Dois.

Bem, amanhaceu né. A essa hora, Isabela já estava bem mais calma, e eu também. Mas a preocupação com os outros não saia da minha cabeça. Ao olhar pra rua, nenhum carro passava e não tinha ninguém andando, mas os carros que ficaram presos no trânsito da avenida permaneceram lá. De longe, eu via uma daquelas criaturas vagando entre os carros, me perguntando onde estariam todos os outros. Tomamos café, decidindo o que fazer.

Enfim, no fim das contas decidimos procurar na casa de nossos vizinhos, se algum deles estava vivo ou sei lá. Não tinhamos noção da grandeza da infecção, e tinhamos esperança que muita gente ainda estivesse viva. Bem, comparado ao dias de hoje, até que tinha bastante...

Pegamos facas de cozinha e amarramos em paus de vassouras. Fez tipo uma lança, daí não precisaríamos chegar perto do bixo pra matar ele. Meu pai continuou com a faca e o revólver, que tinha apenas 3 balas no tambor agora. Primeiro fomos no vizinho do lado... batemos na porta, porque a campainha deles tava quebrada. Daí nada se ouviu.

Quando Henrique colocou a mão na maçaneta, viu que a porta deles não tava trancada, então entramos mesmo. Com cautela, colocamos os pés na sala. Tinha uma TV enorme, porque esse vizinho dele era um advogado rico pra caralho. Carpete, um sofá de couro... Continuamos andando, bem silenciosamente. Então tinha a porta da cozinha, e um corredor que dava pros quartos. Eu tinha um certo receio ao entrar nos locais, porque sempre tinha a impressão de que ia ter algo horrível logo quando eu botasse meu pé no cômodo. E na cozinha tinha.

De primeira eu gelei. Tomei um susto tão grande que senti como se tivesse engolindo minha própria alma, namoral. Mas não foi aquele susto de gritar, foi aquele susto de paralisar e ficar olhando. Tava lá ele, o advogado ricão, morto com uma faca enfiada na cabeça, atravessando-a. Ele tava meio que sentado na parede com o sangue pintado na parede, no chão, deu pra ver que foi esquartejado, até porque tinha marcas de faca no corpo todo. O estranho é, ele não parecia um dos infectados, parecia estar normal, então por que o mataram?

Todo mundo ficou lá encarando, feito otário. Eu fui na área de serviço, tremendo enquanto empunhalava minha lança caseira, ver se tinha algo. Só um monte de roupa desarrumada jogada no chão.

João que teve coragem de ir pro corredor primeiro. Tava de manhã, beleza, mas depois disso que vimos o clima ficou tão tenso quanto o terror da noite. Ou quase, sei lá. Enfim, ele foi andando com a lança dele. Meu pai ficou com a arma pronta pra atirar e ia logo atrás dele. Tinham dois cômodos, um era o dele e da esposa e o outro eu não sei, devia ser o da filha ou um banheiro, eu não lembro como era esse. Só sei que eles passaram e no dele tava tudo desarrumado, coisa quebrada e muito mais. O quarto do cara parecia uma suíte presidencial, só que toda arrombada.

Na gaveta desse cara, eles acharam uma pistola, mas sem balas, daí guardaram. Já íamos voltar, quando, como eu esperava, deu merda. Quando a gente passou pela porta da frente pra voltar pro nosso apartamento, já estávamos falando alto, sem lembrar que podia ter bixo daquele por trás da porta da escada. E porra, tinha, aí fudeu. E não era só um não, eram bem uns dez, só não sei o que eles tavam fazendo ali. Até hoje não sei porque eles tavam ali, mas um motivo tinha. Enfim, eles escutaram nossas vozes e começaram a bater com força na porta. Como a porta era anti-fogo e ainda por cima tava trancada, eles iam levar anos pra conseguir arrombar, mas a gente não podia ficar ali pra sempre. Meu pai ainda queria pegar minha mãe, que ou tava morta ou tava presa na agência, e Henrique queria sua esposa. Já eu, queria não só minha mãe, mas saber se meus amigos tavam bem.

De um jeito ou de outro, eles ficaram horas lá, batendo na porta e nos assustando. Eles são muito, muito insistentes, como se nossa carne fosse a única coisa que eles querem, e querem desesperadamente. Não desistem até conseguir. Trancamos a porta do apartamento e pegamos toda a comida, botamos em sacos grandes. Eu sei que a coisa certa a se fazer era ficar lá, mas de jeito nenhum que eles iam desistir de suas esposas. E eu também não queria desistir da minha mãe, né. Na hora, ninguém ia pensar em ficar. Todo mundo queria cair fora do prédio, porque devia tá infestado de infectados.

