Faixa 01: Tristesse
https://youtu.be/YTkHm4xhbGw

Uma das muitas obras famosas de Frédéric Chopin tocava no palco lá em cima enquanto a pequena garota caminhava para fora do box do banheiro lentamente. Seu corpo estava ali... Mas sua mente parecia viajar para longe: Além da compreensão do que são as palavras ‘’dor’’ e ‘’força’’. Seu cabelo estava bem penteado; o vestido parecia novo; os sapatinhos pretos reluziam de acordo com o ambiente... Ainda assim, algo não estava certo. Alice não estava pronta... Pronta para tocar aquela música. Na frente de tantas pessoas, sentiu que fracassaria em passar adiante a única obra musical que Hans havia de fato criado e deixado para trás... Talvez fosse um peso grande demais para uma criança de doze anos carregar... Ainda que já tivesse se despedido de seu irmão há cinco, aquele impasse era persistente quando se tratava de performar diante de outras pessoas. Talvez mesmo depois de tanto tempo não tivesse sido realmente capaz de superar a perda... Não totalmente.

Alice olhou para as próprias mãos e viu que estavam trêmulas. Havia uma razão para ficar tão nervosa. Após alguns meses depois de acordar no hospital, a pequena garota decidira seguir os passos de seu irmão. Se tornar uma grande pianista. No começo não foi nada fácil... Além de não ser tão boa como Hans, Alice mal conseguia olhar para o instrumento sem lembrar-se de seu melhor amigo. No entanto, a coragem a fez seguir adiante... Pensar que seria a vontade de Hans. Ele sempre tentou ensiná-la, e certa vez disse que seu maior desejo era vê-la num palco... Que trocassem de lugar. E ali estava... Mesmo sem seu querido irmão aguardando para ouvi-la; tentando forjar um legado.

A pequena garota começou a lavar as mãos com um pouco de pressa, e ao olhar-se no espelho, se deparou com uma dama mascarada e de capuz.

Alice deu dois passos para trás rapidamente, molhando um pouco seu belo vestido azul com a água que se espalhou por todos os lados. Havia se assustado tanto com aquela imagem no espelho que quase sentira o coração escapar através da garganta... Há cinco anos estivera de frente com a personificação de seu alterego. Não esperava encontrá-la novamente... Ainda mais no mundo real. A pequena garota esfregou os olhos sabendo que aquilo não passava de um sonho lúcido, mas não adiantara. Não poderia acordar se já estivesse acordada.

— Você sempre se assusta com qualquer coisa. — A entidade de branco afirmou; estática do outro lado do espelho. A pequena garota tentou se aproximar e tocar na superfície de vidro... Era sólida. — Não finja estar tão impressionada. Você me trouxe aqui.

Novamente a jovem se afastou de maneira repentina. — O-O quê...?

— Você sabe do que estou falando.

Um silêncio se espalhou pelo banheiro. Ainda era possível escutar a música que sendo tocada no palco; a performance de um pianista que seguia perfeitamente os tempos criados pelo compositor original. Alice refletiu por alguns instantes antes de perceber que realmente havia trazido a dama mascarada para a realidade. Sabendo quem ela era, tinha noção também de sua importância. Afinal, uma pessoa só é completa ao juntar suas duas partes. Os dois lados da moeda são o que a formam. Alice precisava dela.

— Eu preciso da sua ajuda. — A pequena garota disse; mais séria que o de costume.

— Você treinou esta música durante dois anos... Não acha que deveria ter um pouco mais de orgulho e tocá-la sozinha? — A mascarada questionou friamente.

— Não consigo...! — A jovem encostou-se no lavatório e abaixou a cabeça. Sua mente imaginava um turbilhão de terríveis situações que poderiam ocorrer caso não tivesse um bom desempenho lá em cima. ‘’Eles vão rir de mim’’ pensou. — Não sou... Boa o suficiente. Por favor... Eu preciso de você. — Completou a olhar para a máscara branca com uma expressão triste.

— Você deveria me odiar. — Afirmou a mascarada enquanto virava seu rosto para o chão.

— Eu não poderia odiá-la... — A pequena garota respondeu. Sorria... Da mesma maneira que Hans quando perdoava seus pequenos erros na infância. — Afinal... Você é eu.

As duas ficaram caladas por alguns segundos até a dama de branco remover sua máscara. Aquela era Alice... Com os mesmos olhos cor de caramelo; os mesmos longos cabelos castanhos; a mesma pele branca... Mas com uma expressão vazia e fria. Quase morta... Um outro lado de sua personalidade.

— Algo em você mudou. — Disse a garota no espelho. — Apesar de precisar da minha ajuda... Você parece mais forte.

