Demons Inside
1 Pilot
Notas iniciais

Norman, Oklahoma
O caso era mais complicado do que parecia. Foi isso que os irmãos Winchester perceberam quando não conseguiram encontrar nenhuma informação sobre o que caçavam. A criatura não tinha registros no diário de John, nos livros de Bobby e muito menos nos da biblioteca da cidade.
– Tem certeza que não tem nada, Bobby? – Sam perguntou outra vez.
– Caramba, Sam, essa é a quinta vez que me liga para me fazer essa mesma pergunta! – o homem respondeu irritado do outro lado da linha.
Impaciente, o Winchester mais velho pegou o celular da mão do irmão, colocou no viva-voz e falou de uma vez só, ainda mais irritado que Bobby:
– Foi você quem nos mandou nessa roubada e não sabe como matar a criatura? Sabe pelo menos que merda é essa?
– Hey, calma ai, garoto! Acha que sou idiota ou o que?
– Então fala logo como podemos matar a coisa!
– Estou tentando entrar em contato com um caçador, o Mike. Ele é especialista nesse tipo de criatura. – Bobby argumentou.
– E nós não somos não? – Dean ironizou.
– Especialista em criaturas não catalogadas, idiota! Vou pedir a ele que encontre vocês.
– Só pergunte a ele o que é e como matamos e nós nos viramos aqui!
Bobby suspirou do outro lado. Sabia como o Winchester mais velho se sentia. Ele estava completamente irado. Não tinha almoçado porque estava procurando pistas, nem dormido na noite anterior também procurando por pistas. Se perguntava como Sam podia se manter tão tranquilo estando na mesma situação que ele.
– Estou tentando falar com ele, mas esse filho da mãe miserável está ignorando minhas ligacões.
Antes que Dean pudesse demonstrar mais ainda a raiva mal-contida que sentia, Sam tirou o celular do viva-voz.
– Bobby, vamos continuar procurando uma solução e enquanto isso tente falar com esse Mike. – falou e desligou sem esperar por resposta. Também estava irritado, mas preferia não deixar isso afetá-lo. Um Dean nervoso já valia por quatro dele.
Os dois ficaram calados olhando o movimento da rua recostados no Impala por um tempo, até Sam resolver quebrar o gelo.
– Bem… Acho que esse caso está um pouco além do que nós sabemos. – admitiu, ainda observando a rua.
– Enfrentamos milhares de criaturas, você morreu, eu voltei do inferno e não sabemos como cuidar de um monstrinho? – Dean bufou e bateu no volante com força – Ah, qual é, Sam! Vamos só juntar tudo o que temos. Estacas, balas de prata, sal, tudo, e partimos para cima!
– Partimos para cima e morremos. – Sam revirou os olhos – Vamos voltar naquela biblioteca e continuar procurando.
Sem querer discutir mais, Dean ligou o carro , pisou fundo no acelerador e guiou pelas ruas até encontrar o prédio antigo que abrigava a bilioteca municipal.
Enquanto Sam procurava nos livros de folclore, lendas e histórias algo que fosse parecido com o que estava acontecendo naquela cidade, Dean relia os recortes de jornal e as anotações que o mais novo havia feito sobre o caso e as vítimas.
– Ok… — murmurou quando terminou de ler – Essa coisa está pegando pessoas, as arrastando pela cidade deixando o rastro de sangue. E mesmo assim ninguém vê isso acontecendo ou ouve os gritos da vítima. E não existe nenhuma ligação ou algo em comum entre as dez pessoas que morreram até agora.
– Isso aí. – Sam concordou, voltando logo para a sua leitura.
A pesquisa se estendeu até que o sol já estava se pondo e a biblioteca já estava fechando. Enquanto voltavam para o motel onde estavam hospedados, Sam contou o que achou.
– Encontrei registros sobre um acontecimento igual que aconteceu há dois anos numa cidade do interior do estado, mas só cinco pessoas morreram e elas também não tinham nada em comum.
Dean estacionou o carro e começou a caminhar em direção ao quarto, pensativo.
– Alguém deve ter pegado ele antes que matasse mais gente. – constatou, enquanto abria a porta e entrava no lugar.
– Eu o peguei. – uma voz falou, e os dois irmãos puxaram suas armas e apontaram para o outro lado do quarto, onde um homem estava sentado na poltrona de couro velha que havia ali.
