Notas iniciais
Agora eu PROMETO pra vocês que vou voltar a postar os capítulos.

- John? Onde você está?!

Eu gritava no meio das ruas de Nova York.

Nunca ninguém poderia me ver, pelo menos na situação em que eu me encontrava. Não me importava se um ou dois percebessem minha presença, ou esbarrassem em algo “invisível”.

Era assim que eu me sentia. Invisível. Não estou falando depois de morrer, mas antes de aquela bala me acertar.

Eu nunca fui muito popular. Fui sempre o excluído da escola. O estranho do trabalho.

Trabalhava numa fábrica. Os funcionários de lá eram todos amigos, todos brincalhões. Mas eu era diferente.

Eu apenas trabalhava. Não conversava com ninguém. Muito menos saía para bares, festas, boates de strip, e outros lugares com eles.

Alguns até me chamavam, mas se arrependiam depois de outros me recusarem.

Aconteciam muitos acidentes. Já vi muitos empregados de lá morrerem na minha frente. Ou queimados, ou presos em uma das máquinas de cortes. Me surpreendi quando percebi que eu havia morrido por um disparo, não com a cabeça decepada.

Se não fosse por Lucy, eu garanto que minha vida seria escura. Assim como aquela fábrica. Assim como aquela manhã.

As ruas estavam lotadas de pessoas indo trabalhar. Crianças indo pra escola, se recusando em ir com o ônibus escolar.

Homens passando de terno, com suas maletas pretas nas mãos. Alguns de óculos. Cabelos lisos escovados, partidos ao meio, ou ao lado. Perfumados. Apressados para chegar ao seu escritório. Esbarravam em mim, mas mal percebiam. Não enxergavam o que lhes havia à frente.

Mulheres com saias curtas, deixando suas coxas musculosas ou magras à mostra,blazers que mal cobriam suas barrigas definidas. Lutando para revezar entre andar apressadas nos saltos de agulha vermelhos, tentar alcançar o batom na bolsa, tirar o cabelo do rosto e esticar suas blusas sociais para que não se apareça o umbigo. Alguns homens as olhavam com certa admiração, outros com perversão, outros até chamando-as a atenção com assobios ou cantadas.

Mães brigando com seus filhos sonolentos enquanto os levavam para o pré-escolar. Alguns mal haviam completado dois anos. Alguns ainda de colo, dormindo.

Porém nenhum deles me enxergava. Nenhum deles parava para apreciar o mundo. Todos naquela mesma rotina: trabalho; casa; trabalho; casa. Não se importando com o mundo belo que estava à sua volta.

Porém eu também fazia isso. Naquele meu mundo onde tudo era escuro, até voltar pra casa, para ver novamente a luz, a felicidade. Eu não me importava em ver ao meu redor, em apreciar a cidade. Era sempre aquele mesmo caminho todos os dias.

Percebi que um homem parecia me enxergar. No meio daquela multidão, alguém parecia não se importar em chegar cedo no trabalho. Alguém parecia não trabalhar. Sentado em um banco, apreciando os pombos que se acumulavam ao seu lado, os cachorros de rua que iam procurar brincar com alguém. Apreciando o céu cinza, indicando que iria chover logo.

Usava roupas de um homem comum com seus trinta anos. A barba, ainda por fazer, lhe causava um certo incômodo.

Parei de chamar por John, e fui em direção ao tal homem. Que enquanto me observava chegar perto, sorria.

- Olá Brian.

Ele havia me cumprimentado. Havia se levantado. Estendido a mão. Ele me enxergava.

Ele me conhecia.

- É falta de educação não responder as pessoas.

Estava eu falando com alguém vivo? Ou um morto, como eu?

- Ahn, olá.

Hesitei antes de apertar sua mão. Mas ele fez uma cara de “Pode apertar, eu não mordo”.

- E então? Um dia bonito, não? – ele disse, se sentando novamente no banco.

As pessoas olhavam para ele como se fosse um doido. Com desprezo. Algumas até evitavam passar ao seu lado. Algumas riam e comentavam com alguém que estava ao lado. Outras, pelo canto do olho, se seguravam para não deixar escapar uma risada.

- Me desculpe... Quem é você? – perguntei, um pouco desconfiado.

Ele riu.

- Não me reconhece Brian?

“Não, nunca te vi na vida. Diria que você é um louco, assim como as outras pessoas estão fazendo nesse exato momento.” Pensei.

- Na verdade, não.

- Nem pelo jeito de falar?

- Não.

- E se eu te dissesse que você ficará como eu?

Louco?

- Como assim? Como você...?

- Com outro corpo.

Sim. Agora eu o reconhecia. Era John. Em um outro corpo, mas com as mesmas fisionomias. Os cabelos não eram grisalhos, mas a barba sim. Os olhos ainda eram azuis. E o jeito de se vestir, também.

- Não ligue para a minha barba. – ele disse, tocando-a, e fazendo uma careta de desaprovação logo após sentir-se pinicado por ela.

- Como você...? — Não consegui terminar a frase.

Ele riu novamente.

- Como eu estou em outro corpo? Ora, assim como eu disse que aconteceria com você, se quisesse.

- Mas... Eu já havia lhe dito que não acredito em reencarnação.

- E o que está vendo agora? Uma alma em um corpo diferente ao corpo antigo?

- Sim. – murmurei.

- Pois então. Está vendo essas pessoas?

Ele apontou para todas as pessoas que estavam naquele lugar. Todas com olhares de medo, discriminação, e algumas, com pena.

- Eles podem me ver. Mas não podem te ver. Por isso estão me achando um estranho.

- Mas alguns já pararam para me olhar antes de seguir novamente seus caminhos.

- Pois alguns deles, só alguns, prestam muita atenção no que acontece à sua volta.

- Isso é confuso. – admiti.

- A reencarnação já é algo confuso. Mas você tem que entender que ainda tem uma missão a cumprir na Terra.

– Com licença, o senhor está bem? – uma mulher, um pouco gordinha, alta, e com uma face bondosa colocou a mão no ombro de John. Seus olhos tinham um ar meio amigáveis. Poderia ser uma daquelas voluntárias em casas de repouso.

- Sim, eu estou ótimo. – ele respondeu, com um sorriso. – Gosto de falar sozinho. Meu psicólogo disse que faz parte da minha terapia. – ele explicou a mentira.

A mulher foi embora, ainda sorrindo. Mas não o desprezando, mas parecendo entender o que ele dizia. Acreditando no que ele acabou de contar. Me ignorando, como se eu não existisse.

Na verdade eu não existia mesmo. Existia apenas para mim, Lucy, e, espero, John.

- Você não tem um psicólogo. Você é um morto. – eu disse.

- Eu sou meu próprio psicólogo. Não se lembra?

- Sim. Pois então, qual é a tal missão que tenho que cumprir?

- Você mesmo tem que descobri-la. Não seria certo eu te dizer, seria?

- Estou achando isso uma completa perda de tempo.

- Tem certeza? Pois eu acho que ter uma nova chance é uma ótima coisa.

- Eu já morri. Não tenho mais o porquê e como voltar pra Terra.

- E por que você acha que ainda está vagando por Nova York? Por que acha que ainda não sumiu?

- Continuo achando uma perda de tempo... — murmurei.

- E sua esposa? Acha ela uma perda de tempo? Acha Lucy uma perda de tempo? Ela não é um motivo pra você voltar?

Notas finais
Não deixem de acompanhar a história, ela é muito importante pra mim.
:)