Delirious

16 16. E pode piorar.


Notas iniciais
Obrigada pelas recomendações ❤️

Capítulo 16. E pode piorar.

Narrado por Miguel:

— Olha a bola imbecil! — berrei. Naquele momento estava assistindo o anão idiota jogar futebol na Ed. Física. — Como esse asno conseguiu perder a bola tão fácil?

— Vai infartar assim. — fui surpreendido com a presença do Pablo, apertamos as mãos num caloroso cumprimento. — Cabulando aula outra vez?

— Normal. — respondi ascendo um cigarro. Pablo sentou ao meu lado e direcionou seus olhos pra a quadra.

Ouvimos a escandalosa voz do Natan, me mandando tomar... lá naquele lugar, fingi que não era comigo e comecei um assunto banal com Pablo.

— E aí, como andam as coisas? — ele perguntou, fazendo um sutil gesto com o pescoço apontando para a quadra. Segui seu gesto encarando a pequena criatura cometer uma falta e gritar uma porção de palavrões indignado com o professor.

— Vão... Normais!

Pablo franziu a testa.

— “Normais” e só? — dei de ombros. — Nenhum progresso ainda?

Suspirei.

— Aos poucos a gente chega lá.

Ele rodou os olhos com o meu descaso, roubou meu cigarro preso nos dedos, direcionou-o aos lábios e tragou.

— Não sei como você consegue ser tão paciente, se fosse eu já tinha levado esse franguinho a muito tempo pra ver estrelas.

Fiz um bico incomodado não gostando de imaginar ele e Natan juntos. O professor apitou anunciando o fim do jogo, logo ouvimos um coral inconformado com o resultado final. Ignorei o comentário do Pablo, era melhor matar no peito e me fazer de surdo e mudo.

Não demorou e logo estávamos sendo agraciados com a ilustre presença do anão que se aproximava de nós despindo-se de sua camisa. Limpei a garganta e desviei meus olhos para outro canto. Ele parou na minha frente (para a minha desgraça) mal sabendo do perigo que corria.

Como ele consegue ser tão inocente?

Natan fez um beiço enorme e contorceu o rosto chateado com o resultado do jogo.

Uma vozinha dentro do meu ser dizia: Miguel, não direcione seus olhos para o dorso desnudo, para os braços, cujos os pelos pareciam tão suaves ao toque alheio, nem para os músculos tão pequenos e duros, esqueça que acabou de ver aquela fina camada de suor, que escorreu pelo rosto rubro e pingou no ombro indo por ultimo encontrar seu fim no peitoral desnudo.

Ok, chega de romantismo barato, isso não combina comigo.

— Ah, estou exausto! — exclamou sentando-se ao meu lado. Devido ao nervosismo que se mesclava com a ansiedade, sem perceber levei outro cigarro aos lábios.

Deus, eu vou infartar desse jeito.

— Jogou bem franguinho. — elogiou Pablo.

— De que adianta “Jogar bem”, se não foi nossa a vitória?! — lamentou Natan.

Os dois começaram a discutir sobre o jogo não era exatamente uma briga, Pablo só queria animá-lo, mas isso deixava Natan mais irritado. A conversa se tornou um tanto hostil.

E eu? Eu apenas fiquei do lado dos dois, calado, ainda abalado com a inocente sedução do anão, ouvindo as baboseiras que um dizia pro outro. Acho que nem preciso citar que fiquei enciumado, né?

Soou o sinal para troca de períodos, nos levantamos e seguimos pra fora da quadra e até então permaneci calado, esperando a conversa hostil chegar ao fim, o que não tardou a acontecer. Já nos encontrávamos dentro do prédio, no final do corredor quando esbarramos em Piêtro que estava acompanhado de seus amigos. Pablo se despediu de nós e arrastou seu primo para cabular a próxima aula em um lugar qualquer.

Natan ficou a observá-los com uma expressão indecifrável no rosto.

— O que foi? — perguntei a ele.

— Huh? Nada. — respondeu num murmúrio. — Bem... eu estava pensando... até que ele não é tão mau assim, né?

Ergui uma sobrancelha, chateado. Deus, o que eu faço com esse ciúme filho da puta? Isso não é justo. Eu vivo um inferno, me sacrifico para conquistar, pelo menos, a amizade desse anão e o Pablo consegue isso num piscar de olhos, sem fazer absolutamente nada?

