Deixe-me ir

6 2020 - Parte 5


Notas iniciais
Eis a última parte de 2020. A coisa ta ficando séria. Boa Leitura

Os olhos de Seth se arregalam em choque e então abro os meus. Lanço lhe um olhar desafiador. Terá ele coragem para ir contra as minhas palavras? Ele esperava ouvir uma afirmação tão clara de mim?

– C-como...? O que...

Então me explico totalmente. Durante todo o processo Makayla segura minhas mãos, me deixando ciente de sua presença para que eu não chore. Conto para Seth sobre Emmett, minha anomalia e doença incurável, o fim da humanidade causado por mim, a viajem pelo tempo contra a minha vontade, a vinda inesperada de Makayla e a missão que preciso desempenhar. As palavras jorram para fora de mim, livrando-me do peso que antes me atormentava. Apesar da vergonha que sinto é bom poder confessar tudo a alguém mais velho que Makayla. Mesmo que ele possa me taxar como louca.

Quando termino a explicação suspiro e aproveito o vazio do alívio em meu peito. Está acabado. Ele sabe.

Seth permanece em silêncio e faço menção de sair da sala.

– Para onde está indo? – Pergunta ele. Makayla me segue e permaneço em silêncio, alcançando o corredor luxuoso.

Ele se vira e também alcança o corredor, porém não interrompo meus passos.

– Ei! Para onde você está indo?

Fecho os olhos. Sinto muito, Seth. Não posso lhe envolver mais nisso. Me odeie. Serei uma assassina em pouco tempo.

Tais pensamentos negativos tornaram o choque ainda maior, quando um peso opressor agarra meus pulsos e me prende contra a parede branca e imaculada. Seth está na minha frente, meus pulsos em suas mãos, pressionando-me contra o corredor. Cerro os dentes e a chateação aquece-me o estômago.

– O que você está fazendo? – Sinto a indignação na voz que Makayla dirige à Seth.

– Me solta. – Esbravejo, tentando livrar-me de seu toque.

– Por que você está fazendo isso? – A pergunta me fere ainda mais e o encaro com ódio.

– Seu filho de... – Formulo a frase, porém não a finalizo.

O rosto de Seth se aproxima e para a alguns centímetros do meu. Apesar de ser notável que esse método seja apenas para que Makayla não o escute, sinto o meu rosto aquecer subitamente, invadido pelo calor. Não fique vermelha, idiota. Observo vagarosamente a expressão entalhada em sua face. A profundidade mergulhada em seus olhos. Tento outra vez me soltar, porém sua força se sobrepõe sobre a minha.

– Por que você está tentando carregar todo esse peso sozinha? – Assim que essa frase escapa de seus lábios, arregalo os olhos surpresa. Ele não me vê como uma mentirosa? Ele não me vê como uma assassina? Ele está me enganando? Quem esse filho da mãe pensa que é?

– Eu serei uma assassina. Como pode acreditar em mim? Viajar no tempo não é absurdo? – Desvio o olhar.

Seth solta os meus pulsos e se afasta.

– Sinceramente – ele balança a cabeça e abre um sorriso discreto – É um absurdo sim. Mas só por ser um absurdo não significa que não seja verdade. Sempre fui louco por esse tipo de coisa. – ele faz um gesto simples com a mão, algo para afirmar o quanto ele não se importa com absurdos – O que mais poderia explicar tudo isso? – agora seus olhos se voltam em minha direção, sérios – Você não é uma assassina. Uma suicida talvez, assassina não.

Por que será que rir dessa afirmação parece errado?

– Mas eu... – Sou interrompida. Makayla se aproxima de mim, agarrando meu braço.

– Além disso você está fazendo isso para salvar idiotas como eu, não é? – Seth parece querer desfocar a tristeza.

Makayla analisa o meu pulso avermelhado e encara Seth com desdém.

– Realmente idiota. – diz ela.

Dessa vez não reprimo um sorriso.

– Bem, acho melhor eu ir conversar com o Amit. – Anuncia Seth e agarro a manga da sua camisa.

– Por favor, não conte a ele. – Imploro.

Apesar de saber que eu deveria contar a Seth sobre o fato de que Amit deixará de existir, sei que ele chegará à conclusão sozinho e não falo mais nada.

Seth apenas acena, força um sorriso e então se vai. Makayla ergue o olhar até mim.

– O que você vai fazer agora, Ava?

Suspiro e percebo que o peso opressor retorna. O que farei?

– Eu não sei.

Makayla permanece um tanto confusa diante da minha resposta, porém apenas suspiro diante da frustração que me persegue. Eu sei muito bem o que fazer. Apenas me recuso a admitir o ato que terei de articular. Amarro o meu cabelo bagunçado em um nó e dou uma olhada ao meu redor. O corredor majestoso está vazio e as projeções que neles estão me assombram. Como eu posso chegar a achar esse lugar confortável? Tudo que eu quero é voltar para casa.

– Venha, Mak. – digo, seguindo em frente, produzindo um ruído a cada passo dado.

