Deemo - Nunca Parta Sem Dizer Adeus
9 Você Não Pode Ir...
Há quanto tempo ela estava ali? Talvez alguns poucos dias... Não havia referência de luz solar; na verdade, sempre estivera à noite. O tempo nunca mudava... Como ter exatidão nos cálculos se os dias nem mesmo passavam? O sono no começo era uma referência, mas nem isso bastava. A pequena garota dormia tantas vezes em espaços de tempo que davam a impressão de serem menos de seis horas, que em alguns momentos tinha quase certeza que estava ali há mais de um mês! Mas não fazia tanto sentido assim... Apesar de não haver relógios ou referências naturais, algo lhe dizia que se passara menos de uma semana. Precisamente; seis dias desde sua queda.
A árvore havia parado de crescer após um certo tempo... Deemo tinha tocado uma dúzia de músicas desde as descobertas que vieram depois da valsa, mas não adiantara muito. Era como se ela finalmente houvesse atingido um limite... Não era de se impressionar: Já havia alcançado cerca de cinquenta metros. Estava imensa... Ultrapassava a altura do próprio castelo. Mas como subir mais? Claro... A escadaria depois do buraco no tronco! Como não havia pensado nisso? Num momento de genialidade, a pequena garota escalou toda a árvore novamente para então subir aquelas escadas, mas se decepcionou com o que havia encontrado... Após seguir uma espiral longa e cansativa, chegou num tipo de biblioteca secreta. As estantes nas paredes eram cobertas por cortinas brancas, tornando parte dos livros oculta. De quê importava? A maioria deles era inacessível de qualquer forma; não havia solo que pudesse ser usado para se pisar diante de suas respectivas estantes. Ao lado da entrada para esta parte da torre havia uma vitrina um pouco menor. Não tinha porta ou proteção para os livros. O restante da escadaria; prosseguindo pela pequena biblioteca secreta, possuía um tapete cinza que levava até os portões de ferro mais misteriosos do castelo. Não eram tão grandes... Mas ao menos continham uma fechadura no meio do par de portas, levando a crer que de alguma maneira poderia ser acessível. Não havia janelas, passagens secretas, pontes... Nada... Apenas aquela porta. Trancada...
A pequena garota e Deemo permaneceram neste lugar durante horas e horas... Deemo lia alguns livros e parecia imaginar um piano diante de si. Ás vezes descia até o salão principal para tocar: Sua música ecoava por todo o castelo, mas a árvore persistia em não crescer mais. O que fazer? O que fazer?! A jovem se perguntava isso dezenas e dezenas de vezes enquanto balançava os pés mergulhada num tédio indescritível. Em alguns momentos se cansava de tentar se lembrar de sua casa e do próprio nome para tirar um tempo e brincar com o gato de pelúcia. Tentava ler alguns livros, mas eram incompreensíveis... O conteúdo musical sempre era complexo demais para sua baixa experiência, e algumas partituras davam dor de cabeça. Outros livros contavam histórias infantis... Mas ler por alguns minutos causava um desconforto esquisito no estômago, e um sono esmagador chegava em seguida. Questionar-se sobre o motivo era inútil... Simplesmente acontecia. Como uma ânsia de vômito... Não dava para lê-los.
A pequena garota se encontrava na biblioteca secreta da torre; mergulhada em tédio e sonolência.
‘’Leve-me... Contigo... ’’
‘’Eu não sei... Se eu quero ir... ’’
‘’Partes do passado... São como o fluxo do rio... ‘’
‘’Leve-me... ‘’
‘’Sabes que irei... ‘’
A jovem cantava deitada no chão enquanto balançava para os lados a boneca de gato em suas mãos. Não sabia de onde ou quando havia escutado aquela música... Apenas a cantava; da mesma maneira improvisada e instintivamente perfeita que uma criança comum cantarola Brilha-Brilha Estrelinha. Deemo estava a alguns degraus de distância; lendo mais um daqueles livros complicados e até um pouco chatos. A teoria musical parecia um bicho de sete cabeças... Talvez música não fosse seu forte, pensou a garota. Não tinha paciência para estudos tão severos...
