Delirious
3 03. Dane-se as boas maneiras.
Capítulo 03. Dane-se as boas maneiras.
Narrado por Natan:
Agora são exatamente... Ah! Sei lá... Que horas são agora, mas a porra do telefone grita sem parar.
— Mais que porcaria! — berrei, irritado. Saí apenas de samba canção do quarto, chutando a porta da frente, onde era o quarto da minha irmã mais velha. — Porra, Priscila custa atender essa porcaria?
— Vai pra puta que te pariu.
Vaca!
Eu só queria dormir, só isso! Será que é tão difícil me deixarem dormir um pouco? Primeiro, a idiota da minha irmã mais velha traz uma garota, que nunca vi na minha vida, aqui para dentro de casa. E que desgraça, véi. Dava pra ouvir as duas gemendo do meu quarto. Porra, as duas transaram.
Que trauma que eu vou ficar! Ouvir minha própria irmã mais velha trepando, que horror! Foi uma experiência realmente assustadora, não queira passar por isso, meu amigo. Não queira.
— Alô?!
— Tá em casa?! — Perguntou calma a voz masculina do outro lado da linha.
— Quem é? — Perguntei massageando a ponte do nariz.
— Só responda, por favor. — Pediu e eu suspirei, começando a me irritar.
— Porra, sim tô em casa.
— Filho da puta!! Sabe que horas são agora, desgraçado?
Imediatamente reconheci a voz.
— Ah, é você, Matheus. Agora são... — Suspirei sentindo meus olhos pesados. Olhei preguiçosamente para o relógio na parede e... PUTA QUE PARIU! — Droga, droga...
— É, isso mesmo. Estamos aqui em frente do portão da escola só te esperando. Só falta você.
— Ah porra! Já tô indo, diz que eu tô indo.
— Cara, nem toma banho. Sério, não vai dar tempo!
— Ah pára de me zoar e diz logo que eu tô indo, merda!
— Não vou dizer nada, te fode. Tchau!
— Alô?! Alô?!
Desligou? Ah! Esse é o meu amigo do peito!
Sem delongas corri pro banheiro, cacei minha escova de dente, lavei o rosto e em seguida me vesti. Estava vestido de qualquer jeito mesmo. Roubei duzentinhos da carteira da minha irmã, já que estava escancarada bem na minha cara, peguei mesmo.
Azar, depois pago ela.
E depois me fui embora.
x
Mesmo Matheus dizendo que não ia quebrar aquele galho pra mim, eu sei que ele o fez.
— Estão todos aqui então? — perguntou a professora. Todos afirmaram e ela prosseguiu com seu discurso: — Certo, uma parte do segundo ano vai viajar junto do terceiro ano. Respondam a chamada e quem for chamado entra no ônibus.
Busquei com os olhos os alunos do terceiro ano, rezando para que o filho do satã não estivesse entre os que iam viajar no nosso ônibus.
Mas infelizmente nem tudo era como queríamos...
E lá estava ele... Conversando com a Marcelinha delícia. E pelo jeito eles estão tendo uma conversa bastante amistosa, pois ela fica rindo lindamente enquanto encara o rosto boyband dos anos noventa dele.
A lista de chamada do terceiro ano terminou e finalmente chegou a vez do segundo. Demorou e como não era por ordem alfabética eu fui o último a ser chamado. Estava até dormindo em pé, mas finalmente chegou a minha vez e puta que pariu! Adivinha só o que o destino cruel fez comigo?
Ele — o destino, meu amigo de fé — fez o único assento vago naquele ônibus ser aquele que ficava ao lado do filho do satã. Só podia pensar que tudo não passava de armação do destino, afinal ele me odeia.
Miguel Dorneles estava esparramado no assento, se sentindo o rei da cocada preta, com o pé apoiado no banco da frente e com a maior cara de tédio, mascando seu chiclete e fazendo balõezinhos. Folheava uma revista de banda, indiferente a tudo que acontecia ao redor.
Eu precisava sentar e o meu assento era o da janela, já que o da ponta estava sendo ocupado por ele. O maldito fingia que eu nem estava ali, sequer me olhava. Era proposital, ele estava fazendo aquilo com intenção de me irritar. Merda, bem que podia poupar-me de ter o desprazer de falar com ele. Mentalmente comecei a contar até dez, isso geralmente funciona, é uma tática que a minha psicóloga me indicou para acalmar meus impulsos.
Fiz um barulho com garganta pra ver se ele se tocava, mas... Nada. A galera dentro do ônibus se calou imediatamente e um silêncio pesado se instalou. Todos... Absolutamente todos ficaram vibrados na cena. Provavelmente a grande maioria ali presenciou o acontecido de anteontem e o restante, ou seja, aqueles que não tiveram o prazer de assistir minha morte, devem ter ficado sabendo, pois o boato rondava a escola. Até os professores já devem estar sabendo.
— Licença? — pedi sentindo meu rosto inteiro esquentar. Péssimo sinal. Ele me olhou desinteressado — Quero me sentar. — Falei apontando para o banco. O infeliz olhou para o banco também e depois outra vez me encarou. E com a voz arrastada e preguiçosa, fez um bico enorme nos lábios e perguntou:
— Aqui?!
Não. Claro, né., aonde mais seria jumento? Respire fundo Natan e conte até dez: um... dois... três... quatro... Isso respira fundo!