Ainda assim encontrar um rastro de determinação para prosseguir, não é a solução para o maior problema. Uma turbulência ainda mais comprometedora estava esperando por mim. Quando consegui entender, era tarde. Abruptamente eu e Makayla interrompemos nossos passos, estarrecidas com a visão à nossa frente.

Surgindo de repente, ao virar no corredor, a imagem da Ava Velha me encara com todo o ódio que consegue acumular. Seus cabelos perderam o tom de elegância e agora pendem de forma bagunçada, os olhos me fitam incertos e enraivecidos. Ao mesmo tempo que o calor da revolta parece emanar dela, é possível distinguir a frieza que ela deseja que me alcance. Por um instante tenho medo do que vejo. Sinto medo de mim mesma.

De olhos arregalados, permaneço imóvel. Makayla parece sentir a tensão, pois dá um passo para trás. Então a minha versão mais velha começa a sorrir de maneira irônica, passando uma mão sobre o cabelo, para em seguida aponta-la para mim com desdém.

– Você – balbucia, a voz trêmula me provocando arrepios – Eu ainda estou viva. Você não vai me matar.

O susto que a acusação dela causa em mim, me faz entrar em colapso. Sinto algo romper-se em meu interior e entro em pânico. O que ela quer dizer com isso? Como ela pode saber o que pretendo?

Porém, essas palavras não causaram um choque maior do que a ação que veio em seguida. Com brutalidade Ava corre até a mim e agarra com suas duas mãos o meu pescoço. Um grito é tudo que consigo enunciar, antes de sentir sua pressão pairar em mim. Encaro-a perplexa. Ela está ficando louca. Eu estou ficando louca. A agressão se intensifica e desesperada, tento desvencilhar-me de seu ataque repentino.

Ouço o grito de Makayla quando a Ava idosa a arremessa contra o chão. A tentativa frustrada da minha irmãzinha, de mim resgatar dessa situação, falhou. Agora sinto a raiva quente remoer-se em meu interior. Como ela pode fazer isso com a própria irmã? Como posso me tornar esse monstro?

Antes que eu possa manifestar alguma outra reação ao ocorrido, Ava começa a me arrastar pelo corredor, mantendo a mão em meu pescoço. Não entendo o que está acontecendo. Ela apenas me empurra na direção contrária, de volta para a salinha do alojamento. Quando sou envolta na luz azul daquele local, meu coração se encolhe em expectativa. O que ela pretende?

Com um forte impacto, sou pressionada contra a forma gelada e complexa. A energia que emerge do material que sinto sob mim, me deixa desnorteada. Ela me arremessou contra o alojamento. Tal sentimento que se manifesta, tal energia que está sendo exercida sobre mim, é fonte do alojamento. Tento me orientar, quando ela larga o meu pescoço e fecha a porta. Com receio aproximo uma das minhas mãos até o meu pescoço. A dor que se manifesta é inevitável e o ardor me arranca um gemido. Tento respirar de maneira controlada, enquanto ergo o meu olhar marejado em sua direção. Olhos gélidos são tudo que recebo de volta e posso sentir o medo invadir-me lentamente.

– Não adianta me encarar com toda essa inocência, Ava – Ela se aproxima, cerrando os olhos. Iluminada pela luz azulada, sua expressão parece ainda mais tensa – Antes de você adentrar esta casa, eu sabia pelo que você veio. Foi insuportável ver como você tinha conquistado a confiança do meu filho, sabendo que iria elimina-lo.

Arregalo os olhos e a culpa se rasteja por entre o meu desespero. Como tudo foi acabar assim? Eu só queria salvar a droga da humanidade. Eu só queria que ninguém precisasse morrer por minha culpa.

– Foi um choque e tanto para mim, quando vi a minha querida irmã tropeçando pelo meu terreno. Eu não pude acreditar. Pior ainda foi analisar a sua atividade cerebral através das funções do alojamento. Eu fiquei surpresa e incrédula diante de tantas informações – Talvez seja delírio meu, porém penso escutar certa tristeza quando ela fala sobre a minha irmã – E quando eu vi você, sabendo que você veio para dar um fim na própria existência...Eu não pude aceitar.

Apesar da loucura de tudo que está acontecendo, consigo força o suficiente para revidar.

– E por que não? Será que me tornei tão egoísta a ponto de não salvar os outros, mesmo sabendo que serei a responsável pelas suas mortes? – Com desprezo fixo meus olhos nos seus.

Uma risada de desdém é tudo que ela devolve.

– Ah como você é boba, Ava – Sua expressão endurece e meu coração acelera – Você não está fazendo isso pela humanidade. Você sabe disso.

Surpresa me acomete e indignação surge. O que ela quer dizer com isso? O que... forço-me a parar. Será que ela não está certa? Não, penso. Ela não pode estar certa ou serei uma pessoa terrível.

– Você está errada...

As mãos dela agarram-me outra vez. Uma insanidade percorre seus olhos azuis e sinto o medo correr em minhas veias.

– Foi difícil pensar em uma maneira de evitar a minha morte. Eu não posso matar você, sabe? Isso implicaria na minha existência. – Um sorriso cheio de satisfação nasce em seu rosto – Porém posso prender você aqui. Posso impedir a sua missão maluca. Posso...

