Deixe-me ir
2 2020 - Parte 1
Notas iniciais
Não consigo me encontrar em meio aos devaneios que me engolem por inteiro. Estou perdida nas partículas da inexistência temporária e não faço ideia do que está ocorrendo ou de como é possível. Meu interior recusa-se a acreditar na visão que se estende além dos limites do tempo. Além das extensões, que pensei que conhecia.
Afinal, aquele velho maluco não estava blefando.
Mas é impossível.
Estou caindo em direção ao meu futuro.
Ao futuro que tenho que destruir.
~
O silêncio vazio que havia me corrompido se desfaz, e os ruídos de certa forma desconhecidos, invadem-me. Por um momento ouço o grito da minha querida irmã. Makayla. Não posso acreditar que ela foi comigo. O que passou pela cabeça dela? Será que não foi possível para ela notar o tamanho da estupidez desse ato?
Então o impacto anuncia a colisão com o solo. Num piscar de olhos minha cabeça é lançada para frente com toda a força e depois a escuridão me visita.
Como eu queria ter tido conhecimento de que aquela escuridão seria o único momento de paz que eu teria a partir de agora.
Sinto algo diferente e aos poucos abro os olhos, dolorida. O latejar na minha cabeça apenas se intensifica com esse gesto. O que aconteceu? Cubro a testa com uma das mãos e respiro fundo para me manter no controle e lembrar o que me trouxe até aqui.
Arregalo os olhos, perplexa com a memória, encontrando-me em estado de choque. Eu viajei ao futuro. Eu realmente viajei ao futuro! Com o coração acelerado, esqueço por alguns instantes a angústia e esforço-me para destravar aquela porta horripilante. Um gemido escapa por entre meus lábios com a força que exerço sobre a porta e suspiro quando ela finalmente se abre, revelando um mundo estranho aos meus olhos.
E também uma pessoa estranha.
Os olhos castanhos me fitam com intensidade e curiosidade oculta. Os lábios se encontram comprimidos, numa expressão pensativa e as mãos estão cruzadas sobre o peito. A pele escura contrasta com as vestes, que identifico cobrindo seu corpo. Quem é aquele afinal?
Abro minha boca para fazer perguntas, porém o som recusa-se a nascer.
– Quem é você? – indaga aquele garoto, que não aparenta ser mais velho que eu. Se tirarmos o fato de que aqui eu devo ter uns 50 anos.
– A-ava Mees – balbucio, um pouco mais segura em relação ao que dizer.
Imediatamente cubro a boca com as duas mãos. Eu sou muito idiota. Não posso dizer meu nome aqui, ele pode conhecer a outra Ava e então tudo se tornará apenas mais complicado.
– Quer dizer – respiro, renovando o ar em meus pulmões e lanço meus olhos de maneira firme sobre seu rosto – Agna Lees.
– Agna – murmura o rapaz – Mas que tipo de nome é esse?
Sinto uma pequena fagulha de irritação e saio do carro.
– É um nome normal, ué! – revido, cruzando os braços.
Um sorriso imperceptível surge e morre nos lábios dele.
– Onde é que eu estou? – pergunto incerta, analisando pela primeira vez o local ao meu redor.
Uma grama verde, estreitando-se como um campo fresco, se estende por um determinado espaço e uma casa bem elaborada, grande e feita de vidro, jaz sobre a paisagem tranquila. Não consigo ver mais além.
– Está no Projetor de Jardim da minha família.
– Projetor? – confusa ergo as sobrancelhas para encarar o sujeito à minha frente.
Uma risada abafada.
– De que planeta você é? – rebate o estranho.
Arregalo os olhos embasbacada.
– Já colonizamos planetas?
Outra risada.
– Não, Agna. Você é engraçada.
– Em que data estamos? – disparo, cerrando os punhos.
Com a mão esquerda o garoto interrompe um bocejo.
– Creio que 16 de outubro de 2020. Deve ser 8:34 da matina.
A informação adquirida parece criar forma e acertar um soco em meu estômago. Estou em 2020. Boquiaberta ainda procuro raciocinar. Não posso me sentir confusa em relação a nada agora, se realmente possuo alguma anomalia, preciso acabar com tudo isso rápido. Respiro fundo e procuro organizar meus pensamentos e minhas atitudes.
