Deixe-me ir
1 1985
Notas iniciais
Boa leitura ♥
A luz quente e aconchegante que invade o meu quarto, faz um sorriso brotar em meus lábios. Abro os olhos e sei que um novo dia começou. Ergo-me do conforto da cama e repouso os pés no chão frio do meu quarto, enquanto tento espantar os resquícios de sono que tendem a me fazer voltar a dormir. Levanto e com passos rápidos aproximo-me do guarda-roupa velho que se localiza na parte direita do meu quarto. Corro os olhos pelas roupas que jazem feito uma bagunça no interior do armário, até que então decido como quero sair hoje. Minha mãe com certeza vai surtar se descobrir que ainda não dobrei minhas roupas.
Decido me preocupar com isso depois e deixando todos os enfeites coloridos e os pôsteres dos artistas mais quentes, que decoram meu quarto, para trás, caminho pelo corredor em direção ao banheiro. A porta de madeira se encontra firmemente fechada e com um suspiro reviro os olhos.
- Makayla! – Grito demonstrando minha impaciência – Makayla, sai daí!
Aguardo por um resposta.
- Espera – revida ela com sua voz fina – Eu já estou terminando!
Makayla é minha irmã. Desde que completou 10 anos ela sente que já está bem crescida e tenta assumir responsabilidades que ainda não lhe convém. Isso me irrita, mas o amor profundo que carrego por ela é o suficiente para tolera-la.
Tento deixar a irritação de lado e coloco em minha mente os objetivos de hoje. Preciso me encontrar com a Catryn, para que possamos juntas planejar a festa incrível do meu aniversário de 17 anos, que tende a ser em breve. Em um pequeno espaço da minha mente outro pensamento se solta de maneira quase imperceptível. Cody. Só de pensar nele já sinto como minhas mãos ficam trêmulas e meu coração acelera. Ele tem tudo. A maneira como se esconde das pessoas e acoberta o que sente, me intriga de certa forma e o torna motivo de piada para as outras meninas, não que ele realmente se importe.
O que sinto por ele é de certa forma indescritível e muito improvável. Parece que só tenho azar. Nem devo existir para ele.
A porta se abre com um estrondo, arrancando-me de meus devaneios sem importância. Quando olho para o rosto de Makayla não seguro o riso. Sinto o olhar afiado que a expressão dela lança em minha direção, porém isso deixa tudo apenas ainda mais hilário.
- Eu tentei desenvolver um novo projeto – explica ela, enquanto passa as mãos pelo cabelo e pelo rosto que se encontram cobertos por uma substância branca amarelada – Não deu muito certo.
Com um sorriso me inclino em sua direção. Makayla é alta para a sua idade, então não preciso me inclinar muito, apesar de eu ter uns bons centímetros acima dela.
- Mak, você pode tentar amanhã de novo – dou um beijo em sua testa coberta pela substância – Só não exploda o banheiro.
Com um aceno e um sorriso entusiasmado também refletido em seus olhos, ela corre até o quarto com o objetivo de dar vida ao meu conselho maluco. Balanço a cabeça e adentro o banheiro, fechando a porta atrás de mim.
Deixo a roupa selecionada no chão e então me entrego a água fresca e relaxante. Permito que a água escorra pelo meu corpo, que percorra cada centímetro, que me prepare e deixe claro que hoje será um bom dia. Tem que ser.
Quando termino, me enrolo em uma toalha perfumada e observo o banheiro em busca de algo específico. Analiso os ladrilhos esverdeados e a parede branca com as pequenas estantes. Suspiro e começo a vestir-me, tenho quase certeza que Makayla desperdiçou o produto outra vez. Quando o tecido já se encontra cobrindo o meu corpo, sorrio satisfeita para o reflexo que me encara sorridente através do espelho.
Meu cabelo loiro, apesar de rebelde, está bem mais comportado do que quando despertei. Prometo a mim mesma escova-lo outra vez antes de sair de casa. Os tênis brancos e vermelhos foram um presente da minha avó, deveria usa-los para uma ocasião especial, exatamente como essa. A calça jeans serve perfeitamente e a blusa branca com estampas coloridas, apesar de mostrar parte da minha barriga, me deixa com um autoestima elevado. Não sou perfeita, mas estou consideravelmente bonita.
