Delirious

6 06. Vai deixar seu amigo apanhar?


Capítulo 06. Vai deixar seu amigo apanhar?

Narrado por Natan:

Respirei fundo quando soou o sinal para o recreio, já não suportava mais aquela aula chata de matemática. Por causa da perna e braço torcidos estava usado gessos e por pura preguiça de usar de muletas, peguei a cadeira de rodas do meu avô.

Entretanto, às vezes pulava usando a perna boa ou andava mancando pelos corredores da escola. Até arriscava caminhar normalmente, mas me cansava rápido. Não tinha muitas opções, tudo doia.

Eu bem que podia ficar em casa de atestado. Mas me nego a faltar aula, pois no ano passado por pouco repeti de ano por causa do grande número de faltas.

Matheus me acompanhava, empurrando a cadeira pelo corredor.

— E aí, gracinha — um babaca que não faço a mínima ideia de onde saiu, passou por nós acompanhado de três garotos, piscou e mandou beijinhos.

Seus amigos idiotas riram da piada.

Irado mandei ele ir para aquele lugar escondido no meio das nádegas peludas dele.

Matheus fez diferente, ele empurrou o idiota fazendo com que batesse com as costas no armário. E depois prensou-o com força segurando-o pelo colarinho da camisa. Todos os estudantes pararam ali no corredor, doidos por uma briga.

Desde o “incidente” com Miguel Dorneles tenho sido motivos de piadas homofóbicas na escola. Matheus que antes adorava tirar sarro da minha cara, agora se irritava com as brincadeiras dos outros alunos e acabava arranjando brigas sempre.

Embora também ficasse irado, já não me sentia tão afetado assim com aquelas brincadeiras. Minha cabeça agora tinha outra dor, bem mais problemática.

Uma dor de cabeça chamada Miguel Dorneles.

Todos os dias ele me perseguia, sempre dizendo que queria conversar comigo, mas eu nunca dava chances de se aproximar de mim.

— Ei, Castanheli — todo mundo olhou para o rapaz de aparência rebelde no meio do aglomerado de alunos. Era o Pablo, amigo da minha dor de cabeça. — Deixe-o.

Castanheli é o sobrenome do Matheus.

— Não se envolva punk. — respondeu Matheus ainda prensando o garoto ruivo contra o armário.

— Vou me envolver sim. Você tá chamando atenção e esse cara aí que você prensa contra o armário, é meu primo.

Matheus olhou sobre o ombro e seus olhos azuis se estreitaram perigosamente em direção ao punk. Ele largou o moleque que imediatamente retraiu os ombros com medo.

— Ah ele é seu primo? — perguntou Matheus, se fingindo de sonso. Pablo não respondeu e Matheus fez algo que deixou todos de queixo caído: acertou em cheio o rosto do moleque com o punho.

— Grande porcaria que ele é seu primo. Tô cagando pra isso. — disse depois do golpe. O primo caiu deitado no chão e Pablo voou pra cima do Matheus.

Os dois começaram a brigar usando uma violência exagerada para dois meros estudantes do ensino médio. Fiquei chocado com a brutalidade da briga. Desesperado, comecei a gritar pedindo que apartassem, mas todos em volta incentivavam.

A princípio não havia diferença de força, podia jurar que os dois estavam empatados. Matheus era um cara da paz, mas não tira ele do sério. Aquele loiro não leva desaforo para casa?

E Pablo era conhecido por brigar e sair sempre ileso das brigas, sem um arranhãozinho. Ninguém se envolvia com ele.

Matheus levou um soco na barriga e ficou meio desnorteado, por instinto curvou o corpo assim ficando em desvantagem. Pablo aproveitou e lhe deu uma rasteira, fazendo-o cair deitado no chão. Nessa hora levei um susto e passei a berrar para que parassem de brigar, me senti um completo inútil sem poder apartar a briga devido ao meu péssimo estado físico.

— O que tá acontecendo aqui? — ouvir aquela voz me causava náuseas. Por um momento esqueci da briga e prontamente fechei a cara, mas ele nem me olhava, parecia mais interessado na briga.