– Você está bem? – indaga o garoto, que permanece um pouco confuso à minha frente – Meu nome é Seth.
Balanço a cabeça, arremessando a tontura para longe e me esforço para abrir um sorriso.
– Ahm... claro. – digo.
Meu sorriso desaparece quando me lembro de um detalhe que arrebenta-me o coração. Makayla. Ela está aqui, em algum lugar. Onde? Preciso encontrá-la. Desespero se infiltra em meus sentidos e preocupação me sufoca. O que farei agora?
– Você não parece muito bem. – percebe Seth erguendo as sobrancelhas.
– Minha irmã – sussurro, cravando os dedos em meu próprio cabelo.
Minha aparência neste exato momento deve estar repugnante.
– Minha irmã sumiu – murmuro novamente e lágrimas ameaçam transbordar.
É muita pressão. Um peso muito grande para eu suportar. Além de me envolver em uma missão dessas ainda precisarei encontrar minha irmã? Não sei qual a mistura que atormenta meu ser, porém se assemelha a raiva, tristeza e frustração.
– Ah – Seth sorri como se eu fosse alguma idiota – Creio que posso ajudar com isso.
Ergo a cabeça e o encaro ardentemente.
– Como?
– Vem comigo. Minha família tem o rastreador mais recente. Deve ser possível encontrá-la.
Suspiro profundamente. Fecho os olhos e sinto a brisa, o peso do latejar. Por fim aceito, o que mais posso fazer nesse lugar esquisito?
Ao lado de Seth, caminho em direção à casa de vidro, que brilha intensamente sob o sol. A luz refletida por ela cega minha vista, espero que não cegue minha esperança. A grama viva sob meus pés tem uma aparência verde demais. Essa paisagem inteira, parece perfeita demais. Há algo de estranho. Muito estranho.
O ruído da brisa me incomoda. Seria este o futuro? Está me parecendo algo muito vago. Não creio que a humanidade imagine um futuro tão monótono. Empurro essas dúvidas para um canto escuro da minha mente e me concentro no que eu preciso fazer. Uma dura tarefa me aguarda. Engulo em seco e prossigo.
De perto a casa de vidro tem uma aparência ainda mais majestosa. O vidro aparenta ser algo parecido com um espelho, já que não consigo ver nada por dentro. A porta enorme e espalhafatosa jaz pacificamente diante de Seth e as janelas estão fechadas. O jardim se estende ao longo do campo verde e florido, que parece ser o único vislumbre do futuro que consigo alcançar.
Posicionando a mão sobre um tipo de sensor, uma luz dourada se ilumina ao lado esquerdo da porta e ela se abre para Seth. Adentro a casa e me espanto com tamanha diferença.
Encontro as paredes imaculadas e os móveis modernos com os quais nunca poderia ter sonhado, em cada canto do corredor estreito. Ladrilhos transparentes emitem um som cada vez que meus sapatos super ultrapassados se chocam contra eles. Pelas janelas é possível ver a paisagem amena do lado de fora e parece não haver cozinha entre os cômodos.
– O que é isso? – pergunto, sem palavras para descrever o ambiente. Nenhuma casa que eu já tivesse visto na minha vida, fora assim.
Seth abre um sorriso.
– Você é bem desligada, sua mãe te prendeu em seu alojamento durante a vida toda?
Encaro-o impaciente.
– Me explica tudo sobre esse mundo. Acho que perdi a memória. – uma mentira muito mal formulada, espero que os futurísticos não tenham adquirido inteligência o suficiente para escapar de mentiras como essa.
– Certo – responde Seth um pouco confuso em relação ao meu pedido – O que você quer saber?
– Que lugar é esse? – disparo, os olhos fixos na parede, que é mais elegante do que meu quarto inteiro.
– Essa é a casa da minha família. Possuímos ela e um projetor de jardim.
– Projetor de jardim? – ergo as sobrancelhas e respiro fundo.