Saio do banheiro determinada a brilhar hoje. Desço os degraus gastos do corredor até a cozinha onde encontro meus pais sentados à mesa com semblantes serenos. Meu pai aproveita um copo de café enquanto seus olhos voam através das páginas do jornal, minha mãe serve-se das panquecas que enfeitam o centro da mesa e provocam um apetite imenso em mim.
Com o estômago apertado da repentina fome, sento-me em uma das cadeiras e encaro a panqueca com certo desejo. Minha mãe parece notar, pois ela me presenteia com um de seus sorrisos.
- Só deixe um pouco para a Mak, ok? – alerta e concordo, ansiosa para comer – Onde ela está?
Enquanto ataco as panquecas que coloquei sobre o meu prato, penso em como formular as palavras para que minha mãe não surte.
- Ela tentou outro experimento. – explico de boca cheia.
Minha mãe franze a testa e com uma expressão que demonstra o quanto ela não está nada surpresa, mamãe liberta um suspiro bem ruidoso, fazendo meu pai erguer os olhos até ela. Os cabelos loiros da minha mãe se encontram aprisionados em um nó e consigo ver a preocupação nas dobras que se formam ao redor de seus olhos azuis, como os meus.
Meu pai abaixa o jornal e faz menção de se servir com o delicioso café da manhã, porém quando ele me encara com seu cabelo escuro e os olhos da cor de amêndoas, encontro seriedade.
- Aonde você vai, Ava? – indaga de forma objetiva.
Termino de comer e o encaro, processando a pergunta.
- Irei me encontrar com a Catryn – digo, me levantando lentamente – Não vou demorar. Amo vocês.
E antes que eles possam protestar, atravesso com passos apressados a porta de entrada e sou recepcionada pelo sol, que ilumina o céu e a vida das pessoas. Com um sorriso, passo outra vez a mão pelos fios do meu cabelo e então volto a caminhar em direção à lanchonete onde prometi encontrar Catryn.
~
Quando adentro o estabelecimento estremeço. Avisto o cabelo escuro que lhe cai sobre a testa e os olhos frios e escuros. Ele está sentado em uma das mesas, bem perto. Meu batimento cardíaco bate tanto que parece querer correr da mesma maneira que eu pretendo. Decido que meu nervosismo venceu e faço menção de sair do local.
- Ava! – a voz extrovertida que me chama, me causa um calafrio – Ava, senta aqui!
Mentalmente me pergunto por que Catryn não pode ser mais discreta. Corada de uma vergonha da qual não sei a origem, me aventuro pelo interior da lanchonete com cheiro de sanduíche e maionese. Passo a passo, sobre os ladrilhos azuis, me aproximo da mesa onde minha amiga espera por mim. Quando passo perto da mesa de Cody, prendo a respiração.
Alivio e decepção me acorrentam quando finalmente desabo no assento em frente à minha amiga.
- Você é maluca? – indago por entre dentes cerrados.
Apenas recebo sua risada como resposta. Suspiro irritada e o vermelho que colore meu rosto, se esvai aos poucos.
- De nada. – diz Catryn e reprimo a vontade de voar contra ela.
Ao contrário de mim, com minha estatura sem graça, Catryn com seu cabelo volumoso ruivo e o corpo bem formado, seria capaz de atrair o olhar de qualquer garoto se quisesse. Os olhos verdes dela se iluminam em minha direção.
- Sabe, eu estava imaginando como a sua festa será um estouro! – comenta e reviro os olhos.
- Certo, o que você tem em mente, Cat? – digo e vejo como sua expressão se enche de entusiasmo.
- Sabe, poderíamos ter bastante balões e glitter – começa e abro um sorriso enquanto escuto seus planos – E você já pensou na hipótese de fazer uma discoteca? Ia ser um sucesso e na hora de comer poderia explodir glitter dourado pelo lugar! Ou, se você preferir pode ser colorido... – acrescenta ela pensativa.
Enquanto Catryn continua preenchendo meus ouvidos com as opções da minha festa e decide qual será a cor da pista de dança, deixo que o meu olhar caminhe por entre o ambiente gorduroso da lanchonete. Cartazes de promoções e pratos suculentos atraem meu apetite.
