Delirious

15 15. Viva a liberdade


Notas iniciais
Este capítulo é dedicado especialmente para Larissa pela quarta recomendação. Obrigado linda Boa leitura.

Capítulo 15. Viva a liberdade.

Narrado Por Natan:

O que fazer quando seu amigo está em crise gritando como um doente mental, não dando chances de você se explicar?

Edu gesticulava os braços pro alto, louco, dizendo que todos seus amigos eram gays. Que a homossexualidade tinha virado um espécie de epidemia na escola inteira e que a culpa era dos punks, afinal foram eles que começaram com toda aquela putaria e blá blá blá.

Miguel Dorneles e eu fomos obrigados a cabular a quarta aula para tentar acalmar os ânimos do Eduardo. Arrastamos o retardado para trás da cantina e desde então ele não parava de falar.

— Fale um pouco mais baixo ou vão nos ouvir infeliz. — alertei.

— Que se foda!! — berrou, sem se conter.

Suspirei.

Estava perdendo a paciência e não só com Edu, mas com todos. Com Matheus que fica se intrometendo na minha vida, com Miguel que me assedia sexualmente, com Edu que agora aponta o dedo na minha cara e me chamando de gay, com minha irmã que fica no pé falando que o Miguel 'tá atrás do meu traseiro e se já não bastasse ganhei outro punk de brinde para ficar pegando no meu pé, usando apelidos.

Na boa tô querendo sumir.

Miguel agora está sentado no chão de pernas cruzadas com o cigarro aceso, pendurado nos dedos. Calado, porém sei que está furioso. Sinto que se não interromper o falatório do Edu, ele vai pirar e querer se avançar no pobre infeliz.

Não vejo a hora desse mês passar o quanto antes e minha rotina voltar ao normal, também quero caminhar com as minhas próprias pernas. Sinto falta de viver sem a cadeira, com elas posso me defender e correr em momentos como este.

Enfim, Edu se acalmou, mas fui obrigado a gritar com ele, furioso. Mandei-o se calar e cuidar de suas cuecas que deixasse as minhas em paz.

Cada um com seus problemas, porra.

Bateu o sinal do último período e assim voltamos disfarçadamente para o prédio das salas. Miguel disse um “até mais” e seguiu seu caminho indo para o outro andar. Edu continuava perguntando e enchendo o saco sobre o flagra. Impaciente com sua insistência, falei que tinha mesmo beijado a porcaria do Miguel. Por fim se deu por vencido e nós entramos na sala de aula. Assim o resto do dia seguiu sem mais acontecimentos estranhos.

(#)

— O que você quer agora? — perguntei parado na porta de casa.

Ele suspirou e coçou a nuca.

— Nada, apenas não tinha o que fazer em casa então resolvi vir aqui. — respondeu.

— Sabe que horas são agora? — perguntei.

— Nove horas e alguns minutos.

— Pois é, não é hora de fazer visitas, por isso, não seja inconveniente. Por favor, vá embora.

— Hm... mas e se eu não quiser?

Eu preciso de um tempo só, pelo amor de Deus. Será que ninguém sabe respeitar o espaço de uma pessoa?

Adivinha quem era?

Miguel Dorneles. Lógico, quem mais poderia ser?!

Aff me sinto exausto. Só de pensar em discutir com esse cara, me bate um cansaço do inferno. Ele me olhava de cima, suspirava e encostava-se na porta.

— Não quero voltar pra casa. — resmungou preguiçoso, chutando uma pedrinha.

Rodei os olhos. Esse cara pensa que eu sou o que? Pai dele?

— Seus pais estão em casa? — perguntou.

— Ainda não.

— Hm.... — resmungou. — e sua irmã tá aí?

— Não, tô sozinho. — Miguel ficou um tempo pensativo, me deixando angustiado, só quero entrar tomar um banho e deitar.

— Me deixe entrar. — pediu ele.

— Hã?! Pra que?

