Depois Da Morte
6 Feeling Strange
Notas iniciais
:)
Devia ter ficado desacordado por um bom tempo.
Horas, talvez.
Dias.
Meses.
Acordei em uma cama – ao julgar pelo contato das minhas mãos e braços com um colchão.
Por mais que quisesse, no primeiro momento em que soube que estava acordado, não consegui abrir os olhos.
Tentei mexer minhas pernas. Meus braços. Minha cabeça.
Nada funcionando, mas tudo em seu devido lugar.
Mas o que havia acontecido comigo?
Eu não lembrava de quase nada. Eu estava em casa.
Não, não estava em casa.
Eu tinha sido morto. Eu conheci alguém.
Como era mesmo o nome?
John. Ah, sim, John. O outro morto.
Eu tinha ido da minha casa para a floresta, estava me lembrando.
Eu senti náuseas, sim.
Depois de uns dias de John ter me falado de reencarnação, é verdade.
Tentei fazer meus olhos se abrirem, mas não consegui.
A única coisa que consegui enxergar foi um fundo um pouco claro das minhas pálpebras, indicando que eu estava num lugar claro, obviamente.
Ouvi sons de batimentos cardíacos.
Um pouco altos, para dizer a verdade.
Meus batimentos cardíacos. Minha pulsação.
Eu era um espírito, não tinha coração.
E no mesmo ritmo do meu possível coração, uma máquina apitava.
Uma daquelas maquininhas de hospital. Qual mesmo o nome?
Monitor cardíaco? Deve ser.
Aqueles apitos me irritavam, tanto que tinha que me concentrar em abrir os olhos.
E finalmente aquilo parou. Deixando um som final, que não tinha nada a ver com o meu coração.
Eu não sentia mais meu coração batendo. Eu não sentia minha pulsação.
Mas esse som era mais irritante que os outros. E então percebi uma pessoa fungando.
Por que eu não conseguia abrir os olhos?
Senti algo pressionando meus lábios. Era um beijo?
Um beijo de despedida?
Ouvi a mesma pessoa fungar de novo, e pronunciar “Adeus”, bem baixinho. Sussurrando, como se alguém pudesse ouvi-la.
Ouvi seus passos, saindo de perto de mim, abrindo uma porta.
E depois de alguns segundos, ela se fechou.
Eu ainda lutava para tentar mexer algum membro do meu corpo.
Com certeza tinha algo de errado.
O que eu não estava entendendo? O que eu tinha que entender?
Não demorou muito, e ouvi a porta de abrindo novamente. Passos se aproximando de mim.
“Isso aconteceu agora?”
“Sim. Eu estava tentando dormir, e a máquina parou de apitar.”
“Bom... Isso é um pouco difícil até para mim.”
“Ele morreu, doutor? Meu Finn... Está morto?”
“Sinto em dizer, mas sim.”
A mulher começou a chorar.
Ela me abraçou. E pude sentir seu corpo tremendo.
“Não, doutor. Não leva meu Finn! Eu preciso dele!”
Ela estava desesperada.
Assim como quando eu morri, e como quando Lucy ficou desesperada quando me viu daquele jeito.
Pensei em esperar para ver o que ia acontecer.
Provavelmente desapareceria.
Concentrei-me em abrir os olhos.
Mas só consegui sentir os tremores da mulher que estava agarrada a mim. Quer dizer, ao corpo que eu estava usando.
O choro começou a abaixar, assim como as náuseas voltaram a me “atacar”.
Eu sabia que aquela era a minha última chance de tentar abrir os olhos. E tinha de conseguir.
Tinha pouco tempo.
Consegui enxergar meus cílios, finalmente. E a máquina voltou a funcionar.
A claridade do cômodo afetou um pouco meus olhos, me obrigando a deixar eles pouco abertos.
Minha vista estava embaçada, mas consegui lembrar como se pisca, e limpei-as.
A mulher havia parado de só chorar por um instante. Ela agora estava rindo, e chorando ao mesmo tempo.
— Finn? Finn, meu amor! Você está vivo!
Ela me abraçava, e beijava meu rosto.
— Se acalme, ele ainda está fraco. – ouvi uma voz masculina, provavelmente o doutor com quem ela estava falando.
Com um pouco de resistência ela me soltou.
Eu podia vê-la claramente: um pouco baixa, cabelos ruivos, sardas no nariz e em parte das bochechas, olhos azuis, e lágrimas. Muitas lágrimas.
Olhei o lugar todo. Um quarto de hospital.
Duas poltronas brancas ao lado da cama onde eu estava. Cortinas também brancas. Paredes verdes e chão marrom.
Uma mesa ao lado da cama, e um vaso com flores coloridas em cima dele.
— Olá Finn, como está se sentindo? – o doutor perguntou-me.
Ele era um homem alto, de cabelos grisalhos, e olhos azuis. A mesma aparência de John. Mas eu sabia, de algum modo, de que não era ele.
Esforcei-me para falar, na primeira e na segunda tentativa só saíram grunhidos da minha boca.
— Eu... eu não sei. – respondi, na terceira tentativa, com a voz um pouco rouca.
Aquela não era a minha voz. Aquele não era meu nome.
— Sim, eu sei. Descanse. Converse um pouco com a sua namorada e depois venho vê-lo novamente, está bem? – ele disse, depois de me examinar várias vezes.
Assenti com a cabeça, mesmo não sabendo do que se tratava.
A mulher pegou minha mão. Ela estava sentada ao meu lado, numa poltrona.
— Oh Finn... – ela suspirou, e sorriu, com lágrimas ainda escorrendo por seu rosto.
Ela acariciava as costas da minha mão.
Olhei para os carinhos que estava recebendo. Carinhos de alguém que não conhecia.
Retirei, num movimento rápido, minha mão das dela.
Ela me olhou confusa. E logo uma expressão de preocupação tomou conta de seu rosto.
— Me desculpe! Eu te machuquei, meu amor?
“Amor”?
Aquela não era Lucy. Como podia me chamar de amor, assim, sem mais nem menos?
Quem ela pensava que era para falar assim comigo?
Afinal, quem era eu?
Notas finais
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:)
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