Sam e Dean se entreolharam e voltaram a encará-lo. Ele devia ter cerca de trinta e cinco anos, seu rosto e suas roupas gritavam que não dormia há muito tempo, fazendo conjunto com a barba e o cabelo castanho bagunçado.
– Quem é você? — o Winchester mais novo perguntou.
– Mike Hart em carne, osso e armas para matar a coisa que estão caçando.
Os dois encararam Mike desconfiados, mas abaixaram as armas. Andaram cautelosamente até o homem, ainda deixando um bom espaço entre eles.
– Pensei que o Bobby não tinha conseguido falar com você. – Dean estreitou os olhos.
– Ele falou comigo faz uma hora, mais ou menos. Estava pela cidade. – ele pigarreou — Digamos que pessoas famosas como vocês são fáceis de rastrear.
Os três ficaram em silêncio por alguns segundos, como se analisassem a situação, até Sam se pronunciar:
– Então você sabe o que é a coisa.
– E como podemos matá-la. – Dean completou.
Mike sorriu orgulhoso e tirou um caderno da mochila que carregava, que parecia com um diário, e colocou sobre a mesa de centro em frente á poltrona.
– Está aqui. Tudo o que já enfrentei durante a vida.
– E que criatura estamos enfrentando? – Sam perguntou.
– Ésmiro.
– Saúde. – Dean respondeu – Mas qual criatura estamos enfrentando?
Mike suspirou e revirou os olhos antes de explicar.
– É um Ésmiro.
– Ah. – foi a única coisa que o outro falou.
– Mas o que é isso? – Sam perguntou confuso.
– Uma entidade muito antiga. A cada cem anos ela acorda para se alimentar com a alma das pessoas da cidade onde está.
– Mas ele veio há dois anos. Não poderia acordar de novo. Não se passou nem meio século. – Dean comentou.
– Mas ele pode ser evocado. – Mike abriu o diário na página em que havia a descrição da entidade e uma imagem desenhada á mão de um corpo nu completamente deformado e o rosto tampado por uma máscara.
– Você desenha bem. – Dean balançou a cabeça, admirado.
– É… Acho que sim. – Mike fez uma careta, mas logo a desfez – O importante é que Ésmiro mata doze pessoas, cada uma nascida em um mês do ano na ordem certa dos meses.
Sam pegou as folhas que continham as informações sobre pessoas assassinadas e colocou na ordem certa de acordo com o mês de nascimento.
– Como não percebi isso antes? Estava fora da ordem! – ele estava inconformado, encarando as fichas como se fossem um quebra-cabeças.
– E agora só faltam duas pessoas para que a cidade toda se consumida. – Mike deu de ombros.
– Epa, você não tinha citado essa parte. Que história é essa de “cidade consumida”?
– As doze pessoas são só um ritual. Servem para selar Norman. O alimento de verdade são todas as pessoas que ficarem presas por esse selo.
– Então faltam pessoas nascidas em novembro e dezembro… — Sam constatou.
– Vamos ter que procurar por todos em Norman que nasceram em novembro? Isso é impossivel! Ainda teríamos que proteger todas elas! – Dean andou de um lado para o outro do quarto.
– Tem um jeito mais fácil. – Mike revelou, tirando um mapa da cidade e uma caneta vermelha da mochila.
Ele abriu o mapa sobre a mesa e usou a canta para riscar dez linhas retas que cruzavam a cidade de uma ponta á outra, formando um tipo de asterístico.
– Este é o símbolo de Ésmiro, que sela a cidade. Cada uma das pessoas mortas morava na ponta de uma dessas linhas e foram arrastadas até a outra ponta dela.
– Está usando o sangue das pessoas para formar símbolos sobre o lugar e selá-lo. – Sam compreendeu.
– E então teria alimento para um século inteiro. – Mike terminou, com um sorriso de quem não estava nem um pouco surpreso com um esquema tão complicado quanto aquele.