— Você tá sozinho, é perigoso essa hora... — disse dando um passo a frente. Espalmei minhas mão em seu peito detendo-o. Alerta: Perigo! Uma vozinha dizia lá no fundo.

Imagina eu... Sozinho com esse cara? Imagina que perigo?! Se não estivesse nessa cadeira com certeza me garantia, mas...

— N-não, não precisa, pode ir pra casa descansado, eu vou ficar bem...

— Não posso. — disse firme. — Como vou dormir sabendo que o meu nam- — arregalei os olhos interrompendo-o e corado, empurrei-o pra fora.

— V-VAI!!!

— Natan não seja teimoso. — Não dei ouvidos. — Ao menos me deixe ficar até seus pais chegarem.

Encarei-o com tédio e argumentei com seriedade.

— Cara, pare agora com essa baboseira de namo- namo... na...

— Namorado! — Ah meu rosto ferveu. — Tão simples.

— Vai te foder! Essa porra de preocupação não colou. — Cuspi. E a expressão de falsa preocupação sumiu de seu rosto, dando lugar a uma de seriedade.

— Certo. — cruzou os braços. — Então vamos fazer uma aposta?

Ih, lá vem bomba!

— Você me deixa entrar, a gente joga um game até seus pais chegarem e eu vou embora.

Suspirei.

Não tinha jeito, o negócio era fazer aquilo ou ele ficaria me enchendo o saco a noite inteira.

— Promete que vai mesmo? — perguntei.

— Prometo.

— Tem que jurar! — falei num tom severo.

— Eu juro. — respondeu prontamente.

Hesitei.

— Se quebrar essa promessa você nunca mais vai me ver na sua vida. — Uau! Peguei pesado.

Estendi Minha mão para fechar o acordo.

— Fechado. — ele apertou.

Nem vimos a hora passar.

E... Até que foi divertido, jogamos GTA e depois futebol. Perdi muitas partidas pra ele, mas foi bem legal.

— Para um principiante você tá no ponto. — resmunguei fazendo um bico inconformado.

Ele me olhou de canto e riu convencido.

— Natan! Pri! Chegamos!

Era minha mãe. O sorriso de Miguel Dorneles morreu e o meu bico também.

(#)

Levei-o até porta, mas antes o apresentei para meus pais. Fui mancando, usar a cadeira ia dar muito trabalho.

— Então... — Comecei, encostando a porta e ficando do lado de fora, de frente para ele.

Sabe aquelas cenas ridículas em filmes de romance que o casal fica todo encabulado na hora de se despedir após encontro? Pois é, igualzinho. Eu nunca entendi aquela coisa melosa e sem graça, sempre achei tosco. Porém agora sei bem como é, estou passando por isso agora.

É constrangedor! Me sinto uma garotinha virgem que foi deixada em casa após o baile de formatura, porém ao contrário da garotinha virgem dos filmes, eu quero mais é que o príncipe se mande.

É, QUERO QUE ELE DÊ O FORA, E JÁ!

— Er... — ele arriscou começar um diálogo coçando a nuca.

Não faça isso! Não coce a nuca, porra não coce a nuca. Pare de coçar a nuca! PORRA NÃO FIQUE ENRUBESCIDO TAMBÉM. Ah não! Não me olhe assim.

— Bem... — comecei com intenção de interromper aquela bosta toda.

— Até amanhã, né? — disse ele sem graça.

— É!! A-até. — ele girou os calcanhares e eu suspirei aliviado.

Porém...

— N-Natan. — tudo que é bom dura pouco e isso dá raiva. Deus por que você inventou o "bom"?

— S-Sim? — perguntei.

— Eu... Eu queria dizer. Er... Pensei que você ia surtar hoje.

— Porque? — fiquei confuso.

— Ah, por causa... Por causa do beijo. Foi mal.

Ele estava se desculpando por ter me beijado? Sério? Primeira vez que isso acontece. Esse cara é doente.

