Acordei mais uma vez com um estrondo sentando na cama, minha cabeça doía como se alguém recentemente tivesse quebrado uma garrafa na mesma. Mas ao invés de alguém estar batendo na porta para me chamar para tomar um delicioso café da manhã... Eu tive uma incrível surpresa: Era o capitão, batendo a porta com toda a força que podia.

—Estamos sob ataque? –Perguntei levando a mão a cabeça e tentando sentar.

—Não, mas eu pensei: O dia está tão lindo, Alicia gostaria de ver isso depois de ter tomado um porre ontem à noite. –Falou ele se dirigindo as cortinas.

—Aaah! –Gemi quando o sol ardente entrou e queimou meus olhos. –O que você está fazendo?

—Acorde... Vamos chegar no nosso destino dentro de poucas horas e você vai precisar usar um vestido hoje à noite, por isso precisa estar acordada para ver seu tamanho.

—Tudo bem. Discutimos isso depois. –Falei enquanto me levantava. –Agora saia do meu quarto antes que eu quebre esse castiçal na sua cabeça. –Falei apontando um castiçal que estava na cômoda.

—Tudo bem, mas não demore. –Falou ele com um sorriso desdenhoso e saiu do quarto lacrando a porta atrás de si. Rapidamente eu fechei as cortinas e voltei a dormir com Chopper em meus pés.

Só muito tempo depois acordei com um grito: “Terra à vista! ” Seguido de um sino.

Minha cabeça ainda latejava um pouco e Chopper ficava fazendo gracinhas para eu abrir a porta. Abri e logo a fechei pois precisava me vestir.

Ao sair me deparei com todos os homens se arrumando para desembarcar.

—Boa tarde, senhorita. –Falou James com um sorriso simpático.

—Tarde? Quanto tempo eu dormi? –Perguntei descendo as escadas.

—Muito tempo, senhorita. –Falou Carl.

—Certo.... Chopper. –Chamei e comecei a descer do barco.

—O capitão, eu e Carl iremos acompanha-la para a prova de vestidos.- Disse James.

—Prova de vestido...? PROVA DE VESTIDOS?!- Gritei.

—Sim, pensei tê-la avisado hoje pela manhã. –Ouvi uma voz atrás de mim. –E se quiser comparecer à festa terá de usar um vestido muito lindo que deixe aquele velho seboso babando.- Continuou Capitão.

—Que merda! –Exclamei.

Descemos e o bando se separou em pequenos grupos -nós éramos o único grupo de quatro-. Entramos em uma lojinha cheia de vestidos.

—Olá, olá. –Ouvimos uma mulher, olhamos ao redor e não vimos nada. A loja tinha uma entrada que levava a uma escadaria em espiral e bem na parte da porta podíamos ver vestidos e panos em cima de escrivaninhas. Chopper foi cheirar um dos mais lindos tecidos que eu já havia visto na vida.- Porr favorr, nón deixe esta cachorr cirrcularr porr minha loje.- A mulher que veio descendo a escada era obviamente estrangeira e também muito baixinha –Como posso lhés serr útil?

—Gostaríamos de um vestido para baile. De preferência que seja bem “chamativo”. –Falei.

—Mas que não chame atenções desnecessárias. –Interveio logo o capitão.

—Não. Minha senhora, precisamos de algo realmente chamativo para homens... E que de preferência os deixe atraídos. –Falei e levantei a mão para que Sen, que ia interromper outra vez, não falasse.

—Nón entend. Vocês parrece un casal e devo dizérr que é muit olsadia sue virr vestid a minha loja dest jeite. –Falou e me olhou de cima a baixo.

—Fui condenada pela minha cidade a usar roupas masculinas... O vestido é um presente de aniversário para minha irmã gêmea. –Dito isso, fiz menção para que os homens concordassem comigo e funcionou. E visto que ela ainda não tinha entendido porque um vestido tão vulgar, acrescentei.- Sabe, já temos mais de 20 anos e somente eu, a garota que é obrigada a se vestir de garoto, arranjei um marido. –E puxei o capitão pelo braço.

—Entend, entend. Mui bien. Algo em especific?

—Acho que já dissemos. Algo vulgar. –Capitão me cutucou, James pigarreou e Carl colocou um pé atrás.

—Oui, oui. Admirro su corragen, mademoiseille. Nón son todas as garrotas que entrán em minha loje e son tan verdadeirras quanto ao que querrem.-Sorri desdenhosamente para os cavalheiros que me acompanhavam.

Ela trouxe vários vestidos e me fez experimenta-los. Deixei bem claro que era ridículo minha irmã usar aqueles vestidos apertados.