— S-sim... Aí mesmo. — Ele estalou os lábios em chateação se ergueu lenta e preguiçosamente do banco, apanhando sua mochila no chão, cedeu o espaço e eu finalmente sentei. Aquele silêncio me irritava, pois qualquer mínimo barulho, qualquer pequeno ruído era ouvido. Logo em seguida ele sentou-se novamente me encarando de canto. Nem olhei pra cara dele, fiquei quieto com os braços cruzados acima do peito, olhando pra janela.
Ouvi um cantarolar malicioso e debochado que reconheci imediatamente como sendo a voz do Edu. Aquele desgraçado tava trollando com a minha cara.
Miguel Dorneles, meu sangue fervia quando via aquele sujeito, me enfurecia vê-lo tão calmo e indiferente depois de ter me... me... b-beijado... Em público. Como ele conseguia agir de forma tão natural? Ele é doente, só pode.
Durante a viagem fiquei calado com os fones de ouvido, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Até esqueci que o filho do satã em pessoa estava sentado do meu lado.
No fim adormeci e só acordei quando finalmente chegamos ao nosso destino.
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Ah!
Lá estava minha Marcelinha, rindo graciosamente com as outras meninas, milagre aquele cão vira-lata não estar em cima dela. Falando nisso, será mesmo que estão namorando?! Me pergunto o que ela vê demais nele?
Por falar não tô vendo ele em lugar algum, aonde será que se meteu? Ah, deve estar fumando maconha no mato com aqueles punks loucos.
— Nat?! — Okay! Eu reconheço que ele tem um rosto legal, exatamente o tipo de cara que todas as meninas se apaixonam com facilidade. — Nat olha onde vai enfiar isso. Hei, Nat?!
Mas eu sinceramente pensei que a Marcela era diferente de “todas as outras meninas” que conheço.
Pelo jeito me enganei.
— Nat cuidado com isso aí, porra!!! Edu dá um tapão nele pra ver se acorda de uma vez!
Ah, véi, ela tá tão linda com aquele shortinho camuflado e os cabelos loiros presos numa trança f-... Ai!!! Acabei de levar um tapa na nuca? QUEM FOI O FILHO DA ÉGUA QUE TEVE CORAGEM DE ME BATER??!
— Olha o que você tá fazendo retardado! — resmungou Edu.
— Que merda Natan, presta a atenção infeliz!! — Gritou Matheus com os ferros da barraca nas mãos.
Aquela era quarta vez que a barraca desabava no chão. Mas a culpa era toda dele por trazer uma barraca do tempo em que meu tataravô era criança. Droga, só nós que não conseguimos montar a nossa barraca desde a hora em que botamos nossos pés naquele lugar?! Todos os outros alunos estavam com suas barracas prontas, só esperando nós terminamos para conhecer as cascatas do sitio. Mas também né, cá só entre nós: As barracas dos outros não eram do tempo das cavernas, como a nossa. A bichinha é tão velha que o pai do Matheus até perdeu o manual.
Matheus bufou irritado.
— Será que você pode parar de babar um pouco na Marcela e prestar atenção aqui.
— Ah Marcela, Marcela... tão bela, mais tão bela quanto uma mortadela. — Recitou Edu como um poema e em seguida os dois caíram na risada, eu fui o único que não riu, lógico, afinal não foi engraçado. Nunca é engraçado ver seus amigos debocharem da sua garota, sempre parece ofensivo.
— Querem saber de uma coisa? Vão para puta que pariu! —Explodi jogando aquele monte de ferro no chão e saindo dali pisando duro.
— Nat, volta aqui porra. Volta aqui ou você vai dormir na rua, no chão frio. Ouviu?!
Ah dane-se!!
Saí de lá pisando duro, sentia minha face inteira arder de raiva, não fazia ideia de qual era o meu destino, apenas quis me afastar de todos, sumindo por entre as árvores, e conforme caminhava as vozes iam ficando cada vez mais distante. Aquilo parecia um pântano ou sei lá o que, tinha árvores e folhas secas por todos os lados.
Até agora eu não entendo qual é o verdadeiro sentido desta excursão, afinal qual é a moral de vir acampar no meio do nada? Por falar nisso, onde estou? Ah que inferno, acho que me perdi. Que legal Natan, parabéns!! E pra piorar: estou sem celular e sem identificação, correndo perigo de ser comido por um animal selvagem. Cara, isso aqui tá deserto só vejo mato. Mesmo assim a mula continua caminhando pela floresta, mas sempre com o pensamento positivo, quem sabe encontre algum guarda ou sei lá, outro idiota perdido como eu?!
Se bem que isso não ia ajudar muito, mas né?!
Senti cheiro de cigarro e apressei meus passos sentindo o odor do tabaco impregnar em minhas narinas, um pouco mais a minha frente vejo pedaços de raios solares entre os arbustos e arvores, é de lá que vem o cheiro e também consigo enxergar um pouco de fumaça.
Tem alguém lá! Que alivio!! Será minha luz no fim do túnel? Será?!
Comecei a correr, correr e correr até que...!
— AHHHHHHHHHHHHH!
Ah! Lá estava ele: O filho do satã em pessoa sentando com o olhar despreocupado fumando seu cigarro.
Porra, por que esse tipo de coisa sempre tem que acontecer comigo? Podia ser qualquer infeliz, porque tinha que ser justo Miguel Dorneles?
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