Demons
4 Roupas
Notas iniciais
Olhei para trás, tentando ignorar a dor. Encontrei um belo par de olhos azuis, tão sonolentos quanto os meus.
__ Oh, bom dia – ele disse.
Sabe quando você descobre que algo está acontecendo, mas mesmo assim não acredita que aquilo seja, de fato, real? Essa era a minha sensação. Meu coração estava disparado. Levantei o tronco, e ele soltou minha cintura. Também parecia um pouco confuso com o modo como acordamos, mas também não estava incomodado com o contato físico, que ele tanto fugia.
__ Como eu... você... nós...
__ Eu não faço a mínima ideia.
Ok, isso foi estranho. Saltei para fora da cama, calçando os chinelos. Não fazia ideia de como reagir a aquilo. Tentei agir normalmente, indo em direção as escadas, deixando para trás um Sherlock que – pelo que vi, antes de finalmente sair do cômodo – estava tão confuso quanto eu. Coloquei as mãos nos bolsos. Como isso foi acontecer? Eu não me lembro de nada – estava dormindo, como lembraria?
Porque essas coisas só acontecem comigo?!
Estava a ponto de descer o último degrau da escada, quando senti o chinelo escorregar na pedra, ainda úmida e lisa por causa da água. Tirei as mãos dos bolsos, segurando no corrimão. Seria um belo tombo, com direito a roxo nas costas depois de alguns dias. Levantei devagar, recolocando um dos pés no chão. Me recompus, fingindo que nada havia acontecido, e que eu não havia feito nenhum barulho.
Porque essas coisas só acontecem comigo?!
Segui para a cozinha. Lavei o bule que usara para fazer chocolate quente, alguns pratos e talheres. Terminei a louça e comecei a preparar algo para comer. Haviam alguns pães na cesta, e leite suficiente para nós dois. Virei-me para pegar os pães e ouvi passos no andar de cima. Segui os sons com os ouvidos. Ele saíra do quarto e fora para o banheiro das visitas. Depois de alguns minutos, ouvi seus passos vindo escada abaixo.
__ Molly, posso coloca-las para secar em algum lugar? – ele perguntou. Estava com suas roupas molhadas em mãos. Virei os olhos para a lavanderia, indicando a entrada. Depois, voltei-me para ele.
__ Pode coloca-las na secadora.
Sherlock caminhou até a porta, sumindo atrás da parede. Voltei para os pães, e depois de alguns minutos, uma pergunta curiosa surgiu em minha mente. Será que Sherlock sabe lavar ou secar sua própria roupa? Bem, ele nunca tira aquele casaco, raramente o vejo com outra calça – ele só troca as camisas. Será que ele lava a própria roupa? Se bem conheço Sherlock Holmes, quem cuida de tudo isso deve ser a Sra. Hudson.
Como será que ele vai se virar tentando usar a secadora? Eu não perderia isso por nada.
Em silêncio para não alarmá-lo, andei até a porta da lavanderia. Observando escondida, o vi de frente para a máquina, mirando-a como uma adversária. Olhava cada canto. Ele estava tentando achar um sentido lógico para fazer com que ela funcionasse. A cena estava ficando cada vez mais hilária. Esse homem não tem preço. Soltei uma gargalhada baixinha, que o fez olhar para mim. Estava visivelmente irritado.
__ O que foi? – perguntou.
__ Nada – soltei mais um pequeno riso.
__ Então por que está rindo?
Não respondi. Ele não fazia ideia de como mexer na secadora. E provavelmente a máquina de lavar deveria ser um mistério completo para seu intelecto. Soltei mais uma risada, tapando a boca com a mão.
__ Você não faz ideia de como ligar a máquina, não é? – disse, parando de rir por um momento, mas ainda com um sorriso no rosto.
__ Claro que sei.
__ Então abra a tampa – disse, desafiando-o. Ele olhou mais um pouco, e passou mais alguns segundos parado diante da máquina.
__ Tudo bem, eu desisto. Não sei mexer nessa coisa.
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