Del-me?
3 Infiel
O taxista manobrou o carro e estacionou em frente à casa. O motorista deu um leve toque de buzina para avisar que já tinha chegado.
– Mãe, estou indo – disse Yuna.
– Tudo bem filha, tenha cuidado – disse a Senhora Ketlin enquanto ela saia.
Ela foi em direção ao táxi, abriu a porta e sentou-se no banco de trás.
– Boa noite – disse ao motorista – Lagoa dos pinhos 152 por favor.
A casa de Lana não ficava tão longe, eram apenas uns 600 metros de distância. Normalmente Yuna iria andando, mas com um maníaco atacando mulheres por aí ela não podia arriscar. Sob forte recomendação de sua mãe, ela habituou-se a chamar um táxi sempre que saia ao anoitecer.
O taxista engatou a marcha ré manobrando o carro e saiu. O rádio do táxi estava sintonizado na Cold Lake FM, essa rádio intercalava entre músicas dos anos 90 e uma ou outra notícia urgente da cidade. Yuna lembrou-se que fora essa rádio que em 1998 anunciou a ocorrência de uma rebelião na penitenciária Norton, uma das maiores do estado. Naquele dia ela estava deitada no sofá da sala lendo um livro enquanto sua mãe preparava o almoço. A rádio acabava de tocar Little Bitty Pretty One de Thurston Harris quando o radialista começou a dar a notícia. “E fomos informados que os presos estão mantendo três reféns dentro do presídio” – Dizia ele – “Até o momento temos informações de que são dois agentes penitenciários, Willow Padlock e Austim Rivers e também o advogado, Marrone Hisphell”.
Quando ouviram o nome, ela e sua mãe subitamente pararam de oque estavam fazendo e ficaram em silêncio para ouvir o rádio com mais atenção.
O Sr. Marrone era um advogado respeitado e conhecido como um dos melhores do estado. Havia ficado famoso por conseguir provar a inocência de um homem acusado de assassinar o irmão do então governador na época. Para Yuna, Marrone era o melhor homem na face da terra. Ela se lembrava dos finais de tarde quando ele voltava para casa depois de mais um dia de trabalho. Ela corria para dar-lhe um abraço. Como esta minha pequena gênio? Perguntava ele bagunçando o cabelo dela com as mãos como sempre fazia. Estou bem — respondia ela ajeitando novamente o cabelo.
– Os presos estão exigindo a transferência para o presidio em Vila Oeste – continuava o locutor — A polícia está neste momento tentando negociar a libertação dos reféns para um possível acordo. Parece que a presença do advogado foi requisitada pelo líder da facção criminosa que o rendeu assim que ele entrou na prisão...
A dor nos dias seguintes foi terrível, dilacerante e insuportável. Sempre que que a pegava chorando a Sr.ª Ketlin a abraçava e tentava acalma-la, porém logo ela começava a chorar também. As duas passaram a conviver com visitas intermináveis de parentes da família, todos vinham para os pêsames.
Yuna fazia questão de acompanhar o desenrolar do caso mesmo alguns dias depois de ocorrido. Ela assistia os jornais e lia as matérias desejando que noticiassem que os presos que haviam assassinado seu pai iriam ser punidos, ou melhor ainda, iriam ser mortos. Para seu horror, não foi o que aconteceu. O estado queria acabar de uma vez por toda com aquela história de rebeliões e optou por transferir de uma vez os detentos. O governo tratou de abafar o caso e aos poucos, seu pai foi sendo esquecido pela mídia e pela população. Só ela parecia se lembrar do que tinha acontecido...
– É aqui moça? Na casa verde? – Disse o taxista despertando-lhe de suas lembranças.
– Sim, é aqui. Obrigada. – Respondeu ela enquanto pagava o homem pela corrida.
Ela desceu do carro e caminhou em direção a casa de Lana. Já eram 16:30 da tarde. A essa hora Rachel e Lana já deviam ter começado a fazer os esboços do trabalho. Enquanto se aproximava da casa Yuna notou um BMW da polícia estacionado no jardim. Pelo jeito, o namorado de Lana havia resolvido aproveitar a ausência do pai da garota para ficar um pouco mais por ali.
