Defying Gravity

12 Capítulo 11 - A Vitória é minha...


Notas iniciais
Continuação do 10, eu o dividi em dois, porque ficou gimenso xD Ps: gente, sério, quase entrei em depressão quando vi q depois de dias da fic postada eu não tinha recebido nenhum coment, tipo eu demorei demais e todos me abandonaram. Mas aí eu vi que em 3 dias 100 pessoas leram a fic. Oi? 100 pessoas e nenhuma palavra? Poxa gente sofri pra diabo pra continuar a história e ainda fiquei às 2 da manhã num frio do cão tentando achar sinal num cel velho pra postar. Não custa vcs, pelo menos, me mandarem catar caquinhos nos comentários, né? Sem contar q percebi uma coisa é quero a opinião de vcs, meus caps geralmente acabam ficando grandes e acho q tem gente q desiste d ler por isso. É assim mesmo? Estão muito grandes? Por favor me respondam pq assim eu regulo eles, divido em mais capítulos, sem problemas. Só me digam for god sake.

O piquenique estava dando certo, no que condizia a seu propósito: Lizzie estava satisfeita.

A menina colheu flores e fez arranjos para todos com a ajuda de Paula, molhou os pés no rio, ainda que não estivesse calor e tivesse sido repreendida por isso, riu e jogou água na cara do conde quando esse emburrava ou a ignorava por momentos muito longos, brincou com Soma e com as borboletas que o outro atraía por algum motivo, encantou-se quando seu noivo a convidou para um passeio pela margem, a sós, e esse se desculpou pela seriedade excessiva com a qual a vinha tratando, problemas na empresa, explicou e beijou sua mão, fazendo-a corar e ver o mundo cor de rosa.

Realmente o piquenique havia sido um sucesso, Ciel estava feliz com isso, gostava de proporcionar a Elizabeth momentos assim, era tudo que podia fazer por ela, mas quando as pesadas nuvens finalmente despencaram sua carga sobre eles, não pode evitar agradecer mentalmente. O piquenique fora mesmo ótimo, e já estava na hora de terminar.

– Jovem Mestre! — Tanaka correu a seu encontro com o guarda chuva a postos, porem foi recusado pelo conde, que indicou que cobrisse a lady e a levasse para a carruagem, pois sua dama, Paula estava ocupada recolhendo os pertences deles do chão.

Soma puxou Ciel para debaixo de seu guarda chuva, que Agni segurava, sem muito sucesso, estabanado como era, mas tanto fazia, já estava encharcado mesmo.

Meia hora depois estavam chegando à mansão, Lizzie tinha resmungado brevemente sobre como a chuva poderia ter esperado um pouco mais para cair enquanto o Conde encarava a construção cinzenta sob o toró, em expectativa. Tanaka se apressou em tirá-los da carruagem, com Finny, Meyrin, Snake e Bard segurando guarda chuvas. Ciel foi o ultimo a sair, enraivecido, de cabeça baixa.

"Aquele desgraçado ainda não vol-..."

– Seja bem vindo jovem Mestre, permita-me. — Sebastian o esperava em frente às portas abertas com uma toalha branca ocupando suas mãos. Solícito, inocente.

"Pois sim!"

Ao colocar os pés no patamar da entrada o mordomo lhe circundou os ombros com a toalha e lhe guiou pelas escadas, mudo.

Ciel estava puto, queria explicações, mas ainda sim, ainda sim aquele ridículo contentamento se espalhava por seu peito. Trincou os dentes, só faltava corar de alegria, que palhaçada!

Sebastian abriu a porta de seu quarto, entrou, fechou as cortinas e se apressou em desenrolá-lo da toalha, livrá-lo das roupas molhadas e vesti-lo em um roupão grosso. Fez tudo isso sob a mira dos olhos azuis duros e afiados. Sorriu.

– O piquenique foi proveitoso Jovem Mestre? Uma pena ter chovido, esperava-se que o tempo colaborasse. — Disse em um tom neutro, sentando o conde na cama e virando-se para a mesinha. Droga, percebeu, não havia trazido o chá.

– Sebastian... — Entoou Ciel, de forma fria e dura.

O demônio quis rir com o tom do menino, sabia que teria problemas por se ausentar sem comunicá-lo, mas fora preciso, sem contar que era um hobby seu, atormentá-lo. E dessa vez estava mesmo encrencado tendo em vista a expressão surpresa do conde quando o avistara, um esgar maligno surgiu no canto de seus lábios, mas o escondeu rapidamente e voltou-se para o conde com sua face sorridente habitual e uma xícara fumegante de infusão.

