Delirious
4 04. Reencontros são sempre emocionantes.
Notas iniciais
Capitulo 04. Reencontros são sempre emocionantes.
Narrado por Miguel:
Eu estava bem tranquilo, sentado debaixo de uma árvore qualquer, fumando meu cigarro quando ouvi uns barulhos estranhos nos arbustos atrás de mim. Sobressaltei ficando com todos os meus sentidos em alerta.
Olhei em direção de onde vinham aqueles barulhos... E foi então que vi algo surpreendente acontecer: uma bola humana e cor de laranja florescente, rolou rampa abaixo, caindo diretamente dentro de um enorme buraco embarrado.
Imediatamente um flash passou pela minha cabeça e de repente aquele laranja se tornou familiar.
Ouvi um barulho semelhante a um baque surdo em conjunto de um perturbador urro, logo em seguida uma voz muito conhecida por sua habitual irritabilidade berrou enfurecida:
— PORRA!
Aquele "PORRA", fez três ecos no pôr do sol. Era algo do tipo: PORRA... RRA... RRA...
Deus! Foi a cena mais cômica que tive o prazer de presenciar na minha vida, mas claro, depois da cara do anão ao ser beijado por mim naquele dia.
Aquela cena com certeza ficará eternamente gravada na minha cabeça.
Tomei um puto susto na hora, fiquei chocado depois, mas quando me recuperei do choque e me dei conta do que se tratava, respirei fundo e revirei os olhos.
Me ergui preguiçosamente e caminhei em direção aquela rampa. Me agachei no topo do buraco, ficando a observá-lo de cima.
Era ele: O anão!
Joguei a bituca do cigarro preso nos meus dedos fora.
— Que idiota! — Censurei baixinho.
De imediato ele não percebeu minha presença ali, estava tão concentrado em si, ocupado demais tentado se recuperar que minha presença tornou-se insignificante. Ele caiu lá dentro deitado de barriga para cima, sua a roupa se encontrava toda suja e agora gemia de dor e não parava de reclamava.
— Me diga: Como conseguiu cair aí? Você é cego por acaso? Não acredito que não viu esse enorme buraco. — Repreendi a fim de ser notado.
— Ahn... Vai a pra put-! Ahn isso dói. — Choramingou segurando o braço.
Ah, só de pensar que EU teria que tirá-lo de lá, já me batia um cansaço filho da puta... Aff... Aquilo seria trabalhoso demais. Mas não podia deixar ele jogado daquele jeito, ainda mais no estado que se encontrava.
— Consegue se levantar? — Perguntei sem muito ânimo e demorou séculos para ganhar uma resposta. Fiz um bico enorme já ficando impaciente e reforcei a pergunta: — Hei, tá me ouvindo?!
— O que?!!! — Perguntou, como sempre hostil.
— Perguntei se consegue se levantar?!
Véi, na boa, eu tou falando grego?!
— Droga acho que quebrei a perna! — Murmurou e me olhou de canto. E só naquele exato momento me percebeu, sem pensar duas vezes estreitou seus olhos, furioso. — Punk?!!!
Rodei os olhos. Okay, ele com certeza é mais denso que eu! Não há duvidas!! Existe criatura mais ignorante nesse mundo, meu deus?
— Que foi bateu a cabeça durante o tombo, é? — que idiota, paciência tem limite e a minha está começando a se esgotar. — Natan, presta atenção: Levanta daí que eu vou tentar te puxar para cima...— propus, estendendo minha mão.
Ele demorou um pouco para processar a informação (normal), me olhou confuso. E de repente —assim do nada—, sua expressão mudou de confusa e passou para irada.
Será que ele finalmente entendeu o que eu queria dizer?!
Através de seus olhos, castanhos escuros, eu pude ver todos flashs dos últimos capítulos dessa novela: Desde a rejeição da Marcela até toda a escola como testemunha do beijo.
Ah, acabei de me dar conta... Ele me odeia, com certeza!
— Quê?!! Negativo!! Prefiro morrer que aceitar sua ajuda. Cai fora.
Não disse?!
— E me diz como vai conseguir se safar sozinho dessa, hein?— perguntei me sentindo ofendido.
— Cala a boca!!! Eu sei me virar sozinh... Ai! Ai! Ai!
Bufei!
Certo! O que fazer quando você quer ajudar uma pessoa que não quer ser ajudada? Geralmente você deveria apertar o botão do “Foda-se”, dar as costas e sumir. Estou errado? Afinal não tem o que fazer. Porém... Eu faria isso se fosse qualquer infeliz numa situação como aquela, jogado ali todo fodido. Sinceramente faria! Mas como é uma pessoa que eu... Conheço não consigo simplesmente dar as costas e ignorar a situação assim facilmente.