- Vou pedir alguma coisa. – anuncio para Catryn e levanto da cadeira, indo em direção ao balcão escuro, onde há alguém pronto para anotar o meu pedido.
Pego um cardápio e encaro os preços. Creio que posso arcar com esses custos. Faço um pedido simples e viro-me para voltar ao meu lugar. É ai que eu noto um par de olhos escuros me encarando, o que faz meu pulso acelerar e não encontro forças para voltar para a cadeira. Volto-me para o balconista e decido aguardar. Cody está me encarando. Engulo em seco e tento livrar-me da tensão que se apossa de mim. O tempo passa e quando finalmente o meu lanche chega. Volto para o meu lugar, escuto os planos cheios de criatividade da Catryn e tento ignorar os olhares de Cody, o garoto pelo qual suspiro.
~
Assim que me despeço de Catryn, caminho pelas ruas que agora se encontram mais movimentadas do que antes, em direção a minha casa. Enquanto sigo o caminho penso sobre o que ocorreu. Por que Cody ficou me encarando? Em meu interior sinto um certo calor que certifica, que uma parte de mim torce para que seja porque ele sente algo por mim. Balanço a cabeça, arremessando tais pensamentos para fora da minha mente e continuo a caminhada em silêncio.
Viro uma esquina e então um homem de vestes esquisitas e cabelo branco pairando sobre a cabeça, bloqueia o meu caminho. Cerro os olhos para examinar o homem, apesar da luz do sol que penetra em meus olhos. Nem conheço esse cara. O que ele pensa estar fazendo?
- Com licença – digo, reprimindo a vontade de ser menos educada – Posso ajudar em algo?
O homem parece incrédulo ao me analisar e franzo a testa em desconfiança.
- Ava Mees? – indaga a voz do senhor estranho.
Aceno de leve com a cabeça.
Uma onda de alívio parece manifestar-se no homem. Seus membros que pareciam tensos, relaxam um pouco e sua expressão assustada se suaviza.
- Oh, nossa. Você não faz ideia de como procurei você – diz de maneira suave – Não acredito que consegui acha-la!
A confusão se distorce em meu interior e balanço a cabeça, soltando uma risada debochada.
- Sinto muito, mas creio que o senhor está se dirigindo à pessoa errada.
- Não. – a voz firme dele me faz estremecer e uma expressão séria nasce em seu rosto – Meu nome é Emmett Brown. E há algumas coisas sobre o seu futuro que você precisa saber.
Abro um sorriso inseguro.
- Isso é uma piada?
Emmett agarra meu pulso de maneira forte e me arrasta para as sombras de uma casa. Grito em protesto e me solto, analisando meu braço agora avermelhado. Quem ele pensa que é para fazer isso? Nem o conheço. Com raiva encaro ele, porém para a minha surpresa tudo o que parece esvair de seus olhos é preocupação.
Dou alguns passos para trás, sentindo o medo infiltrar-se em meu sistema. Antes que eu possa correr, Emmett novamente agarra o meu braço e me puxa para perto. Tento me soltar a força, agora com o desespero querendo engolir-me.
- Me solta – grito determinada e enraivecida – Me solta ou eu vou gritar!
- Ava – argumenta ele, novamente em um tom suave com o intuito de parecer tranquilizante – Você precisa me escutar.
Continuo a me debater e então ele me sacode com tal força que quase desabo em direção ao chão. Amedrontada o encaro, minha respiração ecoando pelas sombras.
- Se você não me escutar, todos nós vamos morrer.
Medo me cerca completamente.
- Você é louco! – berro.
- Só me dê uma chance.
Respiro fundo e por fim desisto de tentar me soltar a força. Quem sabe se eu parar de protestar e ouvir o que aquele senhor maluco tem a falar, ele me deixe em paz?
- Siga-me. – diz e receosa, fico parada. Não irei seguir um estranho.
Depois de um suspiro ele se vira para mim.
- Eu consegui um feito histórico, Ava. Você pode não acreditar agora, mas consegui criar uma maneira de viajar no tempo. – Emmett arremessa as palavras com bastante intensidade em meu rosto.
- Você está delirando. – murmuro assustada.
- Eu fui ao futuro, Ava – continua ele, ignorando minhas palavras – E eu vi você.
