu pegar a pistola dele. Eu não fiz isso, porque não imaginava ter que usar a pistola do cara depois.
Chegamos no posto e lá tava um monte de gente ao redor de algo, tipo quando algum motoqueiro cai e o pessoal fica querendo ver a desgraça dos outros porque não tem o que fazer. Meu pai tava lá também, na frente da lanchonete do posto, com o celular no orelha. Ele parecia muito nervoso e apressado... quem não estaria? Foi chegando mais perto que perguntei o que aquelas pessoas estavam olhando, pra um cara da calçada. Ele disse que tinha uma pessoa morta, com a barriga toda mordida e com os órgãos pra fora, e recomendou eu não ir lá pra ver. Eu tive que ir né, meu pai tava lá, me esperando.

Quando eu cheguei no posto, meu pai me viu logo de primeira e veio na minha direção, andando apressado. Foi aí que do nada chegou uns cinco ou seis infectados, correndo MUITO rápido, e pularam em cima da multidão que tava ali. Aí começou uma doideira, todo mundo correndo e gritando, e gente morrendo. Meu pai correu pro meu lado e a gente foi saindo logo dali, quando chegou um carro em alta velocidade e bateu no trocinho de gasolina do posto. Bum, todo mundo ali morreu. Só senti um ar muito quente, muuuuito quente mesmo, e vi o fogo subindo. A gente já tava fora do posto a essa hora, mas que puta susto viu?

Daí em diante foi carreira. Meu pai subiu na garupa da bike do meu primo e a gente pedalou pela rua de esquina com o posto, saindo de perto da avenida. Era uma rua esquisita, com muro pixado e etc.. A avenida tava louca demais pra passar por lá. Não tinha nenhum bixo na rua que a gente tava passando, então foi de boa. Na frente da rua do meu prédio tem uma reserva florestal enorme, e a avenida passa do lado dessa reserva. Daí, pra chegar em casa de novo, a gente teve que contornar a floresta toda pelo outro lado, pra chegar no prédio de novo.
Durante a intensa pedalada até o meu prédio, quando a gente já tava na metade, passou um carro do nosso lado mandando a gente entrar, falando que tava perigoso ficar do lado de fora. Meu primo logo botou a mão na arma, que tava no seu cinto, coberto pela camisa; mas o cara parecia gente boa e a gente entrou. Meu pai tava conversando como se conhecesse ele, e aí me toquei que ele morava lá no prédio. Chegando no portão de casa, a gente apertava o botãozinho do controle mas o portão não abria. Meu pai tava puto já. Ele gritava, mandava o porteiro abrir logo e mais um monte de coisa. Só que olhando bem pelo vidrinho da portaria, que tinha uma película bastante escura dificultando a visão do que tinha dentro, eu vi que o porteiro não tava lá. Nesse momento, do fim da rua dava pra ver uns 20 cara correndo na direção do prédio, gritando umas palavras indecifráveis. Na hora vi que era aquela gente maluca infectada.
A gente decidiu então deixar o carro do lado de fora mesmo, e pular o portão. Um deu apoio e a mão pro outro até que todos passaram. Não deu um minuto que eu já ouvia porrada no outro lado do portão, os raivosos batendo com força nele. Eu tava com muito, muito medo. Acabou que a gente rapidamente decidiu ir pra casa do nosso vizinho, que nos deu a carona. Henrique, o nome dele. A merda é que um elevador não tava pegando e o outro tava parado na cobertura e mesmo que a gente apertasse no botão ele não vinha, tinha algo o segurando lá. Teve que ser de escada mesmo.
As luzes vermelhas de emergência das escadas tavam todas acesas. A gente subiu vinte e dois andares de escada até chegar no apartamento de Henrique, e logo quando entramos ele trancou tudo. Amigo do meu pai, ele discutia o que fazer na hora. Tava todo mundo muito agoniado. Na casa dele, tava a filha dele, Isabela. Ela tava chorando no quarto, desesperada, e quando viu o pai deu um abraço forte. Ela falava um monte de coisa, mas eu não entendi nada por causa do abafo na voz por causa do choro. A gente sentou na sala de estar, e meu pai e ele ficaram em pé. Meu pai andava de um lado pro outro, sem saber o que fazer.
Decidimos então ficar lá mesmo, esperando e vendo no que ia dar. Minha mãe ligou pro meu pai falando que tava no trabalho, que ela e os colegas de trabalho tinham trancado a agência e apagado tudo pra se proteger. Isso aliviou meu pai, mas da mulher do Henrique, nada se ouvia. Ele tava muito puto...

