Deixe-me ir

3 2020 - Parte 2


Notas iniciais
Bem, aqui está a segunda parte *--* Boa Leitura!

O tempo parece calar-se diante do meu espanto. Ignorar-me em meio ao meu pânico. Amit é o meu filho. Eu tenho um filho. Mal posso acreditar, porém as semelhanças que se entalham em sua face apenas confirmam aquilo que temo em saber. Os olhos vívidos me fitam, acompanhados de um sorriso entreaberto.

– Por que mentiu sobre o seu nome? – A pergunta de Seth, o deixa em um tom acusatório e lembro-me da atual situação.

Tentando me libertar do torpor que toma conta do meu corpo, volto meus olhos para uma versão bem confusa de Seth.

– Ahm... ah sei lá... nem te conheço. – balbucio, torcendo para que ele acredite nessas palavras.

Apesar de erguer as sobrancelhas e parecer pouco convencido, no fim ele consente. Volto a olhar para Amit. Meu coração acelera só de pensar nele, só de imaginar que ele também não viverá no mundo que quero tanto salvar. Lembro, que para encontrar a minha versão mais velha, apenas preciso segui-lo.

– Bem, Seth – Amit vira-se para ele – Minha mãe está tendo um pouco de dificuldade com seu alojamento. Você poderia ajudar?

Seth acena positivamente com a cabeça.

– Como vai fazer isso? – interrompo, por mais relutante que eu esteja, preciso agir.

– Eu planejava leva-lo comigo para dar uma olhada nos aparelhos da minha mãe. Parece que você virá conosco, não é? – o palpite certeiro de Amit me surpreende e meu batimento cardíaco acelera só de imaginar na missão que me espera. Na crueldade que terei de desempenhar a mim mesma.

Apenas revido com um consentimento e Seth não contesta. Ele até abre um sorriso animado.

– Apenas avisando, Amit – começa ele me encarando – Você se encontra em frente à pessoa mais desinformada do mundo. Encontrei-a dentro de um carro no meio do jardim. Parece que perdeu a memória concreta de tudo.

Amit volta os olhos alegres em minha direção.

– Então está na hora de se lembrar – Amit agarra Seth pelo braço e faz um gesto convidativo em minha direção – Vamos?

E assim, me aventuro ainda mais no futuro que necessito destruir.

*

É incrível. Assemelha-se a algum colapso de cores e construções, amontoadas sobre um conjunto da revolução do termo modernismo. Mesmo que eu nunca tenha visto aquele tipo de paisagem, nunca tenha vestido aquelas roupas e nunca tenha viajado num veículo acelerado, tudo que eu estou vivenciando me encanta.

Não consigo muito bem entender o funcionamento de um veículo como este. Sei apenas que ele é gravitacional e se eleva sobre o chão à uma altura máxima de 500 metros. O tempo no interior dele parece transcorrer de maneira mais lenta e isso torna a viagem mais rápida. É como acelerar, realizar inúmeros movimentos, proferir centenas de palavras, percorrer distâncias inigualáveis, em menos de um mero segundo terrestre.

No entanto, os mistérios que estão correlacionados ao tempo já são mais do que existentes para mim. Afinal, estou em 2020. Isso é loucura.

– O que você sonha em ser, Amit? – pergunto com a intenção de quebrar o silêncio remanescente.

Em resposta, um outro sorriso entusiasmado se revela.

– Ao contrário do senhor computação ali – Amit aponta para Seth – Eu quero me tornar algo útil para as pessoas. Não apenas essas pessoas, mas sim influenciar todas as gerações que ainda estão por vir. Eu estudo bastante para isso. Componentes químicos para elaborar novas fórmulas, novos métodos de reparação ainda mais duradoras de vida e evitar que no futuro os problemas que nos acometeram no passado se repitam. Essa é a minha missão de vida.

– Hum, sério? Pensei que a sua missão de vida era me perturbar. – protesta Seth e não evito uma risada.

– Eu acho isso algo realmente fantástico da sua parte. – revelo e noto o olhar de Seth pairar sobre mim – Na verdade estou surpresa pela sua definição de futuro. Eu não tenho nada concreto em mente. Para falar a verdade nem sei o que será da minha vida.

Meus olhos ardem condicionados a essa constatação. Eu não terei futuro. E agora, outro peso desaba impiedosamente sobre meu coração. Amit também não. Seu sonho não será nem um sonho, apenas algo que desaparecerá em meio a realidade da inexistência.

– Creio que chegamos. – anuncia Seth, levantando-se do assento acolchoado.

Suspiro e uma sensação de náusea aperta-me o estômago.

Será essa, realmente a coisa certa a fazer?

*

O futuro pode se estruturar como uma completa surpresa. Não evito o arregalar de olhos e a boca aberta, quando tenho o primeiro vislumbre da minha residência. Como encontrar palavras para narrar tanta perfeição? Por fora, é tudo que sempre sonhei. Jardim bem cuidado, apesar de resultar provavelmente de um projetor, além da casa enorme e majestosa que se ergue em frente.

Me apresso para alcançar Seth e Amit, que já estão em frente à porta. O sangue em minhas veias se agita e a pressão que lateja pelo meu corpo, parece ser capaz de me deixar inconsciente à qualquer instante. Mal posso respirar. É agora.

A porta se abre e uma senhora conservada para a idade surge com um sorriso amigável, portando um olhar amoroso. Seu cabelo loiro se encontra cortado até o queixo e seus olhos azuis, são rodeados por pequenas rugas. Uma vestimenta escura ressalta seu corpo e seus olhos acometem calorosos, Amit, que sorri.

A feição definitivamente não se alterou durante os anos.

Essa sou eu.

A minha versão mais velha do futuro. Uma das quais terei de matar.

Notas finais
Até a próxima! :3