Delirious
5 05. O que eles escondem?
Capitulo 05. O que eles escondem?
Narrado por Edu:
Franzi o cenho para a dupla que vinha lá longe, entre as árvores. Havia uma silhueta conhecida. Filho da puta. Todo mundo preocupado com o jumento e ele no mato fodendo com Miguel Dorneles.
Corri, vendo que Miguel carregava o peso morto de Natan nas costas, Matheus ficou para trás afogando-se nas próprias lágrimas. Ele esteve preocupado, com medo que algo de ruim tivesse acontecido com o Nat e se culpando por ter brigado com ele.
— Onde infernos você se enfiou? — nem fui dando espaço para ele argumentar qualquer coisa. — Deixou todo mundo preocupado, cara, você fez até o Matheus chorar, sabia?!
— Eu me perdi, porra!
— Se perdeu? Como você foi se perder, imbecil? — perguntei.
— Não sei, mas eu me perdi.
— E pra que existe celular?
— Ei, será que dá pra dar uma mãozinha aqui? Depois vocês discutem a relação. Esse cara pesa, sabia? — censurou Miguel, fiquei envergonhado e o ajudei.
Nat desceu das costas do loiro com muita dificuldade, sua aparência era horrível, cabelo e roupas sujas, também tinha sangue no joelho. Ele passou o braço por cima do meu ombro e o outro em cima do ombro do Miguel.
— Nem acredito que finalmente chegamos. — choramingou meu amigo.
Não demorou e uma multidão de pessoas se aproximou de nós, os professores quase tiveram um orgasmo de alivio ao ver os dois ali, são e salvos. Uma porção de perguntas foram feitas, Miguel disse que Nat tinha caído num enorme buraco e que talvez tenha quebrado a perna.
Por sua vez, Nat parecia completamente alheio a toda preocupação dos colegas e professores. Diferente de todas as vezes que ele e Miguel ficavam cara a cara, onde ele só faltava voar para cima do loiro, daquela vez parecia completamente imune a sua presença.
Fiquei intrigado com suas reações, mas não comentei nada de imediato, deixaria de lado por enquanto, mais tarde questionaria sobre o que havia acontecido. O jumento teve atendimento médico e os professores entraram em contato com sua família para avisá-los do acidente. Ele quebrou o braço e torceu a perna. O passeio foi cancelado, tivemos que guardar tudo que havíamos tirado das malas e organizado, pois na manhã do dia seguinte voltaríamos para casa.
Matheus chorou e foi patético! Eu queria matá-lo por estar passando por aquele vexame na frente de todo mundo por causa dele. Francamente esses meus amigos, ainda fico admirado por continuar andando com eles, só pagam mico.
(#)
— Ei, Nat. — chamei observando suas costas silenciosa. Estávamos dentro da barraca desde o momento que ele havia chegado. Matheus ouvia uma música no Ipod e lia um mangá e eu estava sentado observando os dois.
Nat estava em absoluto silêncio, aquilo não passou despercebido por mim e nem por Matheus que foi imediatamente tirar satisfações com Miguel Dorneles sobre o comportamento estranho de Natan. No entanto seus “cães de guarda” não o deixaram nem chegar perto do cara — e eu que fui atrás quase apanhei.
Foi tenso. Mas também fiquei mais desconfiado com o fato do punk não se pronunciar. Ele ficou lá atrás de Pablo e Vinicius de cabeça baixa. No fim... Não conseguimos descobrir nada.
— Você tá legal? — perguntei, mas não obtive resposta. — Ah, cara sei lá, fale com a gente.
Silêncio absoluto.
Matheus me olhou de canto, com a testa franzida, ele já estava perdendo a paciência.
Suspirei resignado desistindo de arrancar alguma coisa, mas não pude evitar de ficar chateado o clima estava mesmo muito estranho.
Peguei minha mochila e retirei de lá um mangá de espadas e samurais para tentar me distrair.
— Não aconteceu nada — murmurou Nat um tempo depois, tanto eu quanto Matheus o encaramos surpresos.
— Então, qual é dessa cara azeda? — Matheus não foi nada delicado na hora de perguntar. Nat não respondeu, apenas se remexeu sem mudar sua posição. — Porra Natan, estamos preocupados com você.
Novamente não nos deu nenhuma resposta, ficando no mais absoluto silêncio. Matheus se ergueu num impulso brusco, dando a entender que estava de saco cheio daquele clima. Compreendia completamente o que ele sentia, pois estava sentindo o mesmo, passamos por um enorme sufoco durante a tarde toda, preocupados com Natan, não havia meio de nos comunicar com nenhum dos dois já que não estavam com seus celulares. A tarde rapidamente caiu e nada dos dois dar sinais de vida. Fizemos grupos de buscas, mas não os encontramos e assim acabamos retornando para o acampamento com esperança de encontrá-los lá, mas não aconteceu, foi nessa hora que Matheus entrou em crise.