Depois de encher sacolas com comida, água e remédios, lá fomos nós. Eles ainda tavam lá, batendo na porta, famintos, e a gente nem sabia quantos tinham. Na boa eu achava que só tinha uns três mas tinha bixo pra se fuder. Todo mundo se preparou, e meu pai destrancou a porta. Não deu 2 segundos e BUM os bixos invadiram. A partir daí foi um caos do caralho. Meu pai, imbecil, gastou as três balas do tambor logo de vez, e só matou um ou dois assim. Ainda tinha um monte, e PUTA QUE PARIU, eles correm MUITO rápido. A gente foi ligeiramente indo pra trás enquanto tentávamos acertá-los com as lanças improvisadas. Nessa brincadeira, meu primo enfiou a lança na cabeça de um, mas ela não queria sair então ele teve que largar a lança na cabeça do bixo mesmo.

Isabela ficava gritando de desespero e correu direto pro apartamento. A gente também fez isso, menos João, que foi pra porra do apartamento do advogado, sem necessidade nenhuma. Acho que no desespero ele não pensou e simplesmente foi. A maioria dos bixos viu a gente indo pro nosso apartamento, daí foram também. Eu lembro de ter visto uns dois indo pro apartamento do advogado junto com João.

Não deu tempo de a gente fechar a porta, eles saíram quebrando tudo. Meu pai pegou um vaso de vidro e acertou na cabeça de um, que caiu e depois se levantou. A gente continuou recuando, enquanto eles íam destruindo, naquela sede de matar. Eu, no desespero, peguei e bati com a lança em um com muita força, degolando ele, e ensanguentando minha camisa... Meu pai, andando pra trás, tropeçou e caiu, então um bixo agarrou ele. Fiquei puto e enfiei a lança na cabeça do bixo, mas outro que tava do lado dele me pegou com muita força e me chocou contra o espelho, fazendo o vidro rasgar minhas costas, eu me fodi todo naquela hora. Eles tem uma força incrível, podem pegar um gordo obeso e jogar ele de um lado pro outro, se brincar. Sério, são muito, muito fortes mesmo!

Enfim, Henrique esquartejou o bixo que tava me matando, mas esse o mordeu e arrancou um pedaço do seu pescoço. Isa viu tudo, e correu pra matar o bixo com a lança, puta da vida. Eu tava todo fudido e meu sangue no chão, de tanto vidro que cortou minhas costas, então não pude fazer nada e fiquei lá no chão, caído. Isabela, de início tirava e botava, com força, a lança na cabeça daquele monstro. O sangue da cabeça dele caia na roupa dela e no chão, enquanto ela dilacerava a cabeça dele, que no fim ficou toda aberta com uns troços estranhos saindo de dentro, acho que eram miolos. Quase vomitei.

Foi quando um bixo ia matar Isa por trás, que meu pai segurou ele pelas pernas e fez ele cair. Isa foi e pisou, com toda força, na cabeça dele. Só escutei o barulho da mandíbula quebrando... Mas ainda tinha um. Esse pulou (eles também pulam muito alto, é apelão que só a porra) em direção a Henrique, que já tava morto no chão, com bastante sangue saindo do seu pescoço. Isabela, mesmo sabendo que seu pai tava morto, defendeu ele e enfiou a lança em seu peito. Ele caiu no chão morto.

Isabela se ajoelhou na frente do seu pai e gritou um monte de palavrão. Mandou o mundo todo se foder. Eu fui correndo pra ajudar João no outro apartamento, mas me deparei com uma coisa nada agradável... O barulho da confusão toda só atraiu mais andarilhos, e eu escutava mais vindo da escada. Voltei correndo, mandando a gente ir embora, enquanto os bixos iam atrás de mim. Meu pai pegou Isabela e a gente foi correndo. Eu tinha em mente voltar e ajudar meu primo, mas sei lá, naquela correria toda, no desespero, não deu. Eu fiquei puto comigo mesmo por isso, mas sabia que a culpa não era minha.

