Demons
1 Alguém na porta
Notas iniciais
Eram onze da noite. Na rua, poucos eram os sons. Alguns gatos miavam, algumas tevês chiavam, alguns carros rodavam. O que mais se ouvia eram os barulhos das gotas pesadas de chuva, atingindo os tetos de metal dos automóveis, as latas de lixo, o asfalto gelado. O vento soprava a água que caía, molhando tudo pela frente. A luz dos postes estava fraca. Na janela, eu só conseguia enxergar meus próprios olhos, refletidos no vidro, fosco pela chuva.
Ouvindo a televisão baixinho, eu observava a mim mesma. Era patético. Chorando, tentando me fazer de forte. Fingindo que não me importava mais com nada. Criando a falsa ilusão de que o esqueci. Recusando-me a pronunciar seu nome — era como uma ofensa.
Ele é especial. Diferente. Sedutor – a sua maneira, claro. É difícil descrevê-lo em palavras. Não sei se conseguiria se me pedissem. Ele consegue ser o tipo de homem que te faz ficar apaixonada eternamente, mesmo sendo daquele jeito. Ele é especial... para mim.
Mas não é por causa dele que estou chorando. Não exatamente. Eu e Tom, nós brigamos de novo. Ele não consegue me aceitar, não consegue entender as coisas que faço ou deixo de fazer, o que eu gosto ou desgosto. Depois da discussão, o mandei embora. E disse que nunca mais queria vê-lo, e que estava tudo acabado. E ainda prometi que, se ele aparecesse mais uma vez na minha casa, eu o expulsaria com uma vassoura.
Foi então que subi, tomei um banho e comecei a pensar. Não tenho mais o
Tom. Nunca vou conseguir... ele. O outro ele. Será que nasci para morrer sozinha? Ou será que nasci para sofrer com as dores da carne, com o amor incurável? Por mais que eu parecesse contentada com o que a vida me expunha como opção, eu insistia em querer o brinquedo mais caro da loja. Eu insistia em querer a coroa mais luxuosa. Eu insistia em querê-lo ao meu lado.
Me sentia uma completa idiota ali, sentada na cama, olhando para o meu reflexo na janela. Eu estava horrível – rímel escorrendo, lábios secos, nariz vermelho, olhos quase em carne viva, de tanto chorar. Como eu conseguiria esquecer um homem que aprendi a amar? Que aprendi a conviver diariamente, reavivando e aumentando minha paixão com falsas esperanças?
Eu precisava dar um fim naquilo. Mas como? Estava enraizado na carne, como uma cicatriz eterna. Uma cicatriz que não queria fechar.
Ouvi a campainha tocar. Só pode ser o Tom. Não vou atender, ele que fique ali, na chuva. Não quero nunca mais ver a cara daquele infeliz na minha frente. Eu queria mata-lo. Se, por alguma infelicidade do destino, eu o encontrar novamente, juro que vou quebrar seu nariz.
A campainha tocou de novo. Acho que vou deixa-lo na chuva para sempre.
De repente... Uma voz. Aquela voz. De onde vinha? Estava me chamando. Eu devo estar louca, ouvindo coisas. Preciso dormir, estou cansada. A voz me chamou de novo. Agora estava mais forte. Ai meu Deus, não é o Tom na porta. É ele!
Desci as escadas em desespero, enquanto limpava as lágrimas e amarrava o robe na cintura. Descalça, com os pés sobre o chão frio, alcancei a maçaneta. Girei a chave na fechadura. Mesmo em quase completa escuridão, pude distinguir seus olhos verdes, cintilando ali, em minha frente. O que ele estava fazendo aqui, a essa hora da noite?
__ Sherlock? – murmurei, baixinho.
__ Molly – ele tomou fôlego. Parecia cansado, como se tivesse corrido quilômetros. Uma rajada de vento empurrou a chuva para dentro da casa. Cobri o rosto com os antebraços, mas nenhuma gota chegou em mim. Ele se colocara como escudo, me protegendo da água. – Preciso da sua ajuda. Posso dormir aqui hoje?
Notas finais
Beijinhos da ruiva,
Amelia.
Fale com o autor