Morra Pablo, morra.

Resmunguei um mau humorado “hm” de entendimento, só para não deixá-lo no vácuo e aquilo pareceu intrigá-lo. Natan finalmente percebeu que meu humor estava afetado naquele dia.

Bingo!

Era tudo o que eu queria. Natan deteve um passo no meio do caminho, me olhou, franziu a testa e com as duas mãos na cintura perguntou: — O que você tem hoje? — mesmo que me questione a respeito não diria a verdade... Se bem que posso até dizer... mas com certeza irei omitir alguns fatos.

Né, não posso?

— Não tenho nada, oras. — dei os ombros, repousei as mãos nos bolsos da minha jeans, fiz propositalmente uma careta de chateação.

Natan cruzou os braços acima do peito, me olhou com desconfiança e deste jeito permaneceu esperando eu me dar por vencido e desabafar sobre o que me afligia naquele dia. Suspirei resignadamente e respondi sinceramente: — Estou com ciúmes.

Natan fez uma careta de nojo impagável, rodou os olhos e desconversou.

— Ciúmes, porque?

— Vocês parecem duas mulherzinhas fofoqueiras, isso me irrita.

Ele ficou incrédulo.

— 'Tá falando sério?

— Sim, falo sério. Não estou achando nada divertida essa aproximação de vocês, gostava mais quando se odiavam. Escuta: Pablo é bacana e tudo, mas tente não ficar tão... amiguinho dele, 'tá?— Natan bufou e imediatamente rebateu mau humorado:

— Pare com essas neuras.

— Falo sério. — Falei em tom de aviso e ele sacudiu os ombros.

O anão voltou a caminhar despreocupadamente, enquanto eu permaneci ereto no mesmo lugar, observando sua figura ficando cada vez mais distante de mim.

(#)

O restante da manhã seguiu sem maiores acontecimentos, tivemos aulas extras durante a tarde toda. Passei o intervalo inteiro na cola do Natan, com Pablo grudado em nós, este notou de longe minha indignação com sua inconveniente presença e aproveitou para brincar com a minha paciência me provocando constantemente.

No final do intervalo deixei o anão na sala dele e segui para a minha aula. Durante os últimos períodos dei gelo no Pablo, ele me olhava do outro lado da sala, ria e abanava toda hora.

'Tsc que ser humano irritante.

Era aula de química, detesto por sinal, por mim essa disciplina nem precisava existir. Acabei cochilando no meio da aula e fui bruscamente acordado pela voz irritada da professora, que sem sombra de duvidas me detesta.

A noite caiu rápida com uma temperatura razoável. Pablo convidou Natan pra ir a casa dele jogar um game, obviamente eu fui junto. Me senti um intruso no meio dos dois, ambos estavam realmente se dando bem, fiquei sobrando na conversa várias vezes. No início estávamos somente os três depois fomos agraciados com a ilustre presença de Vinícius que se juntou a mim sentando no tapete da sala.

Nós dois ficamos observando a irritante interação entre Natan e Pablo como dois completos intrusos.

— 'Tá roubando. — ouvi Natan reclamar enquanto apontava o dedo na cara do Pablo, este por sua vez parecia pouco se importar com o ato insolente.

— Não estou nada, se não sabe perder, não joga, oras.

— Você rouba e vem dizer que eu não sei perder? Trapaceiro. — apontou Natan.

— Não são trapaças, são táticas. — devolveu Pablo.

— No inferno só se for. — berrou Natan jogando uma lata vazia de refrigerante na cabeça dele.

— Calma franguinho, recém começamos o segundo tempo. — Pablo riu e resmungou usando um tom... malicioso?! É isso mesmo, eu ouvi mal, ele usou um tom malicioso?

Estreitei os olhos na mesma hora, Vinicius me olhou de canto, devolvi o olhar com uma hostilidade que não combinava comigo e o maldito Vinicius riu de mim, quase pulei no pescoço dele.

— Qual é a graça, porra? — perguntei enfurecido.

— Ele só quer te provocar. — respondeu, voltei meus olhos pra dupla.

— É, 'tô sabendo e ele 'tá conseguindo isso com sucesso.

