Defying Gravity
2 Like a Prayer of Ciel
Notas iniciais
Life is a mystery, everyone must stand alone
A vida é um mistério, todos devem permanecer sozinhos
I hear you call my name
Eu escuto você chamar meu nome
And it feels like home
E me sinto em casa
(Like a Prayer – Madonna)
Ciel Phantomhive
Os fatos só me foram esclarecidos quando acordei, em minha cama, dias depois de sermos resgatados e tenho certeza que não representam 70% do que aconteceu logo não me satisfizeram.
Fomos resgatados poucos minutos depois de meu desmaio, a família de Elizabeth já estava no navio de carga e me amparou durante a viagem, não sei o que houve com Sebastian, mas penso que também deve ter sido cuidado, levando em consideração seu estado naquele momento. Parece que dormi por algum tempo, estava fraco e corria risco de vida, não que isso seja surpresa afinal minha saúde nunca foi meu maior orgulho.
Meus empregados me receberam “com alegria”, segundo Lizzy, ainda que ache que “estardalhaço” seja mais próximo da realidade, e também de acordo ao que me foi dito, Sebastian se certificou que eu melhorasse, sendo incansável. Bem, como ele nunca descansa, acredito que sempre tenha sido assim, não? Mas para que outros descrevessem sua atitude assim, me pergunto o que terá ele feito?
Acordei tem algumas horas, porém meus pensamentos não me permitiram sair da cama, na verdade meu corpo também atrapalha bastante, dói.
Duas batidas na porta me arrancam do meu estupor.
— Jovem Mestre? Já acordado? – Ah, era Sebastian, sempre ele.
O mordomo entrou, fechando a porta. Trazia uma pequena bandeja, o costumeiro café da manha. Apoio-a na mesinha, metodicamente, e eu me escondi embaixo dos cobertores, esperando que ele arreganhasse as malditas cortinas, como sempre, por isso sua mão me assustou tanto quando entrou debaixo da coberta e me segurou a nuca. Eu estava atônito enquanto ele erguia meu tronco, mas não fiquei assim muito tempo. Livrei-me da mão dele com um tapa. Minhas bochechas comichavam.
— O que pensa estar fazendo Sebastian? – Rosnei.
—Apenas colocando-o de forma que possa comer sem se sujar. – O cobertor tinha escorregado e meu rosto estava de fora, ele de repente me encarou com mais atenção. — Algum problema? – Lá estava aquela cara cínica, aquele sorriso torto... odiável.
— Não, acho que não. – Virei a cara. Porque minhas manhãs tinham que começar assim?
Sebastian arrumou travesseiros em minhas costas, já que eu não conseguia ficar com o tronco em pé sozinho, doía demais, e quando eu já estava estranhando o fato dele não ter aberto as cortinas o cretino simplesmente sentou-se a meus pés.
— Sebastian... – O som saiu rasgando por entre meus lábios, cortante. O que aquele infeliz pretendia agora?
— Estamos ligeiramente desconfiados essa manhã não? – Seu sorriso cínico aumentou, era sua diversão principal, me irritar, eu tinha certeza. Estendeu a mão e alcançou o prato sobre a mesinha – Vou apenas lhe alimentar Jovem Mestre. Hoje temos mingau de baunilha com favas de mel para o café. Agora vamos, abra a boca.
A minha cara devia estar estampando meu choque, pois a mão de Sebastian parou a meio caminho da minha boca. O infeliz realmente pretendia me dar comida “na boca”? O que ele pensava que eu era? Um bebê ou um aleijado?
— Eu já lhe disse outras vezes para não fazer coisas desnecessárias. Dê-me aqui o prato! – O maldito demônio quase riu da minha cara! O ódio esquentou minhas veias.
— Jovem Mestre, me desculpe, mas não acho seguro que o senhor coma sozinho, ainda não está totalmente...
Enfim, não ia continuar ouvindo como o desgraçado achava que eu era um completo invalido, apenas me estiquei e puxei o prato das mãos dele, mas, como posso dizer? As coisas não saíram bem como eu tinha planejado. Eu até consegui chegar ao prato, mas o que aconteceu depois foi uma desgraça.
Minhas mãos agarraram as bordas do prato, mas antes que eu pudesse puxa-lo, uma forte pontada nas costas minou minhas forças, minhas mãos derrubaram o prato no colo de Sebastian e eu caí com tudo em cima do mingau quente.
Ou pensei que ia cair.
Não sei de que maneira, mas de repente eu estava deitado no braço do demônio, a centímetros da comida, e das pernas dele, de forma que o vapor esquentava meu nariz, a ponta de seus cabelos roçava em minhas orelhas.
