Defying Gravity
3 Like a Prayer for Sebastian
Notas iniciais
Just like a prayer, your voice can take me there
Como uma pequena oração, sua voz me guia
Just like a muse to me, you are a mystery
Como uma distração para mim, você é um mistério
Just like a dream, you are not what you seem
Como um sonho, você não é o que aparenta
Just like a prayer, no choice
Como uma pequena oração, sem escolha
Your voice can take me there
Sua voz me guia
(Like a Prayer – Madonna)
Sebastian Michaelis
Minha situação pode ser descrita com uma única palavra: Ridícula!
Embora eu tenha tido tempo para pensar sobre isso, não importa quantas vezes eu reveja minhas ações, opções... ainda assim fico sem entender o que estou fazendo.
Não estava sendo um contrato fácil, mas isso não era um grande problema. Na verdade eu até me divertia! No dia a dia da mansão, irritando o “jovem mestre” um pouco mais, testando seus limites, forçando sua mente e apurando sua alma; em suas missões, manipulando o jogo e deixando-o acreditar ser o algoz. Divertia-me ver seus olhos infantis assustados endureceram ao me comandar, ah sim, divertia-me principalmente ver seu contentamento e segurança ao meu lado, tão tola criança. Porém talvez aí morasse meu erro. Não deveria me divertir tanto.
Balancei a cabeça levemente. Como tinha chegado a isso?
Maldita seja aquela noite e as babás dos mortos! Que azar ter três deles em um mesmo lugar! Não podiam ir procurar o que fazer em qualquer outra parte do mundo estúpido dos mortais?? Não faltavam desgraças naquele lugar!
Poderia ter dado cabo deles facilmente, sim poderia se não tivesse que me preocupar com o jovem, impulsivo e teimoso conde. Um navio indo a pique, tripulado por cadáveres esfaimados e conduzido por Shinigamis incompetentes era, na minha opinião, uma festa e tanto. Porém, naquele momento, eu não pude aproveitar, tinha que pensar em como tirar Ciel dali juntamente a achar um jeito impossível de completar sua missão. Por todos os demônios! Aquele garoto me irritava, com certeza!
Foi quando aconteceu...
Passei dias inteiros revivendo aquelas lembranças, dias inteiros tentando entender o que me moveu. Horas completas me perguntando o que me despertou do sono Shinigami, afinal aquela merda fazia um estrago e tanto.
Fechei os olhos mais uma vez, ia rever de novo, talvez eu tivesse perdido algo, alguma coisa que explicasse minha situação. Tinha que ter alguma coisa!!
O rosto do garoto sujo de sangue, seu corpo marcado por diversos abusos, suas pequenas mãos agarradas fortemente às barras da gaiola onde estava preso. Seus pensamentos me eram tão claros, ainda que houvesse uma terrível balburdia naquele lugar nojento, um problema que resolvi rápido. Lembro-me das palavras, das promessas, de sua dor e determinação, do nome petulante que recebi.
A rotina com o menino, seu lento progresso rumo à vingança. Ciel era uma criança, ferida e orgulhosa, mas uma criança e pude vê-lo crescer um pouco mais a cada dia. Tornei-me um mordomo perfeito ao lado dele, fui o que ele queria que eu fosse, ou pensava querer.
Onde estava o problema? Ciel não me ordenara nada naquela hora. Meus próprios instintos me despertam então? Sentia tanta fome assim? Talvez. Essa é uma boa resposta, aceitável, ficarei com ela por enquanto.
Ouvi-o chamar. Como todas as noites desde o contrato, o jovem conde me chamava durante seus sonhos, dentro de seus sonhos. Contudo os chamados estavam diferentes, algo neles me fazia querer zelar seu sono escondido na escuridão. Por que isso? O que mudara? O menino estava diferente, ou a mudança foi em mim?