Balanço a cabeça e dou um passo para trás.
- Você está mentindo. É impossível viajar no tempo. – revido, na intenção de me afastar.
- Me dê uma chance de provar! – pede o homem de cabeleira branca.
Balanço a cabeça.
- Ava, escute. Você precisa entender. O futuro está perdido, perdido por causa de você. Se você não parar de se comportar como uma alienada que apenas acredita naquilo que lhe foi dito, todos irão morrer. Sua família. Seus amigos. Todas as pessoas ao redor do mundo. Mortas. – acusa Emmett e arregalo os olhos.
- Por que está me contando essas coisas? Por quê? – sinto meus olhos arderem em resposta a todo esse delírio.
- Você vai ser enterrada com rosas – afirma o homem louco, do nada – Acho que você disse isso a Makayla. Que queria ser enterrada assim. Eu vi o futuro. Você vai.
Desespero e horror roubam o ar de meus pulmões.
- Como você sabe o nome da minha irmã? Que tipo de maníaco é você?
- Você sabe que é impossível – fala Emmett de maneira compreensiva – Mas você também sabe que é verdade.
Cubro o meu rosto com ambas mãos e deixo que o desespero me devore.
- Ava, eu sinto muito – sua voz revida, pressionando um bilhete em minhas mãos – Quando estiver pronta, siga o endereço.
Ainda que eu não acredite naquele velho maluco, a curiosidade me aperta e decido que quero ouvir tudo que ele tem a contar.
- Me conte. – sinto minha voz trêmula. Que loucura.
- Você pode não acreditar, mas eu vi o seu futuro. Você parece viver bem por algum tempo, mas há algo em você. – ele aponta para o local onde se localiza meu coração – Você nasceu com alguma anomalia. Na verdade ela nunca apresentou nenhum risco para você, mas eu vi. Você precisa morrer.
Com um riso debochado, me afasto do homem e de suas loucuras. Corro para longe, corro para casa. Tento desvencilhar-me das palavras terríveis que me perseguem. Isso não é verdade. Isso é loucura.
E é exatamente nisso que penso quando fecho meus olhos para dormir.
~
Pesadelos atormentam meu sono, enevoam a minha mente com vestígios de brutalidade e desesperança. Sinto os gritos daqueles que amo, o sofrimento que recai sobre todos os humanos e a pressão que me devora por dentro. Tudo está um caos e tudo que eu consigo fazer é correr para o nada, enfraquecendo a cada passo, morrendo ao lado de todos os outros. Tudo que ouço é de como aquilo é minha culpa. Eu poderia ter evitado tudo isso. Assim que desabo no chão, a última coisa que vejo é uma menina de 10 anos debruçada sobre livros.
Com um grito recheado de pavor e o coração martelando, me liberto do pesadelo. Através da janela sei que está prestes a amanhecer e agarro a testa lançando meus olhos sobre a cômoda ao lado da cama. O bilhete do velho maluco, apesar de amassado, jaz pacificamente sobre o móvel de madeira. Me lanço contra a cama, encarando o teto.
Isso nunca mais vai me deixar em paz. As palavras daquele absurdo ecoam não apenas em meu sono, mas também em meus pensamentos diários. Não consigo parar de pensar a respeito. Cravo os dedos em meus cabelos embaraçados e sento-me. Tudo que me preenche desde aquela maldita conversa é a imagem de uma menina lendo livros sobre os mistérios do tempo, sobre as curiosidades que poderiam tornar possível viajar nele. Ela lia com tanta compaixão, amava cada palavra e a aprisionava dentro dela.
Essa menina era eu.
Não posso deixar de pensar na possibilidade que me aflige. Eu aceito o delírio, mas sinto que de certa forma, aquilo não é apenas loucura. E isso me causa medo.
~
- Amo vocês. – digo, abraçando meus pais, que me encaram um pouco surpresos – Já tomei café, então...
- Filha, para onde você vai? – insiste minha mãe com preocupação.
- Visitar uma amiga. – respondo de maneira rápida, evocando um aperto de culpa no peito pela mentira.
- Volte logo. – alerta o meu pai, dando-me um beijo na testa e voltando a mergulhar nos jornais.
- Posso ir com você? – a voz duvidosa de Makayla entra em meus ouvidos e respiro fundo antes de lhe responder.