– Não! – Grito horrorizada e assustada, lanço o meu olhar para a porta trancada. Preciso fugir. – Você pode impedir o meu progresso, mas nunca impedirá a sua morte. E a de todos os outros!

Desvencilho-me de seus braços e chuto-a numa tentativa desesperada de me soltar. Assim que a sua força cede, corro até a porta. Minha cabeça lateja, ainda assim permaneço firme. O coração martela em meu peito. Abro o caminho para o corredor e me liberto do ar abafado daquela sala. Da lembrança do toque frio daquele alojamento. Quase fui impedida de continuar. Com todas as forças que ainda possuo, corro à toda velocidade. Ignoro Makayla e peço silenciosamente por perdão. Corro através do labirinto branco e iluminado. Das projeções que parecem me encarar de forma desafiadora. “Para onde você vai agora?”. Balanço a cabeça, livrando minha mente desses pensamentos importunos e apesar de sentir a dor em minhas pernas e o esforço com o qual meus pulmões clamam por ar, permaneço firme. Preciso agir. Preciso encontrar uma saída ou eu vou ficar presa aqui para sempre.

Abro um portão de vidro que bloqueia a minha passagem e então adentro um salão decorado e devidamente iluminado pelas luzes brilhantes no alto. Posso ver as expressões assustadas de Seth e Amit, quando adentro o local. Ignoro ambos e continuo a correr, atravessando o salão vazio. Vejo outro portão feito de vidro polido e prossigo em sua direção.

– Ava, o que está... – A pergunta de Amit morre, quando outros passos adentram o salão, acompanhados de uma respiração ruidosa. Ava.

Pânico é o meu combustível outra vez e abro o portão, sentindo o ar frio alisar minhas bochechas. Arregalo os olhos. Estou no terraço. Posso ver a vastidão da propriedade abaixo e o céu iluminado pelas estrelas. Posso sentir a perfeição dessa projeção. Como pode parecer tão real? Tão complexo? Os passos atrás de mim trazem a minha condição atual à memória. Não posso parar agora. Continuo a correr no terraço. Corro até alcançar o muro de mármore que evita a queda iminente. Ava me persegue até finalmente alcançar o terraço.

Há algo diferente de ódio em sua face. Posso ver desespero. Ao contrário de mim, ela não observa as estrelas.

– Você... – A força para repor o oxigênio em seu corpo, interrompe suas palavras – Não vai... conseguir.

Empunhando uma determinação de aço, Ava corre em minha direção, pronta para agarrar-me outra vez. O tempo parece estar mais devagar. Consigo sentir tudo à minha volta. Os mínimos detalhes, enquanto a Ava mais velha se aproxima. O meu cabelo bate em meu rosto por conta da brisa noturna, quando desvio de suas mãos. Então agarro seu braço e presenteio toda a minha força ao movimento seguinte. Empurro-a contra o muro, no momento em que ela não consegue interromper seu movimento. O movimento que devia ter me acertado. Com um olhar feito de gelo, cubro as minhas emoções por um instante. Aplico mais força e ela cai. A outra eu, pende do muro. Pende acima dessa altura, sem um chão para apoiar seus pés. Eles se debatem em pura agonia e minha mão é a única coisa que a impede de desabar.

Alguns metros abaixo há grama. As estrelas estão brilhantes e iluminam tudo ao redor. Penso que é um belo ambiente para morrer. Fecho os olhos e respiro fundo, antes de reabri-los. A mão com a qual estou tentando aguentar o peso de Ava lateja, mergulhada em dor. Os olhos de Ava me encaram inundados pelo medo. Tristes e azuis como um mar sem ondas. Lágrimas lhe escorrem pelo rosto e compreendo o que ela me deseja transmitir.

Por favor, eu não quero morrer.

Meus olhos ardem em resposta e não consigo evitar o peso em meu coração. Sou mesmo capaz disso? Sim, eu sou. Abro um último sorriso para ela e sussurro.

– Eu também não.

Solto sua mão, deixo que seus dedos escapulam. Permito que ela busque se segurar no ar, em aflição, em desespero, aguardando o terrível fim, o terrível impacto. Mas nem tudo na vida é como a gente quer, penso, concluindo a resposta que dei a ela.

O corpo dela desliza de maneira, quase graciosa, pelo ar. Então desaba sobre o gramado perfeito da projeção perfeita, sem vida. Não tenho certeza da altura, porém no instante em que ela aterrissa sei que sua vida acabou. Sei que a minha vida acabou. Mesmo que eu queira, não há mais como voltar atrás. Já cometi a primeira atrocidade.

E apesar do alívio ou da conclusão que deveria sentir agora, por ter conseguido cometer esse ato, as lágrimas transbordam a culpa que me aperta o coração. Porque além de tudo, além da missão e da morte, minha versão mais velha despencou.

E de certa forma, sinto como se um pedaço de mim tivesse despencado com ela.

Notas finais
A desintegração do futuro da Ava começou.