Demon Hunter
1 Prólogo
Notas iniciais
Você confia em mim?
Não, não adianta olhar em volta: você não vai conseguir me ver. Pelo menos, não ainda. Mas mesmo assim, eu vos pergunto: Você confia em mim?
Tá bom, eu sei que você não está entendendo aonde eu quero chegar com isso, mas com o tempo você vai entender. Aliás, ao final dessa história eu vou lhe perguntar isso de novo, e então veremos se realmente entendeu. Por enquanto, só o que você precisa saber é que o que vou falar aqui é a mais pura verdade.
Bem, agora vamos à história. Como diz a Bíblia, a obra de Deus está dividida em quatro reinos, sendo 3 reinos celestiais (Céu, Purgatório e Inferno) e 1 reino material, que é a Terra. Pois é, o fato é que as Bíblias atuais estão sendo escritas da forma errada. Por quê? Simplesmente porque não há quatro, mas cinco reinos.
“Como assim?”, você deve estar se perguntando. Bom, se você pegar uma Bíblia qualquer, verá que esse quinto reino não está incluído lá. Isso é porque há certas coisas que a Igreja Católica não quer que você saiba. Uma delas é a existência desse quinto reino, escrita apenas na Bíblia original e cortada das Bíblias atuais. O motivo? Você descobrirá ao longo desta história.
Agora sim, vamos à história.
O quinto reino é nada menos que um segundo reino material, ou seja, um mundo paralelo ao nosso. Ora, eu estou falando do Reino de Lothres (pronuncia-se Lótres), um mundo muito parecido com o nosso, exceto pelo fato de eles estarem muito aquém da Terra com relação à tecnologia. E o mais interessante é que Lothres também teve um Messias – mas obviamente esse Messias não era Jesus Cristo. Na verdade, nem humano ele era. Era um dragão, conhecido como o Dragão Sagrado (esse é só o apelido; o nome verdadeiro tem 43 sílabas). Assim como Jesus, o Dragão Sagrado também é filho de Deus, o que, por mais estranho que pareça, dá a entender que os dois são irmãos de sangue. Outra semelhança: os dois morreram exatamente no mesmo dia, hora, minuto e segundo – e é nesse momento que a nossa história começa...
...Na verdade não. Esta história começa alguns momentos antes da morte dos dois.
...
Enquanto Jesus carregava sua pesada cruz, em Lothres estava havendo uma batalha sangrenta entre humanos e demônios.
Nessa época, o Dragão Sagrado era o governante do reino de Lothres. Era conhecido por ser um imperador bom e humilde, que sempre pensava no próximo e dava a devida justiça a quem era injustiçado. Enfim, um governante perfeito – um verdadeiro Messias.
Mal sabia ele que esses dias de glória estavam prestes a acabar...
Em um belo dia, um informante chegou ao salão principal do palácio do Dragão avisando que Satã estava preparando um ataque ao País-Centro (que era onde ficava o palácio do Dragão), porém não deu muitos detalhes. O Dragão assentiu, dizendo que iria tomar as devidas providências. E ele assim o fez: em menos de três dias (era estimado que o exército do Inferno chegaria em cerca de cinco dias), todos os cinco continentes do reino haviam mandado cerca de 2000 homens cada um, que, juntando com o exército particular do Dragão, totalizavam algo como 15000 homens – o suficiente para aguentar o ataque, pensava o Dragão. Na verdade, ele até queria tentar um acordo diplomático, mas, pela experiência que ele tinha como imperador, ele sabia que não dava para dialogar com o Rei dos Demônios. Não havia escolha: apenas a guerra poderia resolver aquela questão.
Quando tudo estava preparado, o exército esperou até que o inimigo chegasse.
E quando eles chegaram, não se conseguiu ver mais nada além de sangue e cabeças voando para todos os lados. Foi uma batalha caótica, cujos detalhes não vem ao caso citar aqui.
O Dragão Sagrado observava tudo do alto de uma torre do palácio. Depois de alguns minutos de batalha, ele começou a ficar preocupado, não só pelo fato de seu exército estar perdendo a batalha como também por ele ter notado algo muito estranho: não havia ninguém liderando as tropas inimigas. Elas estavam agindo por conta própria... mas por quê? Onde tinha ido parar o líder inimigo, se é que havia algum? Ele já estava pensando numa resposta para isso quando viu, com o canto do olho, o seu informante (o mesmo que o havia avisado da invasão) entrando na sala. Ele estava com um sorriso largo no rosto, e brandia uma enorme espada em suas mãos.
Ao ver aquilo, o Dragão entendeu tudo: a invasão inexplicável, a falta de um líder na tropa inimiga, o jeito estranho de falar do informante...como ele não viu isso antes? Esse tempo todo, Satã estava atraindo-o para uma armadilha para matá-lo e tomar o controle de Lothres! E o informante era na verdade um espião só esperando a oportunidade para assassiná-lo!
O espião começou a avançar na direção do Dragão, porém este já estava muito velho, e seus reflexos já não funcionavam como deveriam. Em questão de segundos, o espião já havia cravado a espada no peito de seu alvo (se é que dragões tem peito). O espião agora esboçava um sorriso que ia de uma ponta à outra do rosto, enquanto via o Dragão agonizando no chão, em meio a uma poça de sangue que ia aumentando lentamente.
Ele só não contava com uma coisa.
Assistindo toda a cena de camarote (bem, quase isso, ele estava escondido), estava um homem. O nome dele é desconhecido, por isso iremos chama-lo apenas de “X”.