Talvez, não tenha me percebido...

— Ei, não fique aí parado só olhando, arrombado. Separe eles logo, porra. — gritei e só então ele me olhou.

O sorriso de incredulidade sumiu de seus lábios e sua atenção passou a ser exclusivamente minha me deixando enjoado. Virei o pescoço para o outro lado, aborrecido, ato que confesso ser completamente infantil para um cara da minha idade, mas que se dane.

Só de respirar o mesmo ar que ele me irritava.

— Quer que eu separe eles? — perguntou, cruzando os braços acima do peito, bem sereno e me olhando fixamente. Encarei ele desacreditado.

— Se liga imbecil, o punk ali não é seu amigo? — perguntei.

Ele olhou desinteressado para a briga, olhei também. Agora Pablo estava sentado sobre as pernas do Matheus desferindo socos no rosto dele.

Como esse demônio (Dorneles) consegue ficar tão calmo em um momento como este?

— É, verdade ele é meu amigo. — ele afirmou com uma calma de se admirar. Enquanto eu estava quase infartando. — Mas ele tá levando a melhor, então não preciso me preocupar com nada.

A raiva que eu senti naquele momento foi difícil de engolir. Meu sangue ferveu, me movi impulsivamente me esquecendo por um instante da minha situação física.

— Seu grande filho da puta!

Ele ignorou completamente meu comentário.

— Agora você sim deveria se preocupar, afinal o loirinho ali é seu amigo, né?

Crispei os lábios e cerrei os punhos.

— Juro que quando me levantar dessa cadeira vou arrebentar com todos os dentes dessa tua boca petulante.

Ele se aproximou da cadeira e se inclinou ficando próximo demais do meu rosto. Me retrai inteiro e mordi meus dois lábios querendo evitar qualquer ato estranho que pudesse vir dele. Miguel fechou as duas mãos uma em cada lado dos encostos da cadeira.

— Mas como você está... — me olhou da cabeça aos pés, eu podia jurar que ia morrer com aquele cheiro de macho. — Impossibilitado, não pode fazer muita coisa por ele, a não ser: gritar, né? — Juro que o mato um dia. — Mas se quiser eu posso ajudar.

Os gritos da galera ao redor começavam a me afetar mais que aquele cheiro de perfume de homem.

— Porém, é claro, vou querer algo em troca.

Tremi, fiz várias negativas com a cabeça e ele riu desdenhando.

— A escolha é sua. Vai deixar seu amigo apanhar?

Finquei as unhas na carne da palma da minha mão, machucando-a no ato. Que bastardo filho de uma puta. Desgraçado. Cretino. Anticristo. Filho do demônio. Que ódio, que ódio, que ódio!

— O que você quer em troca?

Ele riu da pergunta.

— Está disposto a me dar qualquer coisa pelo seu amigo?

— Porra, eu topo. Mas tire logo aquele troglodita de cima do Matheus!! — falei a todo pulmão.

— Qualquer coisa? — ele perguntou e eu engoli seco assentindo sem muita confiança.

Ele sorriu vitorioso, me olhando confiante. Não suportei por muito tempo o contato visual e virei o pescoço.

Era perturbador demais.

Ele assobiou para Vinicius, outro punk, que anda sempre junto com eles. E os dois tiraram Pablo-troglodita de cima do Matheus. Edu chegou correndo acompanhado da inspetora. Meu sangue ferveu.

— Agora é tarde, imbecil!! — gritei com ódio, afinal tinha acabado cavar minha própria tumba por não ter opção.

— Misericórdia, o que infernos aconteceu aqui? — perguntou.

— Não importa agora!! Olha o estado dele. Vocês três levem-no para enfermaria. — Disse a mulher.

Três garotos do terceiro ano carregaram um Matheus apagado.

— Cuidado aí, 'ô arrombado!!! — gritei com muita raiva, vendo o descuido deles ao carregarem meu amigo.

— Cadê o causador disso tudo? — perguntou a inspetora.

Pablo que estava sendo segurado por Miguel Dorneles se pronunciou:

— Bem aqui.

