Delirious
2 02. Bonito por fora e feio por dentro.
Notas iniciais
Capítulo 02. Bonito por fora e feio por dentro.
Narrado por Miguel:
— Você, o que maldita? – berrei incrédulo com o celular no ouvido. Inferno, meu cigarro caiu e quase me queimei. Dei um pulo no sofá assustado.
— Ah, você ouviu, não me faça repetir. — respondeu Marcela, com chateação do outro lado da linha. Fiquei encarando a televisão de boca aberta. Não acredito que ela teve coragem de dizer aquilo pra aquele idiota.
Como ela consegue ser tão descarada?
Agora tá explicado o motivo de ele ter avançado pra cima de mim daquela maneira escandalosa. Provavelmente se emputeceu por descobrir que a garota pela qual é apaixonado gosta de outro cara e o que é pior: É correspondida!
— Miguel?!
— Então esse foi o motivo daquele ataque repentino... – resmunguei com o meu habitual tom de voz arrastado.
Ela se desculpou:
— Foi mal, mas fiquei sem ação quando ele se declarou.
Respirei fundo sentindo o cansaço me abater. Agora fiquei irritado.
— Tá bem... Vou desligar, amanhã nos falamos...
— Ah espera! Vai no passeio da escola depois de amanhã?
— Ahn?! Que pergunta idiota, é óbvio que vou.
— Mesmo depois do que aconteceu hoje?
Suspirei, bagunçando alguns fios do meu cabelo e encarando as cinzas do meu cigarro. Ah! Aquilo tinha acabado com os planos que fiz para essa excursão. Eu queria dar uma lição naquele boca aberta e fiz a cagada de beijá-lo na frente de quase toda a escola, levei um enorme e escroto soco na cara.
A sensação que ficou no peito não foi nada agradável, apesar de ter sido divertido olhar a cara revoltada que fez.
— Vou dar um jeito.
Ela se calou por uns minutos e eu pensei que tinha desligado na minha cara.
— Droga, agora realmente me sinto péssima. — resmungou um tempo depois. “Isso se sinta, afinal a culpa é toda sua.” Tinha vontade de dizer isso, mas não disse, sei lá, por pena eu acho.
— Nah! Nem esquenta. — falei e dei um longo trago no cigarro. — Vou desligar.
Me despedi com um: “até manhã” e desliguei. Me ergui e fui para o banheiro tomar um banho para depois dormir, pois amanhã bem cedo tinha escola, não podia me dar ao desfrute de madrugar!
Imagino que essa hora aquele anão deve estar me odiando com todas suas forças, tenho quase certeza que fará o impossível para ignorar minha existência daqui pra frente. Não que isso me importe, tenho certeza que vou sobreviver.
Bem, de qualquer forma acho que ele não vai ter coragem de dar as caras na escola depois do que aconteceu hoje a tarde.
x
Ledo engano...
Opa! Ele acabou de esbarrar em mim e o pior é que não notei sua pequena figura no meio da multidão. Olhei para baixo, encarando aqueles pequenos olhos negros me fuzilarem, aquele rosto cheio de sardas contorcendo-se de raiva.
Droga, tanta gente para esbarrar e tive que esbarrar logo nele?! Mais que grande merda!
— Olha por onde anda, desgraçado! — Falou de forma rude, em seguida passando reto por mim de cabeça baixa e sendo acompanhado pelos olhares e cochichos dos alunos que passavam pelo corredor.
Quando me vi sozinho senti a veia da minha testa pulsar. Moleque filho da puta.
— Miguel! — olhei por cima do ombro e me deparei com a figura magra do Pablo encostado na parede. — Vai ficar aí parado até quando? Vamos logo a aula vai começar!
Revirei os olhos, voltando a mirar a figura irritadiça passar no meio da multidão pisando duro. De repente ele esbarra em mais alguém, dessa vez era um nerd que logo foi prensado contra o armário.
— Que idiota, sempre arranjando confusão. — comentou Pablo também observando a cena ao meu lado com os braços cruzados.
