Delirious
14 14. Só faltava isso
Notas iniciais
Capítulo 14. Só faltava isso.
Narrado por Miguel:
E finalmente a segunda-feira chegou, mas claro nunca benquista, pobre coitada.
Este deveria ser o parágrafo onde resumo todos os acontecimentos da noite passada, mas como não estou com vontade de dividir com vocês minhas queridas lembranças, vão morrer na curiosidade.
'Tá, vou matar um pouco a curiosidade de vocês.
Até porque não consigo esquecer... E daria tudo pra ver novamente os olhos lacrimejados de encanto daquele anão, enquanto o Bitch se apresentava.
Depois da apresentação, ficamos curtindo um pouco a noite no ninho e mais tarde todos foram pra casa do Pablo, entretanto nada demais aconteceu lá: jogamos cartas, bebemos até que todos ficassem inconscientes caindo pelos cantos da sala; quartos e corredores. Todas as reuniões pós-festas sempre acabavam na casa de Pablo, tudo aquilo não era mais novidade pra mim. Já Natan sentiu-se um tanto deslocado com receio que alguém acabasse em coma alcoólico, o que não aconteceu. Por volta das seis da manhã, levei ele para casa e retornei para casa do Pablo.
Fim.
Matei a curiosidade? Se não, problema é de vocês. A grande maioria das pessoas detesta histórias com flashbacks e fonte em itálico, sei disso por experiência própria. Eu odeio. Sério.
Enfim... como falei no início, é segunda-feira, agora são exatamente oito horas da manhã, estou me arrastando pelos corredores, irritado, cansado e com preguiça. Quero minha cama de volta, dormir apenas duas horas não foi suficiente.
Não vejo aquela figura irritadiça no meio da multidão, o que torna tudo mais... chato.
Provavelmente não virá hoje.
— Deveria saber. — murmurei inconformado.
— Falando sozinho?
Justamente quando você acha que as coisas não podem piorar, elas pioram. No meu caso, diante dos meus olhos estava o últi-, perdão, penúltimo ser humano, que queria encontrar a essa hora da manhã.
— Castanheli. — a vontade de vomitar foi grande quando proferi este nome. 'Muuuuito grande.
Vi os grandes olhos claros se estreitarem. O maldito fez pose de sábio: cruzou os braços e suspirou.
— Acho que precisamos levar um papo sério. — disse ele.
Só que eu não 'tava a fim de levar um papo sério com ele. Ergui uma sobrancelha.
— Levar um papo sério? — perguntei e ele assentiu. — Foi mal cara, mas eu não estou a fim de... — ergui meus braços para o alto e fiz um sinal de aspas. — “levar um papo sério” com você.
Dei as costas e ouvi uma risadinha incrédula. Opa! Sinal de alerta e, é nessa hora que Miguel Dorneles estanca no meio do caminho, gira o pescoço e fuzila o cara.
— Qual é punk, só quero conversar. Acho que é hora de colocarmos os pingos nos 'ís.
Certo, agora eu não posso mais ignorar.
— Fala logo o que você quer.
— Aqui não. Vamos para um lugar mais reservado.
(#)
Um lugar mais... reservado?
Atrás da cantina. Encostei na parede e ele ficou parado na minha frente com as duas mãos na cintura.
Gay!
— Muito bem bela, desembucha. — comecei querendo que o assunto acabasse logo, olhar muito tempo para esse cara me dá náuseas.
Ele me olhou com semblante fechado.
— É o seguinte: — coçou a nuca. — Essa sua súbita amizade com o Natan não me convence. Jogue limpo comigo e, por favor, esclareça!
Só posso estar sonhando. Primeiro aquele outro otário chega cheio de perguntas e agora esse. Natan o que você tem que desperta tanta preocupação nesses babacas? Se bem que essa droga toda 'tá longe de ser apenas uma preocupação. Isso tem outro nome, eu farejo isso.
Que porra esse moleque do Natan tem afinal, mel no rabo? Cara que inferno isso.
— Vem cá, existe alguma lei que impede outras pessoas de se aproximarem daquele anão ? — perguntei irado.
— Não é isso, acontece que ele te odeia. Duvido muito que alguém como o Nat — “Ainn o Nat”. Gay. Gay. Gay. Esse cara é gay. — Permitiria que você... — Haha ele 'tá me olhando da cabeça aos pés? Porra que petulância é essa?! Cruzei os braços ouvindo o final de seu discurso. — Entre na casa dele tão facilmente.
— E o que você... — imitei seu gesto petulante, olhei desde a sujeira do dedão do pé, até o último fio levantado da sua cabeleira loira. — Acha que 'tá rolando entre nós? — perguntei, sentindo a palma da mão formigar.