Ninguém merece – ela pensou.
Ela tocou a campainha e foi Nathan quem abriu a porta. Ele de fato, ele era um rapaz muito bonito. Com seus 23 anos era um homem alto, de cabelos negros e de barba bem cuidada. Tinha braços fortes e musculosos o que o fazia chamar muita atenção das mulheres por onde passava. Seu trabalho como policial lhe rendia muito dinheiro permitindo-lhe andar sempre com roupas caras, com um belo carro e com perfumes chiques.
Assim que a viu ele a olhou de cima a baixo como sempre fazia quando a encontrava.
– Ual! – Disse ele com o irritante sorriso cafajeste que ele sempre dirigia a ela – Que bom que você veio.
– Nathan – disse Yuna com irritação na voz — Cadê a Lana?
– Está lá em cima com Rachel – disse ele. — Eu não posso subir lá, aparentemente sou uma distração para elas.
Yuna fez menção de entrar na casa, mas Nathan colocou-se à sua frente e apoiou o braço na borda da porta.
– Ei, ei. Por que essa pressa? Não quer conversar um pouquinho comigo? – Disse ele.
Irritada, ela passou por debaixo de seu braço e entrou. Nathan não tentou impedi-la e apenas a seguiu com o olhar. Ela caminhou até as escadas que davam para o quarto de Lana. Podia sentir Nathan olhando para suas pernas enquanto subia. Desejou não estar vestido a saia do uniforme escolar naquele dia.
Desde o momento em que Lana havia apresentado seu novo namorado para ela e Rachel Yuna havia notado que Nathan não era boa coisa. Ele fazia aquele estilo cafajeste. Insinuava-se e mexia com qualquer mulher que julgasse bonita. Sempre de maneira sutil para não levantar muitas suspeitas. Yuna lembrava-se da primeira vez que tentou avisar Lana que Nathan podia estar flertando com outras garotas. Lana rapidamente mudou de humor e fechou a cara. Acho que não é ele quem tenta flertar com elas – ela dizia — São elas que provavelmente não o deixam em paz.
Pior ainda, foi quando Yuna tentou lhe falar sobre as cantadas que Nathan insistia em dirigir a ela quando a encontrava sem que Lana estivesse por perto. Nesse dia Lana chegou até mesmo, a insinuar que Yuna podia estar com um pouco de inveja e que talvez estivesse querendo que Nathan desse mais atenção a ela do que a própria namorada. Depois disso, Yuna desistiu de tocar no assunto e passou simplesmente a evitar visitar a amiga quando Nathan estivesse por lá.
Encontrou Lana e Rachel sentadas ao redor da pequena mesa redonda no centro da sala. Elas haviam deixado o trabalho de lado enquanto olhavam para a televisão.
– Yuna rápido vem ver isso – disse Lana quando a notou – O maníaco das sete. Eles o encontraram.
Yuna olhou para a televisão. A imagem exibia o homem na janela de uma antiga casa de madeira na rua 156, ele segurava um revólver na cabeça de uma garota enquanto falava com os policiais que o haviam cercado.
– A polícia está agora negociando a libertação de Annie Libert que está sendo feita de Refém pelo homem conhecido como o maníaco das sete horas – Dizia a repórter do canal — A polícia divulgou que se trata de Patrick Goyle um ex-detento que cumpriu pena por tentativa de estupro.
– Eles já estão aí a uma meia hora. Esse tipo de coisa vai longe. Mas acho que ele não vai ter como escapar agora – disse Rachel.
...
Já eram 19:00 horas da noite quando elas terminaram. Lana perguntou se elas não gostariam de dormir ali, mas diferente de Rachel Yuna não queria arriscar ficar enquanto Nathan estivesse por perto.
Elas o encontram deitado no sofá assistindo a televisão da sala.
– Terminaram? – Perguntou ele.
– Sim, acabamos amor – respondeu Lana.
– Bom Lana, eu vou indo. Obrigado por ter cedido a casa hoje. – Disse Yuna enquanto se preparava para chamar um táxi.
– Espere – disse Lana. – Não quer uma carona até em casa? Nathan pode te levar até lá.
– Não, não precisa. Não quero incomodar.