– Sim? — Estendeu a delicada porcelana para o menino. Ciel estava gelado e meio pálido, arrependeu-se de não ter ido ao encontro dele na campina.

– Em primeiro lugar, o que estava fazendo até agora? — Aceitou a xícara estendida com uma sobrancelha erguida — E em segundo, não trouxe o chá com você, não é?

– Detalhes... agora beba, por favor. Sabe que sua saúde não é das melhores. — Sorriu, colocando as mãos atrás das costas.

O mordomo recebeu uma mirada incisiva do pequeno, mas viu com prazer o garoto sorver a bebida e suas bochechas ganharem cor rapidamente.

Três generosos goles foi o tempo que o conde precisou para formular suas perguntas.

– Que bebida é essa? — Perguntou encarando o liquido amarelo esverdeado, perfumado.

– Infusão de Capim limão e canela, temperado com gengibre. Fará-lhe bem.

– Hm, é bom... — Tomou mais um gole — Agora responda o que eu perguntei. — Disse, levantando o rosto e encarando o outro.

– Parece que já recuperou seu vigor. — Manteve o sorriso, não poderia mentir e escapar com evasivas seria difícil com a objetividade do conde. — Estava resolvendo um problema.

– Um problema? Qual? É algo relacionado ao caso do Visconde? — Não tirava os olhos do outro, a cara de praxe do mordomo ainda estava lá, mas pegaria o mínimo deslize dele, deu mais um gole.

– Bem, não diretamente, mas acredito que influenciaria sim.

– Verdade? — Terminou a bebida cheirosa, pousou a xícara no colo e com uma calma estudada disse as próximas palavras. — Não acredito que haveria alguém de nosso interesse no estabelecimento em que passou a noite.

O sorriso do demônio tremeu levemente, e foi o suficiente para o menino, que sorriu sarcástico e se apoiou nas mãos, esticando o corpo pra trás.

– Vamos lá Sebastian, você saiu sem me avisar, passou o dia inteiro fora e promoveu uma bela festa, quero explicações, e as quero agora. — Disse, irônico, enquanto seu sorriso diminuía.

O mordomo soltou as mãos e esticou-se, desfez a expressão sorridente, Ciel era mesmo maravilhoso, não que o que fizera não fosse chamativo, na verdade essa fora sua intenção desde o principio, mas o menino havia ligado os acontecimentos a ele enquanto a cidade culpava a pobre mulher e ainda arrumou uma maneira de deixar subentendido que fora iniciativa unicamente sua. Quais seriam as suas motivações na cabeça do conde? Seria interessante descobrir.

– Sinto muito Jovem Mestre, não pretendia me ausentar por um período tão longo, mas me tomou mais tempo do que imaginava e tens razão lá não se encontrava ninguém de nosso interesse — Frisou o 'nosso' e curvou-se, realmente não fazia idéia de que seria tão difícil. — Espero que Tanaka tenha lhe assistido satisfatoriamente, ou não foi assim? — Levantou o olhar para o menino, inquisitivo, divertido.

Ciel empertigou-se, do que ele estava falando? Estaria insinuando que sentira sua falta? Que petulância! Virou o rosto, fugindo do olhar castanho.

– Claro que fui bem servido, mas esse não é mais o papel dele e sim o seu. Ainda não me deu razões o suficiente para não tê-lo cumprido. — Ajeitou-se e cruzou os braços.

Sebastian quis rir, sim ele sentira sua falta. Estava de muito bom humor, dias chuvosos faziam isso com ele.

– Como disse, tive um problema para resolver... — Esperou o conde olhá-lo e se aprofundou nos orbes azuis — ... um incomodo para mim nos dias que se passaram, e também para você. — Sorriu, fechando os olhos e libertando-o. — Não há muito mais a se explicar.

Por um momento Ciel prendeu a respiração, o que fora aquilo? Seu coração acelerou no peito.

– Algo mais que queira saber? — Sorriu divertido, a surpresa estava, novamente, estampada no rosto juvenil.

– Não. — Fosse lá o que Sebastian tinha ido fazer, sua dignidade lhe dizia para deixar pra lá, já seu orgulho não ia deixar tão barato.

Sem mais perguntas, o mordomo retirou a xícara, o vestiu e calçou.

– Jovem Mestre, vou preparar sua aula. Verificou o relógio, cinco e quarenta. Desça em cinco minutos, por favor.

Quando o mordomo virou-se para sair, um sorriso maligno brotou nos lábios do Conde e ele se levantou para olhá-lo.