— Na verdade senti vontade de te socar, acredite quando eu me livrar dessas coisas do inferno, vou fazer isso.

Ele riu baixinho, acabei rindo também. Ah, me odeio! Era para eu estar revoltado com ele, mas não me sentia assim. Óbvio que não gostei do beijo... na verdade... não é que não tenha gostado, é apenas... Er... que... bom... eu me sinto ac- Espera, eu não tô querendo dizer isso né? Né, né, né? Porra o que 'tá acontecendo?

— A-anda, vai embora logo.

Ele parou de rir por um momento e me encarou. Sabe tem uma coisa que ainda não tive a oportunidade de contar, mas... os olhos desse cara são um problema para mim.

— Tá bem. Boa noite, Nat.

— Natan!! — corrigi, ele deu as costas e abanou. Quando me vi sozinho resmunguei. — Maldito.

E depois me senti um grande retardado por estar falando sozinho.

(#)

E assim... uma semana passou. Frase clichê eu sei. Esta merda tá ficando cada vez mais idiota, mas que se foda. Finalmente o dia de tirar aquelas porcarias de gesso e me livrar da cadeira chegou.

— Ah finalmente!! — exclamei, depois da consulta. Com as duas mãos para o alto, alongando os dedos. Estava no lado de fora do hospital. — Liberdade!

— Finalmente, não aguentava mais aquela vida. — Disse Miguel Dorneles parado na minha frente me olhando.

— Se não você não aguentava imagina eu?!

Nos últimos dias esse cara ficou mais grudado que nunca no meu pé, igual merda de cachorro no sapato. Mas... até que não é tão ruim sabe?

Bem tem aquelas horas tensas que ele tenta me beijar e tal, a gente sempre discute por causa do Matheus e do outro Punk louco. Mas fora isso a gente se dá bem.

— Que tal um cinema? — ele propôs.

— Hm. Que filme? — perguntei.

— Não sei, qual tá em cartaz?

— Sei lá. — respondi.

— Vamos dar uma olhada?

— Mas e a aula? — perguntei temeroso.

Ele piscou duas vezes, confuso. — Cabulamos hoje.

— Se a mãe descobre quebra minha cara.

Ele riu alto.

— Só hoje. Ela não vai saber. — disse.

Fiquei um pouco receoso, mas no fim acabei sendo arrastado. Dei os ombros, hoje não tinha nada de importante mesmo na aula mesmo. Que se foda!

— Ok, vamos.

(#)

Ele comprou um balde de pipoca, uns doces e eu fiquei por conta do copão de coca. Fiquei com receio de sentar no fundo com esse loucão, mas ele me arrastou. O filme já tinha começado e era uma porcaria. Era sobre um cara careca, com uma baita cruz no meio da testa e parece que ele era um vampiro ou caçador de vampiro, não entendi porra nenhuma daquele filme e era legendado, pra piorar.

Esse punk tem um péssimo gosto. Teve uma cena no filme que... não sei porque, mas deve ter excitado esse maluco, pois ele começou a se remexer na cadeira todo inquieto. Passou o braço por cima do meu assento, me fiz de desentendido, mas as pernas vacilaram e eu me prometi que se ele tentasse algo ia dar um soco no meio da sua cara.

No meio do nervosismo enchi minha mão de pipoca tentando enfiar quase tudo na boca, porém, derrubando metade no chão.

— Ei, Nat! — soprou na minha orelha e eu pulei!

— MAS QUE PORRA?!

Saltei da cadeira, vocês não tão entendendo... Saltei de susto.

Filho da puta!!!!! O que esse coco de cabra tá pensando? Esse cara sussurrou no meu ouvido? Rapidamente me afastei, igual ao diabo fugindo da cruz. Se ele não tivesse me segurado pelo pulso com certeza teria me espatifado no chão.

— O que você t-t-t-t-tá pensando, imbecil?!!