– Então vamos pesquisar as pessoas nascidas em novembro nas pontas da cidade. – Dean falou para si mesmo – Inteligente…
°°°
Já eram dez da noite quando os irmãos Winchester chegaram a um bairro quase desabitado nos arredores da cidade e procuravam a casa onde morava um homem nascido em novembro. Enquanto isso, Mike estava exatamente do outro lado da cidade, vigiando o lugar onde uma mulher que também nascera no mesmo mês morava. Os três caçadores carregavam uma uma estaca feita da madeira da árvore Lignum Vitae embebida em sangue de gato preto misturado com ervas exóticas que a maioria das pessoas deveriam desconhecer a existência.
– Argh, fala sério, porque um cara anda com um vidro com sangue de gato? – Dean perguntou, girando a estaca na mão enquanto andava.
– Para momentos como esse. – Sam suspirou.
– Você acha que ele rouba gatos para pegar o sangue deles?
– O importante é isso funcionar, Dean.
– Claro, Sammy. Vamos acabar logo com isso.
Os dois pararam na frente de uma casa branca com uma varanda tão cheia de plantas que era quase impossível ver as plantas. Todas as luzes estavam apagadas, mas as janelas abertas, deixando a dúvida se o homem, Carl Edger, estava em casa ou não.
Enquanto isso, Mike estava sentado no meio-fio, observando a casa de Mary Elizabeth Carter do outro lado da rua, que se encontrava na mesma situação da de Carl. Não que o caçador tivesse percebido algo estranho, já que sua mente estava em outro lugar – não tão longe – e nos problemas que sabia que ainda teria que enfrentar. Até que, de repente, uma das janelas na lateral da casa de estilhaçou, e um vulto branco saiu dela, caindo na grama. Mike correu até o aglomerado de tecido pálido, tingido parcialmente de vermelho, jogado ali e, constatando quem era, tratou de pegar o celular.
– Winchester… — fez uma pausa antes de continuar – A mulher, Mary Elizabeth, está morta. O alvo é o cara da casa onde estão.
Do outro lado da cidade, Dean encarou a casa com o telefone ainda grudado na orelha, procurando por algum movimento suspeito, sem encontrar nada.
– Tem certeza?
– Tenho. Absoluta. – Hart respondeu do outro lado – Vou tentar chegar aí o mais rápido possivel para ajudar.
– Tudo bem. Vamos entrar na casa e conferir. – o outro respondeu e desligou, olhando para Sam e sinalizando que deveriam entrar.
Os dois chutaram a porta ao mesmo tempo, fazendo-a se abrir e bater na parede ao lado com um estrondo, mas não houve qualquer movimento na casa. Com a estaca a posto e a lanterna iluminando o caminho, Dean ficou no primeiro andar enquanto Sam subiu as escadas para o segundo. Tudo parecia tranquilo, nada fora do lugar e nenhuma entidade solta por aí, nem pessoas mortas.
– Alguma coisa, Sam? – Dean gritou da cozinha.
– Nada aqui em cima. E aí?
– Nada também.
O mais novo voltou para o primeiro andar e olhou em volta pela sala. Parou bem no centro dela, tendo a sensação de que algo ruim estava para acontecer a qualquer momento.
– Sam Winchester… — uma voz feminina chamou seu nome da porta, que eles tinham deixado aberta.
Ele se virou, encarando uma mulher loira e bronzeada, vestida numa calça jeans apertada e uma camiseta com um decote que deixava metade dos seios á mostra. Parecia normal, se não fossem os olhos vermelhos.
– Ésmiro. – Sam constatou.
– Ao vivo e a cores, querido. – ela sorriu andando na direção de Sam – Mas, infelizmente, já matei o de maio… Adoraria sacrificar alguém como você para me alimentar.
Sam segurou a estaca mais forte e em posição para cravá-la na entidade á sua frente assim que a oportunidade surgisse.
– Bem, podemos resolver isso… — ele falou com um sorriso cínico – Eu posso te matar.
A mulher riu alto, uma risada que se não fosse tão maligna seria bonita.
– Ah, não, querido. Tenho outros planos. Sabe, odeio cascas femininas, e minha forma original… Ela não atrairia muito bem os meus sacrifícios. Então a minha ideia é a seguinte: nós vamos lutar, porque você não cederia tão fácil, e eu vou ganhar a luta. E então vou usar seu corpo como casca.
– Nem pense nisso. – Dean apareceu na porta da cozinha, com uma arma numa mão e a estaca na outra.
– Dean, armas não me machucam. – a mulher baçançou a cabeça decepcionada.