– Sebastian. — Chamou e viu o demônio parar. — Negligenciou seu trabalho hoje, "e a mim", como conseqüência não permito que me toque até amanha...

Sebastian virou-se para o menino, como era? Seu sorriso era pétreo e acido, o de Ciel era enorme e maligno, desafiador.

– E obviamente espero que minha aula seja excepcional já que arrumou outros para todo o resto de seu serviço hoje. — Terminou acusatório É uma ordem.

O demônio trancou os dentes sob o sorriso, pirralho desgraçado. Ia ser assim? E qual era a novidade? Sempre era assim com aquele rato mimado, egoísta e orgulhoso, mas o conde ia ter uma boa partida, como de costume.

– Sim, my Lord. — Inclinou-se perfeitamente e saiu com graça.

Ciel jogou-se na cama, sentando-se, com raiva. O petulante havia se esquivado das suas perguntas e ainda usado de seus truques para amedrontá-lo, mas ele não sairia dessa vencedor, queria ver a solução que ele arranjaria para o impedimento que impusera. Sorriu vitorioso, mas seu estomago contraiu-se com a ansiedade, Sebastian podia ser muito criativo.

Seis em ponto o mordomo entrou na sala, Ciel já o aguardava sentado na poltrona macia.

– Está atrasado.

Sebastian pousou os livros na mesa e ajeitou os óculos.

– Sinto muitíssimo, mas a culpa é do Jovem Mestre. — Foi direto, fora difícil arranjar uma escapatória, mas seria delicioso ver a reação de Ciel a ela. Virou-se para o menino. — Vamos começar.

O conde ouviu toda a explicação do mordomo/tutor sobre aquela aula, teoricamente ela serviria para testar o que já havia aprendido sobre ser uma jovem modelo parisiense e fazer pequenas correções. Seria constrangedor.

– Não vou por nenhum vestido Sebastian. — Foi seco, não estava com humor para isso.

– Não se preocupe Jovem Mestre, ainda não chegou a hora. — Percebeu na expressão do menino que ele havia capturado o ainda em sua frase e sorriu.

A hora passou-se com o conde demonstrando seu andar, sua postura à mesa, durante uma conversa informal, em um baile, ao se relacionar com homens e mulheres, seu conhecimento sobre a área e sua animação.

– Bem, jovem Mestre... — Sebastian retirou os óculos — Lhe dou um sete.

– Sete?! — Empertigou-se, como assim? Não fora perfeito, claro, mas também não merecia uma nota tão baixa.

– Sim, não esta interpretando como deve, certamente já possui o conhecimento necessário, mas até uma moribunda o faria melhor que o senhor. — Disse sarcástico enquanto limpava as lentes com um lenço que tirou do bolso.

– Bem, sinto muito se não estou no espírito. — Disse emburrado e levantou-se. — Estou lhe esperando na sala de musica. — Saiu e bateu a porta.

– Não se preocupe jovem Mestre, amanha aprenderá a entrar no espírito. — Sorriu divertido enquanto o óculos em suas mãos sumia.

O conde não estava satisfeito, nem um pouco, quando entrou na sala de musica já havia alguém lá, uma mulher em torno de seus dezoitos anos que nunca vira antes, tinha os cabelos castanhos presos em um lenço amarelo-sujo, que combinava muito pouco com o vestido cinza que usava. Pensou em sair e chamar Sebastian, mas antes que o fizesse o mordomo entrou.

– Sebastian quem é essa mulher? E o que ela faz aqui? — Perguntou descrente, ele a trouxera para ajudá-lo? Esperava que não, jamais dançaria daquele jeito na frente de alguém, ao menos, não ate sábado, e o mordomo sabia disso.

– Essa é Margareth Jowel — Andou até o lado da jovem que se encontrava sentada em uma cadeira no canto da sala — Esposa de um comerciante do vilarejo próximo. — Sorriu — E ela esta aqui como minha assistente.

Ciel continuava sem entender nada, como ele podia acreditar que faria qualquer coisa com aquela mulher? Mas antes que pudesse reclamar da loucura que ele estava fazendo percebeu que ate agora a mulher nada tinha dito, na verdade sequer havia olhado para nenhum deles, ou se mexido. Encarou-a, seus olhos estavam opacos, sem cor e estáticos, sua pele levemente pálida, preocupou-se e concentrou-se em sua respiração, com alivio percebeu que a mulher esta viva, pelo menos.

Olhou para o demônio, desconfiado, Sebastian sorria misterioso.

– O que ela tem? — A mulher claramente não estava consciente.

– Nada que o deva preocupar Jovem Mestre. — Disse ainda sorrindo e virou-se para a senhora Levante-se Margareth e venha aqui.