— Qual nome será que eu deveria te dar, hein? — Questionou a menina; olhava para os botões no rosto do brinquedo de pelúcia. Se sentara repentinamente. Tão pensativa... Um nome completamente aleatório fora escavado de sua mente. — Que tal... Mi...
Antes que pudesse terminar de dizer o novo nome de seu amigo mais recente, a pequena garota localizou algo ali no fundo. Como não havia visto antes? Quantas vezes fizera essa pergunta a si mesma, aliás...? Só podia pensar no quão distraída conseguia ser. Havia uma chave dourada na estante ao lado da porta. Se encontrava ao lado do parapeito que dividia a curva da escadaria de uma quedinha dolorosa. Será que aquela chave era capaz de abrir os portões de metal ali em cima?! Descobrir o pequeno objeto reluzente fazia o coração da jovem pular de alegria! Deixando a boneca de gato de lado, a garota correu até o parapeito de madeira e encostou o peito no chão, começando a tentar alcançar a chave que estava sobre a terceira sessão da estante. Não era muito distante, mas o suficiente para precisar de dois braços inteiros para alcançar... Por que tinha que ser tão pequena? Sua cabeça não atravessava o vão entre as madeiras, fazendo com que o comprimento de seu membro não fosse o bastante para que a mão chegasse até a chave. A pequena garota queria muito ser maior neste momento...
A jovem refletiu por alguns minutos antes de ter a incrível ideia de usar meia dúzia de livros para ter altura o bastante e chegar até a chavezinha sem precisar da ajuda de Deemo. Não queria incomodá-lo: Ele parecia tão focado no livro que estava lendo... Já havia passado por dois daquele mesmo tamanho, e havia reservado mais três para ler em seguida. A pequena garota então levou as obras literárias até bem perto da estante, empilhando-as com alguma dificuldade antes de escalá-las cuidadosamente. Cair dali poderia acabar sendo um pouco perigoso: A escadaria não tinha encostos ao seu redor, apenas em cima de onde se localizava a entrada para a parte de baixo da torre, cuja passagem encontrava-se ao lado da tal estante. Ainda assim, a jovem preferia viver no risco: Após subir nos livros, começou a se esticar para tentar alcançar o objeto desejado. Ainda não era o bastante...! Nem ficar na ponta dos pés adiantava, mas era possível sentir a chave sendo empurrada pela ponta de seu dedo do meio. Foi quando; por impulso, ela saltou e se desequilibrou, caindo para trás depois que os livros se separaram.
Antes que o leve corpo da pequena garota se chocasse com o chão, Deemo se aproximou rapidamente e a envolveu em seus braços. Havia sido muito veloz... Como se houvesse aparecido ali imediatamente para salvá-la. Teria sido um tombo e tanto se realmente tivesse chegado ao solo. O pianista solitário deixou-a em pé e depois se abaixou para ficar apenas encarando. Não havia expressões em seu rosto, mas parecia querer dar algum tipo de lição de moral... De fato, havia sido um ato perigoso tentar escalar os livros e alcançar a chave. A pequena deveria ter pedido ajuda.
— O-Obrigada... Deemo... Eu só queria... — A jovem olhou para o alto da estante. Não conseguia ver a chave daquele ângulo... — Queria alcançar uma chave que tem ali em cima.
Deemo fez um sinal com o indicador. ‘’Vire-se’’ queria dizer. A pequena garota ficou de costas para o ser esguio e então sentiu as mãos passando por debaixo de seus braços. Havia sido erguida com extrema facilidade, e bastaram alguns segundos para que ela alcançasse a chave que estava na terceira sessão da estante. Mas que chave estranha, pensou. Numa ponta parecia um tipo de pen-drive... Na outra, tinha o ornamento de uma plantinha; talvez um broto de flor ou coisa do gênero. Tinha um acabamento dourado incrível... Apesar de esquisita, era uma chavezinha encantadora aquela.
A pequena garota correu até a porta misteriosa assim que pôde. Deemo vinha logo atrás; tão suave como sempre. Algo naquela passagem trazia uma sensação estranha à menina... Como se estivesse prestes a fazer uma escolha difícil. Segurar a chave era um peso; um peso maior do que deveria para um objeto tão leve... Olhar o próprio reflexo bagunçado no metal à sua frente dava um frio na barriga. O quão perto de voltar para casa ela estava...? Parecia muito... Muito perto... Mas partir ainda era algo um tanto irreal: Aquele castelo havia se tornado sua nova realidade. Sem se lembrar de sua verdadeira vida, o que tinha ali era a única coisa que poderia com toda certeza chamar de existência.
