Defying Gravity
13 Capitulo - Contando os minutos
Notas iniciais
Follow your steps and you will find
Siga seus passos e descobrirá
The unknown ways are on your mind
Caminhos desconhecidos em sua mente
Need nothing else than just your pride
Não precisa de nada além de seu orgulho
to get there
Para chegar lá
So, carry on
Então, siga em frente
There's a meaning to life
A vida tem um significado
Which someday we may find
Que um dia iremos descobrir
Carry on, it's time to forget
Siga em frente, é hora de esquecer
The remains from the past, to carry on
Os restos do passado, para seguir em frente
(ANGRA – CARRY ON)
~*~
Ciel estava sentado em seu escritório ainda estupefato com o que havia feito. Sentia os lábios formigarem devido à estranha sensação que se apossara dele, o coração teimava em não desacelerar e as pontas de seus dedos estavam geladas. Pousou a mão no peito, de fato algo incomum acontecera naquele... Oh céus. Baixou a cabeça até que sua testa encostasse à beirada da mesa de carvalho.
Pela primeira vez em anos ele agira por ímpeto, sua parte racional havia sido temporariamente suplantada por aquela onda emocional, era constrangedor. Ele realmente beijara um homem? Fechou os olhos, apertados. Seu mordomo? Enterrou os dedos nos cabelos. Um demônio?! Ergueu a cabeça e a bateu contra a beirada um par de vezes.
*Tum* merda
*Tum* merda
*Tum* merda.
Contudo, haja vista o que já tinha acontecido entre os dois... pera lá, nada aconteceu, concretamente. O demônio o havia beijado uma vez em uma existência paralela (?) e... As lembranças giraram em sua mente, a cama de seu quarto, a sala de musica, os arredores da propriedade... Ok, talvez não tivesse sido apenas um beijo. Dane-se! Não precisava de argumentos, que Sebastian fosse para o inferno! Ao menos agora ele tinha controle sobre aquela bagunça, apesar de achar que também tinha se enfiado na lama até os joelhos e estava lá, chapinhando.
Ficaria um tempo ali ate que sua cabeça voltasse a lhe pertencer, tinha ainda alguns minutos antes do jantar. Abriu a gaveta e pegou dois envelopes, a papelada da empresa estava acumulando e devia estar com algumas assinaturas atrasadas, não faria mal adiantar um pouco as coisas, remexeu os papeis à procura dos mais urgentes. Nunca deu crédito as falácias da igreja, mas alguns ditados originados de seus dogmas faziam sentido: Mente vazia, oficina do Diabo. Meia hora depois foi tirado de sua concentração por batidas na porta.
— Jovem Mestre? O jantar esta a mesa e todos lhe aguardam. – Apenas batera e se mantivera do lado de fora da porta. Ouviu uma afirmação pouco educada por parte do Conde e se retirou.
Ciel desceu minutos depois e sentou-se a mesa, como de costume Lizzie questionou seu humor, Soma insistiu até o limite de sua paciência para que jogassem algo, cobrando uma ‘promessa’ da qual não se lembrava e Agni... bem, Agni paparicava o indiano e o observava com adoração quando achava que ninguém estava notando, era patético e cômico. Já estava na ultima colherada do manjar de damasco quando o príncipe fez outra tentativa.
— Ahn, Ciel! Você prometeu! Não foi Lizzie? – Disse olhando para a menina, suplicante – Você disse que jogaríamos hoje à noite, depois do picnic! Vai ser tão legal! Não jogamos desde... bem, desde... – Coçou a franja. Tentava se lembrar da data, realmente devia fazer muito tempo.
— Bem... eu e Ciel não jogamos desde antes da viagem. – Terminou a sentença de cabeça baixa, revirando, com a colher, as pequenas amoras que decoravam a sobremesa em seu prato. Falar da viagem a fazia rememorar e não queria. Tinha pesadelos ainda. Sonhos terríveis infestados de zumbis carniceiros; sua mãe, com seu coque sempre tão elegante, despencado e ensanguentado; Edward afogando-se entre os corpos mutilados, tentando inutilmente agarrar-se aos escombros; estranhas pessoas dançando em meio ao naufrágio e Ciel, seu noivo, a olhando com repulsa e medo, enquanto seu vestido rasgado e manchado de sangue pesava em seu corpo, dificultava seu andar e ambas as espadas em suas mãos a impediam de se aproximar sem feri-lo. Fazia um tremendo esforço para soltá-las, mas era impossível, para ele, eram uma parte sua agora e para sempre. Entrava em desespero e acordava aterrorizada.
Ciel teve sua atenção voltada para a loira, que estava radiante até a pouco, mas a menção do cruzeiro seu animo e brilho se apagara. A imagem de Elizabeth portando aquelas espadas e decepando cabeças como se fossem frutas podres para lhe proteger ainda era inconcebível. Como aquela doce e frágil criatura repentinamente se tornara aquilo? Franziu o cenho. Lizzie era de uma influente família de Cavalheiros, a mais proeminente talvez, ainda assim era inusitado que uma dama tivesse tal habilidade na esgrima, principalmente ela! Ninguém diria. Ele não percebera. O que ela havia dito mesmo? A noiva do cão de guarda da rainha? Hn, teve vontade de rir, a mãe de Elizabeth a devia ter preparado para o que sabia que a filha enfrentaria sendo sua esposa. Que bela família seria eles caso o futuro que todos esperavam se concretizasse, o cão, que já possuía olhos e presas afiadas, também estaria munido de garras precisas, belas e fatais.