— Vamos para a direção, rapazinho e o restante voltem para suas atividades

Antes que eu pudesse seguir os três que carregavam Matheus até enfermaria a minha cadeira foi puxada e eu quase morri a seguir:

— Te encontro na saída, vá direto para a cantina e me espere lá.

Engoli aflito. Estava ferrado, ferrado!!

Que deus tenha misericórdia de mim.

(#)

— Mas como isso foi acontecer?! — Berrou Edu frustrado.

Fazia horas que ele estava gritando nos meus ouvidos, enquanto eu estava tentando encontrar uma forma de fugir de Miguel Dorneles.

— Nat, me responde, puxa!

— Vai se foder, aonde você 'tava, porra?!!

— Na secretária fui pegar meu atestado de matricula.

— Só cala essa boca!!!

Virei meu rosto para o lado. Estávamos parados do lado da porta da enfermaria.

— O que 'tá acontecendo com você? — ele perguntou depois de poucos minutos de silêncio, estava frustrado.

— Nada.

— Ah tá. Como se eu fosse acreditar nessa mentira deslavada. Tenho cara de idiota, por acaso?

— Tem. — Minha resposta deixou Edu irritado.

— Quer saber?? Vai se foder!!!

A porta da enfermaria se abriu e a enfermeira nos olhou com reprovação.

— Vocês estão fazendo muito barulho no corredor. — encolhi o ombro envergonhado. — Vem cá vocês, não têm aula, não? — ela perguntou num tom aborrecido.

— Só queremos ver nosso amigo, doutora. — falei num murmúrio.

A hesitação era nítida no semblante dela. Por um momento tivemos certeza que ela não deixaria. Mas conseguimos convencê-la.

Matheus estava bem. Só estava com grandes e feios hematomas no rosto. Olho roxo, boca cortada, nariz sangrando... Ah nada demais. Ele até riu quando comentamos do assunto. Edu comentou algo sobre a enfermeira ser “boazuda”, e de zoeira disse que ele era sortudo por ter sido atendido por ela. Rimos, mas depois que as risadas cessaram e um silêncio pesado apareceu.

Acabei me pronunciando aproveitando o clima silencioso.

— M-me desculpa, cara. Foi tudo minha culpa. — murmurei envergonhado.

Ele não respondeu de imediato, também não sabia que cara fazia naquele momento, pois estava de cabeça baixa, sem coragem de encará-lo. Um travesseiro voou se chocando contra minha cabeça.

— Para de viadagem, cara. — ele disse. — Fui eu que procurei por isso.

— Mas se não fosse por...

— Pare já com isso! — censurou num tom mortal. — Eu assumo sozinho minhas broncas.

Aquela frase ficou na minha cabeça durante o restante das aulas. Matheus literalmente jogou merda no ventilador, quando decidiu começar aquela briga, mas ao menos admitiu que fez errado e que aquela bronca era dele, que deveria arcar com seus atos.

Pensando bem isso vale pra mim também. Tenho que aceitar o que quer seja tal da “troca” do Miguel Dorneles, afinal a parte dele, já tava feita.

(#)

Quando o último sinal soou, guardei meus cadernos com a ajuda de Edu.

Matheus foi liberado mais cedo, o pai dele foi buscá-lo na escola e pelo que sei ele ganhou uma bronca das grandes.

— Vamos Nat!

— Edu, me leve até a cantina. — pela primeira vez na vida ele não questionou o porquê, me surpreendi, pois ultimamente ele andava bisbilhotando demais nos meus assuntos.

Fomos para a cantina, por onde passávamos todos nos olhavam e cochichavam. Era frustrante. Filhos da mãe, não tinham o que fazer. Quando chegamos na cantina, agradeci Edu pela ajuda e disse:

— Vai indo na frente, tenho umas coisas pra fazer antes. Vou mais tarde.

Ele me olhou e começou a suas sessões de questionamentos. Tava demorando. Me irritei e mandei ele embora logo. Aborrecido, Edu foi embora me deixando lá.

