Faixa 01: Top Floor
https://youtu.be/yv9mr6ETD5I

O clarão do corredor havia passado para dar lugar ao cenário real por trás daquele branco tão intenso. A pequena garota e Deemo atravessaram uma passagem cujas laterais pareciam ser feitas de um material parecido com o diamante, mas tão lindo quanto... Mais adiante se encontrava o ponto mais alto do castelo: Não o apogeu de uma torre, ou tão pouco um telhado sombrio como a jovem imaginara. Tratava-se de uma sala aberta ao céu escuro; rodeada pelos galhos da gigantesca árvore que brotara lá em baixo. Eles se pareciam mais com os troncos de novas árvores de tão grossos e resistentes. O chão era coberto por um piso que alternava entre preto e azul; reluzente igual a uma jóia. Era perfeitamente liso... A pequena garota podia ver seu próprio reflexo nele enquanto caminhava. No meio desta sala sem teto, então, os dois viram um piano. O terceiro e último piano do castelo virado para uma escadaria flutuante que dava na metade do caminho para uma base que planava a alguns metros de altura de um abismo mortal. Infelizmente uma parte dos degraus estava em pedaços; eles pairavam magicamente em fragmentos pequenos demais para serem pisados.

— Deemo! Veja! — A pequena garota gritou após correr na direção da escadaria e apontar para o alto.

Além da base; bem mais em cima, estava a janela... Tão perto... Mas tão longe. Era impossível de ser alcançada com pulos ou estratégias baratas. A magia do castelo era restrita demais: Somente a dama mascarada podia usá-la ao seu bel prazer. Alcançaria aquela saída com a mesma facilidade que uma criança quebra um graveto. Mas a pequena garota precisaria de algo muito mais profundo do que o controle sobre o que é místico: Coragem para se deixar levar.

— Talvez se tocarmos uma música boa, os degraus se juntem! — Sugeriu a jovem, entusiasmada demais para pensar na escolha que faria a seguir.

Deemo se aproximou do piano lentamente e sentou-se no assento, colocando as mãos sobre as teclas como sempre fazia. No entanto; desta vez, não sabia o que tocar... Bem como a pequena garota havia dito, precisava ser uma boa música. Uma profunda o bastante para refletir sua vontade de ir... Como criar uma música assim do zero? Deemo podia.

O ser esguio fitou a pequena garota de baixo para cima; focando-se em suas expressões e interpretando exatamente o que ela sentia por dentro naquela situação.

Havia sido o bastante. Deemo tinha uma música... Mas pela primeira vez, estava hesitando. Havia se acostumado demais com ela...? Sabia o que aconteceria se ela se fosse, e isso não importava. Mas e ela...? A pequena garota resistiria?

A menina se aproximou do piano com passos silenciosos e ficou ao lado de Deemo, tocando em seu braço antes de olhar para o amigo com uma expressão um pouco triste. — Deemo...?

Não seria certo mantê-la presa ali, e Deemo sabia disso. Era hora de ir... Hora de dizer adeus... E hora de superar o que havia acontecido. O pianista colocou a mão esquerda na cabeça da jovem e afagou um pouco. Sabia que seria a última vez que faria isso... Mas não podia chorar ou esboçar qualquer emoção. Apenas tentara transmitir através de um toque tudo o que sentia...

Assim que a jovem se afastou, Deemo começou a tocar.

Faixa 02: Magnolia
https://youtu.be/Gz83g-82Q9c

A pequena garota começou a olhar para os lados enquanto notava discretas flores surgindo por entre os vãos dos pisos pretos e azuis. Brancas e com pétalas côncavas, desabrochavam diante dos olhos da jovem enquanto outras gêmeas maiores se levantavam no lugar dos galhos da árvore gigante. O lugar não demorou a ficar completamente enfeitado de branco, e até mesmo a escuridão do céu parecia ter desaparecido quando as pálidas pétalas começaram a cair no solo, transformando todo o cenário.