A mulher levantou-se mecânica e postou-se a seu lado enquanto Ciel encarava-o com um interesse que passou ao assombro. Sorriu vitorioso ante a expressão do pequeno e mimado conde. Sabia que ele havia entendido.

Não podia ser! Aquele demônio desgraçado havia arrumado uma boneca? Uma marionete? Aquela mulher estava viva, mas de alguma forma ele a havia controlado, ela respondia a suas ordens, não duvidava de que isso estava ao alcance de seus poderes, mas mesmo assim...

"Era um truque sujo". Pensaram em conjunto, Ciel com raiva e o demônio com diversão.

Sebastian foi ate o gramofone e o ligou, mais Debussy. A musica fluiu pelo cômodo, com certeza, depois daquilo, o menino nunca mais ouviria esse musico. O mordomo apoiou-se confortavelmente na mesa do tocador.

– Vamos começar. Margareth você será o cavalheiro, tome o conde como seu par e dance lentamente, comece com o básico da valsa.

O garoto fervia de raiva, notou o mordomo satisfeito, mas ainda lhe encarava altivo, não daria o braço a torcer, se desistisse fácil não seria divertido.

A mulher andou até o conde e abriu os braços, esperando, seu olhar continuava estático e apagado, ela não o olhava, focalizava algum ponto fixo na parede. Respirou fundo, não se daria por vencido, fora resultado de uma imposição sua. Deu um passo a frente e a estranha lhe envolveu a cintura, pegou sua mão e começou a se mover. Os movimentos da dança faziam com que as mangas do vestido retraíssem, expondo a pele da jovem, a temperatura era alguns graus mais baixa que a sua, não chegava a ser fria, era somente estranha.

Moveu-se com ela pelo centro do cômodo, seus movimentos eram similares aos do mordomo, mas tinham um que mecânico, a sensação era quase a mesma de se dançar com uma vassoura.

– Acelere Margareth, o jovem Mestre parece entediado com seu nível. Sorriu e apoiou o quadril na quina da mesa, o menino estava portando-se bem e ainda não errara nenhum passo.

Ao comando a mulher passou a movimentar-se mais amplamente, fez alguns giros e inversões que Ciel conseguiu acompanhar, quando mais ela movimentava-se, mais sua pele esfriava. Estava desconfortável, a situação, aquele corpo, não queria continuar com aquilo e também não achava que dançar com um cadáver iria ajudá-lo em nada.

– Pare Sebastian! — Ordenou, empurrando a mulher em meio a um giro, desvencilhando-se dela. — Não quero continuar com isso, dançar com ela não é melhor do que treinar sozinho, sua marionete é imprestável. — Cuspiu a acusação para o mordomo, arrogante, e o maldito ainda mantinha seu sorriso de diversão. Mas que ódio!

O demônio assistia a cena divertido, bem, Ciel havia vencido a primeira partida, mas haveria revanche.

– Sinto muito, não imaginava que já havia melhorado tanto, vou ajustá-la. — Sorriu perverso — Margareth venha cá.

Ciel observou a mulher andar ate Sebastian, parar a menos de um passo dele e ele segurar seu queixo. Os movimentos do demônio pareciam estar em câmera lenta ou era somente seu cérebro tentando registrar o que via? O mordomo o olhou de esguelha, para depois selar os lábios da estranha suavemente, sentiu um nó no abdômen. O beijo não deve ter durado mais que um segundo e as bocas se tocaram minimamente, mas pode ver um brilho esmaecido passar por entre eles ao mesmo passo em que a mulher havia fechado as pálpebras e entendeu.

Abaixou a cabeça estarrecido, sim entendera, acabara de ver o demônio se alimentando, ele consumira a alma da mulher, por que ele fizera isso na sua frente? Era realmente necessário? Melhor, era permitido? O desgraçado não tinha um contrato consigo?! Sua mente gritava enfurecida... ainda assim... ainda assim sentia a angustia conhecida no peito misturada a raiva. Ele já dissera antes não? O beijo do demônio era a passagem para o inferno, então por que diabos sentira uma pontada de inveja daquela pobre miserável? Trincou os dentes e sentiu o sabor ferruginoso na língua, ao menos ela já estava morta, isso satisfazia seu desejo de matá-la. Respirou fundo, era uma loucura completa, o que estava pensando e sentindo, não o deixaria transparecer.

– Jovem Mestre, algum problema? — Disse indiferente. Havia sido desagradável, a alma da mortal recendia a legumes mofados, contudo ao ver o menino encarando o chão entendeu que tinha alcançado seu intento. Ciel perceberia agora no que estava se metendo.