— Azar! Não é problema nosso. — resmunguei, colocando minhas mãos nos bolsos laterais da minha calça jeans rasgada, velha e desbotada. Girei meus calcanhares e comecei a caminhar para fora dali, indo em direção a saída do prédio. — Vamos logo, trouxe aquilo hoje?
— Vai cabular aula outra vez? — perguntou coçando a nuca de modo preguiçoso.
— Só o primeiro período. — disse e ele ergueu uma sobrancelha. — Que foi?!
— Você disse isso ontem também.
— Tsi! Não enche! Anda logo e me passa a porcaria do cigarro!
Pablo suspirou daquele jeito manso, esbarrou de leve no meu ombro, seguindo o mesmo percurso que eu, mas agora caminhando na minha frente.
x
Segundo período como dito antes, fomos assistir aula. Entramos na sala de aula e a professora (aquela velha estúpida) já foi nos passando um sermão daqueles em que toda a turma te olha de canto, penalizados por você ser um completo desgraçado, como se não tivesse mais salvação para sua pobre alma.
Pro inferno todos!
Sentei no meu lugar que ficava no fundo da sala, próximo da janela. E Pablo se dirigiu a sua classe, mandando beijinhos debochados para a professora e ganhando risadas de alguns colegas.
A velha voltou a dar sua aula — que por sinal era péssima, tanto que o Pablo dormiu no meio da aula. Eu fiquei prestando atenção ao que acontecia do lado de fora da janela, ou seja: olhando para o nada. Nossa janela dava acesso direto a quadra de esportes, escolhi aquele lado só para ficar olhando as outras turmas na educação física, ao invés de prestar atenção naquelas aulas chatas, tipo: física, química e sociologia. Mas naquela hora não havia ninguém lá, porém, não demorou muito e uma turma chegou. Era uma turma bem animada.
Vi uma silhueta conhecida no meio dos estudantes, era ele: o anão! Natan, seu nome, aquele pedaço de gente.
Apesar de ser baixo, ele é bem fortinho, possuí olhos pretos, algumas sardas espalhadas pelo rosto muito pálido. Ele é um cara extremamente irritadiço, vive se metendo em confusão na escola. Cursa o segundo ano do ensino médio, tem... Acho que... Dezesseis anos, se não me engano! E é apaixonado pela Marcela, minha... Amiga.
Estranho eu saber tanto sobre ele, não é? Mas enfim, vamos deixar este assunto para outra hora, okay?!
Melhor deixar quieto!
Vi ele se alongar primeiro, em seguida pegar a bola de futebol e fazer balõezinhos.
— Idiota — murmurei sem desviar meus olhos de sua pequena figura, com o cotovelo apoiado na mesa, descansando o queixo na palma da minha mão.
Sobre minhas características físicas: sou louro, magro, alto... Ahn... Muito alto, olhos esverdeados, mas ás vezes ficam tipo castanho mel. Sou conhecido no colégio como “punk”.
Os malucos me chamam assim, sei lá por que, acho que é por causa do meu estilo “largadão”, sempre opto por roupas escuras, rasgadas e desbotadas. Também há vários boatos circundando pela escola sobre a minha pessoa todos os dias. Tem um que diz que sou viciado em drogas, outro que quebrei perna do aluno novo que foi transferido (aluno este, cuja existência a mim é desconhecida). Bem, se eu fosse numerar todos os boatos sobre mim não pararia mais de falar, então resumindo: não sou nada do que dizem, mas não me importo com esses boatos, pois simplesmente não passam de boatos. Sou um cara bem normal, um pouco preguiçoso (pouco?) meio estressado, mas não sou violento apenas não mexa comigo que eu fico de boa.
— Escutem com atenção! — a professora pediu atenção da turma inteira e todos, inclusive eu, olhei com atenção para ela. — Os alunos que não forem participar da excursão amanhã, terão aula normal.
Dei os ombros. Azar é daqueles que não vão, pois eu vou, afinal ninguém merece ter aula enquanto metade da turma se diverte no passeio.
Concordam?
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