Ligamos a TV da sala. Tinha muito canal bugado, tipo com chiado na tela ou então com uma mensagem "Sem sinal". Alguns colocavam uma mensagem de "Estamos em manutenção, por favor aguarde.", e os que restaram deixavam um monte de propaganda rodando sem parar. Colocamos em um canal internacional de notícias, CNN. Esse pegou. A mulher tava falando que o surto tava no mundo inteiro, meio que simultaneamente, embora na África tivesse começado um pouco mais cedo. A Oceania tava mais calma, embora o caos também estivesse lá. O exército tinha fechado umas áreas nos USA, mas muitos soldados também se transformavam, matando seus companheiros. Por esse motivo a mulher declarou que era uma pandemia de caos global e que as chances de sobrevivência da humanidade eram mínimas. Depois disso, cortou e ficou só com uma tela preta. A gente ouvia as buzinas e gritos que vinham das ruas, e estávamos com muito medo.
Deu uma da manhã. Ainda nada com sinal. Eu olhava pela varanda, e tinham muitos prédios apagados. Alguns ainda tinham umas luzes acesas nos andares. Em muitos eu via gente na varanda, fazendo a mesma coisa que eu. E ao olhar pra baixo, só via a fila de carros, o trânsito, e gente correndo. Tava mais calmo nessa hora, mas ainda tinha grito pra caralho. Ao olhar para a reserva florestal, eu vi duas lanterninhas se movendo pelo meio daquela escuridão, indo em direção ao estábulo de lá. Meu primo, João, tava com Isabela no quarto usando o computador. Ainda tinha internet, pelo menos isso né. Eu fui lá depois também, eles tavam no Facebook tentando falar com as pessoas.
Peguei meu celular e entrei no Facebook também. Tinha gente da minha sala lá do colégio online, daí fui falar com eles, muito aliviado por estarem vivos! Primeiro falei com Daniel, colega meu. Ele morava no bairro central da cidade, na frente do shopping, e falou que tava trancado em casa com os pais. Daniel morava num condomínio minúsculo de dois blocos, cada um com seis andares, com dois apartamentos cada. Ele disse que só dois vizinhos deles atendiam o interfone. Também lembro dele falando que tinha uma viatura da polícia capotada na frente do shopping e que ele via muita gente correndo pela rua, caindo, agredindo os outros, e muita coisa sem sentido. Em seguida, falei com Duda, minha melhor amiga.
Namoral, eu fiquei MUITO aliviado em ver o nome dela e a bolinha verde do lado. Ela morava lá perto de casa, era uns cinco minutos de carro pra chegar na casa dela. Ela tava me falando que não tinha sinal da irmã mais velha, que morava num bairro mais pro lado sul da cidade, beira-mar. Ela tava com os pais e a mãe tava tomando remédio de ansiedade. O pai dela bateu com o carro e quebrou a perna, daí pegou carona pra chegar em casa. O pai dela tava relaxado, e quando a mãe tomou remédio ficou também. Claro que estavam preocupados, mas tinham noção da situação e por isso só ficaram na internet tentando saber dos outros. O último que consegui falar, já que muitos nem respondiam, foi Mateus. Ele morava com a avó, e disse que viu a avó morrendo no meio da rua. Ele tava chorando muito, falei com ele no Skype também.
Daí eu, Daniel, Mateus e Duda ficamos no Skype conversando sobre isso, desesperados e ao mesmo tempo calmos. Não sei descrever a sensação. É como se você tivesse sonhando, de tão surreal que aquilo é, mas você sente na pele, porque ao mesmo tempo é algo muito real. Eu sei que parece confuso, mas é uma mistura de surreal com real, uma sensação estranha que eu nunca tinha tido antes. Vini entrou no Skype depois e a família dele tava bem, mas ele simplesmente não conseguia falar com os tios, que moravam no sul da cidade. Aquela parte devia tá toda fudida, porque não conseguiam falar com ninguém de lá.
Eu ia descendo os posts no Facebook e os tweets no Twitter, e via algumas pessoas falando que tava muito transito, muita loucura na rua, gente perguntando se tinha alguém ai, gente falando que tava confusa, gente falando tudo. E, nos posts mais antigos, a galera perguntava se alguém também tava vendo TV pra saber o que tava começando a acontecer.
Mas essa luxuria não durou muito. Do nada, eu lá no Skype aliviando meu estresse falando com gente que eu conheço, eu escutei um "TUM" e tudo apagou. Sabe quando falta energia e você escuta aquele TUM da energia caindo? Pronto, foi esse TUM aí. E tudo ficou escuro. Isa ficou chorando de novo, e Henrique, seu pai, ficou lá falando com ela. Ficou eu, meu pai e meu primo na varanda olhando, enquanto a brisa gelada acalmava meus nervos. Eu tentava, a todo momento, entender a porra toda que tava acontecendo. Parecia as madrugadas que eu passava tomando cerveja com esses dois, só que essa tava terrorenta.