Ao se virar para a escadaria de cristal, a pequena garota notou que todos os degraus estavam inteiros.

Deemo continuava tocando mesmo quando o piano ficara parcialmente coberto com as pétalas de magnólia. A menina correu na direção da rota que usaria para finalmente sair daquele castelo, e começou a subir rapidamente, saltando um degrau atrás do outro até alcançar o penúltimo. Subitamente; quando estava muito perto de alcançar a base que a levaria para o alto, a pequena garota cambaleou para trás por conta de algum tipo de tremor. Uma quantidade maior de pétalas caia ao mesmo tempo em que a menina começava a se arrastar para a plataforma de cristal, esforçando-se muito para poder ao menos tocá-la. Antes que pudesse fazer seu último esforço, algum tipo de força pareceu ter inclinado a escadaria mágica, forçando a pequena garota a entrar numa queda livre para dentro de um abismo aparentemente sem fundo.

Com o rosto para o alto, a pequena garota conseguia ver uma infinidade de pétalas caindo a uma velocidade menor que a de seu corpo. Ainda que fosse uma bela imagem, havia um sentimento perturbador nelas. Num breve momento, seus olhos se fecharam com lágrimas inexplicáveis enquanto o rosto escurecido de uma pessoa aparecia em sua mente. O mesmo rosto de quando tocara na boneca de gato pela primeira vez, só que mais nítido naquele instante. Diferente de antes, não era mais tão assustador... Certamente aquela pessoa; aquele homem, era alguém importante para ela lá fora. Mas por quê...? Quem era ele...? Por que seu coração doía tanto ao vê-lo? Ainda que seu rosto estivesse envolvido numa sombra... A pequena garota sentia que entre os dois havia alguma conexão.

Antes que seu corpo se colidisse com o solo, uma torrente de pétalas o cobriu, fazendo com que ele se fundisse com as partes das flores pouco antes de cair no chão e dançar pelos ares, criando enfim uma esfera de folhas brancas que se separaram após alguns segundos para darem lugar à pequena garota novamente. Seus olhos brilharam ao perceber que agora se encontrava num cenário completamente diferente... O abismo profundo e obscuro a levara até uma planície de extensão infinita; coberta de magnólias níveas sob um céu azul estranhamente enfeitado de estrelas. Diante da jovem havia uma placa semelhante a uma lápide. Suas laterais superiores continham cristais parecidos com os que haviam surgido no momento em que a menina decidira enfrentar a dama mascarada, mas consideravelmente escuros. Como se estivessem mortos... Não brilhavam.

‘‘Είμαστε ξεχασμένοι.’’

‘’Εξαφανίζουμε.’’

‘’Αλλά η αγάπη δεν το κάνει.’’

‘’Σας αγαπημένο φίλε μου.’’

‘’Αυτός που με βοήθησε πολύ...’’

‘’Υπάρχει αγάπη.’’

Aquelas escrituras estavam numa língua que a pequena garota desconhecia completamente. Porém; de alguma forma, compreendia em parte os sentimentos que as palavras passavam. Antes que pudesse refletir um pouco mais, a superfície da lápide começara a rachar subitamente, se quebrando para um portal negro que havia começado a sugar tudo o que havia ao redor. As flores arrancadas do solo e as pétalas que caíam do céu mergulhavam para dentro da escuridão sem poderem resistir... Mas apesar de ter hesitado um pouco no começo, a menina tomou a iniciativa de lutar contra a força sobrenatural que a puxava, começando a caminhar na direção contrária da placa numa tentativa quase desesperada de escapar. Aquilo que a lápide representava... Aquele portal... A puxava para uma ilusão. Uma farsa criada pelo amor. Aquele sonho.