— Alice! — Gritou uma voz feminina no corredor. Aquela era a tia Mary... A perfeita reprodução de Tristesse havia acabado. Já estava quase na hora de entrar... — Daqui cinco minutos será a sua vez!

— Tocar piano só irá lhe trazer sofrimento. — Seu alterego disse; encarando-a com sinceridade.

— A tia Mary disse que todo bem vem com um sacrifício... — Respondeu Alice.

— ... — A dama de branco ficou calada por um instante. Sabia muito bem do significado de um sacrifício... Nenhum objetivo pode ser alcançado sem que algo seja dado em troca ao destino, e sua máscara era uma prova disso. — Talvez ela esteja mesmo certa. — Concluiu. Não haveria razões para ignorar tal pedido... Afinal, era por uma razão nobre. Uma que a mascarada jamais conseguiria perseguir sozinha. — Irei ajudá-la. Pelo nosso irmão...

Alice sorriu. — Obrigada...! Obrigada!

De repente, Mary entrou no banheiro feminino. Alice tomou um breve susto; afinal, estava falando consigo mesma num espelho... Uma mulher de curtos cabelos loiros e roupas semiformais. Apesar de alta, possuía um corpo esbelto e sem muitas curvas. Tinha aproximadamente a mesma idade que sua mãe teria caso ainda estivesse viva... Cerca de cinquenta anos. Mary era uma grande amiga da família; especificamente de sua mãe. Havia prometido cuidar dos irmãos caso algo acontecesse, e ela fora a pessoa que auxiliara Hans e Alice durante o tempo em que estiveram de luto por seus pais. Com a partida do irmão de Alice, Mary tornou-se sua única companhia, cuidando da menina e a apoiando em todas as decisões que tomasse.

— Alice...! Por que ainda está aqui?! — A mulher se aproximou da pequena garota abaixou-se um pouco. Como sempre, se preocupava demais com Alice... Começou a secar seu rosto com um lenço, já que a jovem havia molhado um pouco os olhos quando os esfregara. Aparentemente Mary não podia ver a pessoa no espelho... Como poderia? — Você está bem...? Com quem estava falando? — A loira olhava ao redor em busca de alguém, mas ali só estavam as duas.

— Uhm... Com ninguém! Eu só estava... Pensando alto. — A garota respondia sorridente. Ao fitar o espelho, notou que a outra Alice ainda estava lá... — Eu já estou indo, tia... Só preciso de um minuto.

Mary olhou nos olhos de Alice e então suspirou, se levantando em seguida. — Se não quiser fazer isso, está tudo bem... Ok? — A pequena garota assentiu em resposta. A loira então caminhou para fora do banheiro e a olhou antes de sair. — Te vejo lá em cima... Em um minuto.

— Em um minuto. — Repetiu Alice. Após confirmar a partida da tia, virou-se para a jovem no espelho e encarou-a fundo nos olhos. — Quero te pedir mais uma coisa...

— ...

As duas se fitaram por um momento antes de terem a última conversa e Alice sair do banheiro na direção do palco. Assim que subiu o lance de escadas, a pequena garota ficou diante da entrada lateral da grande plataforma. A enorme cortina vermelha ainda bloqueava a visão do piano de calda que se encontrava no centro do proscênio. Mary também estava nervosa... Apesar de tentar disfarçar com movimentos de corpo depois de tomar um gole da água que tinha em seu copo, ás vezes ficava muito claro em seus olhos a tensão de ser a tutora da pianista mirim que iria se apresentar em menos de dois minutos. Já Alice... Mal podia esconder. Suas perninhas tremiam enquanto o coração batia depressa. As mãos ás vezes repetiam os movimentos mais difíceis da música, reforçando todo aquele treinamento de dias antes da apresentação. Saber que seu outro lado faria o possível para ajudá-la acalmava um pouco sua mente... Mas ainda assim, não tinha como não cair em ansiedade.

Enquanto aguardava, Alice olhou para o canto onde havia deixado Mirai, se lembrando de como se sentia mais calma ao abraçá-la. O último presente que seu irmão havia entregue era tão especial que mesmo após cinco anos continuava como novo. Aquele brinquedo de pelúcia parecia infantil demais para ela... Mas Alice não se importava. Caminhou até Mirai mesmo assim, abraçando-a com força da mesma maneira que faria com Hans se ele estivesse ali. Será que ele estaria a observando de algum lugar...? Onde quer que fosse, com certeza estaria... Hans prometeu que viria à sua primeira performance. Promessas assim sempre são cumpridas.