– Que bobagem. Não é incomodo não é Nathan? – Perguntou Lana.
– É claro que não – respondeu ele prontamente levantando-se – vou só por meu tênis e já te levo Yuna.
...
Ele sorria quando Yuna entrou no BMW. Enquanto fazia a volta para poder sair aproveitou o momento para dar uma olhada nas pernas de garota. Nathan já havia conhecido diversas mulheres em sua vida. Ele possuía uma certa habilidade no seu jeito de falar com elas que as fazia cair de interesse por ele. Já havia saído com mulheres de diversas idades, muitas das quais até já estavam envolvidas com outros caras ou até mesmo, já eram casadas. Ele costumava fazer sua paquera de modo sutil para não causar suspeitas em Lana. De fato, era até mais fácil do que ele esperava convencer ela de que eram as mulheres que davam em cima dele. Ele é claro, só tinha olhos para a sua querida namorada. Era tão bom com a arte da sedução que algumas garotas entravam em seu jogo mesmo sabendo que ele já era comprometido.
Mas com Yuna era diferente. Não importava o método que ele usava para tentar se aproximar, a garota sempre se distanciava. De todas, essa era a mulher que mais o intrigava e também provavelmente, a que ele mais desejava. Além de ser possuidora de um corpo com beleza fora do normal Yuna possuía uma mentalidade mais madura do que as outras meninas de 17 anos, isso o excitava. Ele sempre achará que mulheres agraciadas pela beleza não precisavam estudar muito, afinal com sua beleza, elas podiam conseguir qualquer coisa. Isso não acontecia com Yuna. A loirinha raramente os acompanhava por exemplo, quando ele levava Lana e Rachel para curtir a noite em uma balada qualquer por aí. Lana sempre dizia que Yuna podia até acabar ficando sozinha. Mas disso, ele duvidava.
– Está uma noite muita bonita hoje não acha? – Disse ele tentando puxar assunto enquanto dirigia.
Ela apenas murmurou um “hum” e não falou nada.
– Acho que a o a lua só não está mais bonita que você. – Disse ele novamente.
A menina, cruzou os braços e virou o rosto para o outro lado para olhar pela janela.
Hehe, que desafio você é heim garota? – Pensou ele. — Sabe Yuna, eu gostaria de te levar a uma cafeteria bem legal no centro um dia desses. É a melhor da cidade na minha opinião.
– Acho que Lana ficaria muito contente se você levasse ela lá. – Disse ela.
Garota esperta – pensou – Bem, Lana acha um pouco estranho esse seu distanciamento de mim. Achei que se pudéssemos conversar um pouco poderíamos nos conhecer melhor. Afinal, somos amigos não somos?
– Nathan desculpe, eu estou meio cansada. Acho que não estou muito bem para conversar agora. – Respondeu Yuna.
Como sempre, não estava funcionando. Ele teria que tentar outra abordagem.
Estava se preparando para encostar sua mão na perna da garota quando seu celular no porta objetos do carro tocou.
– Perdão Yuna, só um momento.
Ele colocou o telefone no viva-voz:
– Nathan falando – disse.
– Nathan? Cara é o Jhonnie. Foi mal, sei que está de folga hoje, mas aposto que essa você vai querer ouvir essa. – Disse a voz ressoando pelo carro – Você sabe quem morreu hoje?
– Quem?
– O Senador Richard e o filho, o Junior. Os dois tiveram um ataque cardíaco.
Yuna se moveu no banco ao lado dele, repentinamente parecia ter se chocado com a notícia. Ele também tinha.
– Ataque cardíaco? O Junior também? Mas, esse cara tinha uma saúde de ferro. – Disse Nathan
– Pois é. Os dois tinham. Aconteceu do nada pelo o que parece. – Respondeu Jhonnie – Cara, passa aqui em casa hoje. O pessoal está precisando de uma ajuda para proceder com o enterro.
– Claro, só tenho que deixar uma moça em casa antes, mas logo eu passo aí.
Quando ele parou o carro em frente à casa de Yuna nem teve tempo de se despedir como gostaria. A garota apenas murmurou um agradecimento pela carona e saiu do carro apresada.
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