Foi horrível.
— Edu, tô saindo, não dá pra ficar aqui. — fui despertado pela voz de Matheus. Dei de ombros, o que poderia fazer?
Não sei quanto tempo passou desde que Matheus me deixou na companhia silenciosa de Nat, mas não foi pouco. Fiquei distraído lendo mangá, comendo batatinhas e até esqueci dos últimos acontecimentos.
— Edu.
Desviei meus olhos da página do mangá e ergui uma sobrancelha com uma batatinha na boca. Pensei que ele estava dormindo
— O que?
— Se eu te contar uma coisa... promete guardar segredo? — engoli a batata seca e me endireitei numa posição mais confortável.
— Prometo. — respondi automaticamente.
Nat hesitou. Fiquei olhando-o na expectativa e com cuidado ele sentou-se e virou pra mim.
Suspirou.
— S-sabe... Aconteceu uma coisa... Uma coisa sinistra comigo hoje. — comi outra batatinha e revirei os olhos. Ah, não me diga que ele vai relatar todo o incidente do buraco, barranco ou sei lá?
— O que? — perguntei sem demonstrar muito interesse, embora um pouco de curiosidade estivesse me corroendo por dentro. Ele crispou os lábios, gaguejou, suspirou por diversas vezes.
— O que você faria se... Se a pessoa que você mais odeia no mundo se declarasse para você?
Estranhei imediatamente aquela pergunta, mas respondi a fim de terminar logo com a embolação que ele queria fazer.
— Sei lá, o que eu faria. Acho que... Ah sei lá, que diabo de pergunta é essa?
— É, sério cacete. Fale sério comigo.
— O que eu faria? Véi, não sei. Acho que daria a real diria que eu não posso corresponder... Sei lá, qualquer cara diria isso. Mas porque quer saber?
Ele não me respondeu.
— Qual é Nat? Fale logo, já tô ficando louco.
— Porra, cara. Eu tô apavorado. — ele disse agarrando os cabelos com força. Ei, eu que estou apavorado aqui, falou?
— Apavorado com o que, cacete?
— Apavorado, porra.
— Mas porque?
— Eu... eu.. eu...
— Certo, quando resolver confiar em mim me chame.
Suspirei. Desviei meus olhos para o lado de fora da barraca.
Do outro lado estava o grupinho dos punks sentados numa rodinha em volta de uma fogueira. Marcela esta lá com eles, ao lado de Miguel. Fiquei atento olhando aquela cena, os dois juntos, ela parecia estar consolando ele, mas toda hora ele se desviava de seus toques.
— Nat, que estranha a relação do Miguel com a Marcela, né? Sei lá, ele parece estar completamente enojado dela. — Realmente não pareciam um casal apaixonado. — Tem certeza que eles estão juntos?
Senti que Nat havia ficado tenso. Ele retraiu os ombros e escondeu o rosto.
— Que foi Nat?
— Acho que ela vai me odiar quando descobrir. — sussurrou, mais para si próprio.
— Por quê? — perguntei impaciente. — Sério cara, mistérios e essa personalidade cheia de receio não combinam contigo. Pare já com isso.
Ele desviou os olhos e voltou a deitar. Fiquei boquiaberto. Bufei, estava começando a me irritar.
(#)
Segunda-feira. De volta ás aulas, de volta a minha cidade, minha casa, meu quarto, minha rotina. Até que não faz tanto tempo, foi apenas dois dias. Infelizmente.
Como em todos os dias de aula, começamos com uma pequena reunião entre os amigos na praça de alimentação do colégio. Já do portão vi Matheus de longe sentado num banco, conversando com sua “quase namorada”, quando me aproximei, percebi que na verdade estavam brigando. Francamente, o que ele tem na cabeça, o cara é do tipo mulherengo, nunca pára com mulher nenhuma. A menina se chama Vanessa, ela é muito lindinha, dona de uma beleza exótica, uma mistura de índios com afro descendente. Possuía uma pele ricamente negra, olhos castanhos mel, repuxados, muito gata. Mas... chata! Pois, ao contrário dele, ela queria relacionamento sério.
Dei meia volta, quando as vozes se alteraram, ou melhor, quando ela se alterou.
— Edu!! — ele me gritou, para minha desgraça. Olhei sobre o ombro e sorri amarelo.
— Vou ali rapidinho comprar um suco. — falei apontando pra cantina.
Forcei as vistas vendo uma dupla conhecida conversando.
Nat e Miguel Dorneles.