– Nenhum. — Levantou a cabeça e o encarou, seus olhos estavam duros e sua voz impassível, tinha consciência disso.

O demônio estreitou os olhos, veria quanto tempo o pirralho manteria aquela postura, havia imposto algo ao conde também, uma pergunta e queria uma resposta. Passou a mão esquerda por sobre o rosto da mortal e os olhos antes opacos ganharam uma estranha coloração vinho. Ciel empertigou-se e os lábios do mais velho esticaram-se em um sorriso incontido.

– Vejamos agora, se estará mais ao seu gosto dessa forma. — Disse acido.

Ao fim da sentença a mulher moveu-se até o conde sem que fosse necessário nenhum comando da parte do demônio, seu andar lembrava muito o de Sebastian, percebeu o menino, e seus olhos não estavam mais fixos, o encaravam. A mão da jovem envolveu-lhe novamente a cintura, de forma mais delicada agora, suave, um sorriso conhecido se esgueirou em seus lábios e os olhos de Ciel se arregalaram. Como era possível?! Olhou para o mordomo, ele continuava de pé junto ao gramofone, lhe olhando, mas de alguma forma...

A mulher passou a movimentá-lo com passadas firmes e elegantes, não estava mais dançando com a estranha, estava dançando com o demônio e sem que ele o tocasse. Criatura vil! Distraiu-se em um dos giros e tropeçou nas franjas do grosso tapete, o que fez a coisa que dançava com ele puxá-lo para mais perto. Seu rosto quase se encostou ao abdômen feminino, encaixando sua cabeça sob os seios da mulher e a essa distancia pode sentir, ela agora emanava uma leve fragrância amadeirada e afrodisíaca, sua garganta secou, ela até mesmo cheirava como ele! Não estava mais conseguindo se concentrar nos passos.

A mão em sua cintura ficou mais firme, seu coração havia acelerado e tentava não respirar fundo, suas idéias não estavam mais claras como deveriam, tentava se concentrar no que seus olhos viam, mas a imagem se misturava ao focar os orbes da garota, familiares. Alguns giros depois já se encontrava ligeiramente tonto, detestava aquilo, foi quando percebeu que o demônio não estava mais junto à mesa.

– Jovem Mestre esta se atrapalhando. — Falou junto do ouvido infantil. — Isso não é bom, feche os olhos. — Percebera que o menino não estava mais tão confiante e achou que já era hora do check-mate. A vitoria seria sua.

Ciel embolou os pés devido à surpresa, como o maldito tinha ido parar atrás dele? A voz provocante agitou ainda mais seu coração e numa tragada de ar apreendeu mais da deliciosa fragrância, que agora vinha, também, de trás. Seus pensamentos embotaram, ficara distante do mordomo todo o dia, seria por isso que sua vontade de aspirar mais aquele aroma era tão grande? A mulher girou novamente com ele, o sorriso em seu rosto aumentara e o vermelho fechado de seus olhos adquiriu um suave brilho, pareciam-se tanto com os dele. Mas que droga! Por que mesmo ele estava em tal situação bizarra? Ah, claro, por sua idéia brilhante!

– Feche os olhos. — Sussurrou novamente nos ouvidos infantis, faltava pouco.

O menino ouviu novamente, o sopro quente em sua orelha o fez suspirar. Maldição, estava indo tão bem ate agora, não se entregaria tão fácil. Segurou-se melhor no braço da mulher, endireitou as costas e ergueu a cabeça, suas pernas estavam levemente bambas quando, de repente, ela aproximou o rosto do seu o suficiente para poder ver pupilas fendidas surgirem em seus olhos.

– Há outras formas de te ensinar sem te tocar pequeno Conde. — A voz masculina e sarcástica soou da boca feminina a pouca distancia dos lábios pequenos.

O hálito quente acariciou seu rosto e Ciel ofegou, ao mesmo tempo viu as mãos do mordomo passarem pelos lados de seu corpo e segurarem a cintura feminina. Ele agora estava atrás de si e, de certa forma, a sua frente.

Sebastian fazia giros completos enquanto assistia o conde preso na jaula de seus braços, o menino esforçava-se em não tocar nem o seu corpo, nem o da mulher. As notas de alcaçuz já perfumavam o ar e o instigavam a ser mais cruel, veria ate onde o conde suportaria.