Sim, há uma diferença gritante na relação entre nós agora e ainda que isso seja possivelmente temporário e tenha sido feito por mim, não explica a confusão na qual me encontro e seus efeitos sobre mim.
Mais um chamado. O conde tinha sido teimoso durante todo o tempo em que ficara acordado, fora melhor colocá-lo para dormir. Sua desconfiança poderia piorar as coisas, o que era desnecessário, mas se não descansasse de forma adequada me traria problemas.
Os chamados ficaram mais intensos e eu não resisti a ir vê-lo, curiosidade talvez. O pequeno rato tinha se esgueirado da cama e falhado no seu intento de sentir-se no controle, mal sabia ele que naquele momento não havia nada que pudesse controlar.
De alguma maneira, por esses dias, não conseguia irritar-me realmente com ele. Não havia nada que eu pudesse fazer para ajuda-lo a entender.
Aqueles grandes olhos não tinham mudado em nada, límpidos e assustados, ultrajados e feridos, uma pequena tentação para alguém como eu, mas não me detive frente a eles mais que o necessário, apenas o levei para a cama novamente, todo demônio conhece os caminhos da tentação. Eu também deveria conhece-los, lembrar-me deles e não ter feito o que fiz quando ouvi o pedido de “meu mestre”, aquele que ele não proferiu.
Esperar na escuridão, imóvel e furtivo, resume a maior parte da minha vida milenar, então não deveria ter sido desconfortável, angustiante, observar o garoto dormir, revirando-se na cama. Chamando-me!
Ciel chamava-me dia e noite, acordado e em seus sonhos. Sua voz me perseguia onde quer que eu ia, me guiava de volta ainda que a força, ainda que sob os meus protestos e o fez novamente aquela vez. Eu podia sentir o cheiro do seu medo, tão apetitoso.
Deitei-me a seu lado e o envolvi nos braços, foi estranho admito, não me lembro de já ter feito isso em algum momento de minha vida, e o que senti foi... Foi inexplicavelmente desesperador e exultante.
Sim, eu sabia agora o que tinha mudado. Talvez a mudança não tenha sido abrupta, talvez eu a devesse ter percebido, no fim era o meu objetivo, em parte... apenas em parte. Aquela maldita noite tinha interferido nos planos, mudado o rumo dos acontecimentos.
Demonios não dormem, nunca dormem, e naquele momento, dentro do barco, o menino não sabia o que estava fazendo. Tenho certeza que Ciel não entendia o significado de suas ações, fora ingênuo como toda criança. Não sabia que permitindo-se ficar entre meus braços, mais que isso, que aceitando e desejando estar a meu lado ele entregou-se, deixou cair a ultima de suas resistências e deu-me uma prova de sua alma. Se ele podia ter alguma chance de salvação, de revogação, agora não era mais possível, ele tinha aberto mão até de suas cláusulas. Eu poderia te-lo tomado naquela hora, na hora em que ele desejou entrar comigo no inferno.
Embora esse tenha sido meu objetivo, corromper aquela alma até um ponto sem volta, Ciel tinha me surpreendido. Eu fora pego de guarda baixa, não esperava, em nenhum dos círculos do inferno, sentir no sabor daquela alma um gosto novo, diferente e maligno. Sim, mil vezes mais maligno que eu.
E agora ali estava eu, com o garoto entre meus braços, sem saber exatamente o que fazer. Ao mesmo tempo em que tenho fome, fome por essa alma que agarra-se tão carente a seu predador, quero estender esse jogo, quero divertir-me mais, quero encarar aqueles grandes olhos por mais tempo, ainda que eu não queira pensar o porque... porém não conheço o preço que terei que pagar, mas sei que haverá algum. A vida não dá segundas chances para ninguém, mesmo para um demônio.