Como o corredor era meio largo, deu pra a gente passar por dentre os bixos. O bom é que, apesar de todas as vantagens físicas que eles tem, seu defeito são seus reflexos, lentos pra caralho. Parecem uma tartaruga na hora de fazer as coisas, ou quando você tá com bem muito sono e joga o lixo na roupa suja ao invés de na lixeira. Quer dizer, to viajando aqui, mas enfim. Eles iam atacar a gente, mas eram muito lentos na hora de raciocinar. Deu pra passar por eles correndo, então fechamos a porta da escada e corremos mais ainda, dessa vez subindo a escada. Chegamos na cobertura do prédio, e fechamos a grade dela. Os bixos devem ter descido ao invés de subido, porque eles não chegaram lá.

Logo ao chegar, sentei a bunda no chão, botei as mãos na cabeça e começei a arranhá-la, de leve. Tava sem saber o que fazer. Meu pai andava de um lado pro outro. De repente, outra merda aconteceu. Isabela tava na ponta do prédio. Um passo e ela caía mais de trinta andares. Ela tinha 14 anos e sabia o que fazia, então não era por ser estúpida. Meu pai correu pra segurar ela, mas teve que freiar, porque ela pulou. Ao cair, ela bateu em alguma coisa, porque fez um barulho grande. Caiu em cima de um carro, na garagem, já que a garagem de cima não tem cobertura. Corri pra ponta e fiquei paralisado olhando. Tava lá o corpo dela, em cima do carro, que por acaso tava todo amassado e com o alarme apitando. Não deu muito tempo e uns cinco bixos daquele foram pra perto do carro, se aproximaram dela e... a partir daí eu tirei o olho dali. Eu e meu pai estávamos no topo do prédio, e um vento ensurrecedor batia na gente.

Sentamos e pensamos no que fazer. Eu não tava nem um pouco calmo, e ainda tinha a preocupação com meu primo e minha mãe. Fora que, as cenas das últimas quinze horas me deixaram traumatizado até hoje. Ele parou pra ver a situação das minhas costas, e putz, tavam muito cortadas. Se eu levasse uma pancada nas costas, os cacos de vidro iam entrar de vez e eu ia morrer. Lentamente, meu pai foi tirando com a mão cada caco de vidro. Hoje em dia sou cheio de cicatriz nas costas.

Depois de uns vinte minutos de muita dor, ele tirou, tinha uns sete pedaços de vidros enfiados nas minhas costas. Resolvemos descer à procura do meu primo. Eu ia descendo cada degrau me cagando de medo. Quando chegamos lá, os bixos viram a gente de vez e deram uma carreira na nossa direção. Dessa vez realmente não tinhamos escolha a não ser descer as escadas. E descemos, foram uns cinco minutos de pressão, porque eles realmente corriam e pulavam rápido, a vantagem era que por serem estúpidos, caíam eventualmente.

Enfim, chegamos no estacionamento de baixo. Meu pai, por sorte, tava com a chave da moto no bolso, então a gente tinha como fugir de moto. Uns dois bixos ainda tavam atrás da gente, mas meu pai pegou e fechou a porta da escada na cabeça de um, quando ele ia passar. Quebrou o crânio dele e ele caiu morto no chão. O outro veio na minha direção e me derrubou, mas meu pai chutou a cabeça dele, me dando oportunidade pra eu o matar com minha lança.

Fizemos muito silêncio, pra não chamar atenção dos bixos do estacionamento de cima. Só que aí me veio uma coisa na cabeça: Como a gente ia sair do prédio de moto, se o portão tava fechado? Eu perguntei pro meu pai, e não acreditei em ouvir ele dizendo que a gente ia passar com a moto mesmo pelas portas de entrada, que eram de vidro. Sim, ia ser que nem nos filmes, o cara sai com a moto e atravessa o vidro. Ideia maluca, mas ia funcionar, se bem que minhas experiências com vidro não tinham sido muito boas até o momento.

Achei que ia ter um bixo daquele no estacionamento de baixo, mas nem tinha. Subi na garupa da moto, e meu pai ia dirigir. Aí aquele maluco foi e disse, "Oa filho, tu vai ficar matando a galera com essa lança enquanto eu acelero. Mas usa uma das mãos pra se segurar em mim, porque eu vou rápido...". Eu já sabia que ia dar merda, mas vamo lá né, que outra escolha tínhamos? Enfim, ele ligou o motor e a gente desceu a rampa do estacionamento, chegando no P (Piso). Descemos muito rápido e ele acelerou com tudo em direção à porta de vidro da portaria, então me segurei com toda força nele.