Dezenas de pétalas colidiam com a pele branca da menina enquanto futilmente ela tentava resistir ao poder da lápide. Ao abrir os olhos, no entanto, repentinamente viu a mão de Deemo, e segurá-la fez com que retornasse ao que poderia chamar de realidade. O cenário enfeitado de flores de magnólia havia desaparecido, e novamente a pequena garota pôde ver o piano, o piso reluzente, e os galhos da árvore que crescera no castelo. Ainda de mãos dadas com Deemo, a jovem viu que a escadaria de cristal estava se formando diante de seus olhos... Os fragmentos se juntavam de maneira mágica, reformando o caminho até a plataforma lentamente.

Os dois se olharam um pouco antes de andarem até a escadaria de cristal e subirem a plataforma... Juntos.

Video 01: Going Home
https://youtu.be/xwLdcgri8AY

Antes de colocá-la sobre a plataforma, Deemo abriu os braços para se despedir da pequena garota uma última vez. Para ela não havia a opção de hesitar: A jovem saltou em sua direção já com lágrimas nos olhos e o abraçou com força. Sentir o calor do corpo da menina trazia uma boa sensação ao solitário pianista... Seus pensamentos do que ocorreria depois que ela partisse se esvaíam com o enlace de seus finos braços, mas já estava na hora... O ser esguio a deixou sobre a plataforma e começou a descer para aproximar-se do piano. Com o braço estendido na direção de Deemo, o coração da pequena garota molhava-se numa gota de arrependimento... Estava decidida... Mas uma parte de si não queria partir.

Deemo sentou-se em frente ao piano e olhou para a pequena garota antes de fazer uma última carícia nas teclas brancas.

Faixa 03: Fluquor
https://youtu.be/8uZ0y_lFg5s

No momento em que a música começou, um tremor se iniciou em todo o castelo. Era possível ver as paredes rachando... O piso se abrindo em finas frestas, e até mesmo o piano de cristal começando a se romper. Ao fechar os olhos, a pequena garota sentiu como se estivesse em outra queda livre... Mas esta não era de fato ‘’real’’: Apenas uma sensação interna de seus sentidos. Antes estava na plataforma que a levaria para a janela de onde caíra... Agora, se encontrava em pé numa cozinha. Tudo era um pouco claro demais... Difícil de interpretar no começo... Mas sem dúvidas se tratava de uma casa comum de classe média. Por algum motivo, aquele lugar era extremamente familiar. Aquele fogão... A geladeira lotada de desenhos... E a mesa. Diante dela estava; sentada numa cadeira, a pequena garota... Uma cópia da verdadeira, só que bem mais nova. Ao aproximar-se da jovem de vestido azul, ela hesitou um pouco antes de tentar chamar sua atenção, mas aparentemente estava invisível. Como um fantasma, observava o que a menina estava fazendo...

— Não consigo... — A garota dizia frustrada. Havia uma série de rabiscos num caderno sobre a mesa... Estava tentando escrever algo.

— Qual é o problema, filha...? — Questionou uma voz feminina adulta. Uma mulher alta e de cabelos castanhos longos se aproximou da mesa e começou a olhar os rabiscos da filha. — Ontem você estava indo tão bem...

— É muito difícil... — Seus olhos lacrimejavam. Iria iniciar um choro em breve...

— Tudo bem, tudo bem... Vamos lá. — A mãe cedeu, sorrindo. Logo segurara a mão da garota para poder ajudá-la a escrever.

‘’爱丽丝‘’

Espiar o caderno durante um instante foi o bastante para interpretar o que estava escrito nele: Alice. Alice era seu nome fora daquele castelo... Quando mencionara o país das maravilhas ao chegar no castelo de ferro, por algum motivo não sabia dizer a si mesma qual era o nome do livro. Apesar de também não se recordar bem do que acontecia na história, o nome da protagonista era o maior dos mistérios. Não que fosse relevante na hora... Mas seu próprio nome estivera debaixo de seu nariz o tempo todo. Apenas não podia se lembrar... E aquela era sua mãe. A pessoa que havia dado um nome tão incomum para uma criança que conviveria com nomes chineses durante boa parte de sua vida. Não importava... Sua mãe não era chinesa; apenas seu pai. Naturalmente, havia dado um nome ocidental para a filha, já que adorava ‘’Alice no País das Maravilhas’’.