Caminhei até aonde se encontravam com muito cuidado para não ser percebido por nenhum deles. Matheus gritou por mim, mas foi completamente ignorado. Me aproximei o máximo que podia para poder ouvir sobre o que conversavam. Fiquei muito curioso pois via de longe, Natan gesticular os braços para o alto, apontar o dedo na cara do punk, sem medo de morrer.
— Espera, Nat. — Miguel agarrou seu braço, impedido sua quase fuga.
— Não te dei intimidade pra me chamar assim. — ele desviou da pegada no braço.
— Pare de palhaçada, até quando pretende se fazer de difícil?!
— Pare de gritar imbecil, as pessoas estão olhando!
— Então, venha comigo, agora. — Nat engoliu seco e eu também. Não me pergunte porquê.
— P-pra que?
— Precisamos conversar sobre... Aquele assunto. — que assunto?
Droga, tô ficando louco.
— Não! — essa doeu até em mim. — Eu... Eu não quero falar sobre aquilo.
— Ah, só quero me explicar.
— Aham, eu sei o que você quer... Nunca mais fico sozinho com você. Nunca mais!! Me deixe em paz!!
Miguel parecia estar petrificado. Ele ficou um tempo longo olhando para o nada, enquanto Nat lhe dava as costas deixando-o para trás.
Fiquei curioso e minha curiosidade era mais forte que eu. Saí do meu esconderijo a fim de averiguar com Miguel sobre aquilo. Ele continuava lá, parado... Olhando para o nada.
Que cara estranho!
— 'Ô, punk. — me encarou mecanicamente. Passei as duas mãos em frente seus olhos, ele despertou imediatamente, deu um tapa nas minhas mãos e eu senti um ar hostil se apossar dele.
Me fuzilou aborrecido.
— Quem é você? — perguntou. Fechei a cara, ofendido.
— Como assim “quem é você?”, puxa vida, obrigado pela parte que me toca. — agora sim me sinto um nada, no meio da multidão, o cara mais conhecido da escola não conhece minha existência.
— O que você quer? — ah, essa hostilidade me incomoda, sério.
— Olha cara, eu sou legal. Não precisa me tratar assim.
— Fale logo o que você quer!
Revirei os olhos.
— Eu ouvi a conversa de vocês agora a pouco. — ele estreitou os olhos perigosamente e cerrou os punhos. Temi pela minha vida. — Na verdade... Parte dela.
Sorri amarelo e ele não riu. Cruzou os braços acima do peito.
— Onde quer chegar? — perguntou pronto para me dar um soco no meio da cara, mas claro, dependendo da minha resposta.
— Eu sou-
— Espera... Eu acho que te conheço de algum lugar... — me analisou da cabeça aos pés. Mais uma vez temi pela minha existência. — você é...
— Amigo do “Nat”. — frisei bem o apelido. E sorri. Algo muito sinistro aconteceu a seguir, o rosto hostil e curioso, ganhou uma tonalidade vermelha intensa.
Tudo naquele cara era violento até o modo como ele corava. Sério. Que medo!! Me pergunto como o Nat consegue ter tanta coragem de discutir com ele.
— O que você quer de mim?
Opa! Dessa vez a pergunta saiu de um jeito um tanto quanto receosa. Cara, eu estou cada vez mais intrigado com esses dois. Puta que pariu, é chato ficar por fora das fofocas que rolam no colégio.
— Saber o que tá acontecendo, o Nat tá muito esquisito, tô preocupado.
— Mesmo? Ele disse... Alguma coisa? — agora com um pouco mais de confiança, respondi:
— Hã? Ah... Bem... Ele disse algumas coisas. — pensei lembrando do que ele me disse na barraca.
— O que? — ele estava muito curioso, desesperado. Agarrou com força o colarinho da minha camisa.
— Ei, ei, calma ai.
— Fale! — Ui, que medo. Vou morrer, alguém me ajuda, por favor?
— E-ele disse algo s-sobre a Marcela odiar ele. Não lembro, droga, me solta.
Ele me soltou e olhou para a frente ficando pensativo. Observei com cautela, na duvida se perguntava ou não.
— Ele falou isso, é?— perguntou baixinho.
— Falou. — respondi ajeitando minha camisa. — Então, cara, vai me dizer sobre o que vocês falavam ou não?
Ele me olhou com aquela hostilidade novamente. Encolhi os ombros.
— Não é da sua conta e não comente com ninguém ou: Te mato!
Dito isso ele me deu as costas e se juntou com seu grupo de punks fedorentos. Fiquei muito chateado, porra eu tou preocupado com o Nat.
Mentira. Quero mesmo é saber o que tá rolado entre esses dois. Afinal de contas o que eles escondem?
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