E meu nome não cessa de sair de seus pequenos lábios, em desespero. Ah sim, seu chamado não é mais como antes, pois agora o pequeno ponto de luz sagrada que restava dentro de sua alma se foi, ele abrira mão dela, por mim, e nada mais me impedia, nada mais controlava seus convites ou o protegia de seus desejos. Como é mesmo que se fala por aqui? Já que se está no inferno... Ri-me por dentro. Aperto-o mais de encontro a meu peito e ele suspira, acalmando-se aos poucos, substituindo sua expressão por um calmo sorriso. Ciel não lembraria-se disso ao acordar. Que criança tola, que demônio estúpido!
Tenho raiva, sim, muita raiva. Estou enroscado nas armadilhas humanas, armadilhas que meu tipo constrói, estou afundando naquela barafunda complicada que era a mente mortal! Maldita seja aquela noite e aquele navio! Maldita seja essa criança a qual me prendi, e que sem perceber me prendeu também.
Suspirei. Nada podia fazer era inútil lutar contra isso, um erro comum dos humanos. Vou ignorar, conviver, esperar, talvez passe, talvez tudo fique como antes, quando essa situação voltar ao normal.
Ciel se mexeu mais uma vez, provavelmente estou influenciando o sono do garoto. Não pude deixar de sorrir, seus pensamentos me eram claros quando eu assim o quero, e apesar de não ser prudente, espiei e me vi.
O menino estava ensanguentado, seguro em meu colo, preso em meus braços. Minhas asas negras o protegiam da chuva e minhas garras contornavam seu rosto. Meus cabelos molhados cobriam seus olhos, pois ele tinha a cabeça deitada em meu ombro. A nossa volta havia corpos, muitos, em um mar de sangue, e apesar de tudo isso ele dormia tranquilamente. Meus lábios no sonho sorriram junto comigo, que incrível paradoxo era aquela criança, sonhava com um demônio como seu anjo protetor, dormia em seus braços banhado em sangue. Ciel transpirava uma pureza distorcida que me afetava profundamente.
– Ah Jovem Mestre, não tenha tanta pressa em se lançar no abismo. – Ajeitei levemente seus cabelos – Deveria ter aprendido a tomar cuidado com o que deseja, você em particular já passou por essa lição e sabe que algumas vezes vocês são atendidos, ainda que neguem veemente, ainda que tentem voltar atrás.
Pousei meu dedo em seus lábios.
– As palavras tem poder e elas não voltam depois de serem proferidas.
Ciel deu um longo suspiro e eu achei melhor ficar quieto, algo se agitava dentro de mim, mesmo sendo um demônio tenho minhas regras, no meu plano não cabe mais nenhuma distração, se eu o modificar um pouco mais que seja, posso arruinar tudo. Ainda que eu esteja terrivelmente tentado a sentir seu gosto uma vez mais.
Sorri com a idéia que tive, afinal que espécie de “anjo” seria eu se negasse um beijo de boa noite a uma criança?
Passei levemente o nariz em seus cabelos, recendiam a sangue, não importava quantos óleos aromáticos eu usasse em Ciel, ele sempre possuía esse cheiro, era intrínseco a sua alma. Desci pela bochecha corada dele, experimentando o toque de sua pele na minha.
– Durma bem Jovem Mestre – Sussurrei em seu ouvido, sentindo-o estremecer suavemente e vendo seus sonhos ficarem confusos. Esse jogo divertia-me muito.
Depositei um beijo simples, simples demais para mim, mas o suficiente para uma primeira vez, em seus olhos, e o resultado foi instantâneo e delicioso.
– Sebastian... hn... Sebastian... – Ele me chamava novamente, repetidamente, desejosamente.
– Shhh sou eu Jovem Mestre, sempre serei eu, até o fim.
Like a child you whisper softly to me
Como uma criança você sussura suavemente para mim
You're in control just like a child
Você está sob controle como uma criança
Now I'm dancing
Agora estou dançando
It's like a dream, no end and no beginning
É como um sonho, sem fim e sem início
You're here with me, it's like a dream
Você está aqui comigo, como num sonho
(Like a Prayer – Madonna)
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