- Não.
Com essa deixa, saio pela porta com o olhar fixo no pequeno bilhete entre meus dedos. Suspiro. Não acredito que estou realmente dando ouvidos à isso. Eu só posso estar delirando.
Enquanto caminho pelas calçadas tento raciocinar, tento convencer-me de que isso é errado. Porém, apenas persisto. De vez em quando tenho a sensação de que ouço passos, mas denomino-os como ruídos do vento ou um fruto da minha imaginação. Continuo a caminhar até que chego em um estacionamento abandonado, com vestígios de plantas crescendo entre as brechas no chão. Franzo a testa, olhando em volta sem entender e frustrada arremesso o papel ao chão, revirando os olhos.
Noto uma espécie de caminhão de metal, pequeno. Ele está estacionado sozinho, iluminado pelo brilho do sol que se reflete para todo o lado. Aproximo-me do veículo entre o receio e a desconfiança. Será que aquele lunático está aqui ou era uma pegadinha? Penso em voltar para casa e enfiar em minha cabeça que isso não passa de bobagem, mas então a parte do fundo do caminhão se abre e sofre um impacto ruidoso com o chão. Através da abertura a fumaça se desloca e embasbacada observo uma espécie de carro surgir de dentro.
Se não me engano é um DeLorean, porém está versão aparenta ser diferente. Acessórios estranhos se encontram fundidos ao carro na parte de trás e certas anomalias diferenciam as laterais do veículo cinza. Assusto-me quando uma das portas se abre para cima, revelando aquele maluco, envolto em fumaça.
Arregalo os olhos e quando ele me avista um sorriso invade-lhe a face.
- Eu sabia que você viria – afirma, saindo do carro esquisito – Literalmente, eu vi no futuro.
Balanço a cabeça e fecho os olhos, cerrando os punhos enquanto respiro fundo para não ir embora. Encaro Emmett e aguardo. Quando ele não me diz nada resolvo apressa-lo.
- Escuta – começo tentando controlar a minha voz e o nervoso que se arrasta sob ela – Eu vim apenas para escutar o que você tem a dizer. Isso não está me deixando em paz.
Um aceno de cabeça dele me deixa quieta.
- O que irei te contar é injusto, provoca medo e é algo trágico – começa e prendo a respiração – Digamos que no futuro, em um dia qualquer, a humanidade será exposta a um novo tipo de vírus incontrolável. Vírus ao qual as pessoas nunca sobreviverão tempo o bastante para estudar os efeitos ou a causa daquilo. Apenas é uma coisa horrível e devastadora, nunca vista antes. Ela mata com uma intensidade veloz e em menos de uma semana, não restará um humano para contar história.
Minha respiração soa ruidosamente e meu silêncio apela para ser quebrado pelas suas palavras assustadoras, que tendem a me perfurar por dentro.
- DMDI-201 – prossegue ele e agarro o meu peito que bate descontrolado – O nosso fim. Brutal e imediato. Se multiplica pelo ar.
- Por que está me contando isso? – interrompo num leve sussurrar. Isso não pode ser verdade. É insano.
- Porque, Ava – os olhos de Emmett fixam-se em mim – Você será a primeira infectada. Você será a primeira, em todo o mundo, a desenvolver a doença. Algo em você funcionou como uma porta aberta para o desenvolvimento do vírus e assim que estiver infectada, todo o mundo aguardará pelo fim inevitável de toda a nossa existência.
Arregalo os olhos com o choque invadindo cada parte de mim. Nego com a cabeça e me afasto.
- Isso não é verdade.
- Eu queria que não fosse – revida Emmett com seriedade – Mas é verdade. E a única maneira de evitar que a doença extingue a humanidade é eliminar a porta que abrigou o vírus.
Uma risada de desdém me escapa e irritação crava uma profundidade significativa em mim.
- Você quer dizer me eliminar? Só pode estar brincando!
- Se você não quiser que cada vida humana sofra em dor e angústia precisará fazer isso. Pergunte a si mesma, se houvesse qualquer maneira de evitar que as pessoas ao seu redor e a sua família percam a vida dessa forma, você estaria disposta a assumir as consequências? – uma suavidade cobre a feição de Emmett, que me encara com seus cabelos brancos – Essa é a questão, você morreria pela humanidade?