Eu me assustei, eu acho, porque congelei ali, não movia um único músculo, aliás, todos eles naquele momento doíam intensamente.
— O Jovem Mestre não devia ser tão teimoso. Tsk, eu avisei que não era seguro. –
Então algo aconteceu, um arrepio poderoso sacudiu meu corpo quando senti sua respiração quente contra minha nuca.
— Jovem Mestre? – Sebastian me concertara na cama, colocando-me sentado novamente – Machucou algum lugar? – O olhar dele checava profissionalmente cada parte minha, e eu apenas queria esconder minha cara em algum lugar, pois da maneira que ardia, devia estar patética. O que diabos acontecera comigo?
Pude ver sua face retorcer-se, tentando inutilmente esconder mais um de seus sorrisos cínicos frente a minha expressão constrangida e raivosa.
— Você é um incompetente Sebastian! Droga! – Virei a cara de lado, de novo. Deus, ele tinha que ir embora.
— O Mestre tem razão, peço que me perdoe. – Ele levantara e fizera uma de suas profundas, e falsas, reverencias. – Contudo, agora preciso pedir para que o Jovem Mestre venha para o banho, de maneira que eu possa trocar a roupa de cama.
E sem que ele me perguntasse qualquer coisa, me levantou no colo e entrou no banheiro. Tal como sempre, não sei quando ele preparara o banho, apenas sei que a banheira já estava cheia e tinha um cheiro peculiar.
— Por favor, Jovem Mestre, fique quieto. – Ele parecia mal humorado enquanto me despia não que fosse estranho, afinal suas calcas “impecáveis” estavam grudentas de mingau. Tive vontade de rir.
— Ora Sebastian, não fique assim apenas porque seu aspecto está nojento. –
— Claro – E mais um de seus sorrisos “de praxe”, uma denominação para aqueles sorrisos que encerravam os pensamentos do mordomo, que não deixavam nada transparecer, aqueles que mais me irritavam.
Sebastian me colocou na banheira e antes que pudesse começar a me banhar fiquei zonzo.
—Que cheiro é esse Sebastian? – Perguntei meio grogue.
— Essência de Confrei e Abeto dos Alpes, para sua saúde Jovem Mestre. Pode ser que esteja um pouco forte para seus sentidos, já que é a primeira vez que uso destas essências. — Disse ele enquanto me dava banho.
Não sei muito bem como, mas Sebastian terminou o banho me secou e pôs na cama. Por algum motivo eu me sentia muito bem! Acho que já dormia quando o demônio apagou as velas, porém minha percepção alterada captou algo, mas dormi antes que pudesse entender.
— Jovem Mestre, acorde. – Abri os olhos devagar e vi seu rosto. Era sempre a primeira coisa que via de manha? Manhã? – Precisa se alimentar, acaso fará a mesma desg... ahn, irá teimar novamente, se eu o alimentar? –
Ele acha que eu não percebi? Desgraçado, mas bastava de acidentes.
— Não Sebastian, me alimente, estou com fome. Mas que horas do dia são?
Sorriso de praxe.
— Não é importante Jovem Mestre, não terá compromissos até que esteja em condições. – Manteve o sorriso enquanto se aproximou de mim. – Agora acalme, sim?
Seu rosto ficou tão próximo do meu que estremeci, ele ergueu-me na cama, como da ultima vez, sentou-se a meus pés e pegou o prato.
— Tomei a liberdade de repetir o mingau, já que não pode prova-lo. – Cínico! — Agora Jovem Mestre, abra a boca. – Sorriu, o que para ele era, um sorriso imenso de puro divertimento.
Aquilo já era constrangedor o bastante, então que pelo menos acabasse rápido. Abri a boca e engoli, repetidas vezes, ate acabar o prato, preocupado com meu orgulho não prestei a devida atenção ao meu redor.
— Pronto nada difícil não é mesmo? — Ele se levantou, colocando o prato de volta na bandeja e pegando uma escova. – Desculpe-me Jovem Mestre – Disse antes de retirar os travesseiros que me serviam de apoio e tomar seu lugar.
Minhas costas enrijeceram, mas antes que eu falasse qualquer coisa, a escova deslizou suave em meus cabelos. Deixei escapar um pequeno suspiro, involuntário e vergonhoso, esperei alguma reação do mordomo, mas não houve nenhuma, estranho.
