Meu nome é Alicia Anguis, mas na minha cidade, sou conhecida como Edgar Anguis.

Desde a morte dos meus tios, comecei a usar roupas de homem e me portar como um. Quanto a minha voz, digo que é uma doença. Minhas feições femininas ficam encobertas em baixo de um chapéu, cabelo preso e muitas ataduras. Sabe, minha mãe me abençoou de muitos modos e um deles foram os seios grandes. E se estiver se perguntando como passei de menina intocável para garoto misterioso, eis a explicação: Logo após a morte de meus tios fui até a floresta, que ficava a muitos metros da cidade, para pintar e tocar violino, um pouco de paz é necessário, sabe? Permaneci em uma cabana abandonada. Fiquei lá durante meses. Queria voltar e vender minha arte para as pessoas, mas mulheres não podem ter essas proezas chamadas “talento e criatividade”... Então se criou a história de Edgar, irmão gêmeo da menina problemática, que voltou de anos do internato da Bélgica para que possa dar continuidade ao legado da família Anguis.

Bem, acordei em um belo dia de outono com uma vontade estonteante de pintar. Mas o problema era inevitável. Já havia pintado todas as partes acessíveis da vila. Desde a colina Macia, que dava para o oceano, até a frente da minha casa. Estava sem nada para pintar. E quando a meu adorável cãozinho Chopper, já o havia pintado inúmeras vezes.

Vesti minhas botas, amarrei o cabelo, coloquei o chapéu herdado de meu pai, a camisa herdada de meu tio e ,surpreendentemente, a calça de minha mãe. Sai acompanhada de meu cão.

Como minhas ideias estavam bloqueadas, fui até a colina e sentei ao lado da árvore que estava ali desde que me entendo por gente. Peguei meu violino e comecei a tocar. Depois de um tempo, parei e desviei minha atenção para o horizonte. Cheguei mais perto do pequeno penhasco, perto ao ponto de sentir o chão sob mim despejar algumas pedras. Chopper começou a latir do meu lado, achei que fosse pelas crianças jogando bola ali perto.

— Shhh! Chopper! Fique quietinho –falei enquanto me abaixava para acariciar seu pelo macio. Ele grunhiu um pouco e depois fez-se o silêncio.
Ouvi uma das crianças gritar, mas não entendi o que ela havia dito, pois, segundos depois estava mergulhando no mar com visão turva.

Vi alguém mergulhando em meu socorro, era Chopper. Mas, logo depois, vi uma ou duas formas humanas. Consegui aguentar até ver um enorme navio, e então apaguei.