– Sabe, há algum tempo atrás a terra realmente se tornou infértil. Uma parte da natureza morreu, mas a humanidade conseguiu sobreviver. Conseguiu desenvolver maneiras de evoluir e sobreviver em seu próprio mundo. Projetores são uma grande parte dessa evolução. Aquele campo lá fora não é real, aquelas flores perfumadas não passam de uma distorção. – Seth abre um sorriso triste – Sem o projetor e o sensor real refletor, não teríamos acesso a esse tipo de paisagem. Se desligarmos o projetor de jardim, tudo que restará é uma terra infértil e morta.
Boquiaberta não consigo desviar os olhos de Seth e suas palavras. A grama roçando em minha panturrilha parecia tão real. Como isso é possível? Isso é loucura. Ilusão? É disso que sobrevivemos nessa realidade? É a única coisa que podemos nos oferecer de consolo, por ter destruído o mundo de tal maneira?
– Tudo nesse mundo é assim?
– Nem tudo, essa construção não é completamente ilusória. Há realidade em sua composição também. É algo bem complicado. Se quiser você pode experimentar meu alojamento depois e esclarecer suas dúvidas esquisitas. – finaliza ele.
Franzo o cenho e cruzo os braços.
– Experimentar seu alojamento?
– Alojamento é algo como um espaço onde dormimos, compartilhamos pensamentos e aprendemos. Você adentra o espaço carregado de um plasma, que acelera os seus neurônios e então conecta o receptor à sua cabeça – explica Seth, indicando a própria cabeça – O resto não é muito fácil de explicar.
Sinto uma tontura se apossar de mim. Isso só pode ser loucura. Muita. É inacreditável.
– Acho que estou com fome. – digo por fim, tentando repelir a tensão em meu estômago.
Seth busca algo no bolso de sua camiseta estranha e então me estende a mão. Delicadamente na palma dela, se encontra uma pílula verde fluorescente. Ergo os olhos até ele, perdida.
– O que é isso?
Seth arregala os olhos e suspira.
– Se chama comer. Essa pílula é a maneira como você se alimenta – afirma Seth e meu coração acelera com tanta insanidade – Você coloca a pílula na boca, pensa no que você quer comer e engole. Pronto.
Posiciono a mão esquerda sobre a testa e balanço a cabeça, perdendo o fôlego. Isso não pode ser possível.
– Elas são classificadas em três cores de acordo com suas durabilidades. Essas duram mais. Quer tentar? – a mão permanece esticada em minha direção.
Respiro fundo, cerro um punho e com a outra mão pego cautelosamente a pílula diminuta de sua mão. Por um instante prendo a respiração, porém a solto e volto a olhar para Seth.
– E se eu não pensar em nada?
– Então a pílula verificará seu corpo e se encontrar algum mal nele, você se curará instantaneamente.
Arregalo os olhos, mas que magia é essa? Essa afirmativa soa como algo impossível. No entanto, uma dúvida me assombra. Se essa pílula cura tudo, qual o motivo de eu vir aqui?
– Existem doenças?
– Não. Foram aniquiladas há muito tempo.
Volto o olhar para o piso transparente. Era isso que Emmett queria dizer. Minha anomalia, não apenas acabará com a vida, mas sim destruirá toda a perfeição dessa pílula. Nem a substância curadora contida nela, é capaz de evitar o que está por vir. Reprimo os sentimentos e fecho os olhos.
Enfio a pílula na boca e penso num bom pedaço de pizza.
Estou precisando muito disso.
~
Seth me explica mais algumas coisas sobre esse mundo. A forma de governo ainda consiste de maneira similar ao passado que conheço. As tecnologias continuam avançando a cada dia e o mundo evolui da forma que há apenas alguns anos, parecia ser impossível. Existem pílulas responsáveis para a alimentação e erradicação de qualquer alteração na saúde humana. Projetores são a base para essa realidade ilusória e moderna, sem eles, a sociedade se desestabilizaria com tamanha destruição. Veículos apenas se tornaram mais modernos, mas permanecem com a idealização daqueles usados no passado.
É incrível.
Descobri também, que o motivo de não ser capaz de ver além do jardim, é o projetor. Este território é privado, portanto não deve ser acessível para qualquer um. Pessoas que se localizam presos em outras ilusões não têm a visão para esse lugar, a não ser que sejam convidados ou possuam o código do projetor para desativa-lo. Isso me leva a perguntar como consegui adentrar esse espaço.