A cabeça de Ciel girava, seus pulmões brigavam por oxigênio e tudo que conseguia era mais aquele perfume devastador em seu sistema, encarar os pares de pés só fazia piorar sua tontura, levantou a cabeça. Sentia o calor do corpo atrás de si, tão próximo, tentador, sentia o movimento de pernas de Sebastian, movia as suas em sincronia, inconscientemente, suas idéias vagaram por uma memória, seu corpo pressionado entre o demônio e a porta de seu quarto, a língua sedosa em seu ouvido. Faltou-lhe totalmente o ar e isso foi providencial, pois do contrario teria gemido em resposta a sensação que lhe assaltou, seu corpo ardeu pelo akuma, encarou o par de olhos deslocados a sua frente, olhos que lhe encaravam intensos. Em um arco da canção a mulher puxou-o mais, colando-o em seu corpo e permitindo que Sebastian se aproximasse meio passo, já não tinha nenhum espaço para se mover sem que acabasse tocando no maldito demônio.

Sacudiu a cabeça para livrar-se da sensação e percebeu ter sido má idéia, a tontura piorou fazendo-o perder o chão, teria caído não fossem os braços ao seu redor. Olhou para cima e viu dois pares de olhos gêmeos a lhe sorrir desafiadores, enquanto o teto girava, o mundo girava. O desgraçado havia dito para fechar os seus não era? O faria. Estava tonto, confuso, a angustia apertava-lhe o peito e pulmões, o desconforto de estar nos braços daquela estranha se misturava ao prazer de estar ali com... queria se açoitar por pensar nisso, mas... ao prazer de estar com o maldito demônio.

Sebastian o viu fechar os orbes azuis e sorriu, agora realmente havia vencido.

Ciel sentiu-se em um turbilhão, de repente pareceu que os giros haviam aumentado sua velocidade e que mãos enluvadas substituíram as femininas, ia reclamar sua ordem, mas não foi possível, sentiu o tecido áspero do vestido mudar para o do sedoso fraque negro e as notas quentes entraram, densas, por sua respiração furiosamente rápida. Não era mais a mulher ali, podia sentir o corpo firme e quente do akuma, abriu a boca buscando mais ar, a mão posta em sua lombar abraçou-lhe toda a cintura e foi jogado para trás, abriu os olhos num ímpeto e levou o braço direito até o pescoço do mordomo quando sentiu lábios serem pressionados aos seus.

A musica havia parado, estava de pé na sala, mas a sua frente não estava Sebastian e sim a mulher, os lábios levemente pálidos dela pressionavam os seus, os olhos rubros o perscrutavam. Empurrou-a violentamente, jogando-a contra a cadeira na qual estivera sentada e sentiu-se chocar contra o corpo atrás de si. Viu-a bater a cabeça no braço de madeira da poltrona e escorregar para o chão, inerte, seus olhos apagaram. Passou o antebraço pelos lábios, enojado, ela podia ter o cheiro dele, os olhos dele, mas não era ele, e nada, nem ninguém tinha permissão de tocá-lo dessa maneira, exceto...

Sebastian já havia envolvido o pequeno conde em suas ilusões e apesar de não lhe satisfazer em absoluto, era divertido ver de fora as reações do menino a ele, contudo o garoto era a epítome da teimosia, havia aberto os olhos logo quando sua lacaia respondera a vontade inconsciente que tinha de provar o menino. A resposta da criança fora brutal, a mulher jazia no chão, um filete de sangue corria de seu couro cabeludo e se acumulava no tapete felpudo.

Interessante, pensou enquanto observava a cena, o conde tampava a boca com o braço e estava de costas, a franja escondia sua expressão, mas não devia estar satisfeita, essa era a conclusão de Ciel? Talvez não fosse exatamente o que esperava, mas já era hora de parar de ter expectativas com esse garoto. Seu sorriu sumiu. As costas do menino estavam apoiadas em seu abdômen, de alguma forma havia realmente vencido, mas a vitoria não fora doce como pensava que seria.

– Jovem Mestre, não havia a necessidade de... — Foi interrompido.

– CALE A BOCA! — Esbravejou. Estava com raiva, ódio, confuso. O demônio maldito brincara com ele, o asco de ter tido a boca tocada por outra se unia ao prazer de forma conflitante, em sua cabeça a mulher e Sebastian eram quase a mesma pessoa, mas isso não era possível, fora um dos truques do desgraçado, ele mexera na sua cabeça outra vez.

Sebastian surpreendeu-se pela explosão do conde, mas era racional, depois do que havia demonstrado sua tentativa de beijá-lo fora ameaçadora. Afastou-se um passo do menino, deixando de tocá-lo, e curvou-se apropriadamente, baixou a cabeça.

– Peço mil perdoes, eu...