Aí você se pergunta se deu certo. Bem, mais ou menos. A gente atravessou o vidro sim, mas além de nos fudermos a moto capotou. Um monte de bixo vinha de longe na direção da gente, mas em vinte segundos já iam estar comendo nossa carne. A moto com certeza tinha quebrado e não ia valer a pena tentar ligar ela. Então, já que numa situação dessas só ideia maluca ia valer a pena (como a que a gente tinha acabado de por em prática), eu abri espaço pra mais uma. É que sempre tinha uma viatura da polícia na frente do meu prédio, porque morava um ator famoso no meu prédio, e ele contratava polícia de segurança.

Então, porque não entrar na viatura e tentar dirigir? Meu primo tinha me ensinado a fazer ligação direta e a arrombar cadeado, e com a ligação direta dava pra eu ligar aquela viatura. Só que não era fácil fazer isso. Eu fiquei lá tentando, até que os bixos chegaram correndo na porta da portaria. Por sorte, o vidro quebrado atrapalhou eles, um tropeçou no chão e o vidro atravessou seu pescoço, mas os outros passaram direto. Quando eles já tavam na calçada, consegui. Começei a dirgir pela rua do meu prédio com o carro, enquanto os infectados vinham atrás. Ele mandou eu seguir em direção à agência da minha mãe.

Eu perguntava, "Mas e o João?", e ele ignorava. Era inútil voltar atrás, mas eu não aceitava o fato de que tinha que deixá-lo pra trás. Fazia isso com raiva, mas a ideia de reencontrar minha mãe me motivava. Enquanto dirigia, pensava, como isso tudo foi acontecer do dia pra noite? Tipo, em 3 dias o que era apenas mentirinha do noticiário se transformou num pesadelo. Eu tinha visto uma menina pular de um prédio um bixo arrancar o pescoço de um cara, meu pai atirar num troço escroto daquele, e estava dirigindo uma viatura da polícia depois de ter quebrado o vidro da portaria tentando atravessá-lo com uma moto. Não tinha sentido pra mim, tudo mudou muito rápido. Num mundo em caos, é assim mesmo, tudo acontece do nada e muito rápido. Eu não imaginava que fosse ser assim, tão fora do normal, mas foi né.

Meu pai ia dizendo o caminho e eu ia dirigindo. Só tinha dirigido uma vez na vida, no campo, que meu pai tava me ensinando a dirigir, só que não levamos isso muito a sério. Então eu tinha meio que improvisar. Quando pegamos uma boa distância de qualquer bixo daqueles, meu pai e eu trocamos de banco pra ele dirigir, afinal, aquela não era a melhor hora pra aprender né. Enfim, lá fomos nós. Deviam ser uns meio-dia. A gente evitava avenidas, porque todas estavam 100% trancadas por carros, e isso dificultou muito nossa chegada até a agência. Na metade do caminho, apareceu um cara com uma bolsa nas costas, correndo uns 100m na frente do carro. De primeira eu achei que fosse um monstro andarilho, mas não, era um cara normal mesmo. Ele tava gritando por ajuda e pulando no meio da rua enquanto balançava os braços pra a gente parar. O rapaz tava desesperado. Ele tinha aparência de uns 21 anos e tinha uma barba ruiva como seu cabelo.

Paramos o carro pra ele entrar. Suado, ele agradecia de uma forma desesperada pro meu pai. "Meu nome é Arthur. Obrigado, obrigado, obrigado(...)". Eu não dei a mínima, ele era inofensivo. Perguntamos o que ele tinha na bolsa dele, ele respondeu que apenas água e uns biscoitos. Queríamos que ele tivesse armas de fogo ou munição, mas no Brasil não é a mesma coisa que nos Estados Unidos, por exemplo. No Brasil só quem tem arma é policial, alguns tipos de médico e alguns tipos de advogado ou juíz. Ah, favelado também tem às vezes. Não podemos esquecer deles.

No fim das contas, enquanto meu pai dirigia pelas ruas esquisitas que a gente pegava pra não chamar muita atenção, ele falou que queria ir pro CPOR, o quartel da cidade. Tipo, tá, lá deve ter arma pra caralho, mas fica no bairro central da cidade, e fora isso deve ter uns andarilhos soldados também. Ah, quando eu falo andarilho eu me refiro àqueles monstros infectados.

