Delirious
7 07. Ego inflado.
Notas iniciais
Capítulo 07. Ego inflado.
Narrado por Miguel:
Acordei cedo.
Maldita ansiedade.
Sentei no sofá da sala, sendo acompanhado pelo silêncio da casa.
Dormi na casa de Pablo, costumo dormir aqui durante a semana. Sei lá, meu pai é um bêbado e minha mãe é uma chata, portanto prefiro passar mais tempo fora de casa, ao invés de aturar suas companhias insuportáveis.
Fechei os olhos, sentindo o peso deles, fruto da noite mau dormida. O sono simplesmente havia sumido ás seis da manhã.
Não demorou e a figura magricela de Pablo apareceu para me fazer companhia.
— Que foi caiu da cama? — me perguntou.
— Mais ou menos e você?
— Ouvi seus passos e acordei.
— Aham, sei sentiu meu cheiro isso sim. — ralhei de bom humor.
— Corrigindo: Senti seu fedor. — rimos.
Pablo é um cara tranquilo, sempre sereno de voz arrastada, aparência um pouco assustadora. Mas é boa pinta.
— O que aconteceu? — perguntou acendendo um cigarro.
— Perdi o sono.
— Por causa daquilo? — Assenti. — Não esqueça que você me deve uma.
Ri.
— Não devo nada.
— Ah, se não fosse por mim isso não teria acontecido. Pode passando o dinheiro
— Vá dormir vá. — brinquei. Ele deu um meio riso.
— Sempre desconversando.
Fizemos uma pausa para um pequeno silêncio. Pablo queria dizer que se não fosse por sua briga com o amigo do anão as coisas não tomariam rumo que tomaram. De fato eu devo muito a ele.
~
Ele empalideceu. Pediu para que eu repetisse tudo que havia dito. Simplifiquei. Eu estava bem sereno. Afinal tenho dois pontos favoráveis: Um deles era que Natan não podia me agredir fisicamente, ao menos não naquele momento.
E o outro ponto: fizemos um trato, ele não podia simplesmente desfazer tudo e fugir.
E tem mais eu sei como contornar a situação caso ele se negue a aceitar meu trato.
— Como é? — insistiu. — Repete desgraçado. Repete por que eu acho que não entendi direito.
Suspirei resignadamente. Será que meu português não 'tá claro o suficiente?
— Quero que você namore comigo por um mês. E ainda exponha para o colégio inteiro saber que é propriedade única e exclusivamente minha.
Ele fez um movimento violento a fim de se erguer, mas sua tentativa foi frustrada. Não movi um músculo continuando a encará-lo fixamente, sabia que ele não podia se levantar devido ao seu péssimo estado físico.
Seu rosto inteiro se contorceu numa careta revoltada.
Ri.
— Nunca. Prefiro morrer, 'tá me ouvindo? — fechei a cara com aquela resposta.
Impressionante, como algumas pequenas palavras conseguiram acabar com o meu bom humor. — Prefiro morrer.
Respirei fundo.
— Fizemos um trato. — relembrei.
— Que se foda a porra do trato. — gritou gesticulando os braços para o alto. — Não vou deixar você me foder por causa de uma aposta.
Que aposta que esse ignorante tá falando?
Me ergui do chão num salto. Ao ficar em pé, me inclinei sobre a bendita cadeira, fechando o pouco espaço que tinha para se mover. Meu corpo praticamente cobriu todo o seu corpo, que no momento se encontrava frágil.
— Escuta aqui: não fique testando minha paciência ou esqueço que tenho bom senso e te... — aproximei minha boca de seu ouvido e sussurrei. —... fodo aqui e agora.
Ele engoliu seco, vi o suor escorrer frio — num fio -, na lateral de sua face.
Porém, já tinha perdido meu bom senso a partir do momento em que sussurrei aquelas palavras ofensivas em seu ouvido.
Mas que se dane.
— Vai mesmo correr com o rabinho entre as pernas. Não era você que heroicamente decidiu ajudar seu amigo?
Apesar da calma, por dentro meu sangue fervia, o coração bombeava violento no peito na expectativa.
— O que aconteceu com aquele seu espírito cheio de determinação?
Sua fala morreu e eu prossegui.
— Cadê seu orgulho, vai fugir mesmo? Pensa bem. Eu vou rir de você pelo resto da sua vida.
Silêncio absoluto. Algum tempo depois fui surpreendido por um ruído de seu riso. Ele me olhou com determinação falsa. Uma determinação que por dentro era corrompida pela raiva e insegurança. Eu tinha certeza, conheço cada pequeno detalhe seu. Embora não pareça.
— Um mês? Certo, eu t-topo. Mas quero impor algumas condições.