Aquelas alturas eu só rezava, implorando a Deus que trouxesse Piêtro pra casa o quanto antes, só para acabar com a festa dos dois. Sabia que com a presença de Piêtro a atenção do Pablo seria voltada somente ao primo e assim deixaria o meu anão em paz. Porém... não foi o que aconteceu. Para a minha desgraça, quando Piêtro colocou os pés na porta, me forcei a não rir da cara do pirralho que ficou claramente desgostoso com a visita do Natan, a cara que ele fez foi ridícula, parecia que tinha engolido barata.

Piêtro tentava inutilmente atrair a atenção do primo, mas este estava fixado em Natan. Foi então, que eu percebi a verdadeira intenção do Pablo, na verdade ele só queria provocar seu primo, usando Natan.

E que raiva senti.

Irritado com aquela baboseira toda, me levantei e fui pra rua fumar um pouco. A irritação me corroía por dentro, mas havia uma voz lá no fundo do meu ser que me implorava para ficar calmo.

Maldito Pablo, o que ele 'tá pensando?

Entretido com os meus pensamentos, não notei que um meliante entrava no portão e me olhava com um sorriso besta nos lábios, só fui me dar conta quando ouvi um assovio debochado.

— Que cara rabugenta é essa, comeu inseto e não gostou?

Lancei um olhar fulminante e ele soltou um “Ui que meda!”, debochando da minha cara de poucos amigos.

— O que faz aqui? — perguntei.

— Vim visitar meus amigos, não posso? — não respondi, joguei o cigarro fora e me sentei no último degrau das escadas. — Também senti sua falta, 'tá?

— Pare com essa viadagem. — resmunguei, e ele riu. De repente o silêncio predominou, mas apenas por alguns instantes.

Ele não consegue ficar de bico fechado por muito tempo.

— Posso me sentar? — perguntou apontando para o pequeno espaço vago ao meu lado.

— Não, cai fora, quero ficar sozinho. — respondi.

— Essa doeu, hein. — E ele sentou-se mesmo assim. — Anda, chega pra lá.

— Meu idioma não ficou claro pra você? Eu disse: cai fora, quero ficar sozinho!

— O que aconteceu, que humor do cão é esse? — reclamou.

— É o único que eu tenho, não gostou, cai fora!

— O problema é comigo? Fiz algo que te irritou?

Suspirei. — Junior, eu só quero ficar sozinho.

— Ah, então aconteceu algo lá dentro, né? O que fizeram?

Não respondi, apenas me ergui e voltei pra dentro da casa, argumentar com esse asno é inút... — M-MAS O QUE INFERNO 'TÁ ACONTECENDO AQUI?

Um Natan sendo, praticamente dominado por um Pablo que prendia os pulsos dele acima da cabeça, sentado sob suas pernas, me encarou corado. O asno do Junior apareceu logo atrás de mim e assoviou, me sacaneando.

— Hei, Miguel... Não é nada disso que 'cê... — Pablo começou.

— Que eu 'tô pensando? Ah, Pablo não fode comigo, cara. — berrei e ele deu um riso incrédulo.

Natan ficou lá abismado em silêncio. Enquanto eu gritava, ele me encarava com receio.

— Pra começo de conversa não 'tô pensando nada, eu vi com os meus próprios olhos.

Meu corpo parecia um vulcão em erupção, sem pensar duas vezes, avancei pra cima dos dois. Pablo imediatamente se moveu, saindo de cima do Natan, antes que eu pudesse chegar perto deles. Peguei Natan pelo braço, erguendo seu corpo do chão, ele reclamou dizendo que eu estava machucando seu braço recém recuperado. Mas eu não dei ouvidos, até porque estava cego, surdo e mudo, a imagem dos dois naquela posição me deixou perturbado. Puxei ele até a porta e sai sem dizer nada...

— Cara, é sério 'cê 'tá exagerando, eu só estava... — Pablo ainda tentou se justificar indo até a porta, porém foi em vão.

— Não chegue mais perto dele. Nunca mais! Fique longe dele!

— Me larga punk, 'tá me machucando, porra! — reclamou Natan.

Vinicius, que voltava do banheiro, ficou estático, não entendendo nada do que acontecia. Piêtro saiu do quarto e apareceu ao seu lado perguntando qual era o motivo da gritaria. Não fiquei lá pra ouvir as explicações do Pablo. Não me interessava.