Comecei a ouvir vozes. Uma dor de cabeça terrível. Com um movimento rápido abri os olhos e vi meia dúzia de homens ao meu redor. Sentei em um pulo. Eles se afastaram e em minha cabeça veio a imagem de Chopper.

— Chopper! Chopper! –comecei a gritar. – Onde está o meu cachorro?! — falei enquanto me levantava.

— Es-está ali –um deles me apontou o lugar onde meu melhor amigo arfava, deitado no chão de madeira.

Corri em sua direção. Chamei-o, desesperadamente. Até que ele levantou o rosto para mim. Relaxei e me abracei em seu pescoço. E então ele se levantou em um pulo. Foi o suficiente para que eu olhasse para trás e os avistasse.

Piratas!

Estava em um navio pirata. Levantei e fui para a beira do navio. Tive que me apoiar na madeira do barco. Não conseguia ficar em pé. Minha cabeça latejava e me sentia tonta. Chopper se colocou em minha frente.

— Calma senhor. Não vamos lhe fazer mal –falou um homem gordinho de aparência simpática.

Estávamos um pouco longe da baía, mas era possível chegar lá nadando. Bom, pelo menos eu poderia, Chopper não iria aguentar e eu não seria louca de deixa-lo ali.

— Chame o capitão, James –falou o homem magricela para o gordinho, que obviamente se chamava James.

Fiquei lá, parada, enquanto aqueles piratas olhavam para mim. Levantei minha cabeça um pouco, para ver a bandeira. Era diferente das outras. Tinha um crânio, mas não tinha os ossos. No lugar deles tinha uma forma esvoaçante, onde estava escrito “Freedom”. “Liberdade? ” Pensei. Por que piratas iriam querer liberdade? Já são os mais livres, não são? Eles não vivem presos ao trabalho ou a vida monótona ou à qualquer coisa que uma pessoa normal e com decência ficaria presa. À minha mente, só vinha a palavra “idiota”.

Desviei minha atenção da bandeira. Comecei a ouvir um barulho de paços no convés.

Olhei-o de baixo a cima. Botas de couro marrom, calças pretas, um cinto com fivela de ouro puro, uma blusa semiaberta; que dava para ver um pouco do peitoral definido, cabelos negros como a noite caindo sobre o ombro, lábios perfeitos, um pano sobre a cabeça deixando com que somente um pouquinho da franja caia em seus olhos e ...finalmente, seus olhos, olhos de um dourado incrível. Cativante e muito delicioso. Mas ele não podia ser o capitão, aparentava minha idade.

— Olá, senhor. Meus companheiros me informaram sobre seu acidente e gostaríamos de saber se está bem –o modo como falava, o jeito como todos foram se alinhar atrás dele. Aquele homem realmente era o capitão.

Bom, eu não poderia responder. Se eu o fizesse, saberiam que eu era mulher. Então, só recuei ainda mais. E, subitamente, caí no chão sobre os joelhos. Me encolhi e abracei Chopper, que agora me acariciava.

— Soltem a âncora o mais perto da baía possível! –E assim, se deu início a uma correria. Me surpreendi quando ele se aproximou e falou — Vamos levar você para um médico. Aguente mais um pouco.

Minha mente ficou em branco durante um momento. Não sei se foi por causa da linda voz ou por ele estar tão perto. Mas quando pensei no que ele tinha dito...não poderia ir a um médico. Ele veria que não sou homem.

Levantei de súbito e disse que não poderia ir a um médico.

— Por que? –Perguntou ele. Entrei em pânico. Não sabia como responder.
E, do nada, Chopper pulou e rasgou a frente de minha camisa. E nesse mesmo momento um vento muito forte levou meu chapéu em bora, o que fez o coque no meu cabelo ficar exposto.

— Você é mulher? –Perguntou o gordinho simpático. Então, já que ter vergonha nunca foi o meu forte, soltei meu cabelo e fiquei ereta, mirando a todos eles de nariz empinado.