A ponta retangular da chave dourada se aproximou da porta lentamente...
O coração da pequena garota apertava em ansiedade. Tensão... Medo.
Antes que a passagem se abrisse, a jovem sentiu um toque na manga que cobria seu braço esquerdo. Havia levado um susto como nunca antes; alguém a puxara de repente. Ao virar-se, a menina deparou-se com aquela máscara branca novamente. A pessoa desagradável estava ali... A segurava com violência e sacolejava seu braço como se quisesse arrancá-lo. Não era tão forte... Mas o suficiente para fazer a pequena garota pedir para que parasse várias e várias vezes...
Faixa 01: Leviathan
https://youtu.be/RZj12JMLGLw
Após o quinto pedido, a pequena garota abriu os olhos e se deparou com uma chuva fria e forte. Não estava mais no castelo... Sob seus pés se encontrava uma arena; grande o bastante para que dezenas de guerreiros lutassem. O círculo rochoso e liso se encontrava no meio de um oceano tempestuoso e hostil. Se parecia até com o cenário de um filme de piratas; exceto pelo fato de não haver nenhum. Deemo havia desaparecido, e tornados giravam a poucos quilômetros de distância. A dama mascarada soltou a menina e então se afastou. Seu corpo flutuava pelos ares... Mágica...!
— Não irei deixá-la ir... — Afirmou a entidade enquanto estendia um dos braços para o lado.
A lua azul havia surgido no céu escuro; brilhante como o farol de um carro na madrugada. Sete serpentes negras surgiram por de baixo do manto branco da mascarada, mostrando suas presas pontiagudas e seus olhos dourados. Neste momento, uma base de obsidiana se formou sob a desagradável pessoa. A escritura nela estava numa língua que a pequena garota desconhecia... Em hebraico; leviatã. O monstro do mar... A vilã flutuava pelos ares; girando ao redor da menina em alta velocidade.
— Deemo...! Deemo! — A pequena garota gritava em desespero.
— Ninguém pode salvá-la... Nem mesmo ele. — Disse a dama mascarada, virando-se de costas para a jovem; de frente para a lua.
As serpentes mergulharam na direção do solo, o perfurando como se fossem brocas de diamante. Num instante tudo ficou quieto... Mas quando a dama mascarada removeu o objeto que ocultava seu rosto, as sete cobras surgiram do mar; colossais como basiliscos. Mostravam suas línguas divididas enquanto encaravam a pequena garota de maneira a deixá-la afogada em terror. Havia sido encurralada... Não tinha como escapar.
— Deemo! Socorro!
Ainda sem mostrar seu rosto; olhando para a lua azul enquanto mantinha-se de costas para a jovem indefesa, a dama mascarada deu suas últimas palavras antes de finalmente atacar: — Somente uma de nós pode permanecer no final!
Sem entender o que a ameaçadora dama de branco havia dito, a pequena garota começou a correr aleatoriamente para se esquivar dos ataques das criaturas que vinham em sua direção. Uma delas acabou por morder o chão, enquanto a outra passara direto ao deslizar por cima do solo molhado. Uma outra apenas observava; passiva, enquanto a quarta veio de encontro direto com a menina; batendo o focinho na base rochosa violentamente. Apesar de não ser muito forte, ela era rápida... Rápida o suficiente para se salvar do ataque combinado; não havia se ferido, mas o impacto gerado diante de seu corpo fez com que a pequena garota fosse jogada para trás, rolando pelo chão algumas vezes antes de gemer de dor pela queda. Estava chorando... Aterrorizada...
— Deemo... P-Por favor... — Suplicava a jovem, olhando para as serpentes enquanto tentava se levantar futilmente.
Exato... Deemo não viria ao seu resgate. Deemo não conseguiria chegar tão longe sozinho... Até ali, somente ele havia se esforçado ao máximo. Tocando tantas músicas... Aprendendo novas composições; ajudando-a quando mais precisava... Tudo tem um limite; há momentos onde não se pode depender completamente de outra pessoa, e até o momento em que havia coletado a chave, a pequena garota estivera sendo apenas um fardo... Uma criança frágil que precisava de ajuda para voltar para casa. Era hora de fazer alguma coisa... De demonstrar força...!
