Deixe-me ir
5 2020 - Parte 4
Notas iniciais
Horror e indignação correm pelas minhas veias, enquanto estou paralisada em frente ao que deslumbro. Minha irmã está presa à uma espécie de máquina. Ver o seu rosto gentil se contrair em reação à seja lá o que estiver acontecendo, corta-me o coração de maneira brusca. O que foi que eu fiz? Ao invés de procura-la estive explorando esse futuro, sem me importar em deixa-la sofrer aqui. Eu não sabia, consolo-me. Eu realmente não sabia. Não pode ser culpa minha. Eu não queria que ela viesse. Eu não queria nada disso. Lágrimas se acumulam em meus olhos e em um suspiro pesado, liberto todas as emoções empacadas em meu interior.
– O-o que significa isso? – Com passos trêmulos me aproximo da minha irmã adormecida, ignorando a luz azulada que penetra meus olhos.
Além do meu visível desespero há apenas o silêncio. Repouso minha mão sobre a bochecha de Makayla e em seguida me viro para os meus seguidores. Seth aparenta pálido e chocado. Seus olhos refletem o medo que sinto. Amit, com seus olhos arregalados, não é capaz de reproduzir um sorriso ou uma palavra de conforto se quer. Em contraste à reação assustada dos dois a Ava idosa está com o rosto inexpressivo. Seus olhos me perfuram e penso que seus lábios parecem querer se inclinar em um sorriso. Compreendo a mensagem. Foi ela.
Cerro o punho, infestada pelo ódio ardente.
– Você – acuso-a – Você está por trás disso!
Ainda assim ela não me responde. Como eu posso ser tão cruel?
– O que está havendo? – A voz de Seth se infiltra em meio à tensão, que estendo em direção à outra Ava.
– Minha irmã – encontro a voz para falar – Esta... – aponto para a Makayla adormecida – Esta é a minha irmã.
Amit permanece calado sem entender, porém, vejo o conhecimento se acender no olhar de Seth como numa fagulha. Ele agora compreende o que estou querendo impor. Com uma visível indagação presa nos lábios, Seth encara a outra Ava.
– O que isso significa, senhora Mees?
– Mas do que estão falando? – Ava agora abre um sorriso educado, mas as verdadeiras intenções de suas palavras não me escapam – Essa garota apareceu repentinamente. Como estava fraca coloquei-a para descansar no alojamento. Assim poderia recuperar suas forças e me contar de onde veio. Um tempo no alojamento não causaria mal algum, não é?
Apesar da irritação que sinto, noto algo que não havia visto antes. Um grande monitor fixado à parte externa daquela máquina estranha e assustadora.
– O que é aquilo? – Aponto para o monitor e agora que observo bem, ele não parece sólido. É como uma junção de partículas azuis no ar. Estremeço e meu coração acelera.
– É possível ver através dos pensamentos de uma pessoa ou identificar algum problema com ela, graças a isso. – A voz de Amit parece ter retornado, apesar de ele ainda aparentar incrédulo mediante aos acontecimentos.
E então as peças começam a se encaixar. A descoberta me acerta como um soco e eu teria caído se Seth não tivesse me segurado e apoiado.
– O que há de errado, Ava? – Pergunta preocupado e sinto a sua respiração quente contra o meu rosto, enquanto ele me coloca de pé.
Possuo motivos o suficiente para pensar no seguinte. Minha irmã deve ter despertado antes de mim e saído ou algo lhe aconteceu para que ela aterrissasse em outro lugar. Sendo assim, ela aterrissou onde eu deveria ter aparecido e tive de aparecer no jardim de Seth. A Ava mais velha a encontrou e reconheceu imediatamente como uma versão mais nova de sua irmã, capturando-a. Depois de conecta-la ao alojamento, vasculhou seus pensamentos e descobriu a meu respeito e bem provável, a respeito da missão. Dessa forma ela sabia que eu vinha e obviamente, reconheceu-me como uma versão mais nova dela mesma também. Ela sabe que eu vim para matá-la. Ela sabe de tudo.
Isso me parece ainda mais absurdo do que toda essa viagem no tempo, ainda assim é a única hipótese que sou obrigada a aceitar agora. O que eu faço? Como devo lidar com essa complicação? Minha respiração se acelera e agarro minha calça numa tentativa frustrada de manter minhas mãos trêmulas, calmas. Fecho os olhos e respiro fundo. Irei dançar conforme a música.
– Eu... eu posso ter uma conversa com a minha irmã?