Tudo ficou branco de repente... Aquele clarão quase cegante havia transportado a pequena garota para outro lugar. Desta vez, um parque. Sob uma grande árvore; Emma, a mãe de Alice, repousava ao lado do marido que mantinha-se lendo um livro de capa grossa. Ela se lembrava deste dia... Era seu aniversário. Haviam comido o bolo e cantado parabéns bem depois de chegarem ali... Se recordava de seu pai ter esquecido o incrível suco de uva que estava na geladeira, e por isso a festinha atrasou um pouco, afinal, alguém precisava ir atrás de alguma bebida, e ninguém mais adequado que a pessoa que havia se esquecido de algo tão crucial... Para passar o tempo, os três haviam brincado de um jogo que envolvia ficar em pé e depois abaixado. O que era mesmo...? Questionou-se. ‘’O mestre mandou’’. Ao lembrar-se do jogo, a pequena garota se perguntou se havia contado direito... Seu pai. Sua mãe. Ela mesma... Mas se seu pai havia saído para comprar algo para beberem, quem era o terceiro parente que ficou brincando com elas sob a árvore...?

Ao virar-se para a parte aberta do parque, Alice viu a si mesma e outra pessoa. Duas crianças correndo em círculos uma atrás da outra. Uma pequena garota de vestido... E um jovem rapaz de suéter branco e calça preta.

Quem ele era...? Seu coração dizia que se tratava de alguém importante, mas Alice não sabia seu nome... Seu coração batia forte ao olhar para a cena. Correndo na direção dos dois, novamente tudo ficou branco, e o cenário mudara novamente. Agora estava num quarto; diante daqueles dois mais uma vez. Apesar de estarem de costas para ela; olhando algo pela janela enquanto se divertiam com um par de binóculos, pareciam estar muito felizes com tão pouca complexidade... Quem era aquele rapaz? Alice se martelava com a mesma pergunta... Sempre que o rosto dele entrava num ângulo favorável, era impossível vê-lo. Um borrão bloqueava qualquer resquício de sua identidade... Diferente de como fora com seu pai; Zhin, um homem de meia idade com rugas no rosto e bochechas um pouco coradas. Olhos puxados; cabelo liso... Não havia dúvidas de quem ele era. Suas memórias ficaram claras assim que seu rosto se tornara visível. Mas o rapaz... Não saber seu nome era como uma tortura.

As expressões curiosas no rosto de Alice mudaram quando tudo ficou branco novamente para o quarto dar lugar a um cenário triste e sombrio. Uma chuva fria caía sobre a terra recém cavada de um cemitério. Duas lápides com os respectivos nomes de seus pais jaziam na frente da pequena garota de preto e do jovem rapaz ao seu lado. Sim... Eles haviam morrido. Houve um momento em que eles partiram... Sua mente tinha bloqueado a razão, e Alice se fechara em seu próprio mundo durante muito tempo depois que eles se foram. Mas não estava sozinha... A pequena garota deixou o guarda chuva cair e se abaixou em prantos. O jovem rapaz então aproximou-se dela e acariciou sua cabeça com ternura. Sorria...

— Vai ficar tudo bem, Alice... — Ele disse. — Seja forte e tudo irá ficar bem... Sempre estarei ao seu lado.

As manchas caóticas no rosto dele então se dissiparam. Os olhos escuros... A pele macia e clara... A forma como ele a abraçava. Como andavam de mãos dadas ao saírem juntos de casa. Como a confortava sempre que a jovem se lembrava daquela tarde chuvosa... As memórias podem se esconder ás vezes, mas quando são geradas pelo amor, elas nunca desaparecem. Todas as pessoas a olhavam com indiferença... Menos seu irmão. Seu melhor amigo... Aquele que estivera ao seu lado o tempo todo. Nos bons e maus momentos... Quando não havia mais esperança. Quando tudo havia desabado...