É imensa a vontade de formar um punho e acertar as fuças desse maldito loiro.
— O que eu acho? — perguntou, mas sem realmente esperar uma resposta. — Eu não acho nada. Eu tenho certeza absoluta que você 'tá ameaçando ele. O que descobriu que é tão grave a ponto de fazer com que acate todas as suas vontades?
Eu ri e ri bem alto.
— Acatar todas as minhas... “vontades”? Cara, você 'tá por fora. — ri outra vez, estava desacreditado. — Em primeiro lugar eu não te devo nenhuma satisfação sobre a minha vida, em segundo lugar...
Fomos interrompidos por uma dupla que vinha conversando e não era uma conversa bem amistosa.
— Não enche porra. Já disse que não.
— Franguinho...
— Pare com essa porra de me chamar de franguinho. Qual é, ainda não passou o efeito da maconha?
— Eu não fumo maconha.
— 'Tá, e eu não me chamo Nat-. — os dois estancaram no meio do caminho quando notaram nossas presenças. Natan estreitou os olhos. — Ei punk, é só eu que estou vendo coisas?
Pablo não respondeu, imediatamente senti que o ar em volta dele mudou completamente. Seu semblante se fechou quando os olhos miraram o rosto de Castanheli e vice-versa.
— 'Tá com problemas ai? — perguntou Pablo.
— Ei, ei gente! Não vamos começar outra briga, né? — Natan tentou conter as faíscas que os dois trocavam.
— Diz isso pro seu amigo Natan. — falei, mas sem mostrar aborrecimento.
Nat olhou pro loiro e depois me olhou apreensivo.
— M-Matheus... ?
— O que esse cara fez pra você, Nat? — perguntou o otário.
— Ahn?
— Não se faça de idiota. — gritou, apontando o dedo na cara do Natan.
— Ei, não grita com ele. — falei usando o mesmo tom e dando um passo para frente.
'Tô começando a me irritar. De verdade.
— Fique na sua, punk. — berrou Natan para o meu espanto.
Pronto, fechei a cara.
— Isso vai dar merda. — murmurou Pablo.
— O que esse cara sabe sobre você? — perguntou meu empecilho novamente. Natan ficou confuso.
— Quê...? Como assim, cara?
— Natan... — ele se aproximou da cadeira, colocou as duas mãos uma de cada lado dos encostos. — Fale! Não precisa temer nada, a gente vai dar um jeito, se quiser eu resolvo aqui e agora.
— M-mas não tem nada.
Silêncio.
— Na boa. 'Tô largando fora, esse lance de novela mexicana e triângulo amoroso gay, não combinam comigo. — Disse Pablo. — Tchau!
— Você sabe de alguma coisa também, não sabe punk? — Vish, Pablo deteve um passo. 'Tô sentindo o fedor de confusão ficar mais forte. Olhou sob o ombro.
— Escuta Castanheli, não me envolva nessas broncas , e-
— 'Tá, chega! — interrompeu o anão. — Quer saber, estou de saco cheio de toda essa baboseira. Punk, vamos largar fora, deixe esses dois se ferrarem.
Dei de ombros e falei:
— Ok, vamos lá ent-
— Não estou falando com você. — Ele me olhou com censura e depois dirigiu seu olhar para o Pablo. — Vamos, os loiros que se entendam.
Fiquei pasmo!!
— Vai deixar seus amantes se matarem? — Pablo debochou e Natan riu com ironia.
— 'Tá querendo arranjar briga também?
Pablo riu... Pablo riu? Porra, o Pablo riu! Desde quando esse cara ri?
Tanto eu quanto o Castanheli, ficamos parados, boquiabertos assistindo Pablo começar a empurrar a cadeira, enquanto conversava amistosamente com um Natan desbocado.
(#)
— Cai fora! — resmunguei.
— Ah, qual é?!
— Fura-olho dos infernos.
Pablo deu um meio riso. Recém bateu o sinal para o recreio, estamos andando no corredor, ele me seguia e tentava conversar comigo, mas estava sendo completamente ignorado.
— Grande amigo. — acuso.
— Não 'tá falando sério, né?
— Oras e porque não? — pergunto, como quem não quer nada.
— Porque isso não tem o mínimo sentido.
— Porque não? — pergunto desinteressado.
Um minuto de silêncio.
— Desculpa cara, mas eu não possuo o mesmo mau gosto que o seu. — falou.
Parei no meio do corredor, girei os calcanhares e encarei-o incrédulo.
— Odeio dizer isso, mas não sei se você percebeu: seu primo e Natan possuem algumas semelhanças.
E foi a vez de Pablo estreitar os olhos e abrir a boca.