Amit acena de leve com a cabeça, abre um sorriso encorajador e em seguida deixa o recinto, abalado. Ava idosa segue o seu filho, não sem antes presentear-me com um de seus lindos e irônicos sorrisos. Reviro os olhos para tal atitude. Essa mulher realmente tem 50 anos? Seth me encara com certa desconfiança, porém por fim deixa a sala, fechando a porta atrás de si.
A escuridão se mescla à luz azul e isso é tudo que me envolve. Vagarosamente, desprendo a minha irmã daquele assento e a puxo para os meus braços, apertando-a. Lágrimas involuntárias descem pelo meu rosto, enquanto à pressiono contra mim, extravasando tristeza e temor. Libertando toda a angústia.
Sinto um movimento e olho para o rosto dela. Seus olhos se abrem devagar, revelando vívidos olhos azuis que me fitam desorientados. Abro um sorriso em resultado ao alívio que se manifesta. Apesar de toda a bagunça que está ocorrendo, sinto-me feliz em ver que ela está bem. Em seguida a tristeza pesa uma tonelada em contraste. Lágrimas começam a transbordar de meus olhos e a aperto ainda mais forte. Por que estou desse jeito? O que há de errado comigo?
– Ava? – A dúvida na expressão de Makayla logo dá lugar ao entendimento – Ava! – seus braços também me envolvem num abraço firme.
– Por que, sua idiota? Por que você teve de me seguir? Você faz alguma ideia do que está acontecendo? – Esbravejo, encarando-a e me afastando. A luz cega momentaneamente meus olhos.
– Eu... eu só... – seus olhos assumem uma forma marejada e então ela me encara intensamente – Eu não sei! Eu só... aquele velho disse que você ia morrer! Você não pode morrer! Eu não quero isso! Eu não sei onde estamos... – furtivamente, seu olhar se locomove pelo ambiente abafado – E nem o que está acontecendo, mas... eu só queria te impedir.
E é enquanto observo Mak chorar em meus braços que me sinto horrível. Preciso ser honesta com ela, mesmo que Makayla não entenda.
Passo a mão sobre seus cabelos delicados e faço com que ela olhe para mim. Tento abrir um sorriso tranquilizador por entre a preocupação e suspiro.
– Está tudo bem, Mak – desamparada, Makayla observa-me atenta – Acho que preciso lhe explicar algo importante. – Respiro fundo e fecho os olhos. Sou mesmo capaz de admitir para mim mesma o que eu preciso fazer? Até agora eu já pensei na minha missão, porém sou capaz de confessar o futuro que me aguarda? Engulo em seco. As palavras pesam uma tonelada em minha garganta e respiro outra vez, para amolece-las. – Eu compreendo que você não queira me ver morrer..., mas eu... e-eu preciso fazer isso. Se eu não morrer muitas pessoas vão se machucar. Você, a mamãe e o papai também. Não posso deixar isso acontecer, entende?
O medo passa como uma sombra pelos seus olhos e prossigo a tortuosa explicação, que tento fornecer.
– Aquele homem me disse isso. Ele explicou que eu estou muito doente e que... se eu ficar viva vou deixar todos muito doentes. Eu não quero isso.
– M-mas onde es... – começa ela em uma voz trêmula, porém a interrompo com a dura verdade.
– Eu não estou doente no tempo onde estamos. Por isso aquele homem me ajudou a viajar para esse tempo, onde estou mais velha. Eu preciso ir em muitos tempos e... matar cada uma das Ava,s do futuro. Se eu não fizer isso todos vão se machucar. Todos vão... – minha voz morre e me forço a não chorar.
– Mas você não pode morrer – Mak começa a choramingar – Eu não entendo isso. Você quer dizer que viajou no tempo?
– Eu sei que isso é loucura, mas é verdade. Eu preciso fazer isso para todos ficarem bem. – Completo com pesar.
Makayla balança a cabeça em sinal de negação.
– Mesmo se você tiver batido a sua cabeça e estiver falando isso porque está delirando... Você ter que morrer para ninguém se machucar... – Mak fecha sua mão em um punho, cerrando os dentes em visível descontentamento. Com a determinação mais afiada que uma menina de 10 anos pode acumular, ela firma o olhar em mim – Isso não é justo!
Me choco com a sua afirmação, porém em seguida abro um sorriso. Isso é o máximo que posso conseguir. E essa constatação me basta. Outra vez abraço ela.
– Eu sei, Mak. – decido quebrar a tensão assustadora que se infiltrou na situação – Isso tudo talvez seja mais normal do que as misturas que você costumava fazer de manhã.
Satisfação me preenche quando consigo arrancar uma risada dela. Sua expressão se ilumina num sorriso. Formando um sinal de positivo com sua mão, ela a estende em minha direção com renovada animação.
