Notas iniciais
Espero que gostem.
Podem se decepcionar, aviso desde já.

Claro que não acredito. Nunca acreditei.

- Não. – respondi.

- Achei que iria responder isso. Você vai precisar de tempo para entender exatamente a questão.

- Que questão? – quis saber.

- A questão pela qual você não sumiu totalmente.

- Eu me pergunto isso desde que apareci naquele milharal.

Ele apenas riu. Riu, e começou a andar novamente.

- Posso saber por que você sempre sai andando pra algum lugar? – quebrei o silêncio.

- Eu tenho coisas a fazer. – ele riu, num tom de desprezo. – E não pedi pra você me seguir.

Ele tinha um pouco de razão. Parei de segui-lo. Esperei até ele sumir da minha vista e me sentei perto de um lago. Ele não havia olhado pra trás em nenhum momento.

Fiquei atirando pedrinhas para passar o tempo. Mas o tempo passava muito devagar enquanto eu pensava na vida que tinha deixado.

O que aconteceria com Lucy? Eu a deixei sozinha, provavelmente ainda está em estado de choque. Tremendo, enquanto tenta ligar para a polícia.

E nosso filho? Com um susto desses que Lucy teve, me surpreenderia se ele ainda estivesse vivo.

Aquela sensação de estar perdido voltou novamente. Sim, eu estava realmente perdido. Não tinha nada a fazer. Minha alma, porém, ainda existia. Meu coração batia normalmente, como se eu ainda estivesse vivo.

Mas eu sabia que estava morto. Eu me lembro do que aconteceu. Provavelmente lembro dos rostos dos homens. Das suas fisionomias.

Não consegui parar de pensar em Lucy. Seu rosto, seu doce sorriso. Seus brilhantes olhos castanhos. Seus cabelos cacheados, macios. O amor que tinha por mim.

As lágrimas voltaram a cair dos meus olhos. O medo voltou a tomar conta de mim.

A voz de Lucy ainda estava na minha cabeça. Nossos momentos mais felizes estavam sendo relembrados pelo meu cérebro. Nosso casamento. Nossos infinitos beijos.

Minha vida toda estava sendo passada como um filme.

Eu ainda podia ouvir os soluços de Lucy. Seu choro. Quando a deixei. Era como se fossem reais, quase ao meu lado. Um pouco reais de mais.

Com os olhos fechados, eu poderia dizer que eram reais. Assim como de olhos abertos.

Sim, Lucy estava na minha frente. Ainda aos prantos. Caída no chão da sala. Tentando, sem sucesso, alcançar o telefone. Provavelmente para pedir ajuda.

Eu ainda estava na mesma posição de quando me sentei perto do lago. Havia praticamente sido tele transportado para onde eu mais queria. Para perto da minha Lucy.

Tentei me levantar, com um pouco de esforço.

- Lucy! Lucy! – eu dizia, indo a sua direção.

Ela parecia não perceber minha presença. Ainda estava soluçando, tentando discar algum número. Mas suas mãos tremiam muito, ela mal conseguia manter o telefone parado.

- Lucy? – consegui chegar perto dela.

Tentei tocá-la, mas existia uma espécie de barreira em sua volta. O que me impedia de fazer qualquer coisa.

– Eu tenho que... que conseguir. – ela dizia, em meio aos soluços.

Tentei tocá-la, abraçá-la, beijá-la, mas eram apenas tentativas. Eu não sabia o que tinha em volta dela. Não via nada. Porém, quando ia tocá-la, aquilo quase que me empurrava para trás.

Ela ainda não havia conseguido nada. Seu corpo todo tremia. Ela soluçava mais do que uma criança.

Tentei pegar o telefone inúmeras vezes, mas tudo o que eu tocava, me mandava para trás.

Como se fosse uma barreira invisível, ou que quer que seja, brilhava quando eu a tocava.

Eu ainda estava tentando entender o que acontecia naquele momento. Nada me vinha à cabeça.