A pequena garota decidiu reluzir sua própria coragem ao transparecer seus incompreensíveis sentimentos.
Faixa 02: Marigold
https://youtu.be/SLarKdoXhCk
Quando as sete serpentes atacaram em sincronia, uma cúpula dourada envolveu a pequena garota, forçando a dama mascarada a cobrir novamente seu rosto enquanto se virava lentamente; estava pasma. Lá dentro; protegida de qualquer ameaça externa, a pequena garota sentia algo em seu peito extremamente difícil de descrever... Havia uma razão para retornar. Uma tão grande que poderia explodir em um poder avassalador capaz de destruir toda aquela realidade caótica. Certamente era alguém... Alguém importante. Precisava se lembrar. Não poderia ser parada... Não estando tão perto de voltar para casa...
Durante alguns segundos ela permaneceu estática; deitada em posição fetal enquanto acumulava todos estes sentimentos... Antes de se levantar repentinamente e emanar uma luz tão brilhante que fora capaz de transformar a noite em dia. O mar negro subitamente tomara uma cor clara e extremamente azulada, e a chuva fora interrompida num salto de instantes. Enquanto grandes margaridas surgiam nas costas da jovem, cristais começaram a crescer progressivamente à medida que seus braços se abriam. A força vinha de sua vontade...
A dama mascarada recuou um pouco. — Impossível...! Você não deveria ter poder aqui...!
Uma batalha rápida se iniciou então; as serpentes tentavam atacar a pequena garota por todos os lados, mas não demoravam em perecer para os raios dourados que eram lançados pelos cristais poderosos da jovem. Seus corpos se transformavam em pequenos brilhos que deslizavam pelo ar... Ainda assim, a dama mascarada parecia tão determinada quanto sua oponente. Ao abrir os braços, fez com que metade de todo o cenário voltasse a ser o que era antes, regenerando as serpentes rapidamente. Sete se tornaram quatorze, e quatorze se tornavam vinte e oito assim que derrotadas. Era como uma hydra; impossível de ser abatida sem que seu ponto fraco fosse destruído: A própria entidade.
Num momento de euforia, as duas se aproximaram rapidamente e tocaram na mão uma da outra... Voltando para o castelo num piscar de olhos. Tudo havia desaparecido, e a dama mascarada ainda segurava o braço da pequena garota. O tempo havia parado...? Aquela batalha fora mesmo real? Aquele poder... Havia sido real? Questões temporárias: Agora a jovem estava indefesa novamente, e a pessoa desagradável que há instantes fizera de tudo para matá-la se encontrava quase tão impotente quanto a mesma.
Antes que a briga se estendesse muito mais, Deemo se aproximou das duas e tocou no pulso da dama mascarada, afastando-a da pequena garota lentamente. Não precisava usar a violência... Apenas a convencera através de um mero toque; uma mera iniciativa. A invasora se questionava se os dois já não haviam sido bons amigos algum dia... A mascarada parecia entender as intenções de Deemo, e não precisava de palavras para se comunicar com ele. O pianista de preto tocou na cabeça dela exatamente como fazia com a pequena garota, afagando-a um pouco enquanto a entidade abaixava o olhar, enfim desistindo de seu plano desesperado.
Não havia palavras a serem ditas... Por nenhuma das duas. Após se soltar da mascarada, a menina abriu a porta com a ajuda de Deemo e se viu diante de um corredor claro que a princípio quase a cegara brevemente. Hesitando um pouco, a jovem respirou fundo e andou ao lado de seu companheiro até metade do caminho, onde se virou para fitar novamente aquela pessoa desagradável por alguns instantes. Ela se mantinha lá... Parada; com os braços baixos e o rosto oculto. Como sempre; oculto... Era impossível saber o que se passava pela cabeça dela, e nem mesmo expressões em seu rosto podiam ser interpretadas.
Os ponteiros do relógio pendurado em seu pescoço giravam velozmente em sentido horário.
O tempo não para. Nunca para.
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