– Eu ainda não sei o que pensar sobre tudo isso... mas o que você me contou bate com o que eu vi... naquilo – com a outra mão ela aponta na direção do alojamento ao qual ela estava conectada – Pensei que fosse um sonho. Ainda acho que seja um sonho. Porém se você está nessa missão idiota eu vou te ajudar a encontrar outra solução!
Decidida, Makayla se solta dos meus braços e levanta. Ergo as duas sobrancelhas.
– Outra solução?
– É. Sabe aqueles livros em que as heroínas enfrentam um problema e precisam lutar para encontrar uma solução menos dolorosa? – Diz e reviro os olhos.
– Sinceramente...
– Calada! O sonho é meu! – Revida Makayla com certa irritação.
Outra curiosidade se arrasta em direção à luz e me ergo também.
– Afinal, o que você viu naquilo? – Aponto para o alojamento com um olhar sugestivo.
Makayla para por um instante, pensando sobre isso. Em seguida, seu rosto se contorce numa expressão confusa e desnorteada.
– Eu não sei ao certo. Lembro bem do que eu vi, ainda assim... Quando penso a respeito parece uma memória que não consigo alcançar ao todo. Como um pensamento distante. – A sua fala se encerra.
– Bem filosófica você, hein... – Comento exalando ironia.
Irritada, Mak me encara outra vez de punhos cerrados.
– Você tem sorte por ter uma irmã tão compreensiva, Ava. Já você é um caso perdido. – Ela cruza os braços e suspira em reconhecimento.
– Ei, olha só quem... – Minha frase é interrompida quando a porta se abre abruptamente.
Seth adentra o local de maneira firme e troca o olhar ente mim e minha irmã, parando em mim.
– Eu quero que você me explique tudo que acabei de ouvir!
Arregalo os olhos e recebo suas palavras como um soco no estômago.
– Mas o que...
– Não minta para mim... – seus olhos endurecidos se focalizam nos meus – Ava Mees.
Um arrepio percorre a minha espinha e sinto o suor acumular-se nas palmas da minha mão.
– O-o que você ouviu? – Indago com receio e verificando a reação de Makayla em meu campo de visão. Ela parece não estar entendendo nada.
Seth baixa o olhar para o piso mal iluminado e suspira.
– Eu não queria ter escutado a sua conversa com sua irmã, mas... – seus olhos castanhos se voltam contra mim – Eu já desconfiava que algo estava errado. Todos esses pedaços do quebra-cabeça foram surgindo e eu não soube como encaixa-los. Para começar você não se lembrava de nada. Pensei que fosse amnésia, porém se fosse isso, teria se curado quando você ingeriu aquele comprimido – frustrado, Seth desvia o olhar outra vez e estremeço – Teve aquele fato de você mentir sobre seu nome e de ter vindo num carro esquisito numa propriedade privada, sem se desintegrar. Algo parecia bem estranho em você desde que te vi pela primeira vez.
– Seth eu...
– Não – novamente ele me encara, um tanto enraivecido – Você vai me escutar. A sua reação ao ver Amit não despertou o meu alerta, mas sim o fato do que me fez simpatizar com você de primeira. Quando olhei para você... eu via ele. Aqui eu percebi o modo frio como a senhora Mees recepcionou você. O ódio em seus olhos, antes tão amigáveis. Reconheci você nas fotos espalhadas pelo corredor e me assustei ao ser informado de que aquela era a senhora Mees em sua juventude. Essa coisa toda com a sua irmã... a curiosidade em explorar tudo do que você supostamente se esqueceu... Tinha algo de errado em você e quanto mais eu pensava nisso, mais sentido fazia – Seth dá um passo à frente – E agora eu escuto você falar em viagem no tempo?! Meu impulso pretendia adentrar essa sala assim que você enunciou isso, mas eu precisava pensar antes de lhe estender falsas especulações. – ele se aproxima ainda mais e agarra o meu pulso, forçando-me a encara-lo – Você... é a Senhora Mees, não é? Sei que devo estar enlouquecendo, entendo que não faz sentido lógico, porém... Você...?
Engulo em seco. Obter a verdade esparramada de tal forma na minha frente, dói mais do que o esperado. Respiro fundo. O que devo fazer? Acusa-lo como louco ou revelar a verdade? Confessar minhas necessidades sujas para mais alguém? Dou uma rápida olhada na direção de Makayla e em seguida fito-o. Se ele quer tanto saber a verdade, que saiba.
Afirmo com a cabeça.
– Sim. Eu sou Ava Mees. Mãe do Amit... — fecho os olhos e comprimo os punhos – E vim do passado.
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