Não sei quando as forças se esvaem do meu corpo e meus joelhos cedem ao chão. Apenas sinto a terra sob as palmas das minhas mãos e a respiração desesperada que se liberta de meus pulmões. Isso não é verdade. Isso é tudo mentira. Eu não posso morrer. Eu não vou, ninguém vai.
Lágrimas escorrem pelo meu rosto e quando noto o fluxo de emoções que extravasam de mim, ouço berros e sons de pânico atravessando minha boca. Não. Não.
Desespero finca-se ao meu coração, provocando uma dor muda, que não me larga.
Não quero morrer, quero viver. Não posso imaginar o meu fim para que o mundo continue a existir. Eu não quero. Não mereço esse tipo de peso. O medo embrulha o meu estômago e as lágrimas ainda refrescam minha face.
Depois de algum tempo entregue aos meus próprios devaneios, Emmett volta a falar.
- Eu não quero pressiona-la, mas... dependemos disso.
Ergo meu olhar até ele e balanço levemente a cabeça. Está realmente acontecendo. Realmente acontecendo comigo.
- O que eu preciso fazer? – minha voz está pesada após aguentar tantos lamentos emocionais.
- Eu sei que é algo difícil de acreditar, é duro enfrentar algo assim e ainda mais na sua idade – as palavras que tendem a me tranquilizar fazem o oposto – Mas está acontecendo, ou melhor vai acontecer. Se quer que todos sobrevivam à isso vai precisar ser forte. Vai precisar aceitar. Antes que eu revele o que pode evitar o fim de todos, preciso que responda a uma pergunta.
Com o olhar distante aceno com a cabeça. O coração pesando uma tonelada em meu peito.
- Você está disposta à isso? – a suavidade em sua voz rouca e esquisita, me faz acreditar em suas palavras, resgata confiança – Você aceita morrer para que todos possam viver? Aceita salvar o mundo como o conhecemos, apesar de saber que não estará aqui para prestigia-lo?
O silêncio crava-se em meu peito como uma flecha, rasgando tudo que antes considerei parte de mim. Eu não acreditei nisso por um segundo. Que fosse real ou realmente acontecer. Mas é. Demasiado desespero tende a me fazer despencar, porém preciso escutar o que eu consigo notar. Preciso parar de negar o inegável. É a verdade. Eu preciso fazer isso.
Penso nas crianças que nascem a cada dia. Nos idosos que envelhecem em sabedoria. Nos jovens despreocupados com o destino. Nos adolescentes, assim como eu, mas que não carregam tal fardo.
Preciso desistir de mim mesma para que todos fiquem bem.
E irei fazer isso.
- Sim, mas – encaro determinada o velho à minha frente, enquanto cerro meus punhos – Por que eu?
Por um segundo Emmett aparenta confuso, depois apenas me lança um olhar duro e compreensivo.
- Sinto muito, mas não tenho a resposta para essa pergunta. Você terá de descobrir por si mesma. – Com um gesto em direção ao veículo estranho percebo que esta é a minha deixa. Preciso ir agora. Balanço a cabeça, tentando deixar claro o quanto isso é loucura.
Lágrimas invadem meus olhos e relaxo minhas mãos tensionadas.
- O que preciso fazer?
- Eu não sei muito bem em que época o vírus se manifesta. Na verdade sei, mas ainda se você conseguir eliminar a sua versão que estiver infectada, há muitas outras épocas em que você correrá risco de espalhar o fim iminente. Se matar uma, quem garante que a outra não revelará a doença? – Um arrepio percorre o meu corpo. Ele está falando de suicídio. Meu suicídio. – Ava, você precisará viajar para os determinados anos, para que possa matar cada versão sua.
- Então preciso seguir alguma lista assustadora de épocas do futuro, encontrar as Ava,s mais velhas e mata-las? – A fraqueza em minha voz é palpável.
- Receio que sim.
Com uma mão posicionada sobre a testa, tento diminuir o latejar ritmado de meu crânio. Respiro fundo.
- E meus pais? Minha irmã?
- Eles ficarão bem – Emmett compreende o que estou querendo saber, completando com um olhar de compaixão – Quando terminar sua missão, poderá voltar e passar seus últimos instantes com sua família.
