Notas iniciais
Acho que estou no meu prazo de postagem, não?
Espero que sim.
E espero que gostem.
:)

Se ele estava tentando fazer eu me sentir mal, estava conseguindo.

Lucy seria mesmo o único motivo pra eu voltar à Terra como vivo.

Não existiria outro.

— Isso ainda é... é confuso. – admiti. – Como vou andar por aí com um corpo novo?

— Você se acostuma. – ele riu.

— E esse... seu corpo. – perguntei, apontando para o corpo que não pertencia a John. – Você não é ele. Quer dizer... Sim, é ele, mas... Ah! Como é difícil! – resmunguei.

— Eu consigo fazê-lo dormir o tempo que quero, Brian. Tenho bastante experiência quanto a casos de reencarnação. Quando se tem muito controle sobre o corpo adquirido, consegue-se usá-lo como se fosse uma roupa.

Uma roupa? Faz sentido isso?

Havia uma série de dúvidas em minha cabeça, e não pude tirá-las de lá.

— Como se adquire um corpo? Não têm que estar nele desde pequeno?

— Às vezes, a criança é outro espírito. Uma pessoa morta, como nós, que tem uma missão a cumprir na Terra.

Eu teria conhecido alguém morto alguma vez na minha vida?

— E por que não continuam?

— Porque morrem.

— O quão normal é isso? – perguntei. – Você sabe, alguém hospedar o corpo de outra pessoa.

— É bem raro isso acontecer. Você é especial, Brian. Tem uma séria missão a cumprir. Acredite em mim.

Pensei na possibilidade de estar novamente sendo enxergado pelas pessoas.

Como aquilo fazia falta...

Se bem que eu não era enxergado também quando estava vivo, mas as pessoas ainda podiam me ver. Sentiam vergonha alheia da minha existência. Mas eu era visível.

Eu tinha outra chance. Talvez a única.

Tinha que aproveitá-la.

Se fosse mesmo tão necessário voltar, como John descrevia, dava até certo frio na espinha.

Se eu tivesse uma. E pudesse usá-la.

Ele ficou um tempo tirando minhas dúvidas.

O fato de as pessoas estarem o encarando me deixava com um certo desconforto, mas ele parecia não se importar.

Ele parecia se divertir com minhas perguntas. Como se eu fosse uma criança inocente perguntando sobre bobagens.

Precisei de um dia inteiro para me decidir entre o mundo dos vivos ou dos mortos.

A dúvida me intrigava, me deixava cheio de ansiedade.

Segundo John, o mundo dos mortos não era lá aquela maravilha de lugar.

Pelo que percebi sobre a sua explicação, o céu só se abre quando não se tem mais nada a fazer. Mesmo em outro corpo, mesmo em espírito. O mesmo acontecia com o inferno.

Se não cumprir, sumirá completamente.

Isso me deixava com um certo medo.

Pensar em não existir mais, não enxergar, ou simplesmente pensar.

Minhas desculpas para não aceitar viver mais um pouco na terra, estavam desaparecendo. Assim como o sol, à oeste.

Eu passara o dia inteiro no mesmo lugar.

Não somente na praça, claro. Mas naquela região.

As pessoas agora começavam a tumultuar novamente.

Eu saíra de lá, estava agora tentando me lembrar do caminho até a casa de Lucy. Quer dizer, nossa casa.

Vê-la certamente faria sentir-me melhor. Como sempre.

Concentrei-me no que havia mudado na casa: nada.

Lucy passara esse último mês sempre sentada na cadeira da sala, com uma xícara de café na mão e chorando ao olhar para a janela.

De vez em quando, alguém vinha visitá-la, mas ela logo expulsava a pessoa, voltando a ficar sozinha.

Observá-la dormir tornou-se minha parte predileta do dia – era o único momento em que ela não chorava.

Eu podia tocá-la, sabendo que ela não iria se assustar, pois seu sono a impedia de ficar com medo de algo.

Sua barriga havia crescido.

Eu imaginava a vida que estava por vir de dentro dela.

Imaginava como seria bom não estar só. Saber que existiam dois corações naquela casa.