— No inferno só se for.
Rodei os olhos e voltei a caminhar.
— Que seja, mas fique longe dele. — falei fazendo um bico enorme.
E falando na praga, encontramos com ele no final do lance das escadas, no segundo andar. Ele ria de alguma coisa, porém quando me viu fechou a cara e começou a arrastar a cadeira, para longe de nós.
E agora o que foi que eu fiz?
— Ei, Natan, não finja que não me viu!! — falei alto o suficiente para atrair atenções. Mesmo de costas ele ergueu a mão fechada em punho, e levantou o dedo do meio.
Desgraça de anão.
— Vish, acho melhor deixar os pombinhos sós. Boa sorte. — debochou Pablo.
Esse cara...
— Eu ouvi isso, punk! — berrou Natan.
E esses dois estão começando a me incomodar com toda essa intimidade. Estou começando a me arrepender de ter levado Natan no Ninho ontem a noite.
Segui o anão irritado que entrou numa sala de aula. Quando cheguei na porta, estreitei os olhos para o grupo de moleques que estavam numa rodinha me encarando.
Vai ser difícil ter uma DR com esses sarnentos na volta.
— FORA TODOS! — berrei e todos tremeram, saindo de cabeças baixas. As vezes minha fama de “punk louco” pode ser bem útil. Havia uma pessoa no meio deles, a qual eu não contava que fosse tentar sair também. — Todos, menos você!
Coloquei meu pé na frente da roda da cadeira, impedindo sua passagem.
Fechei a porta, infelizmente não havia chaves e nem nada para trancá-la. O maldito anão foi se arrastando até a janela.
— Vai me ignorar muito? — Me aproximei, sentei na classe a sua frente.
— E se for? — Perguntou aborrecido. Bem, ao menos ele não está chateado, ou berrando como costuma fazer.
— Se for, a gente vai ter que dar um jeito nesse seu mal humor. — falei usando um tom de malícia.
Ele me olhou com tédio e acusou:
— Viado.
Fechei a cara.
— Viado é o seu amigo, aquele enrustido.
— Você também é!! — devolveu.
— Enrustido? — perguntei.
— Não, viado.
— 'Tá chega dessa conversa. — falei, tirando do bolso o maço de cigarros.
— Ei, não vem fumar perto de mim, já basta aquele seu amigo punk.— acusou Natan torcendo o nariz.
— Pensei que não gostasse do Pablo.— ralhei.
— Quem disse que eu gosto?
— Não gosta?
— Não. — respondeu sem remorso.
— Mas vocês parecem estar... Bem unidos desde ontem.
— Ah ele quer que eu faça uns lan- — tampou a boca como se tivesse falando o que não devia.
— “Uns” o que? — perguntei seco.
— Nada.
— Começou agora termina.
— Você não manda em mim.
— E agora estão de segredinho? — acusei aborrecido.
— Você é doente. — E novamente ele me olhou com tédio.
— Não muda de assunto.
— Não estou mudando. Mas é verdade você deveria tratar essa sua doença.
— Que doença você 'tá falando?
— Dessa vontade de monopolizar as pessoas.
— Ah agora aprendeu a falar bonito, deve ser a convivência com Pablo, né?
Ele me olhou e riu.
Silêncio.
Um tempo depois:
Silêncio.
— Ei, Natan? — chamei quebrando o silêncio.
— O que?
— Posso te dar um beijo?
— HÃ?!!
— Posso te beijar?
— QUÊ, 'TÁ ME ESTRANHANDO? CLARO QUE NÃO. — berrou enfurecido.
Porra e agora? Quero dar um beijo nele.
— Só um?
— Never.
Sério, eu preciso dar um beijo nele. Mas se fizer sem seu consentimento, o clima vai ficar uma droga e provavelmente vamos acabar brigando.
— Olha as 'ideia do cara — murmurou.
Ele virou pra janela, ainda rindo descrente com o meu pedido. Fiquei por um longo tempo observando-o de perfil e a vontade só crescia.
Desci da classe ficando em pé a sua frente com o cigarro preso nos meus lábios e meus olhos grudados em suas feições. Traguei e assoprei a fumaça pra fora da janela.
Porra, que se foda o clima.
— Natan... — chamei, ele olhou. E antes que pudesse esboçar alguma reação, com a minha aproximação, meus lábios selaram os seus.
Um pequeno tempo passou.
O contato foi interrompido com o barulho da maçaneta sendo girada, olhamos para a porta, encontrando um par de olhos castanhos arregalados.
— Edu!!!!!!!! — Natan exclamou.
Pronto, dessa vez tenho cem por cento de certeza que acabei de cavar minha tumba.
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