Defying Gravity
1 Introdução.
Notas iniciais
Estava recostado no pequeno barco que Sebastian conseguira, molhado, congelando, morrendo. Sua respiração não era mais do que um leve sopro, formando uma neblina fina sobre seu rosto. Não sentia muita coisa mais, seu corpo adormecido e gelado já parecia não lhe pertencer.
Que incrível contraste com a última experiência de morte pela qual passou! Onde a dor não cedia, onde a escuridão lhe envolvia, onde não havia qualquer ruído além de gritos estridentes e gargalhadas de escárnio... Que maravilha era aquela doce morte que experimentava! Sem dor, sob uma alvorada rosada, ao sabor das ondas que refletiam os primeiros raios dourados do sol...
O mar estava salpicado de escombros e corpos, pintado de vermelho, realmente uma linda cor. Aquela viagem fora uma pequena prova do que o esperava, provavelmente. O Campaina se transformara em um pedacinho do inferno, lhe oferecido em bandeja de prata. Teve vontade de rir. Passara uma noite no abismo e fora salvo por um demônio. Sabia que Sebastian manteria sua palavra, seus prejuízos seriam enormes caso falhasse, seu tempo jogado fora, porém, em muito tempo, se preocupou.
O céu estava belo sim, contudo, seus olhos pesavam; fechou-os, não faltaria muito agora. As imagens da noite passada assaltaram-no, os cadáveres ambulantes, Elizabeth... O que fora um choque e tanto, ainda não sabia como ficariam dali para frente, mas essa questão não mais lhe gerava preocupação; os Shinigamis, que pareciam se multiplicar em volta de si e de seu mordomo, a cada vez chegava mais um, o maldito Undertaker, Sebastian... Apertou um pouco os olhos, a imagem da DeathSythe perfurando o peito do demônio lhe causava angústia. Por quê? Tentou respirar fundo, mas seu peito pesado e seus pulmões fracos e preguiçosos não lhe responderam bem, enfim, tanto fazia.
Engraçado como nossa mente é analítica quando não lhe restam mais problemas práticos nos quais pensar...
Sebastian sabia que o Shinigami o atacaria, ainda sim... Sua alma valia tanto assim? Não achava isso, apesar de não ter ideia do sabor de uma alma. Lembrava-se do som de sua voz gritando o nome do demônio, porém não se recordava de ter realizado essa ação. Estava caindo naquele momento, e embora tivesse a certeza de que a queda o mataria, sua reação de alcançar Sebastian não tinha tido a ver com sua segurança, porque afinal, Ciel Phantomhive já estava morto. Seu corpo era um fantoche do demônio, ligado a ele por linhas de vingança e ódio, que importava em morrer uma vez mais? Ainda que não concluir seus planos incomodassem-no. Contudo...
Moveu o corpo, o pouco que conseguiu, de forma a pressionar as costas em seu apoio. O que significava assumir que se preocupara com Sebastian? Admitir que seus pensamentos se estilhaçaram ao ver seu mordomo, imaginado invencível, desfalecer na morte bem diante de seus olhos, e que seu coração gritou que, de algum jeito ele, o perfeito e maldito demônio, lhe devia a salvação, devia livrar-se daquela situação, devia se salvar, não podia morrer... Não sem que o levasse junto, não o deixaria sozinho a vagar naquele mundo... Significava o que afinal?
Quando sua mão agarrara a sua, algo parecera brotar em seu peito, a raiva, o ódio e outros sentimentos que não fazia sentido pensar se misturaram em um grande alívio.
Aquele pequeno bote fora a salvação que seu mordomo lhe tinha dado, e por toda noite infernal a manteve. Nunca, em todos aqueles anos e em nenhuma das difíceis situações pelas quais passaram, vira Sebastian daquela forma. Havia em seus olhos uma ferocidade selvagem, porém faltava-lhe o toque de contentamento sádico que sempre possuía, a sombra de um cansaço extremo, ainda que mantivesse o sorriso falso congelado em seus lábios. Quando o viu se dobrar de joelhos, e percebeu que ele não pôde mais sustentar o peso de seu orgulho, suas entranhas deram um nó.
O que faria sem Sebastian? Quem era ele sem Sebastian?
Desde aquele maldito dia, em que o demônio o salvara, condenando-o para sempre, Sebastian era sua sombra, seus olhos, braços e pernas. O mordomo representava a família que perdeu, os assassinos que tanto odiava, o motivo de ainda estar vivo, seu único confidente, aquele que sempre estaria a seu lado. Ainda que por seus próprios motivos, olhar para ele lembrava-lhe de seu destino, porém, também lembrava-o de que sem ele não estaria ali. Sebastian era a única pessoa, pessoa?, a única criatura viva que estava a seu lado. Ele era sua raiva e tranquilidade, sua fraqueza e a fonte de seu poder. Sebastian era tudo.
Ele seria apenas um menino assustado em um barco ao léu sem ele. Não, na verdade, ele não seria nada, não existiria.
Fora pensando assim que ordenara descanso a Sebastian; em três anos nunca tinha permitido que o mordomo descansasse. Não era preciso, pensava, Sebastian era imortal, inatingível, perfeito. Mas agora tinha realmente sido atingido, e ainda que contra a sua vontade, assumiria, ainda que só para si mesmo, que temera perdê-lo.
Mas que merda! O demônio filho da puta tinha lhe tirado tudo, e dado tudo em troca. Que péssimo momento para ter revelações. Riu-se por dentro.
Após o contrato, o que aconteceria se morresse daquela forma? Para onde iria sua alma?
Não podia mais ver o sol, nem sentir seu calor, até as suaves ondas não representavam mais nada para seu corpo. Apenas uma coisa havia: o corpo do mordomo, inconsciente, sentado com os dois braços cruzados no peito de Ciel, de forma que pudesse aquecê-lo? Ou talvez para que, de alguma forma, o menino não fugisse de sua posse, seu controle?
Não fazia ideia, porém, se manteve ali, abraçado a Sebastian, fato que encararia, mais tarde (caso esse houvesse), como liberdades não concedidas do mordomo e ele seria punido. Entretanto, não agora. Agora estava feliz de estar aconchegado nos braços do demônio, de forma que este estaria consigo, como prometera, até o fim.
Realmente, que morte maravilhosa era essa, se comparado com tantas outras que já havia cometido e a que sofrera.
Em um esforço supremo, usando seu último fôlego, sussurrou para o demônio:
— Pois é, Sebastian, acredito que não cumpriu todas as suas promessas, porém, tendo em vista que as portas do céu não se abrirão para mim, gostaria de entrar no inferno com você, exatamente dessa forma. Ainda que eu vá negar, mesmo morto.
Encostou a cabeça no peito do mordomo e se deixou englobar pela escuridão, ouvindo apenas um apito ao longe antes de desfalecer completamente.
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