– MANDEI CALAR A MALDITA BOCA!!

Havia parado de dançar, mas tudo ainda rodava, girava num torvelinho louco, todas as sensações que lhe arrebatavam desde a tragédia do navio, confusão, angustia, ansiedade, alegria, excitação, aflição, raiva, desejo, insanidade, necessidade... tudo girava dentro de si, cada uma tentando fazer-se sentir de maneira mais pungente. Sua respiração era rápida e falha, o coração galopava no peito, estava impotente perante tudo aquilo. Impotência! O maldito sentimento contra o qual tanto lutou, o qual jurou que não o paralisaria mais, e a culpa era do demônio! Desgraçado!

Esfregou a boca novamente, não seria mais enganado. Etapa de crescimento? Isso era ridículo! E a sanha de desmembrar o corpo, provavelmente já morto, da mulher provava isso! Não sentia absolutamente nada pelas formas femininas! Não estava passando por nenhum tipo de puberdade precoce, não era idiota. Fora Sebastian que fizera aquilo, seja lá o que aquilo fosse, tinha de admitir que havia algo, para o bem de sua sanidade mental, tinha de admitir que algo mudara dentro de si. Virou-se para o mordomo.

Aquilo era raro, despertar a ira de Ciel não era algo fácil. Obedeceu e se calou, quando o menino virou poder ver a fúria que fazia o azul de sua íris brilhar, contudo pode ver mais, uma profusão de sentimentos atacavam o conde que ainda tinha a respiração descompassada e as faces coradas. As pequenas mãos tremiam, trancadas junto das coxas. A alma do garoto resplandecia com a intensidade de suas emoções, era visível, palpável, extremamente delicioso e belo, o aroma ferruginoso que rescendia da alma infante preenchia o ar. Abaixou novamente a cabeça, esperaria ele se acalmar, não havia nada que pudesse fazer agora.

Depois de tudo que fizera o maldito agora se prostrava daquela forma? Não, não era aquilo que queria, não era aquilo de que precisava! Não seria o suficiente. Sua mão voou para a gravata de Sebastian e a puxou fazendo-o voltar a olhar em sua direção, trazendo-o para mais perto, bem perto, uma ponta de prazer se pronunciou dentre a turba enfurecida de sensações quando viu os orbes castanhos confusos e surpresos, mas o demônio ainda não havia visto nada. Ficara o dia inteiro fora, arranjara uma qualquer para ser seu par e ainda o havia insultado daquela forma!

Ah sim, esse era seu Mestre, o olhar azul era profundo como o pacifico, arrogante, sádico e egoísta. O que ele faria agora? Era bem possível que lhe batesse, riu-se por dentro. Sua face estava a alguns centímetros, apenas, da do pequeno, ainda seguro pela gravata, podia sentir seu hálito doce e convidativo, o olhar do menino apesar de enfurecido acariciou seus lábios, demoradamente, e quando sorriu brindando-lhe, o azul royal enevoou-se de desejo. Ah... talvez não devesse ter tirado conclusões precipitadas, seus olhos tornaram-se vinho.

O maldito sorria! E o sorriso enviou faíscas para seus nervos, não conseguia desviar o olhar dos lábios rubros do mordomo, já os sentira uma vez, os sentia agora, o gosto viciante do beijo do demônio havia ficado registrado em seu corpo. O mataria? Roubaria sua alma? Quem Sebastian achava que ele era? O comparava com aquela pobre criatura jogada no chão? Abandonou com dificuldade os lábios do akuma e subiu o olhar para os olhos vermelhos que se encontravam levemente acesos, expectantes.

– Nunca mais repita o que fez — Seu tom foi duro, queimava por dentro, mas queria que aquilo ficasse claro. Firmou o aperto na gravata. — Não tem minha permissão para alimentar-se de outra alma até que nosso contrato se encerre.

Sebastian encarou o menino divertido, aquilo o tinha incomodado, hein? Seu propósito não havia sido esse. Ciel quebrou o contato visual por um instante, baixando o olhar, mas quando encontrou novamente seus olhos a determinação, o orgulho ferido e o desejo eram mais intensos que todo o resto que perpassava o menino. O conde havia se decidido, afinal.

– Além disso, não coloque terceiros para fazer seu trabalho novamente. — Disse de forma clara, precisa, e puxou o demônio pela gravata, juntando as bocas.