—Mui bén. Senhorrite, a sinhórre é uma dame e devo dizerr que admirro pessoas difíceis de agrradarr. Tenho algo aqui que estave a guarradr parra alguém da mácxima imporrtancie, porrém nón poss deixar uma senhorra tán decidid e lind sairr de minha loje con vestidos tan simpls. –Ela virou e foi até o tecido que Chopper estava farejando.

Ao virar, ela segurava um lindo vestido preto com finos fios, que pareciam uma névoa, subindo dos pés e fazendo uma espiral na cintura. Ela me deu para experimentar.

—Mon Dieu! —Falou ela e colocou as mãos gorduchas no rosto.

—Nossa. –Exclamaram James e Carl. Porém o capitão ficou calado. Então fui até o espelho e dei uma boa olhada em mim mesma. Ele deixava os ombros a mostra, mangas longas desciam até a palma de minha mão coladas na pele. A parte de baixo era um pouco justa, mas perfeita para caminhar. Por pouco não percebi a abertura que começava abaixo do joelho*. Era realmente lindo, porém eu disse:

—Acho que não...

—Pelo amor dos Céus. Você já experimentou uma dezena de vestido e todos ficaram lindos. Porém nenhum ficou tão perfeito como este, se conforme pois vamos levar. –Explodiu o capitão.

—Oui. E afinal, esta é imporrtado da amerrica, porr isso vai custarr um pouco más. –Falou a senhora risonha. Tirei o vestido e me sobressaltei ao ver o capitão tirar várias moedas de ouro do bolso e pagar a mulher.

Saímos e fomos comprar mais algumas coisas, do tipo sapatos e perucas novas. Eles compraram para mim um sapato extravagante de salto alto, couro preto reluzente e que fechava no tornozelo.

Algum tempo depois voltamos para o barco. E o capitão me chamou para conversar no convés olhando as ondas enquanto o resto estava abaixo se arrumando.

—Hoje à noite... Você entrara sozinha... para... para ter uma desculpa para levar o dono daquela mansão para o quarto. –Ele fechou o punho sobre o parapeito.- E se puder ficar perto, de qualquer um de nós, eu peço para que fique. Não quero me sentir preocupado à toa.

—Eu prometo ao senhor, senhor Capitão. –Ri e coloquei uma das mãos em seu queixo, fazendo-o olhar para mim.- Vai ser rápido. E eu vou me manter o mais próximo do senhor possível.- Falei sabendo que ele se referira a si mesmo. Coloquei minhas mãos em suas bochechas, os cabelos esvoaçando e beijei sua testa. Me virei e fui me vestir.

Coloquei as ataduras de modo a deixar meus seios ressaltados pelo decote. Coloquei o vestido e calcei os sapatos. Prendi meus cabelos em uma trança, deixando minha franja caindo um pouco abaixo das sobrancelhas. Também fiz uma maquiagem leve, porém escura ao redor dos olhos para ressalta-los, mas não me deixar com cara de doente. E pintei os lábios de vermelho. Quando achei que estava pronta me dirigi a porta, mas parei e ouvi vozes do outro lado. Chopper raspou na porta, mas eu fiz menção de cala-lo.

—Vamos esperar a Srtª. Alicia, ela já deve estar pronta. –Era a voz do capitão. Abri a porta e todos se viraram para mim lá em baixo e o capitão bem a frente. –M-m-muit-to b-bem.- Gagueou ele. E se virou.- Vamos repassar o plano. Alicia, ouve uma mudança. Somente Castiel e os trigêmeos serão mulheres. –Eu olhei para baixa e vi uma garota ruiva com um vestido largo, gasto, laranja e amarelo, que ia até os pulsos e ao pescoço, e ao seu lado três garotas de rosto idêntico, porém uma tinha cabelos pretos e o vestido era azul. E as outras duas loiras, uma com vestido vinho e a outra o vestido verde. Cai na gargalhada! Depois de o único som ser as minhas risadas a maioria me acompanhou. Caí no chão com os olhos lacrimejando. –Tudo bem, tudo bem. Chega pessoal, chega. –Falou o capitão, tentando parar de rir.

—As meninas poderiam vir no meu quarto por favor? –Pedi, pensando em ajudar com as feições femininas.- Gostaria de dar a vocês um ar mais feminino. –Ri alto. Mas para minha surpresa eles subiram.

—Deveríamos repassar o plano. –Falou o capitão, com um olhar um pouco mais irritado do que, eu acredito, pretendia mostrar.