– Mas fazem algum estrago. E te atrasam. – ele desdenhou, antes de atirar bem no coração.
O corpo da mulher deu um passo para trás e caiu no chão. Aproveitanto o momento, Dean cravou a estaca no peito da criatura, deixando-a imóvel e sangrando. Sam se aproximou á poça de sangue que se formava á sua volta. No mesmo momento os olhos da criatura se abriram novamente, mais vermelhos que antes, e ela deu uma risada, se levantando. Os Winchester se afastaram, agora tendo apenas a estaca de Sam.
– Eu disse que isso não iria me matar. Mas adimito que é doloroso. – ela falou tirando a estaca do peito, o buraco deixado se fechando rapidamente.
– Saber disso já me faz feliz. – Dean deu um sorriso forçado, com muita vontade de quebrar a cara da entidade que possuia aquela mulher.
– Talvez você fique mais feliz ao saber que o homem dessa casa já está morto, do outro lado da cidade. Então já vou indo, antes que a patroa fique chateada comigo. – a mulher deu outra risada e saiu pela porta.
– Não podemos deixar ela escapar! – Sam falou correndo para a porta, mas a criatura já tinha desaparecido na noite, de repente, da mesma forma que tinha chegado – Droga!
Um carro apontou na esquina, parando em frente a casa, e Mike saiu dele, as mãos fechadas em punho.
– Assim que desliguei a ligação, um vento forte levantou muita poeira e quando passou tinha um homem morto no meio da rua. Quero dizer, uma parte dele. E ai uma mulher loira saiu da casa da mulher que caiu da janela. Eu entrei lá e vasculhei tudo, e olha o que achei. – Mike abriu uma das mãos, mostrando um pacotinho marrom de couro amarrado com uma tira também de coro com uns amuletos pendurados – Era uma bruxa. Ela matou aquela mulher. Então peguei o carro e cheguei aqui seguindo o rastro de sangue do cara.
– Droga! – Dean repetiu a fala do irmão e saiu da casa, em direção ao impala – Agora temos que descobrir os possíveis alvos nascidos em dezembro.
– Vamos voltar para o hotel e procurar. Temos pouco tempo. – Sam entrou no lado do passageiro do Impala, já colocando o cinto de segurança.
Sem falarem nada, Dean e Mike entraram cada um em seu próprio carro e dirigiram de volta para o motel tão rápido que pareciam querer salvar suas vidas. O que não era tão mentira.
– A lista de quem nasceu em dezembro está no meu computador. Só precisamos ver onde essas moram para saber qual delas é a certa. – Sam explicou, enquanto o mais velho abria a porta do quarto e os três entravam – E então é só esperar a vadia e matamos ela.
– Estão fazendo tudo errado. Vão morrer se continuarem assim. – pela segunda vez naquele dia, uma voz diferente interrompia a conversa naquele mesmo lugar. Mas dessa vez era feminina.
– Quem é você? – Sam perguntou, arma e estaca em punho, só por garantia.
– Não importa quem eu sou. O que importa é que Ésmiro está quase completando o selo. – a garota sentada na poltrona, a mesma em que Mike se sentara mais cedo, falou.
– Ele perguntou quem. É. Você. – Dean repetiu, também em posição de ataque.
– Será que da para escutar o que eu ‘to falando? – ela se levantou da poltrona, com raiva.
– Já chega! – Mike tomou a frente – Candice, por favor, vá embora.
– Candice? Você conhece ela? – Dean perguntou, confuso.
– É claro que o idiota me conhece. – Candice bufou – Eu sou a irmã que ele abandonou.
O quarto mergulhou num silêncio momentâneo, em que os Winchester encararam os dois outros irmãos, passando de um para o outro, como se assistissem uma partida de ping pong.
– Eu não te abandonei. – Mike falou baixo, sério, encarando a garota.
– É culpa sua eu estar nesse estado! – ela gritou, agora com muita raiva, as mãos apertadas em punho ao lado do corpo.
– Que estado? – Sam perguntou, analisando-a, mas nava parecia errado com ela. Dois braços, duas pernas, andando…
Candice riu amargurada, ficando séria em seguida.
– Está ficando lento, Winchester. – seu corpo tremulou no ar – Eu sou um fantasma.
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