Qual a relação que tenho com esse local? Pensei que Emmett tivesse preparado as coordenadas para me posicionar o mais perto da “outra eu” possível. Não foi isso que aconteceu. Decido esperar e continuar estudando e escutando histórias sobre a atualidade.
– Quem é a irmã a quem você se referiu? – interrompe Seth em algum momento, quando adentro um amplo espaço que deve ser o local de desinfestação, onde os humanos dessa realidade eliminam os resquícios do dia sobre sua pele.
Meu coração gela e num aperto e perco a fala. Makayla. De tão maravilhada quase esqueci que a minha irmãzinha está perdida em algum lugar desse mundo louco. Minha respiração acelera e uma tensão pegajosa se expande. Preciso encontrá-la, não posso continuar isso sem ela.
Sinto um enjoo quando lembro que o “isso” a qual me refiro, é a missão de matar minhas versões de cada ano designado. Meus olhos ardem a medida que a realidade da situação se infiltra em meu ser. Não posso chorar agora. Preciso ser forte. Preciso lembrar das pessoas que estou tentando livrar. Mas não é fácil. Sacrifícios não são como nos filmes, ser o herói da história não é tão fácil como se acredita ser. Não consigo evitar as lágrimas, que percorrem minha face.
Ser forte é a única coisa que tenho agora. As únicas palavras que posso me oferecer de consolo.
– Há algo de errado, Agna? – Seth interrompe a decomposição do meu coração.
Prendo as lágrimas e balanço a cabeça, respirando profundamente. Assim que expiro, procuro liberar junto, as emoções que me atormentam. Não devo pensar no que vai me acontecer, mas sim nos resultados que isso irá trazer.
– Ela deve estar perdida. É possível sair desse espaço por conta própria? – pergunto.
– Sim – responde e então prossegue a caminhada para fora da sala de desinfestação – Siga-me, irei leva-la até o monitor de rastreamento.
Não processo bem suas palavras, porém sigo-o.
Antes que avancemos mais de dez passos, uma tela esquisita surge em frente à Seth, me inclino sobre seu ombro de olhos arregalados.
Um botão imaginário é acionado por ele e um som baixo entoa pelo recinto.
Permaneço calada, até que ouço passos se aproximando.
– O que houve? – sussurro desconfiada.
– Você vai ver. Há alguém que eu quero que conheça. – responde Seth e sinto-me chateada pelo limite das informações.
Os passos cessam quando uma figura, com vestes tão diferentes e claras quanto as de Seth, aparece no final do corredor em que estamos.
É um garoto.
Cabelo escuro, cobre-lhe a cabeça. Olhos pretos se sobressaltam na palidez de sua pele. O formato de seu rosto me é conhecido. Já vi esse rosto. Não é possível que seja só minha imaginação. Eu já vi essa estrutura.
O garoto abre um sorriso calmo e atravessa o espaço até parar ao lado de Seth. Seth desfere um tapa no ombro dele, que retribui com um olhar divertido. Esse sorriso, esse olhar. Eu o conheço. De onde eu o conheço?
– Essa é Agna Lees – introduz-me Seth e decido revelar meu nome, afinal qual a probabilidade de ele conhecer a Ava? Antes ele olha para mim e sorri. Abro um sorriso e tento me concentrar em como explicar a razão de mentir sobre meu nome.
– Prazer, sou Amit. Amigo desse puxa-saco. – explica o garoto ao lado de Seth – Sempre tentando uma com as garotas, não é?
Seth parece erubescer e seu olhar analisa os ladrilhos abaixo.
– Pare de falar bobeiras, Amit. O que veio fazer aqui? – Corta Seth imediatamente.
– É que eu...
– Meu nome não é Agna – disparo, interrompendo a fala de Amit. Os dois me encaram perplexos – Meu nome é Ava.
Seth ergue as sobrancelhas confuso e Amit abre outro sorriso animado.
Um sorriso um pouco desigual, mas que resplandece todo o entusiasmo de um sonho.
Eu conheço esse sorriso.
– O nome da minha mãe também é Ava. Foi por isso que vim aqui. – diz Amit.
Eu o conheço, porque esse sorriso é meu.
Amit é o meu filho.
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