—Fiquem aqui. Já volto.- Saí e fui buscar a cor de batom que eu estava usando. Voltei e disse para eles se abaixarem. Passei batom enquanto ouvia o capitão.

—Esses quatro acompanharão Carl, Jonathan, Sebastian e James. Eu e Alicia entraremos desacompanhados. Isaac, Eric, Z.S, Igor, Timber e Gabriel fiquem nas passagens esperando Alicia chama-los para ajudar com o ouro.- Quando eu terminei, saímos, e para o meu aperto Chopper teve que ficar no barco.

Então finalmente estávamos a frente de uma enorme casa branca. Cada um entrando com o seu par e os outros se retirando para as aberturas.

Ao entrar tive de me anunciar e descer, chamando atenção de mais, para o salão principal. Não demorou muito para que eu encontrasse o anfitrião da casa. Era o filho. Loiro e olhos azuis. Tivemos uma longa conversa. Deixei ele falar sobre tudo que lhe interessava e seduzi-lo não foi a parte mais difícil. No momento que tive fui procurar o capitão. Pois o menino mimado foi falar com alguns convidados.

—Preciso que você vá até ele e diga que eu sou um presente. –Falei, disfarçando que recém nos conhecíamos.

—O quê? Não mesmo! –Retrucou, indignado.

—Sim. Você irá até ele e dirá que eu sou a diversão dele hoje à noite. Diga que... não sei. Mas invente uma desculpa para ele me levar ao quarto do pai, entendeu?

—Era disso que eu estava falando. Não vou deixa-la sozinha com aquele... –Mas eu o interrompi.

—Ele é um magricela, filhinho de mamãe! Ele não me vence. E você sabe disso. Ao chegarmos lá eu vou nocauteá-lo e pegar o dinheiro. Por favor. –Olhei bem fundo nos olhos dele. Tentei fazer uma chantagem emocional e acho que funcionou.

—Certo! Mas é melhor você não estar enganada, pois dentro de dez minutos eu vou seguir vocês e me certificar.- Ele saiu em busca do anfitrião. Eu os vi conversando e logo depois o menino loiro veio em minha direção e me convidou a subir.

Ao passar pelo corredor, notei o quadro da garota ruiva e me segurei para não parar e arrancar ele da parede.

Ao entrar no quarto me dirigi ao lado da cama e passei a mão em um castiçal, pelo visto de ouro puro.

Quando ele estava se dirigindo para mim, fiquei de frente para ele e coloquei o castiçal nas costas.

—Acho que o senhor deixou cair algo.- Falei apontando para o pé da cama. Quando ele se agachou, dei-lhe uma pancada forte e então... BUM! Ele estava caído.

Coloquei-o na cama, com certa dificuldade (ele era pesado). E então, por mais que minhas costas protestassem, me endireitei e comecei a procurar o cofre.

Não foi tão difícil. Tinha um quadro na cabeceira da cama da, provavelmente, falecida dona da casa. Tirei os sapatos e subi na cama, com cada pé de um lado diferente da cabeça do menino loiro. Quando ouvi a porta abrindo. Era uma empregada, que corou e logo disse:

—D- desculpe-me, eu sinto muito.- E saiu. Me surpreendi ao perceber que ela estava com a voz chorosa. Não dei muita importância no momento e continuei a erguer o quadro da linda mulher de cabelos pretos, presos em um coque, usava um lindo vestido rosa e segurava uma flor, claramente sentada. Coloquei-o do lado da cama.

Lá estava ele. Um lindo cofre. Tive muita curiosidade de saber como a parede o sustentava, mas não era hora para isso. A abertura era bem simples, parecia uma maçaneta de porta. Girei para baixo e ouvi um “click”, puxei e quase chorei com o que estava em minha frente. Lindo, estupendo, maravilhoso, brilhante e perfeitamente dourado... O OURO!

Corri para a porta. Ao sair fui procurar a abertura no quadro para abri-lo. E então, finalmente, consegui abrir. Lá estavam eles, com sacos de pano, esperando.

—Conseguiu senhorita? –Perguntou Isaac.

—Sim. É LINDOOO! –Sussurrei alto. E então todos eles saíram e irromperam para o quarto.

Capitão chegou um pouco depois. E se parou ao meu lado. Eu estava contemplando o corpo esparramado na cama.

—Sabe, -Comecei- Acho que ele não é um garoto muito educado.

—Por que? –Perguntou ele, parado ao meu lado com as mãos nas costas.