Aceno e lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Quentes e grudentas. A sensação que as lágrimas deveriam propor deveria ser alívio, pois essa é a função, aliviar nossa tensão interior. Porém chorar não está ajudando. Talvez meu fardo seja grande demais para requerer alívio. Não há como amenizar uma situação que precisa ser encarada.
Então faço uma pergunta, para a qual internamente já sei a resposta dolorosa.
- E se eu não for?
O olhar dele endurece.
- Você viverá anos felizes, esquecerá sobre isso, mas assim que a hora chegar, morrerá. Depois a sua família e então, todo o resto de vida no mundo inteiro. Tudo irá se extinguir. De qualquer forma não estarei aqui para ver a doença em ação.
As palavras desabam sobre a minha cabeça e lágrimas ainda lutam por liberdade. Baixo o olhar e respiro fundo. Irei fazer isso. Preciso fazer isso.
- O carro está programado para os anos em que precisa ir, mas tem algumas anotações caso algo dê errado – Emmett se aproxima do DeLouren – E ele se ativa a uma determinada velocidade. Tem um controle no banco do motorista que você irá utilizar.
- Quando eu voltar eu vou... morrer? – Ainda que eu saiba a resposta desde o início, minha garganta se aperta em protesto.
- Infelizmente, esse é o objetivo, Ava – diz tentando me acalmar – É claro que existem bastante dúvidas, seria bem simples matá-la aqui e agora não é? Porém o futuro é algo incerto. A qualquer momento pode escapar por entre nossos dedos e então será tarde. Precisamos agir de acordo com a única certeza que podemos resgatar entre tantas indagações. Eu sinto muito.
Aceno com a cabeça e por um segundo, penso escutar passos leves. Igualmente aos que escutei quando eu estava vindo até aqui. Enfio em meus pensamentos que é paranoia, porém o choque que corrompe minhas células, quando o som produzido pelas cordas vocais de alguém que conheço entra em meus ouvidos, parece me destruir.
- Não, Ava, você não pode morrer!
A voz fina que preenche o espaço me faz estremecer e com violência me viro em direção ao carro estacionado. Os cabelos loiros que lhe escorrem pelas costas e os olhos fixos e amedrontados partem-me ao meio, enquanto o desespero se agarra de todas as maneiras quando vejo o brilho metálico de algo em suas diminutas mãos.
Makayla. Minha irmã, está dentro do carro esquisito com o controle capaz de aciona-lo.
- Makayla! – grito, irritada com o velho maluco por ter deixado a porta do carro aberta e com ela por ter me seguido – O que está fazendo ai? Se afaste agora!
- Eu te segui – confessa tentando soar firme – Não vou deixar você morrer.
Balanço a cabeça em pânico.
- Mak, por favor – tento persuadi-la a sair daquela coisa – Você precisa voltar para a mamãe e o papai. Devem estar preocupados.
- Sua irmã tem razão. – Lanço um olhar furioso para Emmett.
- Eu não vou deixar você ir. – O murmuro de Makayla soa tão baixo que me custa escutar ao certo o que diz.
As luzes iluminam de maneira irreal o veículo esquisito e arregalo os olhos com a perspectiva do que poderá ocorrer a seguir. Sinto que o carro irá se locomover e não tenho escolha. Assim que ouço a relutância dos pneus, ignoro os gritos do velho atrás de mim e corro com toda a velocidade em direção ao carro, o desespero puro sendo meu combustível.
Agarro a porta com toda a força, porém sou arrastada pelo chão, enquanto tento entrar no carro e tirar minha irmãzinha dessa enrascada. Fecho os olhos e cerro os dentes, esmurrando com toda força o que me impede. O carro acelera e sinto que meus joelhos se arrastam de encontro ao chão, arrancando meus gritos. Não sei o que acontece, mas a porta esquisita se abre. Arrasto-me para dentro mergulhada em gemidos e o carro acelera de tal maneira que explode de brilho do lado de fora. A única coisa que vi foi o vermelho de meu sangue no asfalto, antes de desmaiar no banco e desaparecer entre as conexões do tempo.
Reservada para um futuro detestável, com a missão para morrer.
Morrer para que todos sobrevivam.
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