— Hans... — Alice falou com a voz baixa e falha.

Naquele ponto, a pequena garota havia se lembrado de tudo. Da forma como ele tocava piano para ela sempre que estava triste, de como brincavam juntos quando não havia nenhuma obrigação para se fazer, e das incríveis leituras que realizavam todas as noites. Adoravam olhar as estrelas... Sempre que o céu estava adequado, o faziam. Iam ao parque de diversões em quase todos os aniversários, e juntos montavam a árvore de natal no final do ano. Se fantasiavam sozinhos no dia das bruxas, e compravam uma dúzia de ovos de chocolate na páscoa.

Hans sempre estivera ao lado de Alice. Sempre... Até mesmo em seus sonhos.

A pequena garota voltou ao castelo mágico com lágrimas nos olhos. Absorver todas aquelas informações parecia ter deixado sua cabeça confusa... Mas sabia de tudo agora. De todo o seu passado... Ao olhar para Deemo, notara a dama mascarada ao lado do piano. A entidade a observava estática... Assistia a uma cena que jamais imaginara que ocorreria. Foi então que Alice se lembrou... Como havia chegado ali.

Vídeo 02: Goodbye
https://youtu.be/HnicopO6WDA

Ao fim da música, Deemo transformou-se em Hans. Aquele rosto inexpressivo e apático deu lugar ao sorriso calmo de seu querido irmão. Bastou então um piscar de olhos para que Alice se lembrasse do que ocorreu naquele dia... No dia de seu último aniversário com Hans. A pequena garota se recordou de como haviam chegado ao parque de diversões... Não estava muito cheio. Não fazer aniversário nas férias estudantis tem suas vantagens, e era uma terça-feira... Uma calma e agradável terça-feira. Hans havia lhe feito uma surpresa... Enquanto a irmãzinha aproveitava um dos brinquedos giratórios do parque, saíra de fininho para comprar algo. Quando voltou para encontrá-la na saída da atração, trouxe consigo um pequeno presente... Um gato de pelúcia.

— É um prazer conhecê-la, Alice! Feliz aniversário! — Hans disse com uma voz engraçada; fazendo um enorme esforço para não parecer estar falando, mas não era um bom ventríloquo... Movia um dos braços do brinquedo para fazê-lo interagir, e por mais que fosse um irmão meio bobo, Alice ficara encantada com o gato... Não podia ter animais graças a uma alergia de família. Aquele era melhor o presente possível... — Meu nome é Mirai! A partir de agora, seremos amigos para sempre!

A pequena Alice mal conseguia se controlar. Havia abraçado a boneca de gato e então falado olhando para seus olhos feitos de botões como se fossem de verdade: — Obrigada...! Você é minha amiga agora... Mirai!

Tudo terminou tão rápido... Quando Alice notara, Hans havia entrado na frente de um caminhão desgovernado para protegê-la de uma morte rápida e certa. Se pudesse, teria evitado os ferimentos da irmã completamente... Mas acabou conseguindo apenas bloquear parte do impacto. Quando acordara, Alice havia se visto apenas como uma pequena garota... Uma frágil criança que precisava por algum motivo voltar para casa. A resposta; a razão pela qual precisava voltar, estivera o tempo todo diante de seus olhos: Deemo. Mesmo que Hans tivesse se sacrificado para salvá-la... Ele iria querer que ela saísse dali. Do sonho que gerara uma falsa realidade.