Berrei, todo mundo começou a reclamar. Fomos obrigados a sair da seção, pois eu não parava de gritar. Começaram a jogar pipoca em nós. Impaciente Miguel me pegou pelo braço e me arrastou pra fora de lá.

(#)

— Culpa sua, animal. — Acusei apontando o dedo.

— Minha? Foi você que começou a gritar feito um doente mental.

— Doente mental é você.

Ele rodou os olhos. Estávamos sentados na praça de alimentação.

Droga o que esse desgraçado tá pensando que sou? Qualquer um ficaria alarmado com um cara sussurrando no seu ouvido.

— Nat. — resmungou ele.

— Natan. — corrigi.

— Vamos p!ra sua casa?

— Que? Pirou? Esqueceu que eu tô matando aula? Minha casa é o ultimo lugar que posso ir!

Ele deu os ombros e ficou viajando, observando a movimentação no shopping.

Olhei para ele de novo lembrando que nunca me levou para conhecer sua casa, ele já entrou no meu quarto, usou o meu banheiro, comeu na minha cozinha e eu nunca fui na casa dele... Pensar nisso isso me deixou irritado.

— 'Ô Miguel! — ele me olhou de canto. — Porque não vamos na sua casa?

Isso soou muuuuuuito suspeito. Ah, azar!

Ele franziu a testa e desviou os olhos para qualquer outro lugar que não fosse meu rosto.

— Não. — E que raiva senti! — Quero te levar para outro lugar.

Mentiroso. Quem ele pensa que engana?

O outro lugar que ele queria me levar, era numa... sex shop??

Quando entramos todo mundo nos olhou. Dei um passo para trás, porém ele me puxou unindo nossas mãos. Eu ia gritar, chutar ele, mas lembrei do incidente no cinema, fiquei com medo de ser humilhado outra vez, por isso desisti.

O maldito Miguel começou a me arrastar para os corredores.

— Filho da puta, solta agora minha mão, as pessoas estão olhando. — resmunguei tentando em vão me afastar dele.

Ele parou no meio do caminho, olhou em volta com aquele olhar descarado e despreocupado e sem vergonha nenhuma berrou:

— Que foi nunca virão um casal gay?!

Ah... eu senti minha alma abandonar meu corpo. As duas últimas palavras fizeram ecos na minha cabeça. “casal gay, casal gay, casal gay, casal gay, casal gay, casal gay, casal gay...”

(#)

Ele gargalhava com gosto. Chegava a se curvar com dor na barriga de tanto rir. Enquanto eu caminhava alguns passos a sua frente pisando duro, fervendo de ódio.

— Nunca vi uma pessoa rir, depois de levar um soco na cara. — gritei, girando meu corpo para olhar ele que ainda ria. — Essa é primeira vez.

— Você precisava ver a sua cara. Deus... Eu vou guardar pelo resto da minha vida aquela imagem.

Me aproximei dele agarrando-o pelo colarinho.

— PARE DE RIR PORRA!

— Descul- puff — e voltou a rir.

Aos Poucos a revolta foi me abandonando dando lugar para a exaustão.

— Aff, me sinto tão cansado! — resmunguei choroso.

Larguei sua camisa para mirar o céu, estava anoitecendo.

— Ai, ai, nunca ri tanto em toda minha vida. — disse ele, enxugando as lágrimas. Encarei-o enjoado com um beiço grande que se duvidar ia lá na China.

Ele pigarreou dando sinais de começar outra seção de risos, rodei os olhos.

— Ah, cara chega! Assim você vai rir até amanhã. — E ele começou de novo. — Inacreditável.

Cruzei os braços e fiquei assistindo esperando aquela nova crise passar. E então eu percebi que nunca tinha visto esse cara rir verdadeiramente antes...

De repente me via sorrindo igual um boboca, achando aquilo interessante.

Que porra é essa? Eu hein, sai pra lá!