Suspirou frustrado, Lizzie não era assim, não era como ele. As ações que fora obrigada a executar no navio a haviam ferido e maculado a imagem que ela, provavelmente, tinha construído para ele e se fosse colocar numa balança a culpa era sua, não fora competente em protegê-la, e tinha feito uma promessa a Edward.
— Esta bem. Lizzie... – Deu seu melhor sorriso e chamou a menina num tom suave e, torcia para que assim parecesse, animado – Realmente faz tempo que não jogamos, quer jogar hoje?
— Ah Ciel, claro, eu adoraria! – Levantou a cabeça e seu noivo estava sorrindo, era tão difícil vê-lo sorrir, sua expressão suavizava e lhe lembrava do pequeno Ciel. Contagiou-lhe.
O Conde viu o astral da menina subir e cumprimentou-se pela boa jogada.
— Que bom. Lançamos um novo jogo de tabuleiro que podemos experimentar, que tal? – E virou-se para o indiano, porque é claro que ele estaria nisso também, afinal seria mesmo impossível deixa-lo de fora. – O que me diz Soma? – Seu sorriso sumiu, não era mais necessário, o do outro já era escandaloso o suficiente.
— Ah Ciel!! Que legal! Quero sim! E de que é o jogo? Sobre o que? O que tem que faz... – Desatou a falar encarapitando-se na mesa.
— Com licença então, vou preparar tudo. – Interrompeu o falatório do outro, retirou-se da mesa e deu as costas. Seria bom se a felicidade de todos fosse fácil como a do indiano. – Sebastian, termine de servi-los, estarei esperando lá em cima.
Não se virou para falar com o mordomo, esteve evitando olhá-lo durante o jantar e não o faria agora, permanecia inseguro e constrangido pelo que ocorrera nas ultimas horas, uma noite de sono seria o suficiente para voltar a seu normal... ainda que o seu normal, ultimamente, não pudesse ser chamado assim.
Sebastian observou. O garoto o estava evitando, isso era certo, por qual razão? Não parecia incomodado, envergonhado ou irritado, diria que estava apenas indiferente, como era de seu costume, caso não estivesse fazendo tanta questão de manter a distância. De acordo com a conversa o Conde ia jogar com a Lady, e o convite partira dele apesar de todo o incomodo que a ‘besta feliz’ fizera durante a refeição. Hm... uma distração hein? Olhou o relógio, nove e quinze, ainda era cedo, Ciel podia continuar com a postura de intocável o quanto quisesse, ao menos até que desse a meia noite. Dobrou-se em uma mesura quando recebeu as ordens do menino.
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O relógio do hall bateu às onze horas.
Sebastian havia guiado os hospedes até a saleta de jogos e permanecido junto à janela durante a partida, se retirando apenas para trazer chá às crianças. Ciel ganhara, previsível, mas Lady Elizabeth se esforçara e fora uma adversária digna, simplória, mas boa, já o indiano... Irritou-se com o jogo em um determinado momento, errou quase todos os enigmas propostos, pois não aceitou a ajuda de Agni, e deprimiu-se com as colocações do pequeno Conde, por fim teimou que jogaria até o final mesmo sendo estimulado a desistir. Ele terminara somente agora, meia hora depois de todos.
Ciel lutou bravamente contra o sono e o tédio, sua vontade era agarrar o moreno pelos cabelos e chutá-lo escada abaixo, as pessoas que conviviam com ele deviam agradecer à sua divindade particular por sua paciência ser tão grande, senão... Finalmente Soma terminara o maldito jogo, olhou para o lado e viu Lizzie cochilando no encosto aveludado da poltrona, leves olheiras pronunciavam-se sob seus olhos fechados.
— Sebastian, chame Paula para que ela acompanhe Lizzie até o quarto e prepare um chá que a ajude a dormir. — Disse ainda sem encarar o mordomo.
— Agora mesmo Jovem Mestre. – Curvou-se e saiu, intrigado.
— Bem, foi divertido, não é Ciel? – Disse Soma, com um sorriso esquisito, onde o ânimo e a decepção dividiam espaço, fazendo com que sua boca ficasse ligeiramente torta. Estava sentado no chão há algum tempo, se empolgara durante a partida e quisera ficar mais perto do tabuleiro, pena que nem assim ganhara.
— Foi bom para passar o tempo – Certamente já tivera partidas melhores e mais desafiadoras, fora quase injusto ganhar dos dois.
— Príncipe Soma, devemos ir, a senhorita Elizabeth já dormiu e o senhor Ciel também deve querer fazer o mesmo. – Disse Agni com um sorriso condescendente, de pé atrás de Soma, esse pelo menos tinha bom senso.
— Ah... – Nem percebera o estado da menina – Puxa, já é tarde assim?! Desculpa Ciel, bem, nos vemos amanha. – Avançou e prendeu o menino entre os braços num abraço apertado. – Boa noite – Desejou sorridente.