Com os olhos molhados, a pequena garota fitou a pessoa desagradável ao lado de Deemo e finalmente descobriu sua verdadeira identidade. Ao tirar a máscara, a dama de branco revelou ser na verdade a própria Alice... Aquela que estivera o tempo todo impedindo a pequena garota de voltar para casa fora na realidade ela mesma. A parte mais básica de sua personalidade... O lado incapaz de aceitar a morte de Hans. O sacrifício do próprio irmão. Voltar significaria deixar de lado o poder sobre aquele lugar... Significaria voltar ao mundo real e viver sem ele. Apesar de ser muito difícil compreendê-la naquele momento, a jovem entendia sua escolha. Uma escolha gerada pelo medo e dependência. O mesmo alterego que impediu que Alice superasse completamente a morte dos pais...

A dama mascarada olhou para Alice com uma expressão indiferente, sentindo no fundo de seu coração, uma profunda inveja.

Enquanto a plataforma de cristal subia na direção da janela, o alicerce do castelo finalmente mergulhava no abismo sem fim. Tudo estava se quebrando... As paredes e torres caíam, enquanto a árvore se desfazia em pequenos fragmentos escuros que logo se tornavam inexistentes. A pequena garota viu Hans desaparecer diante de seus olhos enquanto dizia adeus pouco antes de a jovem finalmente se virar e aceitar a realidade. Apesar da dor e sofrimento, decidindo seguir em frente com sua escolha...

‘’Adeus, minha amada irmã; Alice.’’

Aquelas palavras pareciam ter sido proferidas em seu ouvido antes de a jovem abrir os olhos. Sua cabeça doía um pouco... Especialmente atrás. Havia um curativo em sua bochecha, e uma máscara de oxigênio em seu rosto. Aquilo era um hospital. A luz do sol passava pela janela e esquentava apenas um lado de seu corpo. Era possível escutar o som do vento batendo nas árvores... Das buzinas dos carros... O bip da máquina de pulso. Ao olhar para a tela de uma televisão na parede do quarto; de frente para a cama, era possível ler: ‘’Hospital Nacional da Universidade de Taiwan’’. Por quanto tempo esteve ali...?

— Hans...! — Disse com a voz fraca por conta da garganta seca.

Alice se levantou rapidamente e removeu todos os aparatos médicos que estavam ligando seu corpo à máquina ao lado da cama, correndo até a janela sem qualquer tipo de hesitação. Ao apoiar-se no parapeito, pôde ver o movimento da cidade... Os prédios. As casas. Os carros, as pessoas... Mas não seu irmão. Aquele seria o preço que pagaria ao voltar. Aquela era a consequência de sua escolha. Alice jamais veria Hans novamente... E sabia disso.

A pequena garota agachou-se e começou a chorar... Mas Deemo não estava ali para confortá-la.

Após alguns instantes chorando, a pequena garota se virou para a cama novamente e notou que Mirai estava sentada ao lado de um tipo de papel sobre a mesa. A jovem limpou as lágrimas e se aproximou lentamente, pegando o que parecia ser uma carta. Hans sempre escrevia cartas para ela em seus aniversários, mas naquele último não havia tido a chance de entregar alguma. Ao desdobrar a nota; aparentemente aquela mesma ilegível que estava na parede da biblioteca da dama mascarada em seu sonho, começou a lê-la.

‘’Para Alice’’

‘’Feliz aniversário, Alice.’’
‘’Como você está? Se divertiu hoje? Eu espero do fundo do coração que sim. Espero também que goste da Mirai; quando eu não puder estar com você, será ela quem lhe fará companhia. Quero que você cresça cada vez mais e mais. Que seja mais forte a cada dia, e mais gentil também. O tempo passou depressa. Você já está com sete anos! Fico orgulhoso de você, Alice.’’

‘’Seja sempre uma flor cada vez mais bela.’’

‘’Eu te amo.’’

~Hans

A carta ficou molhada de lágrimas. Alice abraçou o pequeno papel e Mirai como se estivesse segurando seu próprio irmão.

— Obrigada...

Notas finais
Tradução para a escritura em grego da lápide de Magnolia: "Nós somos esquecidos". "Nós desaparecemos". "Mas o amor não." "Meu querido amigo" "Quem me ajudou muito ..." "Há amor."