Eu era um fantasma? Sim, um fantasma. Lucy não conseguia me ver. Porém nunca ouvi falar de que fantasmas não tocam em coisas.

Eu estava distraído, enquanto pensava nisso. E mal havia percebido que Lucy agora estava de pé, me olhando, parecendo me enxergar.

Ela chegava mais perto, cada vez mais perto. Esticou a mão, obviamente para me tocar. Para ver se aquilo era verdade.

Mas desistiu. Sacudiu a cabeça, a fim de tentar tirar isso da mente. Pensando que isso era uma besteira. Que estava ficando louca.

Não pude deixar de perceber que meu nome era sempre citado por ela, pelos seus lábios, e logo após, uma lágrima escorria por uma de suas bochechas rosadas.

Eu a olhava, chamando por ela. Assim como ela também fazia. Ficamos nos encarando, até que aquilo foi desaparecendo.

Fui praticamente sugado de volta para perto do lago.

Aquilo tudo era muito confuso.

Eu havia desejado estar de novo com Lucy, e lá estava eu. Ao seu lado. A encarando. Como fazíamos quando brigávamos. E logo após, ela me beijava. Não conseguíamos ficar bravos um com o outro. Era impossível.

Porém agora estávamos novamente separados. Talvez pra sempre.

Eu me perdia em pensamentos ruins. Pensamentos de que eu nunca mais encontraria com Lucy. Que ela teria de viver sozinha. Talvez encontrasse outro homem, e vivesse com ele para o resto da sua vida.

Dormi, com pensamentos ruins. Tive vários pesadelos. Mas acordei quando ouvi Lucy me chamar novamente.

– Brian... Brian...

Aquilo vinha bem de longe. Mas eu sabia que era Lucy, sabia que era sua voz.

- Lucy?

Eu a chamava também, mesmo não sabendo onde ela estava.

Apareci novamente na nossa casa. Atrás de Lucy.

Ela estava sentada em uma cadeira, perto de uma janela. Estava escuro, estava nevando. Já se passou um mês? Sim, se passou um mês.

Eu não havia percebido muito bem isso. Sabia que tinham se passado muitos dias.

Foram dias ruins. John não apareceu depois daquele dia, e eu tinha que sobreviver dormindo em uma espécie de casinha que achei.

Ela era meio escura, e fria. Parecia abandonada. Mas era aconchegante. Me protegia da chuva, das tempestades de neve.

Estava começando a entender que tinha que voltar de novo para a Terra. Mas não conseguia. Lucy às vezes me chamava, mas eu só conseguia a ouvir.

Ela se lamentava por não ter pelo menos me enterrado, já que haviam sumido com meu corpo.

Ela se lamentava por eu não estar com ela.

Eu me lamentava por tudo.

- Eu sei que você está aqui, Brian. – ela disse. – Eu consigo te sentir. Sentir seu amor.

- Lucy? Você consegue me ver? – perguntei.

- Brian...

Pelo jeito, ela não conseguia me ver. Ficava olhando pro nada.

- Já faz um mês que você morreu Brian... E... Eu acho que não estou suportando isso. – ela estava aos prantos de novo. – Eu sinto muito a sua falta Brian.

- Lucy...

Eu sabia que ela não podia me ouvir. Mas como ela mesma disse, podia me sentir. "Sentir meu amor.". Pois, sim, eu a amava.

Dizem que a saudade ajuda a aumentar o amor. E era isso mesmo que estava acontecendo comigo.

Eu sentia uma vontade incontrolável de poder beijá-la novamente. De poder sentir seus lábios, seu abraço, seu calor. De saber que isso era apenas um pesadelo. De poder conhecer nosso filho, poder tocá-lo, abraçá-lo, dar amor à ele. Assim como queria que acontecesse com Lucy.

Notas finais
Gostaram? Eu não estava muito inspirada, desculpem.
Espero reviews.
:)