A Ciel restou deixar-se ser abraçado e menear a cabeça positivamente, respondendo o cumprimento assim que foi solto e voltou a ter ar. Fez uma nota mental de nunca expandir os negócios em direção as colônias indianas, se fosse comum do lugar o apreço por contato físico intenso não sobreviveria uma semana.
Logo que todos saíram voltou-se para Lizzie e a acordou o mais suavemente que pode, ainda assim ela sobressaltou-se. Sebastian entrou seguido de Paula que a amparou, as duas saíram lhes desejando boa noite. Lizzie tinha um sorriso no rosto amassado pelo sono, percebeu satisfeito. Gostava da menina, do próprio jeito.
Sebastian ainda só observava, e o relógio bateu a hora e meia.
Ciel levantou-se, alisou a roupa e se retirou em direção ao quarto.
— Sebastian, prepare meu banho e traga-me um chá. – Seu tom era neutro, pretendia continuar indiferente ao mordomo, mas ao entrar no quarto a cama exerceu seu magnetismo e parte de suas preocupações escorregaram para o subconsciente.
— Claro, serei breve – Disse a ultima palavra entre dentes, com uma malícia sutil. Faltava apenas meia hora, a espera estava divertindo-o, há quanto tempo não contava os minutos? Entrou no banheiro a fim de encher a banheira. Ansiedade... mais um sentimento que lhe era incomum e o menino o despertava nele.
O Conde nem notou, andou até a cama e despencou nela de braços abertos.
Ah que maravilha! Suspirou e esticou-se nos lençóis de seda, seus joelhos estalaram, fechou os olhos bocejando. Os ombros doíam, seus olhos ardiam e uma leve enxaqueca se insinuava, não estava agüentando mais essa historia de ir dormir tão tarde e levantar-se horas antes do amanhecer. Já era quinta-feira, certo? Faltava pouco pra essa loucura acabar, ao menos essa etapa. E quanto ao resto de seus problemas? Bem, dane-se o resto, tiraria aquilo da cabeça de uma vez por todas, já mostrara ao demônio que não podia mais ser ameaçado ou amedrontado e até que o caso terminasse não teria tempo para pesquisar. Queria tanto dormir... afundava na inconsciência quando algo aterrissou em seu rosto, abafando-lhe a respiração. Sentou-se assustado e a toalha caiu em seu colo, o mordomo lhe encarava com o supercílio levantado, seu sorriso era de divertimento.
— Mas o que você pensa que esta fazendo? — Sua voz, meio grogue de sono, suavizou o tom rascante, o maldito jogara-lhe uma toalha na cara, era isso mesmo?
— Estou lhe acordando da melhor maneira que posso, não me ouviu chamar e eu fui proibido de tocá-lo, Jovem Mestre. – Sorriu irônico – Acaso esqueceu-se? – Repetiu a sentença do Conde, numa réplica ácida.
Ciel sentiu calafrios de raiva, estava cansado, irritado, era tarde e o demônio ainda faria piada com a sua cara? Não tinha disposição nem para enfrentá-lo.
— Não esqueci Sebastian. – Estreitou os olhos – Mas isso não era necessário. Já fez o que mandei?
— Me desculpe, achei pouco higiênico deixá-lo dormir de sapatos sobre a roupa de cama – Deixou um sorriso simpático desenhar-lhe os lábios – Sim, jovem mestre, seu banho está pronto, como o fará?
Demônio falso. Ciel ponderou, ainda que estivesse cansado e estressado, as probabilidades não ficavam a seu favor quando se tratava do mais velho e não precisava de mais nenhuma situação para se convencer de que não era uma boa idéia permitir-se ser banhado pelo mordomo, não até que tivesse mais informações sobre sua condição atual.
— Deixe que eu mesmo cuido do meu banho, espere-me aqui. – Levantou-se da cama e andou ate o banheiro, fechou as portas atrás de si sem olhar para trás nem uma vez. Não encararia os olhos vermelhos, ainda que pudesse senti-los ardendo em suas costas.
Quando o carroção bateu a primeira das doze badaladas um sorriso rasgou os lábios do demônio. Sua espera havia acabado e a antecipação era quase tão gostosa quanto seu prêmio final, quase...
Ciel abrira a porta do banheiro, já era tão tarde assim? Iria dormir umas poucas horas novamente, pensou derrotado. Enrolado na toalha ele sentou-se na cama. Tinha tentado ser rápido estava ansioso por dormir, bocejou mais uma vez, a água quente amolecera seus músculos e lavara a tensão, suas pálpebras não queriam mais ficar abertas.
— Sebastian... – Chamou. As sílabas se enrolavam em sua língua. Fechou os olhos e descansou o queixo no peito.
O relógio batia a sexta badalada.
— Estou aqui, Jovem Mestre. – Respondeu sem sair do lugar.
— Me dá o chá. – Estendeu o braço para o vazio com a mão espalmada.
O mordomo virou-se e pegou a xícara, o carroção exalou sua ultima nota e se calou, Sebastian pode sentir o peso da ordem esvair-se. Seus olhos cintilaram e o castanho mudou para vinho. Voltou-se e ignorou a mão estendida, depositou a louça no colo do menino, curvando-se até que seu rosto estive alinhado ao infantil, próximo.