Henrique pegou três lanternas, uma ficou com ele, outra com meu pai e outra comigo. Então, veio a pior parte da madrugada. Acho que a pior parte da minha vida também, de tanto medo que eu tive. Aquele alívio do Skype logo se tornou em medo de novo. Uma porrada muito forte surrou a porta, fazendo um barulho que assustou todo mundo. Meu primo puxou a arma, e Henrique um facão de cozinha. Meu pai mandou meu primo, João, dar a arma pra ele, e assim ele fez, morrendo de medo mesmo. Meu pai segurava a arma, tremendo, enquanto as surradas na porta continuavam. Naquele escuro, tudo parecia muito pior, e essa tensão continuou por mais uns quinze minutos. Seja lá o que estivesse atrás da porta, não ia simplesmente derrubar ela com um soco, por isso tanta demora. Meu pai não quis esperar e decidiu abrir a porta e atirar, já que aquilo não ia embora. Eu coloquei a lanterna na porta, e ele foi lá abrir.
Henrique tapava a boca de Isabela pra abafar o choro dela. quando eu escutei o barulho da chave girando, meu coração disparou mais ainda. Meu pai rapidamente abriu a porta e deu uns três tiros, fazendo o sangue ser derramado nas paredes, no chão e na porta do elevador. Eu vi de perto, bem de pertinho, aquela coisa grotesca... Aquilo não era homem. Era um bixo. Pálido, com olhos bem abertos, e com a pele meio sei lá... como se tivesse velha, apodrecendo. Fedia pra caralho.
Sabe, com 17 anos eu nunca tinha visto uma pessoa morta não, e a primeira vez foi do pior jeito. O escuro com as luzes das lanternas deixava o clima muito tenso, parecia filme de terror. Enfim, logo depois dos tiros, eu escutava gritos e murmúrios vindo da escada. Com certeza eram esses bixos, mas os gritos pareciam estar num lugar looonge, tipo no primeiro andar ou algo assim. Mas eu sabia que estavam vindo. Da escada, tinha a porta anti-fogo, que dava numa "salinha" com o lixeiro e o elevador de serviço. Depois, tinha outra porta anti-fogo, que dava pros dois apartamentos. Henrique tinha a chave da segunda porta, que dava pros apartamentos, e ele a trancou. Depois voltou pro apartamento e trancou a porta também.
A gente se preparou pro pior. Fazíamos muito silencio, segurávamos facas e tal. Nesses longos momentos eu pensava se meus amigos estavam bem, o que eles estavam fazendo. Pensava na família, em um monte de coisa. Lembro bem de ter imaginado o que estaria acontecendo no colégio naquele momento, se os alunos ficaram presos no colégio ou sei lá. Vai que se foderam?
O pensamento que mais me relaxava era que eles não iam saber exatamente de onde vieram os tiros, então não ia ser tão fácil no encontrar. Eu também ficava curioso pra saber quem era o infectado que meu pai matou e como ele chegou na nossa porta!
A paisagem agora era de completa escuridão pela varanda. Só vi um apartamento aceso, era de um prédio lá na puta que pariu, tipo bem longe mesmo, um dos últimos andares. Dava pra ver que tinha gente na varanda, e era gente mesmo, porque essa gente infectada de movimenta de um jeito muito bizarro e diferente. Eu só via meio que um pontinho preto na luz da varanda deles, porque tava longe mesmo.
Também vinha na minha cabeça o pensamento que não era só eu que tava olhando pra aquele apartamento, porque assim como eu, muita gente devia tá com as luzes apagadas também, até porque faltou energia né. Acho que aquele prédio tinha um gerador bom ou sei lá, mas naquele apartamento, ainda tinha energia. De vez enquando eu escutava um "Ei!" ou um grito parecido vindo do fundo das ruas adiante. Devia ser um sobrevivente pedindo ajuda à alguém ou sei lá.
Também ouvia, mas com pouca frequência, aqueles gritos dos infectados. Eu gelava quando escutava. Gelei mais ainda quando escutei novamente os gritos da escada, só que mais perto dessa vez. Segurei a faca e a lanterna com força nessa hora e coloquei a lanterna na porta. Todo mundo ficou com medo... Os gritos foram chegando perto, bem perto, e dava pra ouvir o eco dos gritos no vazio da escada. Uma hora eles chegaram a ficar muito perto mesmo, achei que estavam na nossa porta, mas só passaram direto pelo nosso andar. O prédio tem 35 andares, então logo iam chegar na cobertura. Escutei esses gritos pelo resto da madrugada.
Daí então passou um helicóptero, com aquela luzinha dele piscando. O barulho da hélice girando me deu um alívio enorme; pra falar a verdade, todo sinal de gente me dava alívio. Quando o helicóptero passou eu escutei uma galera gritando "Ae! Aqui porra!" no meio da rua, ou nos prédios, etc.. Devem ter tomado no cú, mas esses gritos me deram uma sensação de conforto. O helicóptero passou direto e não faço ideia de onde foi parar. Foi aí que lembrei da minha mãe, presa na agência. Fiquei preocupadíssimo, perguntando a mim mesmo se ela tava bem.
Fazia umas cinco horas que eu tinha saído com João de bicicleta pra ver o que tava acontecendo. De longe eu via aquela pequena luzinha do Sol nascendo, mas ainda tava tudo escuro. Parecia que tinha passado umas quinze horas. Eu só queria que o Sol nascesse logo...
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