Evelyn Lahert sentou-se na cadeira do Senador e suspirou de cansaço. Estava se sentindo exausta. Nas últimas duas horas ela havia lidado com uma interminável enxurrada de ligações e telefonemas, tanto do seu celular de trabalho quando do próprio telefone do Senador. Era possível que já tivesse marcado umas 17 reuniões com patrocinadores, mas já não podia ter certeza, havia parado de contar depois de um deles exigir, com certa ignorância, a sua presença em um encontro para dar explicações do que havia ocorrido. Ele queria saber quais seriam os novos planos. Planos? – Ela se perguntara – Como ele espera que já tenhamos novos planos?

Já não tinha mais certeza de como aquela loucura iria parar, mas suspeitava que seu emprego já estava em risco, afinal, todo o trabalho que ela havia feito em dois anos havia ido pelo ralo em segundos.

Ela encheu outra taça do caríssimo vinho branco Château d’Yquem que o Senador Richard mantinha no frigobar de seu escritório. Que se dane! – Pensou. Ela sabia que ele costumava servir o vinho aos seus poderosos patrocinadores de campanha quando se reuniam. Também era comum ele servir o vinho as lindas mulheres da alta sociedade que regularmente vinham lhe fazer uma visita. Houve uma noite em que o senador chegara até mesmo, a convida-la para uma ou duas taças. Ela negou de maneira gentil é claro pois desconfiava que o homem pudesse ter com outras intenções do que apenas jogar conversa fora com sua secretária.

Além disso, Evelyn amava outra pessoa. Richard Junior, o próprio filho do Senador. O homem que havia sido injustamente acusado de atropelar um rapaz alguns anos atrás e que, até hoje, era visto como um criminoso pela população.

Mais ou menos a 2 anos atrás, quando Evelyn tinha acabado de conseguir seu emprego, ela foi apresentada a Richard pelo próprio pai, o senador. Richard Junior era muito bonito, ela notou logo na primeira vista. Além de sua elegância, seu jeito doce de falar e seu ótimo senso de humor ele também parecia ser uma pessoa de ótimo caráter, que gostava de ajudar outras pessoas sem pedir nada em troca. Era evidente a contradição: Um rapaz que sempre obtivera tudo das mãos de seus pais, que sempre tivera muito dinheiro e que nunca havia sequer precisado trabalhar não era nem um pouco uma pessoa mesquinha ou com senso de superioridade. A humildade que ele esbanjava perto das outras pessoas era de impressionar até os humanitários que cuidavam de pobres e excluídos. Seu trabalho com as organizações solidarias era reconhecido, e também explorado, por todo o partido. Foi com prazer que ela aceitou o seu convite para ir a um barzinho em uma noite.

– Você está trabalhando demais – dissera ele – Acho que você já passou tempo demais com meu pai, talvez queira passar um tempo com o Richard menos careta só para variar um pouco?

Lá para as 3 da madrugada, já alterados depois de alguns Kir Royale e outros drinks que Richard insistia em pagar, ela teve a maldita ideia de perguntar se podia dirigir o carro na volta para a casa.

–Não posso negar esse pedido a alguém tão bela como você senhorita Lahert – disse Junior fazendo graça.

Foi maravilhoso! Poder acelerar o potente Volvo C 70 ao som de Highway to Hell do AC/DC na estrada praticamente vazia, sentindo toda a sensação de liberdade que aquilo proporcionava. Evelyn nunca havia dirigido um conversível antes e Richard fazia questão de que ela abaixasse a capota e sentisse o vento nos cabelos. Nesse momento, ela já não tinha mais dúvidas, já havia tomado a decisão: Quando chegassem em casa, iria convidar Richard para entrar e passar um tempo a mais com ela.

Mas foi um duro golpe do destino que fez com que aquele skatista aparecesse na pista sabe se lá de onde. Ela não teve tempo de frear o carro totalmente antes de atingir o garoto. Ele foi jogado a vários metros à frente do volvo. Quando desceram do carro e correram para onde o rapaz jazia caído o sangue já escorria pelo asfalto e Evelyn não aguentou olhar. Assim que a ambulância chegou o rapaz já estava morto. Aquela, foi a primeira vez que Evelyn sentiu tanto medo. A ideia de ir para cadeia e responder por homicídio era aterrorizante demais para ela. O que aconteceria dentro da prisão? Ela ficaria rodeada de assassinas e psicopatas? ...