—A empregada quase chorou por entrar e me ver em cima dele. E também ele foi extremamente grosso comigo lá em baixo. –Ele fez uma cara incrédula e eu logo percebi que ele interpretou algo errado. –Eu fiquei em cima para abrir o cofre, em pé sabe? Não pense besteiras. –Falei e fiz uma expressão ofensiva. –Aqui.- E joguei o castiçal na última sacola.

—Ah... certo, certo! — Falou o capitão.- E então que tal se dermos uma lição nele?

—Senhor, essa é a última.- Falou Z.S.

—Muito bem. Levem tudo para o navio e nós avisaremos os outros. –E Z.S se retirou.

—O que você quis dizer...? –Agora estávamos só nós dois.

—Vamos fazer uma brincadeirinha. –Ele sorriu.- Eu adoro brincar com as vítimas. –Ele soltou uma gargalhada. –Principalmente alguém que é grosseiro com meus companheiros!

—Parece divertido... –Falei. Fui andando até a cômoda e abri a primeira gaveta. –Achei! –E lhe entreguei dois panos. –Que tal prendê-lo na cama?

—E que tal se o prendermos, nu, na cama?

—Eu gosto do seu jeito de pensar, capitão.

—Obrigado. Agora espere lá fora até que eu termine.

—O QUÊ? Não mesmo! Eu quero participar.- Protestei.

—Tudo bem. Mas só espere eu despi-lo. –Fez uma pausa e continuou- LÁ-FO-RA! –E apontou a porta. Fazendo um gesto obsceno me dirigi para fora e esperei, contemplado o quadro. Depois de um tempo o capitão me chamou.- Prenda-o. –Sorriu. E depois que eu acabei, fiquei contemplando o corpo, com uma almofada minúscula no lugar dos genitais.

—Acho que não deveríamos deixa-lo assim. –Falei, com tom de sarcasmo, querendo expressar pena e fazendo biquinho. Tirei a meia do pé dele e a coloquei na boca do mesmo. O capitão caiu na gargalhada, iria acompanha-lo se não achasse que fosse estragar a piada.

—Vamos sair daqui. –Ele colocou a mão em minha cintura, peguei meus sapatos e saímos correndo. Quando estávamos a alguns metros da escada dupla, que tinha uma pequena sacada e que levava para o salão, eu lhe lancei um olhar de desejo.- Antes de sairmos, tem algo que a senhorita queira?

—Caos.- E sorri maliciosamente e ele me acompanhou.

Corremos até a sacada e nos debruçamos lá. Trocamos olhares uma última vez e pulamos, deveria de uns quatro metros. Ouvimos gritos de mulheres. Cruzamos o salão correndo entre as pessoas e por cada companheiro que passávamos, eles vinham atrás de nós, assim como alguns guardas, que perceberam algo errado. E então sem me dar conta paramos, eu e o capitão, na porta e a abrimos para nossos parceiros passarem na frente e a fechamos, bem na cara dos oficiais.

E quando recomeçamos a correr ele pegou minha mão e saímos cidade á fora até a praia. Ouvimos alguns passos atrás de nós e nos viramos, vários homens estavam correndo atrás de nós e gritando para pararmos. Janelas começaram a se abrir e olhamos para cima. Os sorrisos em nosso rosto se alegraram ao trocarmos olhares. Pulamos sobre caixas e mercadorias, mas sem soltarmos um do outro.

Paramos de correr e nos escondemos entre duas casas praticamente grudadas. Já havíamos perdido de vista nossos companheiros. E quando os guardas passaram por nós, seguramos a respiração e depois caímos na gargalhada. Estávamos de frente um para o outro, minha cabeça caiu sobre o peito dele (ainda estavam de mão dadas) e a cabeça dele sobre a minha, ofegantes e sorrindo sem conseguir parar.

Saímos e continuamos correndo até chegarmos na praia. Não tínhamos visto os guardas desde então.

Ao embarcarmos no navio, todos estavam lá contemplando o ouro. E rugiram alto quando nos viram. Nos separamos e fomos comemorar com rum e comida abaixo no convés.

Quando estávamos todos sentados, perguntaram por que demoramos tanto e cotamos a história do garoto nu na cama do pai. Um tsunami de gargalhadas e risadas atingiu todo o navio.

Depois de muita bebida, eu e capitão, nos retiramos para que os outros pudessem dormir.

—Boa noite.- Falei bocejando.

—Boa noite.- E ele devolveu o bocejo.

Notas finais
*Eu sei que certas coisas, como o vestido, não existiam no século 16, mas eu sinceramente ODEIO as roupas das mulheres daquele século! Por isso, já que a história é minha, eu mudei algumas coisinhas. ^^