Depois Da Morte
2 Reencarnação
Notas iniciais
Espero que gostem.
:)
Eu não deveria ficar parado. Pelo menos eu acho.
Poderia não estar morto. Poderia estar apenas tendo aquelas “visões” de quase morte, em que as pessoas contam como é poder ver sua vida passando em frente à seus olhos, assistir a si próprio sendo ressuscitado por um desfibrilador, e logo após sentir-se sendo sugado pelo corpo.
Mas nenhuma delas já contou estar em uma floresta, ou milharal. Eu poderia ser uma exceção.
Resolvi levantar de onde estava caído, ao lado de uma árvore alta, com raízes que chegavam a ultrapassar meu tamanho.
Quase caí ao tentar me colocar de pé, pois não sabia que ainda estava um pouco tonto. Fui cambaleando até a próxima árvore, e a próxima, e a próxima, sem rumo algum. Procurando alguma coisa que respondesse minhas dúvidas.
Deveriam ser umas cinco e meia da manhã, pois o Sol ainda estava um pouco escondido, mas o céu estava claro.
Conforme andava, pude ver a sua beleza ao nascer. Bem ao longe.
Aquele céu laranja, com metade do Sol aparecendo, era uma coisa inacreditável.
Em toda a minha vida, nunca parei uma vez se quer para poder apreciar esse espetáculo. Devo ter visto uma ou duas vezes quando era criança, mas desde que comecei a trabalhar, com 14 anos, nunca mais me interessei por isso.
Logo após desses cinco minutos terem passado, me perguntei o porquê. O porquê de não ter aproveitado a vida enquanto podia. Agora estava aqui, morto, sozinho, com uma alma que não desapareceu.
Desabei no chão. Não tinha um sentido para continuar andando. Estava sozinho naquele lugar. Deveria aceitar.
— Com licença?
Uma voz masculina. Provavelmente um homem com seus 40 anos. Parado em pé ao meu lado.
— O senhor está acordado?
Eu não havia respondido da última vez. Estava sentado, com a cabeça apoiada nas mãos.
— Sim. — respondi.
Levantei o rosto e me direcionei a ele. O homem tinha um rosto amigável. Ainda poderia dizer que ele tinha 40 anos. Cabelos grisalhos, olhos azuis. Não deixei de reparar que ele estava com uma jaqueta igual a minha nas mãos. Mas estava vestido com uma. Então poderia adivinhar que aquela em suas mãos não era dele. Só depois percebi que estava sem a minha.
— Essa jaqueta é sua? – ele perguntou, se sentando ao meu lado, e me entregando a peça de roupa.
— Sim. – peguei-a de suas mãos, e a coloquei. – Obrigado.
— A achei num milharal não muito longe daqui...
Como assim “não muito longe”? Eu andei durante vinte minutos e não achei a porcaria do milharal.
— Obrigado novamente.
— Não há de que.
Ficamos em silêncio depois disso. Eu sabia agora que não era o único daquele lugar, porém nunca soube como puxar assunto.
— Está pensando na sua família? – ele me perguntou, quebrando o silêncio.
— Estou pensando em como vim parar aqui. – eu disse, ainda com os olhos fechados e com o corpo e a cabeça encostados na árvore.
— Posso te ajudar a se encontrar aqui. Meu nome é John.
Abri os olhos e vi que ele estava com a mão estendida pra mim.
— Sou Brian. – o cumprimentei.
— Prazer Brian. – ele sorriu. – Sou psicólogo, posso te ajudar a entender o que não consegue. Se quiser, é claro.
— Agradeço desde já.
Ele sorriu novamente.
— Bom, por onde devo começar...? Você se lembra de alguma coisa que provavelmente possa ter acontecido?
— Me lembro de ter morrido.
Imaginei que ele ficaria um tanto surpreso. Mas me enganei.
Ele apenas deu um sorriso, um pouco tímido.
— Pode dar detalhes?
Contei toda a história desde onde me lembrava.
Ele estava sempre prestando atenção, sempre muito sério.
— Isso é bobagem não é? – zombei de mim mesmo num tom sarcástico.
— Claro que não. Por que seria?
— Essa coisa de dizer que eu “morri”.
— Pode ser verdade.
— Eu não acho que seja real. Quem sabe estou ficando louco. Ou tendo um pesadelo. Ou tendo lembranças de uma vida passada...
— Uma possível reencarnação é aceitável.
— Acha que eu já vivi outra vida?
— Algumas pessoas relatam já ter vivido anos antes. Ou até séculos.
Eu não acreditava em reencarnação. Pois eu me lembro muito bem do que havia acontecido.
— Bom, acho que esse não é o meu caso. Me lembro muito bem de como morri. E não foi há muito tempo atrás.
Estávamos já andando. Não sabia aonde John iria me levar, mas eu o seguia do mesmo jeito.
Ele olhava para seu relógio todo o tempo. E parecia um pouco preocupado, olhando de um lado para o outro.
— Que horas são? – perguntei.
— Hora de você ver aquilo. – ele apontou pro céu, pro nada.
Eu só via nuvens. Nuvens negras, indicando chuva.
Quando eu iria perguntar se ele estava brincando ou algo do tipo, comecei a ver imagens se formando a partir das nuvens.
No início achei que seria apenas coincidência, mas a imagem foi se transformando numa espécie de vídeo.
Um vídeo em que eu estava caído no chão. E Lucy ajoelhada ao meu lado, ainda gritando por socorro.
Imaginei que poderia ser quando eu havia sido baleado. Mas não. Aquele era um “vídeo” de minutos depois que morri.
Os mesmos homens voltaram e pararam o carro em frente à nossa casa. Desceram e pegaram meu corpo. Colocaram no porta-malas, e foram embora. Deixando Lucy aos prantos e paralisada.
Minha primeira reação foi chorar. Eu não podia ter deixado Lucy sozinha. Prometi pra ela que estaríamos juntos até a sua morte. Que não me separaria nem um segundo da sua presença.
Mas agora estou aqui. Chorando, num lugar onde não sei pra onde ir. Apenas na companhia de um psicólogo que não conheço.
— Não precisa chorar, você ainda vai poder vê-la. – John disse, colocando a mão em meu ombro, me fazendo levantar a cabeça. Se havia entendido bem, eu tinha mais uma chance.
Mais uma chance de ver minha Lucy.
— Vou poder? – perguntei, ansioso pela resposta.
— Sim. A vida é como um jogo. Se você acha que sua meta de vida não foi cumprida, pode continuar de onde parou.
— Mas... como eu vou fazer isso? Eu estou morto.
Ele me respondeu simplesmente fazendo outra pergunta.
— Você acredita em reencarnação?
Notas finais
Espero que sim.
Critiquem, elogiem, deem ideias. Se sintam livres para comentar o que quiserem.
:)
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