Todos eles viraram para o homem de olhos dourados de uma vez. Vi que ele ficou meio sob pressão.

— Me escutem! –Eu gritei. -Quem decide se eu fico ou vou embora, sou EU! –Todos olharam para mim e, em seguida, para o capitão. Deram a expressão de “nos ajude”.

— Você contou tudo, não é? –Disse ele.

— É. Desde a morte dos meus pais, até eu acordar aqui.

— Então... se você fosse viajar conosco, sempre teria uma inspiração -disse ele, e eu percebi que alguns rostos se iluminaram. E até Chopper latiu para mim. Aquilo me fez arregalar os olhos. -Pense. Não tem nada que a prenda aqui. Você poderá ser uma mulher com direitos em meu navio. E garanto que só cavalheiros vivem aqui, então não precisara se preocupar durante a noite. Por isso que minha tripulação é tão pequena –ele me fez rir. E estava certo.

— Eu não sei... –hesitei um pouco. Mas eu soube que deveria ir quando Chopper correu até o capitão e o deixou fazer carinho. –N- nossa. Nunca vi ele ir até alguém por conta própria -fiz uma pausa e pensei um pouco. -Se vocês tiverem paciência para que eu vá até minha casa pegar minhas coisas...acho que posso navegar com vocês –todos eles vibraram.

Disseram que não poderiam ir até o porto porque eram piratas. Então, tive que mergulhar e o capitão foi comigo.

Já era de noite, estávamos andando pelas ruas desertas de minha cidade.

— Sabe, sempre achei que piratas eram bárbaros. Mas vocês são as pessoas mais legais que já encontrei na vida –eu disse. Ele sorriu.

— Bom, matar pessoas não me traz prazer, e eu só quero direitos e roubar de pessoas ricas que se acham mais que os outros. Não roubo pobres. E só admito homens assim no meu navio.

Continuamos em silêncio. Ao entrar em minha casa, mandei-o pegar as telas e pincéis para mim. Eu pegaria minhas roupas e coisas da minha família.

— Vocês resgataram meu violino? –Perguntei desesperada.

— Sim. Está sã e salvo em meus aposentos –sorri. Por último peguei o colar que tinha a foto de meus pais e tios.

— Pode colocar para mim? –Perguntei.

— Claro -falou ele. Puxei meu cabelo e entreguei a ele o colar. Ouvi-o largando as telas. Senti seus dedos quentes em minha nuca.

Saímos e voltamos ao barco, onde Chopper já me esperava.

— Você pode ficar com o quarto ao lado do meu. Tem uma cama lá– disse ele.

— Para que vocês usam?

— O navio pertencia aos meus pais. Minha mãe tinha um quarto separado. Para quando meu pai precisava cuidar de algumas coisas.

— Tudo bem. Vamos lá.

Ao chegarmos no quarto, percebi que tinha uma cama e uma escrivaninha, cheia de papéis. Ele colocou apressadamente minhas telas no chão e foi recolher os papéis. Coloquei minhas roupas e as outras coisas de lado.

— Quer ajuda? –Perguntei.

— Não. Estou bem. CARL!!! –Ele gritou e um homem baixinho apareceu na porta. -Me ajude a levar estas folhas para minha cabine -ele se virou para mim. -Se quiser, vá comer o jantar. Meus companheiros estão lá em baixo.

Prendi o cabelo e desci por uma escada bem no meio do convés. Lá, encontrei uma enorme mesa com quatorze homens sentados, rindo, bebendo e comendo. Quando me viram, automaticamente se calaram e ficaram olhando eu descer as escadas. Em uma ponta da mesa -uma ponta meio “excluída”- havia uma cadeira. Foi estranho, porque tinha um enorme banco em cada lado da mesa, o que excluía a ideia de cadeiras. Então porque havia uma ali? E uma bem enfeitada, por sinal.

Sentei ao lado do homem alto e gordinho, chamado James. E em meio a um silêncio constrangedor, perguntei.

— O que tem de comida?

— Temos carne de porco e uvas –falou James com um sorriso no rosto. -E se quiser pode tomar Rum.

— Para que serve a cadeira “excluída”? –Perguntei, enquanto me servia.

— É a cadeira do capitão –respondeu o homem magricela.

— Nossa. E vocês conversam quando ele senta ali? –Perguntei, enfiando um pedaço de carne goela a baixo.

— Nós falamos entre nós, mas...não falamos muito com o capitão –disse James, olhando para baixo.

— Sei. Isso é uma enorme besteira –falei, olhando para a parte da mesa vazia que terminava com uma cadeira extravagante. –Se querem saber a minha opinião, seria um desperdício ser capitã de homens tão gentis e nem falar com eles sobre assuntos insignificantes.

— Assim a senhorita me deixa sem jeito –falou um dos homens olhando para baixo e ruborizando.

— Falando nisso, por favor. Me chamem de Alicia, Alicia Anguis. E me digam seus nomes.

— Eu sou James, senhorita Anguis –disse o gordinho alto, careca e fofo.