Dei-me conta que dormi ao acordar suando de um sonho terrível. Alguém me perseguia, eu perseguia alguém, pessoas morriam e eu estava sozinho, completamente. Olhei em volta, estava escuro e eu não fazia Ideia de que horas eram, a lareira estava acesa, as cortinas fechadas. Sebastian não estava ali.
Minha camisa grudava no peito, minhas dores pareciam menores então resolvi não chamar ninguém. Levantei da cama devagar e me arrastei até as janelas, devia ser meio da madrugada, mas de alguma forma me sentia abafado ali, iria abrir as cortinas só um pouco. Assustei-me quando, ao afastar um pedaço do tecido pesado, vi a luz do dia. Meus olhos doeram e por reflexo dei um passo atrás, um erro, perdi o equilíbrio e fui ao chão. Merda, será que eu realmente não conseguia fazer nada sem ele?
Tentei levantar, mas foi em vão, segundos depois Sebastian apareceu com seu candelabro. Não tinha cara de muitos amigos.
— Sabe que é difícil, Jovem Mestre? Cuidar de crianças mimadas e teimosas? – Aquilo me irritou. – Por que não me chamou se acordou?
— É dia Sebastian! Eu não devia estar dormindo! – Gritei mesmo no chão, me sentia ultrajado, jogado no chão aos pés do mordomo.
— Ah Jovem Mestre, não há nada que eu possa fazer não é mesmo?
Ele se abaixou e me pegou no colo, fechou a aba da cortina, me pôs na cama e depositou o candelabro na mesinha.
— Seu sono ainda está desregulado e instável. Dorme poucas horas em intervalos curtos de tempo, por isso não é importante se é dia ou noite, ficará na cama até que seu sono estabilize novamente. Seu corpo ainda está e recuperando e não está se alimentando o suficiente. – Disse ele com a mão apoiada no quadril
— Sabe Sebastian, está parecendo uma tia velha, mas vou aceitar o que diz apenas não me dê ordens. – Disse entre dentes.
— Ah Jovem Mestre... – Seu silencio de repente me deixou desconfortável. Ele me cobriu, pegou de volta o candelabro e o apagou. – Durma bem, o chamarei para a refeição.
Ele estava saindo, e eu ficaria naquela escuridão abafada novamente. Não...
— Não. –
— Como Jovem Mestre? – Sebastian parou aos pés da cama.
— Fique Sebastian. Fique e... – Minha língua enrolou, e o que? Iria pedir para que ele deitasse ao seu lado?
— Quer que lhe conte um historia? Ou talvez uma canção de ninar? – Seu sorriso...
— Obvio que não! Apenas fique aqui até que eu durma. – Disse grosseiramente. Agarrei o cobertor e virei para o outro lado. Mas não era isso que eu queria, não era.
— Yes, my lord. – Ele reverenciou, eu acho, deve ter feito alguma expressão, mas não pude ver. Fiquei ali, sentindo sua presença, como se de repente a escuridão do quarto ficasse mais densa, mas mais confortável, sim, muito confortável.
Mais um pesadelo. Eu corria e caía, diversas vezes, estava escuro e eu sangrava, pessoas me caçavam, eu tinha medo. Algo me atingiu e eu não pude ver mais nada, havia sangue demais em meus olhos, apenas borrões se moviam a minha frente. Onde estava ele? Por que não estava comigo?
— Se- Sebas... Sebastian... Sebastian...
As pessoas se aproximaram mais e mais, senti um corte no braço, dois, três, e eu o chamava, desesperadamente. Até que de repente todos explodiram em uma chuva de sangue, ele lambia os dedos, o sorriso de escárnio, os olhos vermelhos, asas negras de corvo, o terror de qualquer pesadelo, o algoz. Ele passou os braços em torno do meu corpo, levantando-me do chão. Eu podia ver seu sorriso de perto agora, os dentes afiados do Demônio, seu toque, seu cheiro, tudo aquilo me acalmou e eu dormi em seus braços.
— Sebastian... – Eu suspirei sem saber onde estava, o chamei em sonhos e ele me atendeu. Dormia aconchegado em seus braços, sob seus olhos. Ah se eu soubesse! Mas não podia, não tinha como saber que naquele momento eu entregava o pouco que me restava de luz. Suspirei mais uma vez, afundando a cabeça no peito do demônio, enlevado por seu calor.
When you call my name it's like a little prayer
Quando você chama meu nome é como uma pequena oração
I'm down on my knees, I wanna take you there
Estou de joelhos, quero te guiar
In the midnight hour I can feel your power
Á meia noite posso sentir seu poder
Just like a prayer you know I'll take you there
Como uma pequena oração você sabe que vou guiá-lo
(Like a Prayer – Madonna
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