Quando eu estava tirando o vestido, me lembrei que tinha esquecido os sapatos abaixo do convés e eu estava com fome, pois eu falei mais do que comi.

Me vesti e sai do quarto. Tudo estava escuro. Mas a vista era linda. A lua cheia estava refletida nas águas do mar, era tão lindo. Fui até a escada, mas vozes me fizeram parar:

—...ele não tocou em você hein? –Era uma voz conhecida (quem iria roubar um navio em movimento, sua idiota) pensei. Mas tinha um som saliente e manipulador, o que me fez levar tempo para identificar. Eu me abaixei e me esgueirei para a sacadinha que dividia a parte de cima e a do meio do navio. Ainda não podia ver direito.

—Ahh.- Gemeu uma voz. Mas era voz de homem... e eu não podia esperar uma menina ali, poderia? –E -eu juro, Z.S, ele só conversou comigo. –Era Z.S., mas quem era o outro? E por que ele estava gemendo daquele jeito? Senti meu rosto se contorcer em uma terrível careta. Aquilo não poderia ser verdade.

—Mas James falou que ele brincou com seu cabelo e ficou fazendo largos elogios. –A segunda voz gemeu mais alto e parecia estar com dor. Levantei a cabeça um pouco. Lá estavam eles. Os cabelos dourados de Z.S encobertos pelos cabelos vermelhos sangue de Castiel. “PUTA QUE PARIU”, pensei. E quando vi que os cabelos de Castiel cobriam os cabelos loiros, pelo motivo, o maldito motivo de que Z.S estava... Lambendo o pescoço do menino de cabelos sangue. Maldição! De tantas pessoas nesse navio, por que eu? Por que, Senhor?

Decidi então me retirar, mas, no exato momento em que esse pensamento me ocorreu Castiel olhou para cima.

—Fudeu. –Falei com os olhos arregalados e a boca escancarada. E então comecei a descer as escadas, lentamente, e sentei, bem devagar no penúltimo degrau. Apoiei os braços nós joelhos e mesmo sem falar nada os dois se postaram a minha frente.- Z.S, pode, por favor, ir buscar uma garrafa de rum para mim? –Perguntei com os olhos arregalados ainda no horizonte. Pude sentir que ele lançou o olhar para Castiel e saiu para baixo.

—S-senhorita... –Mas, eu levantei um dedo fazendo-o se calar. E fiz outro gesto para ele se sentar. Encarei-o de frente, mas continuei calada. E só ali, naquele momento, eu percebi que Castiel era muito sensível. Os seus olhos estavam lagrimejando.- Por favor, senhorita, não conte. Por favor. –E as lagrimas começaram a cair pelo rosto.

—Não vou. Não se preocupe. –Falei com a voz mais angelical possível e coloquei as mãos no seu rosto limpando as lágrimas. E nesse momento Z.S surgiu com o rum na mão e cara de quem poderia me matar. Tirei rapidamente a mão do rosto de Castiel, que sorriu debilmente e abraçou mais forte as pernas. Percebi que o ciúme não era novidade e nem incômodo para eles. Sorri enquanto abria a garrafa e tomava um gole bem demorado.

—Tudo bem. Tudo bem.- Falei finalmente. –Não vou contar. Mas... vocês deveriam ser mais cautelosos.

—Ser mais cautelosos? Como? Não temos um minuto a sós desde que a senhora chegou. –Falou Z.S, com o tom desapontado.

—Bom, ninguém pode ouvi-los lá em baixo? –Pedi.

—Não. E alguém achou que todos estavam dormindo e não faria problema.- Falou Castiel lançando um olhar de censura a Z.S enquanto secava o rosto. –E esse alguém só fez isso por que James disse que tinha um homem na festa que se encantou comigo. –Z.S fez uma cara muito aborrecida. Tomei outro gole.

—Bom, eu não vou dedura-los. Não se preocupem. E vocês não acham que é até vantajoso me ter para ajudar.- Falei, percebendo a careta que Z.S fazia. Castiel sorriu e me abraçou, enquanto Z.S sorriu e eu retribui tanto o abraço como o sorriso. Chopper, que estava deitado na minha cama, saiu do quarto e foi se postar ao meu lado. – Acho que se não fizerem muito barulho –Censurei os dois- podem ficar aqui, não pretendo atrapalhar vocês. E acho que o capitão já foi dormir.- Mas nesse momento ouvi um barulho de porta abrindo as minhas costas, levantei em um pulo.

—Posso saber o que, diabos, vocês estão fazendo? –Falou ele, e nos olhou com tanta raiva que senti os olhos dourados me perfurando.

—Eu queria beber um pouco. Além de que, eu estou faminta. Quase não comi hoje à noite. –Falei. –E esqueci meus sapatos lá em baixo. Castiel e Z.S estavam aqui em cima, conversando e eu pedi para um deles trazer rum para mim. E já estavam descendo para irem pegar os sapatos e a comida.

—Hum...- Ele não parecia convencido- O que estão esperando? Vão logo. –Falou para os dois homens as minhas costas. Ficamos sozinhos por um tempo. E então quando eles voltaram, um trazendo um sanduíche e o outro um par de sapatos pretos, peguei o pão e o sapato e fui para o quarto.

Com o pão na boca e já sentada na minha cômoda para pentear os cabelos, me surpreendi ao ver o capitão irrompendo da porta e fechando-a ao passar.

—Obrigado por bater, hein. –Falei sarcasticamente.- O que quer?

—Vim lhe aconselhar que não fique sozinha com os homens muito tempo. –Falou enquanto andava pelo quarto e eu engolia um pedaço de pão com presunto.

—Vochê prechisa parar de me subeshtimar. –Falei de boca cheia. E terminei de comer. E nesse exato momento, Chopper pegou minha escova de cabelos e deixou aos pés do capitão e deitou na cama.

—Posso? –Perguntou ele, ajuntando a escova do chão. Senti minhas orelhas corarem e afirmei com a cabeça.

Ele se dirigiu a mim e se postou as minhas costas. Quando suas mãos tocaram meus cabelos, sem intenção, fechei os olhos. Era uma sensação muito confortável. Senti arrepios no estomago a medida que os dedos dele tocavam minha nuca. Quando abri os olhos, os dele estavam vidrados em mim pelo espelho. Baixei os olhos e perguntei se os garotos tinham ido se deitar.

—Por que você quer saber deles? –Pelo reflexo, vi uma expressão meio decepcionada em seu rosto.

—Só para saber...

—Acho que sim. – Largou a escova na mesa e deitou-se na minha cama. Levantei e fui até ele. Coloquei as mãos na cintura e perguntei.

—O que pensa que está fazendo? –E de súbito ele me puxou para um abraço. Estávamos deitados cara a cara. Aqueles olhos dourados penetrantes encarando os meus.

—Minha cama está guardando todo o ouro. Eu ia dormir na poltrona, mas eu pensei de novo e se me deixar dormir aqui...

—E se eu não deixar?

—Bom... Acho que vou ter que dormir na poltrona e ficar implorando a você dia após dia para fazer uma massagem nas minhas costas doloridas, e lembra-la de que a dor é sua culpa por não ter me permitido passar uma noite tão confortável.

—Sua cama deve ser tão confortável quanto a minha.

—Eu não estava falando da cama. –Corei fortemente. E apertei sua camiseta, dando-o um sinal muito bem-sucedido para ele me abraçar mais forte.