Mas Richard, seu salvador, estava ali e em um ato de suprema bondade ele não deixou que Evelyn fosse levada como uma criminosa. Surpreendentemente ele assumiu a culpa pelo atropelamento afirmando ser ele quem estava ao volante. Assustada como estava Evelyn não soube o que fazer. Ela simplesmente deixou que Richard levasse a culpa. Mais tarde, na delegacia, ela perguntou por que ele havia assumido a culpa por ela:

– Evelyn, nós dois somos culpados. Nós dois estávamos bêbados. Mas eu sou o filho do Senador e ele tem influência. Nosso mundo é porco sabe? Eu ainda posso sair daqui com um leve constrangimento para o meu pai. Mas para você seria muito mais difícil.

E foi o que aconteceu. O skatista era uma pessoa da rua e não tinha família que pudesse levar o caso adiante. Richard foi inocentado e o caso foi abafado. Porém, mesmo quase dois anos depois, alguns dos opositores políticos ainda insistiam em trazer o caso átona durante debates e entrevistas. Evelyn jamais havia se perdoado por isso.

Mas agora ele estava morto. O único homem que ela amara na vida estava morto. A punição pelo seu crime havia chegado até ela. Por que Deus? –Pensou. Por que ele? Enquanto eu continuo viva?

Ela se levantou notando que o vinho já começava a fazer seu efeito ao passo que ela começava a ficar sonolenta. Pegou sua bolsa e guardou suas coisas. Era hora de ir para casa. Quem sabe, se esconder dessa loucura.

Mas mal chegou a porta e seu celular tocou novamente.

Mais um? – Pensou. — Que se dane! Não vou marcar mais nenhuma reunião com nenhum...

Ela parou. O número mostrado no visor do telefone não era de um dos políticos. Era um número que muito raramente ela via. Um número que apenas o Senador e alguns dos poderosos atendiam. Era o número utilizado pelo Provedor.

– Mas o que? – Disse ela.

O provedor era uma pessoa desconhecida que trabalhava para o governo. Alguém que possuía altíssimo poder e influência tanto na política como entre as grandes companhias atuantes no país. Podia-se dizer que ele era o carro chefe da campanha do senador, o homem que traçava as estratégias a serem seguidas pela equipe do partido. Evelyn havia tomado conhecimento do provedor assim que começou a trabalhar como a secretária. As estratégias que ele traçava eram obedecidas a esmo pelos empresários e políticos envolvidos na campanha. Era assustador o fato de que os planos confeccionados por ele sempre davam certo. Ele sabia exatamente o que cada empresa, o que cada patrocinador e o que cada partido deveria fazer para se beneficiar. Ele indicava onde eles deveriam investir o dinheiro e quando eles deveriam fazer isso como se ele pudesse, até mesmo, prever o futuro. Era considerado como uma arma secreta por isso ele era altamente confidencial. Evelyn havia até sido obrigada a assinar uma papelada se comprometendo a manter o sigilo quanto a tudo que fosse relacionado ao provedor. Evelyn suspeitava também que a inocência de Richard havia sido obra dele.

E agora, por algum motivo, o provedor queria falar com ela. Isto era inédito, nunca havia acontecido antes.

– A..Alô, Evelyn falando – disse ela atendendo a chamada.

– Senhorita Lahert? – Disse a voz distorcida por computação utilizada para preservar o anonimato — Aqui é o provedor. Eu preciso lhe fazer algumas perguntas.

– Hã... Sim, em que posso ajuda-lo senhor? – Disse sem nem ao menos saber como deveria se portar ao falar com ele.

– Preciso saber se você estava com o Senador Richard no momento de sua morte.

– Sim, sim senhor. Eu presenciei o fato. – Respondeu ela.

– Pode me contar exatamente como ele morreu? – Disse a voz.

– Eu... eu não sei. Ele morreu como que, do nada. Ele estava perfeitamente bem até que começou a gritar pondo as mãos no coração e caiu no chão se debatendo. Os médicos disseram que ele sofreu uma parada cardíaca repentina.

– Entendo. – Continuou o provedor — Você tem conhecimento de que o senador tivesse algum problema de saúde que pudesse ter provocado o ataque?