— Sim. Sou mulher. E daí? –De onde veio essa coragem?

— Por que estava vestida de homem, senhorita? –James perguntou.

— Preferem que eu fale para todos ou posso ter um momento a sós com seu capitão -minha carreira era importante para mim e não os deixaria estragar tudo.

— Fale para todos, senhorita –o capitão pronunciou... foi mais como um desafio.

— Está bem. Eu... – mas não consegui continuar. Caí sobre meus joelhos com a mão na testa. Gemi um pouco e senti alguém colocar alguma coisa em volta de mim. Apaguei outra vez.

Acordei, deitada em uma cama extremamente confortável. Era uma cabine escura e pude notar a luz das velas. Tentei levantar, mas minha cabeça doía muito. Fui de leve, até conseguir ficar um pouco sentada. Chopper estava comigo, como sempre.

— Não faça movimentos bruscos –falou o homem de olhos dourados, que estava sentado ao meu lado. –Descanse.

— Eu...aonde estou? – Perguntei.

— Em meus aposentos.

— Obrigado –sorri. Um sorriso de alívio. –Muito obrigado.

— Por que, senhorita?

— Por não me levar ao médico. Muito obrigado, Senhor Capitão –poderia jurar que ele fez uma expressão de surpresa.

— De- de nada, m- moça.

— Deixe-me adivinhar –falei sarcasticamente- Devido ao fato de minhas próprias roupas ainda estarem em meu corpo e também por não sentir nada estranho abaixo da cintura, posso deduzir que não se aproveitou de mim, certo? Senhor Capitão -ele ficou em silêncio por um momento.

— Certo.

— Você deve ser um pirata cavalheiro... E não deve falar muito com mulheres. Corrija-me se eu estiver errada.

— D- desculpe –ele riu. -Eu só não sou acostumado a mulheres que se passam por homens em meu navio. E... pessoas desconhecidas não deveriam falar assim com outras pessoas desconhecidas.

— Não sou o tipo de mulher que você acha em qualquer lugar. AI! –Senti uma pontada em minha cabeça.

— Ninguém me avisou que você estava sangrando... –Começamos a ouvir vozes atrás da porta. “Ai, Senhor Capitão”, “Me des- des- desculpe, moça. ” Obviamente tinham alguns engraçadinhos no navio. Levantei e me dirigi até a porta.

— Não se preocupe, eu tomo conta deles –disse o capitão. –Você tem que descansar.

— Não, eu tenho que voltar.

— Nós a levarem... –As vozes sarcásticas voltaram. Vi um castiçal sem vela e o peguei.

— Calma! Calma! –Disse ele enquanto segurava meus braços. –Me dê o castiçal e eu vou até lá -eu entreguei e ele saiu. Ele gritou com eles e atirou o castiçal em alguém. Foi tudo que eu pude ouvir.

— Queremos ver como está a moça –falou um deles.

— É! Ou o “Senhor Capitão” quer a belezinha só para si? –Aquela foi a gota d’água. Escancarei a porta e disse.

— Essa é uma versão horrível da minha voz. E se me chamar de “belezinha” outra vez, vou tirar sua capacidade de falar! – Eles se calaram. E o gordinho foi correndo até mim.

— Está tudo bem, madame? –Perguntou ele.

— Sim. Estou ótima. Obrigado... James? –Perguntei, olhando para o fofo, gordinho que era consideravelmente mais alto que eu.

— Sim. Meu nome é James, senhorita. E fico muito feliz ao saber que está melhor, -olhei para os outros e pedi para que me dessem uma camisa decente. Depois de vestida me sentei em um degrau que tinha perto.

— Então, moça. Nos conte o motivo de se vestir de homem –perguntou um baixinho.

— Todos querem saber? –Perguntei.

— Sim! –Falaram em coro. Então contei sobre minha história.

— Nossa! Você é demais –falou um deles. O mesmo se levantou e olhou para o capitão que estava escorado no navio. -Podemos ficar com ela?