Ah, qual é?! E se ele morrer? O sentimento de culpa me perseguirá pelo resto da minha vida. Eu serei apontado na rua como assassino, cruel, anticristo, sem coração, tudo isso e mais um pouco.
Quer saber? Dane-se, você e sua opinião.
Com cuidado desci a rampa e pulei dentro do buraco. O anão abriu os olhos em dobro de tamanho; espantado era seu apelido. Parecia que estava de frente com a própria morte, eu ri por dentro.
Sou sádico e não sei, há! Essa foi boa!
— Hei, hei, hei o que vai fazer?!! Sai, pra lá, ein? — ele dizia se arrastando no barro a fim de se afastar.
Queria ficar longe de mim... Ah, aquilo doeu!
— Para de babaquice, só quero te ajudar! — ralhei.
— Você é surdo? Eu disse que não quero sua ajuda.
— Deixa de ser teimoso! Me diz uma coisa: pra que ficar tão na defensiva assim comigo?! Sou eu que deveria ficar na defensiva aqui, meu rosto ainda dói por causa daquele soco que você me deu, sabia?!
— Hein?! Foi você que pediu por aquilo, se não tivesse me-me-me... — ergui uma sobrancelha achando aquilo engraçado. — me b-b-b-beijado... Não teria acontecido!!
— Ah qual é? Foi só um beijinho, não precisa fazer tanto drama. — Vi seus olhos se abrirem mais ainda.
Oh não! Acabei de alimentar sua ira.
— Hã?!! Por sua culpa virei piada na escola!!!
— Porque você tá gritando?!!!
— Você também tá gritando!!! — berrou, apontando o dedo de maneira acusatória para mim.
— Eu grito, se você grita também, é uma reação normal!!!— me defendi.
— Então pare!!! — seu tom se elevou de uma maneira absurda.
— Foi você que começou!!! — Elevei o meu tom também.
— E daí? Se você continuar a gritar, não vou parar!!!
— Quer parar de gritar, estou ficando louco?!!!
— Pare você primeiro!!!
— Não, pare você!!!
— Pare você!!!
— Arg!!!!!!!!!! — Atingi meu limite.
Cerrei os punhos sentindo meu rosto inteiro esquentar. Geralmente tento manter a calma nessas horas e por este motivo coloquei as duas mãos na cintura, fechei os olhos e respirei fundo, buscando minha calma.
Daquele jeito não chegaríamos a lugar algum.
Caraca, meus dedos formigavam tamanha era a vontade de socar uma parede naquele momento.
Olhei-o de cima, vendo-o ter extrema dificuldade para procurar uma posição confortável ao qual pudesse ficar sentado no chão sem sentir dor durante o ato. Em seguida encolheu-se todo. Fiquei assistindo aquela cena com uma expressão indecifrável.
Seu rosto estava todo sujo assim como suas vestes, as sobrancelhas franzidas, numa típica expressão dolorida e irritada, e suas maçãs faciais vermelhas.
O silêncio predominou, só pude esperar por um momento de distração dele para poder fazer algo a respeito. Vi o momento certo quando ele abraçou os joelhos, criando um tipo de uma colcha protetora e escondeu seu rosto entre os braços.
Vagarosamente me aproximei e num único movimento peguei ele pelo braço erguendo seu corpo. Ele gritou algo do tipo: “Me solta seu filho de satã!”.
Com muita dificuldade coloquei seu braço em volta do meu ombro e circulei meus braços em sua cintura.
Ele relutou, como era previsto, gemeu, gritou, me fez ameaças de morte e tudo de ruim que se possa imaginar. Todavia não desisti, fui até o fim e depois de muito escorregar e quase rolar rampa a baixo com ele novamente, conseguimos chegar ao topo.
Sentei seu corpo vagarosamente, com muito cuidado debaixo da mesma árvore onde antes estava sentado sozinho antes de ele chegar e acabar com a minha paz. Desabei ao seu lado, claro que ficando numa certa distancia.
Que foi?
Não quero levar outro soco na cara, ok?! Eu estava me sentindo exausto. Porra, ele é pesado pra caralho, apesar de ser baixinho tem bastante massa muscular.
— Viu só como foi fácil?! Não doeu nada, doeu?! — perguntei revirando o bolso da minha calça a procura do cigarro.
— Doeu!!!!!! — gritou virando o rosto para o lado o oposto do meu, emburrado.
O que há com esse cara? Ele tem problemas. Parece uma criança birrenta.
Mais que ódio, não tou conseguindo achar o cigarro, MERDA cadê o cigarro? Cadê? Quer ver algo me tirar do sério? É não encontrar meu cigarro, isso sim me deixa emputecido.
Será que deixei ca-! Imediatamente corri em direção ao barranco.
Oh não!
Lá se vai minha carteirinha novinha, estava dentro do buraco coberta de barro. Dessa vez não me contive e soquei a primeira árvore que vi na minha frente.