– Não senhor – respondeu Evelyn — Ele fazia exercícios regularmente e seus exames sempre o atestavam com uma saúde de ferro. Ele nunca teve sintomas de problemas do coração, nem mesmo alguém da sua família que tenhamos conhecimento. Ele até era praticante de ciclismo. Não sei o que pode ter acontecido.

– Hum, entendo. Eu agradeço as informações senhorita Lahert. Entrarei em contato assim que for necessário novamente. – E desligou o telefone.

Evelyn permaneceu parada ouvindo o som da chamada interrompida no telefone sem entender nada.

Mas o que é que está acontecendo?

...

Yuna olhava para a televisão em seu quarto totalmente chocada. Sua expressão era de pura perplexidade. A Tv exibia o corpo do homem caído enquanto a refém saia correndo para a proteção da polícia. Aparentemente, o maníaco das sete horas havia acabado de sofrer uma parada cardíaca.

– Sim, sim. É isso mesmo — Dizia a repórter que também estava perplexa — Parece que Patrick Goyle, conhecido como o Maníaco das sete horas acaba de sofrer uma parada cardíaca. Parece que ele está mesmo morto....

Morto? – Pensou Yuna. Mais cedo, naquela mesma noite, logo após descer do carro de Nathan, ela havia entrado em sua casa e ido diretamente para o quarto. Estava pensando no que havia acabado de escutar durante a carona. O Senador Richard e o filho, estavam mortos? Parada Cardíaca? De uma hora para a outra? Era uma coincidência no mínimo estranha. Algumas horas antes ela tinha supostamente acabado de matar 50 pessoas com o nome Richard Alklim Labor utilizando um site de internet. Poderia ela ter deletado o nome do senador e do filho e então tê-los matado? Era uma idiotice pensar nisso, é claro que não podia ser verdade. Mas a coincidência era tão forte e, afinal, o que teria ela a perder? No mínimo, acabaria constrangendo a si mesma por ter acreditado numa coisa dessas. Ela ligou o computador e acessou a Deep Web, localizou o endereço do site e entrou:

“Bem-vindo ao Del-me. Por favor, localize o nome de alguém que você não gosta e delete-o da base para mata-lo”

Ela precisava de uma cobaia e já tinha uma em mente. Lembrou-se da garota que estava sendo mantida como refém na rua 156. Provavelmente a mídia ainda estaria transmitindo o desenrolar ao vivo se o maníaco ainda não tivesse se rendido e soltado a garota. Ligou a Televisão e colocou no noticiário. Por sorte, a Tv ainda exibia a ocorrência em tempo real. Então ela digitou o nome e clicou em pesquisar:

[ ] selecionar todos

[ ] Patrick Goyle

[ ] Patrick Goyle

[ ] Patrick Goyle

...

Nomes ativos: 1589

Como não tinha como saber qual dos nomes exibidos era o correto, ela utilizou os filtros de resultados. O Del-me permitia filtrar até por nomes/bairro e foi o que ela fez. A rua 156 ficava localizada no bairro West End então ela digitou o nome e o site atualizou:

[ ] selecionar todos

[ ] Patrick Goyle

Nomes ativos: 1

Gostaria de deletar Patrick Goyle?

Sim – Digitou.

ENTER.

Passaram-se apenas alguns segundos até que o homem na Tv subitamente larga-se a arma que segurava apontada para a refém e começa-se a gritar caindo no chão.

Meu Deus – Pensou Yuna estarrecida – Ele está morto. É... É real. O Del-me é real.

Ela olhou novamente para a tela do computador:

“Nome deletado. Você ainda tem 49 nomes. Gostaria de matar mais alguém? ”

Sua mente virou um turbilhão. Ela ainda estava assimilando o que tinha acabado de acontecer. Que tipo de poder era esse? Como isso era possível? Ela tentou descobrir uma resposta, mas já não sabia mais nem o que pensar. Por um momento, achou que estivesse ficando louca ou que estivesse sonhando, para em seguida se dar conta de que não estava. E então, mesmo sem compreender o que estava acontecendo ela viu a oportunidade que lhe surgia a frente, a oportunidade para o que ela sempre havia sonhado.

Mais alguns nomes lhe vieram à mente e um sorriso sádico surgiu em seu rosto.