— Aqui está. – Soprou suave, baixo e viu o garoto espantar-se.
Ciel não notou a movimentação do outro, estava quase dormindo sentado, assustou-se ao sentir a respiração do mordomo tão próxima. Levantou a cabeça, abruptamente, e abriu os olhos, o maldito encontrava-se a dois palmos de seu rosto, o vapor perfumado do chá espiralava entre eles.
— Sebas-
— É uma pena que tenha de esconder um de seus olhos Jovem Mestre – Interrompeu o infante, não queria ouvi-lo, pelo contrário, tinha coisas a dizer. – Eles são... perfeitos. – Disse, levando a mão até a bochecha direita da criança. Segurou sua face com firmeza, acertando o ângulo para que pudesse afundar-se nas íris azuis. Havia admirado-as em silêncio durante as últimas horas. – Eu os escolhi por uma razão, pode se esconder atrás de suas armas, roupas, títulos e jogos, contudo não deles... – Encaixou o queixo no ombro da criança e sussurrou próximo ao seu ouvido – Eles são a brecha em sua armadura, Jovem Mestre.
Ciel ofegou, mais uma vez fora pego desprevenido e não estava gostando disso. O sono o deixava lento e a proximidade do mordomo embotava-lhe os pensamentos. Sentia a xícara quente no colo, se fizesse qualquer movimento brusco acabaria por se queimar.
— Sebasti- Ia afastar o maldito, porém antes que terminasse a primeira palavra ele se ergueu e distanciou alguns passos. Sua expressão não era nem um pouco amigável.
Não podia acreditar, ouvira cascos! Quem poderia ser àquela hora?! Sua diversão, sua tão esperada revanche... seria adiada, pensou frustrado. Estava tendo que adiar muita coisa nos últimos tempos.
— Parece que temos visitas. – Falou monótono, mas suas sobrancelhas franzidas denunciavam a irritação. Quem ousava interromper-lhe, novamente?
Visitas? À meia noite? Coisa boa não podia ser. O rompante do mordomo já havia espantado parte de sua sonolência, então conseguiu levantar-se, vestir o robe verde musgo e agarrar o revolver sob o travesseiro com agilidade o suficiente. Prendeu a arma à sua cintura, sob o robe, com a faixa de seda e Sebastian repôs seu tapa-olho, em alguns minutos já marchavam porta afora.
A carruagem parou em frente às portas principais, os cavalos relinchavam em protesto a chuva fria que caía, a pequena porta envernizada abriu-se em sincronia com as grandes portas duplas. Uma lufada de ar frio entrou na mansão trazendo um convidado especial, sempre silencioso e misterioso.
— John Brown, a que devo a honra? – Disse o garoto ao ver o homem com um imenso guarda chuva preto parado a sua soleira. Como sempre ele não lhe parecia particularmente aborrecido por ter seus óculos e botas molhados, na verdade ele nunca parecia coisa alguma, seu tom de voz mecânico só se modificava ao falar com a rainha.
Sebastian havia aberto as portas e mantido a mão na maçaneta, com aquele ali a conversa era sempre rápida. Dera tempo de chegarem ao hall de entrada e o Conde estivera a postos, com sua postura superior quando o mordomo da rainha chegara. O Sr. Brown desconhecia convenções sociais, regras, etiqueta e até distâncias quando o assunto era um pedido de Vossa Majestade.
— Boa noite, Conde. – Desejou, estendendo um pequeno envelope com o selo da Inglaterra. – Victoria deseja que se divirta.
Ciel adiantou-se e pegou o envelope incólume, apesar da chuva. Assim que o recebeu o Sr. Brown virou-se e voltou à carruagem. Nem chegara a entrar.
Sebastian ainda esperou o transporte cruzar os portões da propriedade para fechar as portas. Aquele homem era mesmo peculiar, e como imaginara fora rápido, não passara meia hora após as doze.
O menino bufou.
— Sebastian me prepare um chá, ou talvez algo mais forte. – Sua voz estava pesada com o mal humor. Já era quase uma da manha e ainda teria aquilo para resolver. Que horas acordaria no dia seguinte, cinco? Quatro e meia? E até que fosse dormir precisaria de quanto tempo? Nem Deus sabia.
“Que ótimo, e eu que pensei que uma noite de sono resolveria. Deus deve realmente existir e está se vingando nesse momento, maldito. Não vou dormir hoje.” Pensou choroso.
Viu o menino se arrastar para o escritório e compadeceu-se, Ciel deveria descansar, mas o que podia fazer? Nada além de algo para lhe ajudar, e já tinha ideia do que, apesar de ter certeza que a criança não iria aprovar. Encaminhou-se para a cozinha e sinalizou para os 4 servos, que esperavam e assistiam do balaustre da escada, que tudo estava bem, poderiam voltar a dormir.
Ciel entrou no cômodo escuro e percebeu sua idiotice em não ter pedido um candelabro ao Sebastian, na escuridão, bicou a perna da mesa e engoliu uma maldição. Mordeu o lábio inferior e socou o móvel para aliviar a dor nos dedos do pé. Que inferno era aquilo! Jogou a carta sobre o tampo e deu a volta, afundou na cadeira. Queria espancar alguém.