Ah legal, além de estar perdido no meio do mato, sem celular, sem comida, sem identificação, com um anão esquentadinho gritando, estou sem cigarro. O que mais de ruim pode acontecer?
Droga, se pudesse prever o futuro não teria saído do acampamento. Minha intenção era só dar uma voltinha, fazer um descanso das péssimas companhias, não aguentava mais ouvir a Marcela tagarelando nos meus ouvidos e o Pablo me repreendendo por ter esquecido a droga do Ipod dele em casa. Como eu ia adivinhar que ia me acontecer isso?!
MERDA!
Enfim... voltei a sentar, não adiantaria nada pensar essas coisas, nada seria resolvido assim. Me sentei em posição de Lotus de baixo de outra árvore que ficava de frente para o anão e fechei os olhos.
Franzi a testa intrigado. Sabe aquela sensação de ter alguém te observando fixamente? Pois é, eu tava tendo essa sensação naquele momento. Abri meus olhos encontrando duas pedras negras me observando curiosas. Porém quando meus olhos se encontraram com os seus rapidamente desviou; e adotou aquela postura hostil novamente.
Aquela hostilidade tava começando a me irritar, sério. Sei que merecia, mas aquilo me incomodava mesmo assim.
Ouvi um barulho estranho vindo dele, olhei-o novamente, notando que enrubescia numa velocidade incrível.
— Eu ouvi. — falei me divertindo com coloração avermelhada que seu rosto ganhou, ao tentar disfarçar o ronco no estômago.
— E daí?! O que você tem haver com isso? O problema é meu!
Pronto. Fechei a cara novamente. Suspirei, sim ele tem o poder de me tirar do sério. Sem pensar fui cuspindo tudo que tava entalado na garganta.
— Vem cá, me diz uma coisa: me odeia tanto assim?
— Odeio!
— Porque? — minha voz saiu mais alterada que de costume.
— E ainda pergunta?? — suspirei sentindo-me exausto novamente.
— Se foi por causa daquele beij- — tentei em vão falar, mas nada adiantou, ele me interrompeu.
— Cala a boca! Você roubou minha garota.
— O que? Ah, cú!! Então é isso?! Escuta: Eu e Mar-
— Não quero ouvir, não quero ouvir, não quero ouvir Lalalalala.. — ele tampou as duas orelhas com as mãos e começou a cantarolar sem parar.
Deus! Até onde vai a infantilidade de uma pessoa?
— Me deixar falar?! — gritei irritado com sua cantoria infantil. — Hei, Natan!
E ele continuava com aquilo.
Ah, eu tive que dizer adeus a minha paciência. Me levantei, indo em sua direção, como um furacão, me ajoelhei a sua frente... E lembra quando disse que ele tinha o poder de me tirar do sério? Pois é, agora você vai entender o que eu quis dizer com aquilo. Sem pensar duas vezes agarrei os cabelos de sua nuca, girando seu pescoço fazendo-o me encarar: Olho no olho!
— Porra desgraça- — ele gritou, mas eu interrompi seu irritante falatório.
— Cala a boca! Eu cansei de ser paciente com você, Nat. — Opa! Já chamei até pelo apelido. Péssimo sinal, alguém aí, me pare? — Quer saber de uma coisa: Eu e a Marcela....
Ah, droga, cala a boca Miguel! Não diga nada que vá fazer você se arrepender mais tarde.
— Ah não vou ouvir!!! — Quanto mais ele falava mais irritado eu ficava.
— Escuta, droga!!!
— Não quero-!!
Não sei o que aconteceu comigo a seguir.
Ou sei? Ah, talvez tenha sido só a vontade de fazê-lo se calar e me deixar falar, ou talvez fosse a irritação. Só sei que perdi o controle, igual aquela vez na escola...
Quando me dei conta minha língua já tinha adentrado sua boca e o beija.
Droga fiz outra vez!
Marcela sua maldita, quando descobrir vai rir da minha cara.
Pior é saber que todo esse tempo a imbecil estava certa, desgraçada. Eu sinceramente queria poder bater no peito e falar pra ela cheio da razão: Marcela, todo esse tempo você esteve errada. E pior quis me enganar. Ele definitivamente apenas me irrita. Porém eu não posso fazer, pois ela é que tá com a razão!
“O que? Ele te irrita? Hahahahaha Tá brincando? Isso tem outro nome, e eu conheço bem...”
“O que quer dizer com isso?”
“Ah, homens são tão complicados. Você sabe o que eu quero dizer, pare de se enganar, amigo. Eu já saquei qual é a sua.”.
"Não sei o que você quer dizer, acho que a tintura do seu cabelo tá afetando seu cerebr-”.
“Você gosta dele!”.
— E-eu eu.. porra, eu gosto de você, seu idiota!
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