— Eu sou Carl, é um prazer Alicia –o homem baixinho e de expressão máscula, que havia descido pouco depois de mim.

— Me chamo Timber –falou o homem magricela.

— Sou Ronald, e esses são meus irmãos: Greg e Oscar. Somos trigêmeos -eram três garotos que parentavam uns 17 anos. Como eu iria identifica-los? Os três sorriram para mim.

— Eric.

— Jonathan.

— Igor

— Sebastian.

— Z.S.

— Meu nome é Isaac. Eu gostaria de me desculpa por tê-la ofendido mais cedo. Sinto muito –então foi ele que ficou fazendo aquela vozinha? Eu ri.

— Sou Gabriel e este é meu irmão Castiel –eram dois meninos. Bem jovens pelo visto.

— É um prazer conhecer todos vocês. E a partir de hoje, não me chamem de senhorita Anguis. Me chamem de Alicia –falei olhando para James que corou. Sorri para ele. –Posso fazer uma pergunta a todos vocês? –Todos balançaram as cabeças, em sentido de afirmação. –Por que, diabos, vocês iriam querer que uma mulher completamente estranha ficasse aqui com vocês?

— Posso responder? –Perguntou Carl. Mas James já havia tomado a frente.

— Sua história nos emocionou. E você não tinha ninguém, estava sozinha -ele foi interrompido por Timber.

— E também, estava entediada, não é? Sentimos sua dor.

— É. O mar curou nossas feridas internas. Por que não curaria as suas? –falou Carl. –E também, não sei se todos notaram, mas, a senhorita tem um jeito firme e forte. Sua coragem também é incrível. E, que homem não precisa de uma mulher para dar equilíbrio as coisas?

— Exatamente. E senti uma aura muito triste tentando prender uma alma feliz e energética. A senhorita poderia trazer a felicidade que nosso navio e nosso capitão precisam -falou um dos trigêmeos.

— Vocês são uns amores. Muito obrigado –e logo após dei um arroto. Soltei uma gargalhada e todos me acompanharam. Mas param quando ouviram o som de botas descendo as escadas. Era o capitão.

Ele se sentou à mesa, naquela cadeira. Os outros recomeçaram a comer, mas desta vez em silêncio. Cochichei para James.

— Ele intimida vocês?

— Não, senhora. Só ficamos ligeiramente desconfortáveis no jantar quando... ele aparece –fiquei intrigada quanto aquilo. Mas não pude evitar de ficar olhando com cara de brava para ele. Quando ele me viu perguntou:

— Tem alguma coisa no meu rosto? –Ouvi um garfo cair.

— Por que você não se senta aqui? –Perguntei, batendo no lugar ao meu lado. Ele fez cara de choque. Mas ele se levantou, pegou o prato e o copo e sentou ao lado do homem a minha frente. Sorri satisfeita. –Ótimo –ele sorriu.- Qual é o seu nome? Senhor capitão.

— Meu nome é Sencho. E o seu? –Ele sorriu.

— Meu nome é Alicia –os outros 14 homens só nos acompanhavam com as cabeças. –Pensando bem, você me admitiu em seu navio sem nem ao menos saber meu nome -ri.

— É, mas depois do que nos contou, senti como se a conhecesse durante anos –percebi que ele usava um brinco argola na orelha esquerda. Sem dúvida, muito bonito.

— Então? Ficarão aqui até quando? – Perguntei.

— Ficaremos aqui, até amanhã. Pois temos que comprar suprimentos.

— Como comida? –Ele afirmou. –Posso dar minha opinião?

— Claro, mas...por que?

— Bom, só temos um mercado que vende carne saudável e não perigosa. E também tem mercadinhos que vende frutas e pães, mas só dois são confiáveis. Só quero ser útil –olhei para os meus pés.

— Muito obrigado, senhorita Angu... -James pausou e continuou. -Digo, Alicia.

— Você poderia nos guiar amanhã, Alicia? –Timber hesitou em falar apenas o meu nome, mas chegou ao ponto.

— Já disse que eles pensam que eu morri? Não posso sair. Mas posso lhes dar o nome antes de irem –eles sorriram e continuaram a comer. Vi que os gêmeos estavam cochichando e um deles se virou para mim e perguntou.

— A senhorita poderia tocar seu violino para nós?

— Claro. Eu adoraria -me levantei e fui pegar meu violino. Chamei Chopper, que estava comendo em meu novo quarto.

Quando sai do quarto, eles estavam lá em cima para me verem tocar. Perguntei se eles conheciam alguma música. Capitão pediu para que eu escolhesse, então toquei a favorita do meu tio. Era uma música de piratas que eu não lembrava o nome.

Eles sentaram no chão, coloquei o violino sob o queixo e comecei a tocar. O vento, que indicava chuva, fez meus longos cabelos castanho-claro dançarem sobre a melodia do som do violino. E a luz de velas refletiu em meus olhos esmeralda, fazendo com que eles ficassem extremamente brilhantes. Uma lágrima escorreu pelo canto do meu rosto ao lembrar de meu tio.

Quando terminei, todos foram se deitar. Aquela cama era extremamente confortável...