“X”, após ver seu rei sendo morto de forma tão rápida e cruel, ficou assustado e, ao mesmo tempo, enfurecido. Como puderam fazer uma coisa dessas com o Dragão Sagrado? Ele não podia ficar ali parado, chorando. Ele precisava fazer alguma coisa.
“X” já estava pensando no que ia fazer quando uma estranha fumaça roxa surgiu em frente ao espião. A fumaça foi crescendo rapidamente até tomar a forma de... O que era aquilo? Uma forma humanoide, talvez? Poderia ser, se não fosse por um formato pontiagudo em seu braço direito que muito se parecia com uma lâmina. “X” levou um susto quando uma voz grave e estridente, aparentemente vinda da fumaça, pronunciou:
– Você já cumpriu seu papel. Está dispensado.
E no mesmo instante a figura desferiu um golpe com seu braço laminado no espião, e este, de um modo fantasticamente estranho aos olhos de “X”, explodiu em poeira brilhante (ou seja lá o que fosse aquilo), enquanto sua espada ensanguentada caía no chão.
A sala ficou em silêncio por algum tempo. Lá fora, a batalha já havia terminado, com os demônios cantando vitória enquanto seguiam em direção ao palácio.
“X” não acreditava no que tinha acabado de presenciar. O que aquela figura havia feito com o espião o havia chocado. Ele quase conseguia adivinhar do que se tratava aquele tenebroso ser... e rezava mentalmente para estar errado. Sua espinha gelou quando a figura virou seus olhos para o lugar onde ele estava escondido. Após alguns segundos, ela avançou na direção de “X”. Mas antes que qualquer um dos dois pudesse fazer algo, o cadáver do Dragão começou a brilhar intensamente, dissipando instantaneamente a figura. Não demorou muito para que a espada também começasse a brilhar. E então, num movimento rápido, as duas luzes se uniram, criando um clarão que quase cegou os olhos de “X”.
Quando a luz se dissipou, o corpo do Dragão havia desaparecido juntamente com a espada, em cujo lugar estava agora um canivete. Sua lâmina era folheada a ouro brilhante, e seu cabo possuía uma cor vermelho-sangue. “X”, atônito com a cena que havia acabado de se passar, saiu de seu esconderijo e pôs receoso o canivete em suas mãos. Este, então, começou a fazer um movimento estranho na mão de “X”, que, no susto, soltou-o. Para sua surpresa, a lâmina não caiu: ficou flutuando no ar. Mas “X” não teve tempo de se impressionar com aquilo, pois imediatamente a lâmina começou a se mover rapidamente em direção a um corredor próximo. “X” não teve escolha a não ser segui-la. Essa perseguição continuou até que a lâmina entrou pela porta que levava à biblioteca do palácio, para onde “X” também foi.
A biblioteca era um lugar enorme. Suas paredes estavam cobertas de estantes cheias de livros, que se estendiam até onde a vista alcançava. No centro, uma mesinha com um livro enorme repousando sobre ela. Em sua capa estava escrito, em letras bem grandes: Codex Lotria. O canivete estava flutuando sobre o livro, com sua lâmina voltada para baixo.
Uma estranha voz ecoava na mente de “X”: Leia o livro.
“X” estava relutante em se aproximar do livro. Por que aquilo estava acontecendo, afinal? De quem era a voz que o mandava ler o livro? E que tipo de segredos ele estaria guardando? Por um momento, ele achou que não estava preparado para o que iria ver. A voz continuou mandando ele ler o livro. Ele tentava resistir, mas a tentação era enorme...era como se ele estivesse sendo controlado. Chegou um momento em que “X” não aguentou mais: aproximou-se do livro, e lentamente o abriu.
E ficou maravilhado com o que viu.
O Codex Lotria nada mais era do que a Bíblia de Lothres; o texto proibido da Bíblia original que eu havia mencionado no começo deste capítulo. Na verdade, aquilo não era um livro apenas, mas um testamento inteiro: o Eterno Testamento, contendo, além da história de Lothres, vários segredos misteriosos sobre a vida, o Universo e tudo o mais que um pobre mortal nunca conseguiria entender, ou mesmo acreditar.
Mas acontece que “X” não era um pobre mortal. Ou pelo menos não um pobre mortal qualquer.
“X” parou de ler assim que ouviu um barulho forte vindo lá de fora. Ele correu desesperado até a porta da frente do palácio, seguido pela lâmina, e levando consigo o livro. Quando chegou lá, ficou boquiaberto.
Os demônios haviam entrado.
Eles começaram a avançar em direção a “X” assim que o viram. Ele pensou em fugir, mas a voz lhe disse: Lute. Eu irei te ajudar. Ao mesmo tempo, a lâmina, que esse tempo todo flutuava ao lado de “X”, aproximou-se de suas mãos, como se quisesse que ele a pegasse. Nesse momento, “X” entendeu. Aquela voz era do espírito do Dragão Sagrado, que estava se comunicando com ele através da lâmina.
Os demônios estavam cada vez mais perto, e “X” ainda estava relutante em obedecer ao pedido do Dragão, que continuava ecoando em sua mente. Faltavam apenas alguns centímetros para que os demônios o alcançassem quando ele finalmente resolveu agarrar a lâmina.
E então houve um clarão.
Bom, eu acho que ainda não é o momento certo para dizer o que houve com “X” depois disso. Por ora, vamos voltar para a Terra, mais precisamente no ano 2000.
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