Minutos depois o mordomo entrou, trazendo uma bandeja nas mãos, o cheiro forte e apetitoso da bebida perfumou o ar. Sebastian fechou a porta atrás de si, depositou o candelabro no canto da mesa e serviu a taça larga de cristal ao menino com o acompanhamento. A luz do fogo no cômodo escuro deixou a expressão de Ciel soturna, um belo toque na opinião do demônio.
— Aqui está. – Viu o garoto encarar a louça com as sobrancelhas arqueadas, ele sequer teria a educação de perguntar, não era? – Um Mocha acompanhado de trufas geladas com menta fresca. – Cruzou os braços atrás das costas, tinha vontade de bufar, uma ação involuntária um tanto ridícula.
— Você está me dando café Sebastian? – Perguntou exausto. Tinha certeza que não era uma bebida adequada para sua idade, mas enfim, já tinha ouvido sobre sua fama de excelente energizante e definitivamente estava precisando de um. – Ah, dane-se. – Levou a taça à boca e deu um pequeno gole, esperava o amargor tão aclamado pela sociedade europeia, que havia mantido o preço dos grãos alto por tanto tempo, mas as notas de chocolate e a cremosidade da bebida lhe surpreenderam. Era uma delícia aquilo! Grudava na língua. Bebeu novamente e olhou atônito para o mordomo, aquele infeliz...
Sebastian aguardava divertido, as bochechas do pequeno conde haviam ganhado uma leve cor com o prazer da bebida, ah... realmente era um mordomo dos infernos.
— Hum... escolha interessante... – Pareceu indiferente, não massagearia o ego do mordomo, não estava nada satisfeito com o rumo das ações dele.
Sebastian limitou-se a engolir o riso e menear a cabeça em concordância.
Depois de dar conta de meia xícara e duas trufas o infante suspirou, pegou a lâmina na gaveta, quebrou o lacre e leu a carta de sua majestade, sobraram no envelope dois pequenos cartões.
A chuva havia estiado do lado de fora e começara a ventar, as nuvens corriam ligeiras e abriam buracos por onde passava a claridade da lua. O silêncio preenchia a mansão e foi quebrado com o som de papel sendo rasgado.
Ciel estava furioso, num piscar de olhos tudo que havia planejado a rainha “sugeria” que jogasse no lixo! Rasgou a folha ao meio com satisfação e jogou os pedaços na cesta, não que fizesse alguma diferença, mas era gostoso.
— Sebastian, cancele tudo que tenho agendado para amanhã, ao amanhecer vamos para a capital. E preciso de uma desculpa para Elizabeth... mas que droga. – Recostou-se na cadeira e fechou os olhos.
— Posso perguntar o que sua majestade queria? – As coisas complicaram-se hein? Mais pressão sobre o menino.
— O que ela sempre quer, me desafiar. – Respirou fundo, ainda de olhos fechados, teria que produzir forças para encarar o dia seguinte. — Decidiu comentar que suas sobrinhas, filhas de duas Duquesas muito próximas, foram convidadas a um “baile intimo” na sexta à noite, na mansão Druitt, somente para as favoritas do Visconde. Poucas foram chamadas a receber o privilégio – Soou sarcástico – de desfrutar de sua companhia e de sua generosidade, pernoitando em sua casa até o Grande Baile de Sábado.
Até então o demônio não compreendia aonde isso iria dar, não era da alçada do Cão de Guarda o entretenimento de jovens mulheres, mas logo ficou claro.
— Contudo, elas não poderão ir, por motivos pessoais e Victoria achou de muito bom tom convidar-me para a festa. – Abriu os olhos e endireitou a cabeça, focando no mordomo – Porque, em suas próprias palavras, “seria um grande desperdício de juventude não aproveitar um evento desses, já que eu quase não me divirto”.
Do ângulo que Sebastian estava podia ver as chamas refletidas nas íris azuis, tingindo-as de um vermelho escuro, combinava com o humor do garoto.
Então a rainha os estava intimando a casa do Visconde, hein? Não se sentia particularmente com pressa de começar essa missão, e esse imprevisto excluía todo o sábado, porque, pelo andar da carruagem, pernoitariam na mansão da criatura. Ciel não tinha concluído suas lições, seria um risco que teriam que correr, mas para a rainha ter apressado o conde, aquilo a estava mesmo incomodando.
— A rainha tem razão, Jovem Mestre, nunca se diverte. – Disse zombeteiro – Podíamos mudar esse fato, mas parece que, por agora, estamos com pressa não é? — Emendou, conferindo o relógio de bolso, era alta madrugada, não conseguiria agilizar nada por agora. Péssimo timing o da rainha. – O que dirá à Lady Elizabeth?
‘Podíamos mudar esse fato?’ Aquilo fora uma indireta? Palhaço, até o diabo sabia ser divertido de vez em quando, pensou o garoto. O que diria à loira? Não fazia ideia.
— Não sei, mas vou inventar algo... por agora só quero dormir. – Disse terminando a bebida, já morna, de uma só vez. Levantou-se e antes de sair virou-se para a janela, o vento havia espalhado a nebulosidade e a lua reinava alta. – Pelo pouco tempo que me restou... – Disse derrotado e arrastou-se cômodo afora.