Sozinho, fiquei pensando o que aquele capeta ia querer de mim, pode parecer que estou tranquilo, mas na verdade estou morrendo por dentro. Não queria imaginar o que ele vai fazer. Entretanto foi inevitável não pensar um monte de besteiras. Medo é o sentimento que me descreve naquele momento.

Fuga foi a primeira palavra que pensei quando notei Miguel Dorneles vindo lá longe saindo do prédio das salas de aula. Senti um horripilante frio na barriga. O que ele vai fazer comigo, qual e a troca?

Ele se aproximou.

— Oi.

— O-oi. — cumprimentei querendo me enforcar por causa do meu nervosismo.

Ele riu. Encostou-se na parede e deixou o corpo resvalar até o chão sentando-se.

— Como está seu amigo?

— Muito que você tem interesse em saber. — Comentei com sarcasmo.

Ele rodou os olhos e soprou a fumaça.

— Matheus, né? É esse é o nome dele? — assenti positivamente. — Fez uma grande idiotice.

Aquilo me deixou emputecido. Que vontade de socar a cara desse arrombado.

— Ninguém sai ileso quando entra no ringue com Pablo. Seu amigo foi muito babaca.

Sério, Deus se você me ama, prove fazendo um raio cair na cabeça desse filho da puta.

— Me chamou aqui para falar asneiras?

Perguntei e ele riu franzindo o cenho.

— Não fique tão tenso. — disse sorrindo.

— Não enrole, vomita logo o que você quer!

— Relaxe. — usou num tom amaciado. — Faz dias que estou querendo falar com você, mas nunca me deixa aproximar. Agora eu vou te pagar com a mesma moeda, vou matá-lo no cansaço.

— Você é irritante, sabia?

— Sabia. — riu como se fosse a coisa mais cômica do mundo. — E você é esquentadinho demais. Tente relaxar.

— Teu cú. — usei o mesmo tom que ele usava, amaciado e debochando.

Miguel cruzou as penas e acendeu um cigarro. Tudo na mais absoluta tranquilidade. E eu me corroendo por dentro com aquele descaso todo.

— Porra arrombado, vai falar ou não vai?

Ele fechou os olhos, deu um suspiro.

— Só depois que você relaxar.

— Ah então tchau pra você, eu tenho mais o que fazer.

— Lembre-se que temos um acordo. — seu tom aos meus ouvidos foi mortal. Esse cara é sádico.

— Vai se foder!!!

Ele me olhou fixamente, parecendo decepcionado. Virei o rosto,incomodado com o peso daqueles ohos.

— Desembucha logo, diz que você quer mesmo é me foder. — vomitei impulsivo como sempre. Tenho que controlar isso.

— Você é muito infantil, sabia? — se ofendeu. Tragou demoradamente o cigarro. — Mas já que é assim então tá. Poupou meu trabalho: anda, levante daí e vire-se.

Levantou-se num único movimento e se aproximou ficando a poucos passos de mim e abriu o zíper da calça.

Mas o que é isso, Jesus?

— Tá falando sério?

— Oras, não era isso que você queria? Levanta, vamos acabar logo com isso.

Arregalei os olhos e dei um tapa forte na mão que tentava me erguer.

— Nem fodendo, tira a mão de mim! — Quem disse que ele me deu ouvido — Tá bem espera! Olha só, vamos conversar, tem que haver outro jeito de... de... resolver isso.

Miguel parou e me olhou fixamente parecendo pensativo e hesitante.

Mas pude respirar aliviado por não sentir mais suas mãos em cima de mim.

— Você vai ouvir o que tenho a dizer? — Ele perguntou e sorri amarelo, mas assenti. — Vai aceitar o que quero numa boa, independente do que for?

Assenti novamente, mas morrendo de medo por dentro.

— V-vou.

Miguel sorriu voltando a sentar no chão, agora de frente para mim.

— Ótimo, estamos começando a nós entender. E assim ele finalmente começou a falar. Porém, conforme prosseguia com seu falatório ficava chocado. Aquilo era o pior. Definitivamente não dava pra aceitar numa boa.

Não mesmo.