Seria ótimo se aquilo não tivesse acontecido, e eu pudesse acompanhar cada centímetro da sua barriga esticar. Pudesse acompanhá-la, de todo modo. Pudesse tocá-la, a fazendo sentir-me. Pudesse beijá-la quando quisesse.

Mas isso não passava de sonhos.

Quando cheguei à casa, Lucy estava no quarto.

Estava se olhando no espelho. Observando de todos os ângulos e massageando sua barriga.

Estava sorrindo. O que me fez sorrir também, abobalhado.

Ela ria, com uma satisfação enorme de estar carregando aquela criança dentro de si.

Deixou-se cair na cama, perecendo pensar no futuro.

Uma lágrima pendurou-se nos seus cílios, mas ela ainda sorria.

Deixar escapar uma lágrima no momento de alegria, era uma coisa que nunca a vi fazer.

Ela negava-se a piscar, deixando com que a lágrima secasse por conta própria.

Mas fraquejou, e deixou com que essa e outras escorressem por sua bochecha.

Seus poucos momentos de alegria, normalmente não duravam muito tempo desde que ela não podia mais me ver.

Seus músculos se contraíam quando ela lutava para parar de chorar.

Eu nunca aguentei vê-la assim. Não era justo deixá-la daquele jeito.

Nem mesmo morto.

Com muita dificuldade, deixei o cômodo, e logo, a casa.

Indo à busca novamente de John. Já sabendo onde ele estaria.

Concentrei-me em voltar para a tal floresta.

Não sabia como fazia aquilo, mas conseguia, de todo jeito.

Fui exatamente até onde imaginei que ele estaria.

Perto do lago.

Ele me recebeu com um sorriso.

— Ora, finalmente voltou, hein?

— Não é tão difícil assim. – dei de ombros.

Ele apenas ficou me olhando, esperando que eu falasse primeiro.

— Então... – dei uma pausa. Escolhendo as palavras certas. Colocando-as em seu devido lugar. – Essa coisa toda de reencarnação... É difícil de se colocar um espírito num corpo novo? Como é exatamente... o procedimento?

Ele riu.

— Me parece que agora vê motivos para voltar à Terra. – ele me olhou um tanto satisfeito. – Não. Não é tão difícil. – ele disse, respondendo à minha pergunta.

— Eu... eu escolho o corpo em que vou ficar?

— Escolher um corpo? – ele riu, debochando de mim, fazendo-me corar. – O corpo te escolhe, Brian. Você vai automaticamente para o corpo certo. É o corpo, em parte, que vai terminar sua missão.

O meu medo era simplesmente acabar num corpo que não tivesse finalidade para nada.

— E... Demora muito? É como uma cirurgia? É tipo Frankestein?

Isso o fez rir.

Acabei dando um riso tímido também, percebendo a bobagem que eu acabara perguntando.

— É simples. Quando se toma a decisão de voltar, quando um novo corpo estiver preparado, você será sugado.

— Ahn... e... dói? – perguntei, com medo.

— Claro que não. Você é um espírito. – ele bufou.

— E... Alguma dica?

— Normalmente, a pessoa ainda não morreu, pode estar internada, ou qualquer coisa; se falarem com você, finja que conhece a pessoa; o antigo dono do corpo poderia ter tido problemas, então, enfrente-os como se fossem seus. Nunca mencione o fato da reencarnação se for muito necessário. Caso de vida ou morte. E... Bom, acho que é tudo. – ele deu um tapinha no meu ombro, percebendo meu medo. – Não é ruim. Você se acostuma logo.

Em dois dias, pensando sempre como seria essa coisa de ser "sugado", fiquei na floresta. Me contendo ao impulso de voltar a ver Lucy. Recebendo mais algumas dicas de como sobreviver novamente.

Senti algo estranho. Por ser um espírito, pensei que nunca sentiria náuseas. Mas pela primeira vez, aquilo aconteceu, deixando-me tonto.

Deixando tudo preto.

Notas finais
Gostaram? Ou ficou meio enjoativo?
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:)