A agência bancária da minha mãe ficava no caminho do CPOR, então combinamos de passar primeiro lá. Meu pai e esse cara tavam conversando quando eu percebi uma coisa, uma coisa muito, muito boa que eu não tinha pensado antes. Aquilo era uma viatura policial, era provável ter arma dentro. Quando abri o porta-luvas, tinha uma pistola e balas pra ela! Era idêntica à pistola que achamos na gaveta do advogado lá, então as balas funcionaram para as duas. Tinha três cartuchos, dois ficaram com meu pai e um comigo. Ele sabia atirar melhor que eu né...

Talvez tivesse mais armas na mala, então pedi pro tal do Artur examinar, e bem, tinha uma escopeta com umas cinco ou seis balas. Também tinha um distintivo, era bonito então fiquei com ele; a escopeta ficou com o Artur. Meu pai confiou a arma nele porque ele tinha um jeito muito de retardado, mas segundo ele mesmo, ia caçar com os irmãos de vez enquando fora do país, então ele teria experiência com uma arma. A tabacudisse dele mostrava que ele era inofensivo e que não faria merda com a gente.

Chegamos na agência. Tinham fechado as portas de vidro com uma tábua de madeira, daí não dava pra abrir. Meu pai tinha a chave da porta de trás, então a gente foi lá e entrou. Subimos umas escadas e lá estava minha mãe, com o braço com uma bandagem amarrada, pintada pelo sangue. Ela disse, chorando e com medo, que um daqueles bixos arranhou ela e por isso ficou assim. Depois ela deu um abraço na gente... Com ela, tava uma mulher aí e o gerente do banco.

Minha mãe tava com uma puta febre. Tossia, tinha dor de cabeça forte, dores no corpo inteiro... Meu pai tinha remédios na bolsa junto com os alimentos, mas ele não sabia o que dar à ela, ele não entendia nada dessas coisas de medicina... Acabou dando um trimedal sem ter certeza do que tava fazendo. Ela tava muuuuito quente, devia tá uns 43 graus.

A tarde chegava. A mulher e o gerente disseram que conseguiram escapar com minha mãe até a administração, que é onde estávamos no momento. Depois da porta, tinha outra escada, que dava na parte do banco mesmo, que por sinal tava toda arrombada. Ainda tinham bixos lá, então eles tentavam fazer muito silêncio. Foi sorte eles não terem nos visto quando tentávamos entrar pela porta da frente, deviam estar mais no fundo.

Demos comida à eles e esperamos até o anoitecer, pra ver se minha mãe melhorava. Eu ainda tava em estado de choque por tudo que estava acontecendo. Minha mãe tava pálida, e os seus olhos começavam a perder a coloração. Eu suspeitei bastante que ela ia virar um bixo daquele. Tipo, eu tinha visto na TV, antes de tudo começar, que isso era transmitido pelo toque, e minha mãe tinha sido arranhada, mas sei lá, podia ser que ela não se transformasse. Talvez ela só ficasse com febre mas depois melhorasse com os medicamentos, sabe? Eu não sabia que tudo acontecia com 100% de certeza. Digo, quase tudo.

Ela cuspia e tossia sangue. Ruía tudo de desespero, mas não podia gritar e botar a agonia pra fora, pra não chamar a atenção dos andarilhos que estavam do outro lado da porta. Eu agradecia pela sorte de eles não terem subido a escada ainda... Meu pai dava remédios desesperadamente pra ela, sem saber se tava fazendo o certo mesmo, mas coitado, ele só queria ajudar. Nós tentávamos ao máximo não tocar nela nem chegar muito perto dela, mas de um jeito que ela não percebesse, pra ela não se sentir pior. A outra mulher que tava lá com ela não ligava e tocava nela sem problemas. O gerente, mais esperto, já tava ligado nisso e por isso tinha cautela. Pois não demorou muito pra a mulher começar a tossir e gemer também. Tá, você sempre pôde pegar a gripe de alguém se tiver muito contato, então não consideramos isso como um sinal.

Já era de noite, e fomos dormir. Esse foi, finalmente, o momento que eu queria. Eu precisava refletir, pensar sobre tudo isso. Então lembrei do pessoal da escola, do resto da família, e pensei como tava o povo do resto do mundo. Então lembrei de ver na TV que na Oceania as coisas estavam melhores, mas, e se tiverem piorado? Então determinei um objetivo principal pra minha óbvia jornada pela frente: ir para a Oceania. Eu sabia que teria muitos outros objetivos pela frente, até chegar no principal, e sabia que teria pistas de como tudo tinha acontecido no meio da minha aventura, e isso só me deixava ansioso; e, de tanta ansiedade, caí no sono.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.