Sebastian se sentiu ser subitamente puxado e antes que pudesse impedir o conde juntara a boca a sua, em um ímpeto até inocente. A onde eletrizante que correu do corpo do menino para o seu foi poderosa e incrível, a alma que tanto desejava transbordava paixão e o chamava sucessivamente, podia ouvi-la tão nitidamente. Sentia os lábios cálidos pressionados aos próprios, o gosto singelo daquele mortal, queria senti-lo mais, por dias esperava por isso. Ciel havia fechado brevemente os olhos, aproveitou-se disse e levou a mão direita a seu pescoço, mas foi interrompido, a mão esquerda do menino agarrara seu pulso.

Quando sentiu a boca do akuma sob a sua seus olhos se fecharam, seu sangue correu mais rápido nas veias, o aroma delicioso entrava em lufadas com sua respiração, porem ao invés do alivio que esperava sentir, sua agonia multiplicou, precisava de mais daquele demônio maldito. Queria entreabrir os lábios, estava sufocando, necessitava sentir o sabor da pele dele, de sua língua. Fizera aquilo com uma intenção, mas seus pensamentos coerentes estavam esvaindo-se, não havia espaço para eles, na verdade não havia espaço para mais nada alem de Sebastian, mas a imagem do desgraçado beijando a mulher penetrou na nevoa que estava nublando seu cérebro. Precisava se controlar. Sentiu o movimento vindo dele e o segurou, pois se o mordomo o tocasse, de qualquer forma, não conseguiria pará-lo mais. Era assustador e humilhante ter que admitir isso. Abriu os olhos e afastou-se dele, os olhos fendidos brilhavam vermelhos, seu peito subia e descia com dificuldade, seus olhos ardiam tamanha era a necessidade que sentia, e que ainda não havia descoberto exatamente de que. Não podia ser pela proximidade do demônio, tudo só piorava quando o tocava.

Sebastian encarou o menino que havia se afastado, contra a sua vontade, e pelo visto, contra a própria vontade. Ciel estremecia e seu olho não focalizava direito, a alma ainda o chamava insistentemente, lambeu o lábio inferior, o queria agora. Contudo seu pulso ainda estava preso na mão do infante.

– Eu o proibi de me tocar, acaso esqueceu? — Esforçou-se para que a sentença saísse com o mínimo de dignidade, e a cara de Sebastian foi impagável, as pupilas de gato moveram-se, iluminadas, sobre seu rosto, procurando algo, uma piada talvez? Mas a surpresa e a indignação estampadas no rosto do mordomo lhe sugeriam que ele não havia encontrado nenhum humor.

Ciel soltou o pulso do maior e tentou limpar a mente da vontade absurda de enfiar os dedos no cabelo negro e colar-se a ele.

– Já chega por hoje. — Disse altivo, virou as costas e caminhou para a porta. — Me chame quando o jantar estiver pronto. — Abriu a porta, porem antes de sair, completou. — E Sebastian, isso foi um beijo, não o que seu cadáver tentou fazer. — Saiu pela porta, sustentando todo seu orgulho recuperado, sua postura e um sorriso sofrido, porem satisfeito. Ah, nada era melhor do que vencer um adversário mesmo estando em desvantagem. A vitoria era doce.

Sebastian ficou estático por um momento, depois gargalhou. Sua vida era incrivelmente divertida para um demônio de milênios. Aquela peste infantil o havia instigado e o deixara ali, talvez merecesse pelo que fizera a ele. Espiou o corpo gelado no chão, havia empapado o tapete. Tsk. A humanidade era realmente interessante, aquela criatura nem havia resistido, trocara a alma por uma migalha, não faria falta, contudo ser esse o seu pensamento era comum, mas um menino pensar assim era, no mínimo, peculiar. Ah, Ciel era um achado, uma estrela cadente que não realizava desejo algum senão os próprios, riu sombrio. Livrar-se-ia daquele incomodo e daria uma lição no pequeno conde, ele podia ter ganhado dessa vez, com louvores, mas quem riria por ultimo seria ele e com direito a clichês: No badalar das doze horas.

Agarrou o corpo inerte e o carregou consigo, esperava não manchar o palitó, pensou antes de sumir pela janela noite afora.

~*~

Where there is desire, there is gonna be a flame
Onde existe o desejo, haverá uma chama
Where there is a flame, someones bound to get burned
Onde existe a chama, alguém esta sujeito a se queimar
But Just becase it burn doenst mean youre gonna die
Mas só porque queima não significa que você irá morrer
You gotta get up and try, and try, and try
Você tem que se levantar e tentar, e tentar, e tentar

(Try Pink)

Notas finais
E então? Fazia tempo que eu não escrevia, pode ter ficado meio murcho mas no próximo já devo estar calibrada novamente xD. Kissu ne!