— Esta bem, vou lev- Virou-se para mesa, foi interrompido quando alcançou o candelabro.
— Não. Você irá procurar a Senhorita Hopkins, acorde-a se necessário, e compre uma quantia significativa de... – Seu estômago embrulhou –
— Vestidos? – Completou o demônio, maldoso.
— Sim... – Engoliu – Vestidos, sapatos, enfim... o vestuário que achar melhor, afinal o estilista é você. Vire-se. – Sacudiu a cabeça com desprezo – E não se esqueça das suas roupas, Sebastian – Alongou o nome do maldito, queria o ver fazer troça quando também estivesse em seus ridículos trajes. – Guarde o envelope com você, são os convites de amanhã.
— Certamente, mas posso fazer isso após levá-lo ao quarto, Jovem Mestre. – Já empunhava o candelabro e mantinha a porta aberta pera o menino sonolento, temia que ele desse de cara em uma das paredes ou rolasse a escada, tamanho era seu torpor.
— Para que? Essa é minha casa Sebastian, e não há nada a espreita nas sombras, ao menos, nada pior que você. – Terminou encarando o demônio nos olhos, olhos que tanto nublavam sua razão e naquela penumbra se tornavam ainda mais profundos e negros. Virou as costas e saiu, deixando o mordomo à porta.
— Realmente... nada pior do que eu. – A lógica do menino era boa e sua argumentação estava certa, era mesmo mais seguro ir sozinho, riu-se por dentro e apagou as velas com um sopro.
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O dia amanheceu cedo demais para o Conde, se fosse de sua vontade o sol poderia ter tirado folga por hoje, mas não, e o invasor iluminou suas pálpebras sem compaixão quando o mordomo irritante fez as cortinas correrem nos trilhos. Malditos sejam eles, Sebastian e o Sol.
— Jovem Mestre... — Cantarolou com simpatia, como sempre fazia, mas não surtiu efeito.
— Ah, cale a boca. – Rosnou, colocando o braço sobre os olhos.
— Que maravilha, vejo que esta animado para a festa de hoje. – Disse irônico, enquanto depositava a bandeja na mesinha, aturar o pirralho com aquele humor seria torturante.
— Não seja idiota Sebastian, se fosse o dia do meu funeral eu estaria mais animado. Então o que conseguiu a noite? – Tirou o braço do rosto e sentou-se na cama, jurou que a gravidade terrestre havia aumentando.
— Tenho que concordar. – Assinalou, se fosse o funeral do pirralho não estaria mais com a fome absurda que sentia. Andou até a cama e estendeu a mão para o menino – Fui até a casa da estilista e encomendei um grande pedido, ela não ficou muito feliz por ter sido acordada e reclamou da urgência da entrega. Disse-lhe que levasse os pacotes até sua casa em Londres, após o almoço.
Ciel aceitou a mão, que lhe puxou para a beirada da cama. Não havia colocado a camisola na noite anterior, apenas guardara a arma e jogara-se na cama do jeito que estava, agora o laço do robe jazia solto e seu peito quase nu. Quando o mordomo deslizou a seda por seus ombros, a pele arrepiou-se tão intensamente que podia sentir cada um de seus pelinhos. Virou o rosto encabulado, por Deus que não podia corar agora! Era um momento de sua rotina! Já não podia deixa-lo cuidar de seu banho, se passasse a se vestir sozinho também, seria... bem, seria óbvio, não?
“Porque é mesmo muito óbvio desejar o próprio mordomo demônio que conta os minutos até sua morte. Não seja incoerente.” Pensou revoltado.
Sentiu o tecido cair e se amontoar na cama, o mordomo estava ajoelhado diante de si e seu coração batia descompassado, não o iria encarar, não iria corar, não iria... o pensamento foi cortado pelas mãos enluvadas que subiam por suas pernas, o toque era leve, nada alem do movimento normal de vestir suas bermudas, mas o roçar dos dedos em suas panturrilhas e coxas fez seu corpo estremecer e o estômago dar um nó de antecipação. Antecipação exatamente de que? Sentiu o rosto esquentar com as respostas possíveis que passaram por sua mente e se impediu de estapear a própria cara.
Dessa vez não estava sendo proposital, ainda assim viu o sangue colorir a face infantil enquanto o vestia, em que o menino estaria pensando? A curiosidade e a tentação corroíam-lhe o interior, queria vasculhar e bagunçar os pensamentos da criança, ver em seu rosto expressões que lhe eram tão incomuns. Mas novamente não poderia ser agora, não era exatamente um ser paciente, mas a noção de espera é intrínseca a de tempo e a sua era bem abrangente. Seu tempo era medido em eras. Inspirou o perfume daquela alma, saboreou-o, pôs suas meias e sapatos, vestiu-lhe a camisa e a casaca, quando, por fim, atou o laço no pequeno colarinho não pode evitar aproximar-se mais que o necessário e deixar que seus dedos passeassem pela extensão alva do pescoço e do maxilar cerrado do garoto de forma breve.