— Sem condições.— ralhei imediatamente.
— Como?!! — Berrou.
— Sem condições, eu que decido as coisas aqui.
Sem mais argumentos. Sorri cruel e acariciei com as costas das mãos seu queixo.
— Sem mais objeções?
— Vai adiantar alguma coisa? — sorri com sua pergunta. E ele deu um tapa na minha mão.
Abri um largo sorriso.
— Tem razão não vai adiantar muito: Eu ganhei! — falei por ultimo.
Sabia desde o início que aquela seria uma guerra fácil, fácil de ser vencida.
~
Fui desperto para a realidade que me chamava em forma de um garoto ruivo, com traços semelhantes aos dele. Na verdade era só o fato de ambos possuírem sardas espalhadas pelo rosto.
O primo do Pablo. Pivô da briga, aquele que começou tudo isso, um garoto de quinze anos, que se chama Piêtro.
Ele vestia apenas uma boxer vermelha. Passou reto por nós e seguiu para a cozinha.
Pablo ficou praticamente hipnotizado, seguindo-o fielmente com os olhos, preso em cada pequeno passo e movimento do primo. Ri. Contei até dez, sabendo exatamente o que aconteceria a seguir e não deu outra. Logo meu amigo estava em pé erguendo as calças que caiam mostrando pedaços de pele e um pouco de seus pelos pubianos. E assim foi atrás seguindo os mesmos passos de Piêtro entrando na cozinha também.
Fechei meus olhos e cocei a nuca.
Ouvi sussurros, sons de estalos de beijos e reclamações.
Cansado de ver e ouvir aquilo constantemente, me ergui e fui para o quarto. Precisava dar um jeito na minha abstinência sexual.
~
Cheguei cedo na escola, culpa da droga da minha ansiedade e o Pablo que não largava seu primo por nada. Aquilo me enojava, porque os dois eram muito grudentos. Mas também tinha aquelas horas tensas onde eles brigavam, usando até violência física.
Pablo nunca machucava seu primo, era sempre o contrário e olha que há uma gritante diferencia de forças entre os dois. Óbvio que Pablo é mais forte, mas ele nunca revida. Enfim, complicado.
Não dá pra entender. Prefiro manter distancia daquela merda toda. Aqueles dois são chaves de cadeia. O fedor da encrenca impregna minhas narinas quando fico perto deles, principalmente quando estão juntos.
Fiz algo que não costumava fazer: sentei na cantina, comprei uma torrada e um suco de laranja.
Eu queria vê-lo chegar. Mal posso esperar, o sorriso na minha boca chega sem meu consentimento.
Tenho grandes expectativas.
— Isso são horas? Te chutaram de casa? — e o meu sorriso morre no mesmo instante ao encarar aquela face que eu tanto detesto. — Nossa que horror, não faz essa cara horrível pra mim, eu hein.
Respirei fundo me desfazendo da minha carranca. Marcela mesmo sem intenção me irrita.
— Quero te fazer um pedido. — comecei bebendo um gole do meu suco. Hm... Até que é bom, nunca tinha provado.
Ela ergueu uma sobrancelha loura.
— Vish isso cheira mau. Mas manda! — comentou fazendo uma careta.
— Quero que desminta sobre nós dois.
Ela rodou os olhos e me olhou como se eu fosse um E.T.
— Ah, desencana. — desdenhou ela. — Ninguém mais lembra disso. Só você.
— E ele.
— Ele ainda não esqueceu? — perguntou entediada.
— Culpa sua. — ralhei.
Marcela se ofendeu e fechou a cara.
— Eu já pedi desculpas, 'tá?
— Não me interessa apenas faça.
E a discussão seguiu, até uma menina aparecer e chamar a peste. Novamente me vi sozinho. Aos poucos outros alunos chegavam e ocupavam as mesas, lotando a cantina. Olhei o relógio no meu pulso notando que ficava tarde e que provavelmente aquele anão já deveria estar na escola.
Me ergui deixando a cantina. Na saída me distraí sem querer, observando uma briga de moleques do fundamental, não sei bem, mas acho que eram da oitava série e sem querer esbarrei em alguém.
Quando notei de quem se tratava e nossos olhos se encontraram sorri de canto, observando a face pálida ficar imediatamente rubra de raiva.
Os olhos se estreitarem e o corpo — sentado na cadeia de rodas, sendo empurrado pelo moreno de cabelos crespos.
Destino que eu estimo muito, obrigado por me amar tanto.
— Olá, Natan. — sorri sendo receptivo demais para o meu gosto. Eu não queria começar daquela maneira, mas não dava pra evitar. Meu ego era maior que eu. — Pronto para mais um dia de aula?
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