Ciel trancou a mandíbula e dirigiu ao demônio um olhar assassino, ao que foi correspondido com um sorriso de canto. As bochechas rosadas do menino eram um contraste gracioso com o olhar. De repente o garoto ficara mais consciente, não era? O que mais explicaria o ato imprudente de lhe beijar? Ainda sentia vontade de rir com aquilo, o orgulho levava os seres humanos a extremos, realmente. Não tivera tempo para descobrir se sua desatenção teria consequências em Ciel, não parecia ter tido, mas tinha sido perigoso.
Não forçaria nada agora, além de ter uma grande lista de tarefas a cumprir, as olheiras que maculavam a pele alva do pequeno lhe diziam que ele estava fraco e seu autocontrole vinha sendo testado há dias demais, simplesmente não arriscaria. Já brincara o suficiente com a comida, não queria estragar o prato. Riu de sua própria piada.
— Qual é a graça? – Ciel rosnou ofendido. Não bastava ter corado por um motivo tão imbecil quanto ser vestido e o mordomo ainda riria dele?
— Sinto muito, Jovem Mestre, me distraí por um momento. – Ergueu o corpo e curvou a cabeça, desfez a risada, mas um sorriso teimoso permaneceu em seus lábios? A graça? Bem ali à sua frente havia muita, e em muitos sentidos.
Ciel estalou os lábios, enraivecido, o mordomo fazia bem seu papel de desentendido, cretino. Pegou o tapa-olho na cama e pôs-se a amarrá-lo sozinho.
— Pois não se distraia mais, tem muito que fazer hoje. – Tinhas as mãos atrás da cabeça na tentativa de dar o laço no cadarço – Mande preparar uma carruagem e leve as... – Atrapalhou-se e uma das pontas escapou — ... as minhas coisas, mas não exagere, porque para todos os efeitos apenas irei passar um tempo em Londres à... – Dessa vez a outra ponta havia escapado — ... serviço. Mas que droga! – Irritou-se e interrompeu as instruções para se concentrar, ainda mais, no que estava fazendo.
Sebastian assistia à cena cômica. O garoto era tão inútil que nem um laço sozinho ele conseguia dar. Suspirou, imperceptível, quando o menino conseguiu fixar o quadrado de pano no olho, estava torto e ele havia amarrado parte do cabelo junto com os cordões, numa embolação total. Encobriu a boca com as pontas dos dedos, não podia rir novamente, o humor do Conde já estava bem ruim sem isso.
Ciel levantou-se da cama confiante, nem tinha sido difícil amarrar aquela coisa, engoliu de uma vez o chá e ignorou as torradas com geleia. Agarrou o jornal e caminhou em direção à porta.
— Ande logo Sebastian. – Apressou o mordomo. — Enquanto arruma tudo, vou falar com Soma de nossa viagem à Paris. – Passou pela porta, depois que Sebastian conseguiu abri-la, e não se preocupou em dar detalhes de sua desculpa ao ver a sobrancelha erguida do demônio.
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O desjejum já estava no fim e os choramingos da loira, que haviam começado quando Ciel anunciara a viagem repentina no início do café, continuavam.
— Ah Ciel, Paris! Eu adoro Paris! Não posso mesmo ir junto? Prometo não atrapalhar, até posso ajudar! Não são coisas fofas e femininas que a empresa vai vender por lá. – Ela juntava as mãos de maneira suplicante, piscando os cílios para o noivo.
— Não Lizzie, por favor, já disse que não. – Tomou o último gole do leite e retirou o guardanapo de seu colo. – Não venderemos nada por enquanto, estou indo para fazer levantamentos e estudos de mercado.
Soma assistia a tudo contente. Ciel iria com ele para Londres, seria tão divertido!
— Mas Ciel, mesmo assim eu podia... – Continuava insistindo, queria muito ir! Paris com Ciel seria um sonho!
— Elizabeth, além de não ser decente viajarmos juntos e sozinhos... – Viu quando a menina abriu a boca para interromper e prevendo o que ela diria, emendou. – Você está certa de que quer entrar tão cedo em um navio? – Terminou a sentença, jogou o guardanapo ao lado do prato e levantou-se sem dirigir o olhar à menina. Fora cruel de sua parte e não gostava de sê-lo com a garota.
Elizabeth estava congelada no lugar, as palavras haviam morrido em sua boca e as mãos, que antes matinha juntas, agora estavam caídas no colo, agarradas ao babado da saia. Baixou a cabeça. Ciel não precisava ter dito aquilo, ela não merecia aquilo. Não merecia ser lembrada do inferno que passara, junto a uma ameaça subliminar de que poderia acontecer novamente. Não, ela não estava pronta para entrar em outro navio, nem agora e, achava, nem nunca mais, mas o faria por ele, com ele! Por que era tão difícil para o noivo entender que tudo o que ela queria era estar com ele! Por que Ciel era tão veemente em afastá-la? Nem sua família importava-se com o fato dela ficar a sós com ele, com exceção de Edward talvez, então por qual motivo ele se detinha nessa questão? Não seria uma desculpa, seria? Não... não podia ser, o Ciel que conhecia não faria isso, não seria cruel a esse ponto. Ele podia estar mudado, mais frio e distante, mas nunca cruel. Talvez ela estivesse sendo mesmo muito teimosa e inconveniente.
O Conde saiu da sala de jantar sem olhar para trás, magoara a menina e não queria ver o estrago que causara. Sabia que as palavras podiam matar, se bem usadas, e era especialista nisso. Tsk.
As grandes portas da mansão já estavam abertas à sua espera, deu ordens para que os servos cuidassem da casa, enquanto Soma e Agni passavam em direção ao veículo. Viu Sebastian atravessar a entrada, com sua cartola nas mãos e parar, para esperá-lo, ao lado da carruagem, contudo quando se virou para sair algo agarrara seu braço e lhe puxara para trás, girou sobre os saltos dos sapatos e foi abraçado pela noiva.
Lizzie era pouco mais alta que Ciel, por isso não fora difícil enlaçá-lo pelo pescoço, encaixou o rosto no ombro do menino e aproveitou os minutos que tinha ganhado por ter pegado o noivo de surpresa. Tinha ficado magoada e triste, mas isso não era nada, não podia ser nada, seu futuro esposo era o Cão de Guarda da Rainha, quais e quantas coisas cruéis ele já não fora e não seria obrigado a fazer, que o magoaria e o deixaria triste? E nem por isso Ciel se escondia, baixava a cabeça e desistia! Sua mãe tinha razão, se queria ser minimamente merecedora do título que viria a receber precisava se tornar mais resistente, determinada, e por isso não deixaria que o Conde saísse dali daquele jeito, ainda mais para uma viagem longa dessa.
— Li-Lizzie... o que você está fazendo? – Que constrangedor! Todos o encaravam com espanto, ou talvez encarassem a ela, mas dava no mesmo. Tentou se desvencilhar da menina de maneira sutil.
Lizzie apertou mais um pouco o menino nos braços até sentir que ele tentava afastá-la, o sangue subiu tão rápido à sua face, que pequenas lagrimas surgiram em seus olhos. Largou Ciel de imediato, puxou os braços pra trás das costas, num movimento nervoso, e deu um passo atrás.
— Ah, foi um abraço de despedida. Não achou que eu ia te deixar sair daqui sem isso, não é? – Disse rindo, tentava disfarçar o constrangimento, mas não conseguia parar de se balançar feito criança.
Ciel não ouviu uma palavra do que a menina havia dito, porque quando ela puxou os braços, o movimento fez seu tapa-olho soltar. Não tinha amarrado aquela porcaria direito afinal. Sentiu os cordões escorregarem por seu rosto ao mesmo tempo de estar consciente de haverem ali pessoas demais. Teria sido inteligente fechar os olhos, mas ao contrário, estavam esbugalhados de espanto. Que explicação daria quando vissem o pentagrama em seu olho opaco. Merda!
Quando o tecido deslizou por seu nariz uma mão enluvada cobriu-lhe os olhos e puxou sua cabeça para trás, a força do movimento fez seu corpo ir junto e o aroma amadeirado invadiu-lhe as narinas quando entrou no espaço pessoal do mordomo. O tapa-olho foi recolocado como num passe de mágica, enquanto algo era encaixado em sua cabeça e seus olhos liberados.
Estava atônito e parado feito um pateta. Lizzie o encarava, todos o encaravam, mas suas expressões não demonstravam nada de aromal. Sebastian estava parado a seu lado e obviamente devia poder ouvir o descompasso de seu coração.
Quando o demônio viu o que acontecia e já era esperado que aquela droga soltasse, devido à maneira desleixada como foi amarrado, voou para o lado do menino e tapou-lhe os olhos enquanto girava a cartola à frente de seu rosto, ganhando tempo. No fim pareceu apenas estar terminando de vestir seu mestre.
— Jovem Mestre, esqueci-me de lhe dar a cartola. – Sorriu de praxe, ainda bem que dera tempo de evitar o desastre. – Espero que me perdoe o descuido. – Curvou-se em respeito apenas para aproximar a boca do ouvido infantil – Foi por pouco. – sussurrou maroto.
Ciel estava gelado, a voz rouca soprando em seu ouvido suspendeu sua respiração por um momento, olhou nos olhos do mordomo, assustado. Sim, fora por muito pouco. Os rostos estavam próximos e ainda sentia o toque da luva em seu rosto. Sacudiu-se mentalmente, Lizzie ainda estava a sua frente, desviou o olhar para ela e tentou parecer zangado, o que, convenhamos, não era difícil em vista de que a confusão fora culpa dela.
— Lizzie! – Se fez de indignado, seu coração antes descompassado pelo susto agora corria um pouco mais pela proximidade do demônio.
— Deixe disso Ciel, foi só um abraço. Não pode brigar comigo por causa disso. – Seria muito triste se ele o fizesse, fora um ato espontâneo de amor.
A menina agradeceu internamente por ele não ter brigado e sim sacudido a cabeça, como fazem os tutores decepcionados com seus alunos ou sua mãe, e virado as costas com um ‘até mais’ acenado. Era pouco, era quase nada, mas ainda tinha o abraço e o perfume de Ciel. Sorriu melancólica.
— Volte logo. – Disse para ninguém, pois o Conde e seu mordomo já estavam dentro da carruagem.
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