Um homem alto, barbado, e de camisa branca se aproximou de Mary. Havia falado algo perto do ouvido dela... Alice não conseguiu escutar o que era, mas só de ver o olhar dos dois, já sabia do que se tratava. Os trinta segundos antes de as cortinas se abrirem... Ciente disto, a pequena garota caminhou até a tia pouco depois de o homem se afastar. Não conseguia soltar Mirai... Seu coração ainda batia rápido, embora suas pernas tivessem parado de tremer.

— Você está pronta? — Questionou a mulher com um sorriso agradável.

Alice hesitou em responder... Continuou agarrada à boneca por alguns instantes, até finalmente entregá-la a Mary e assentir sorridente. — Sim!

As cortinas então se abriram. Aquela sensação de inferioridade diante do palco era algo que parecia poder esmagá-la como um balde gigante de água fria caindo sobre sua cabeça. A pequena garota caminhou para perto do piano enquanto era aplaudida por dezenas e dezenas de pessoas... Quanta gente tinha ali...? Era melhor não saber. Evitando olhar para eles, a jovem apenas se sentou no assento do instrumento e respirou fundo. Suas mãos estavam tremendo novamente... Por quê? Logo naquele momento...! Se continuasse assim, não poderia tocar. Nem mesmo a primeira nota iria alcançar os ouvidos deles... Isso durou até Alice ouvir uma voz em sua cabeça:

‘’Feche seus olhos’’ disse a dama mascarada.

Faixa 02: Living in The One
https://youtu.be/qJgWWygWSFQ

Ao fechar os olhos, a pequena garota pôde ver um cenário completamente diferente. Um infinito mar de águas rasas e cristalinas se estendia ao horizonte. O piano; antes um Yamaha preto no estilo clássico, havia sido substituído por um modelo branco bem mais moderno. Diante dele, a mesma árvore de seus sonhos... A árvore que realizara seu desejo de voltar para casa. As frutas douradas aos poucos se tornavam brilhos esféricos que dançavam pelo ar como se fossem divertidas borboletas. Alice não sentia mais qualquer ansiedade. Aquele lugar não era um palco... Era sua própria mente. Seu refúgio. A dama mascarada estava ao seu lado... E as duas começaram a tocar por mero instinto; sem errar uma nota sequer. A melodia se espalhava pelo cenário como o canto de um pássaro... Tão natural que parecia se fundir com tudo ali presente.

Ao fim da música, a pequena garota olhou para o lado e viu Hans. Seu próprio irmão... Bem diante de seus olhos. Tão real quanto no dia do acidente, ele sorria orgulhoso. A música que havia criado não ficara apenas no papel... Alice a dera vida. A jovem pôde ouvir os aplausos como sons distantes que ecoam através de longos corredores cavernosos.

— Obrigado... Alice. — Hans dissera antes de desaparecer junto com toda a fantasia que a mente da pequena garota havia criado.

Não existiam palavras que pudessem descrever a beleza da música de Hans sendo reproduzida pelos dedos gentis de sua irmã. Muitos dos espectadores se levantaram para aplaudir a incrível performance da pianista mirim, que no começo mal sabia como reagir. Alice se lembrou das apresentações de seu irmão, e levantou-se após alguns segundos estática, curvando-se diante do público enquanto algumas lágrimas escorriam em seu rosto. Aquela sensação de ter concluído algo... De ter finalmente chegado aonde deveria chegar... A autorrealização... Não tinha preço.

Faixa 03: Alice Good Night
https://youtu.be/pVttBOgg7XE

Após sua breve primeira grande apresentação, Alice voltou para casa com Mary já durante a noite. Haviam jantado num restaurante simples para poderem comemorar aquela grande vitória. O grande primeiro passo em sua vida como pianista. Ao entrar em seu quarto, a pequena garota caiu na cama tão sonolenta como nunca. Sua mente mergulhou numa serenidade sem igual. No fundo de seu coração, sentia uma grande felicidade. Onde quer que estivesse... Hans estava muito orgulhoso.

Ao fechar os olhos, a pequena garota pôde ver a entrada de um castelo de metal coberto por uma enorme árvore de folhas verdes.

— Seja bem vinda de volta... Alice!

Notas finais
Meus agradecimentos à Rayark; por disponibilizar este jogo incrível que infelizmente não é muito reconhecido no Brasil. Obrigado a você; leitor, que chegou até aqui. Só de tê-lo eu fico muito grato. Se possuir amigos, colegas, ou fizer parte de comunidades de pessoas que gostem deste tipo de leitura, por favor, espalhe por aí. É a única coisa que posso pedir depois de terminar o trabalho :) ''Deemo - No Mundo Que Você Deixou'' estará disponível no meu perfil em breve. A história irá contar mais sobre o passado; especificamente contará a história da dama mascarada antes de a pequena garota aparecer, e o que aconteceu com ela e Deemo depois que Alice partiu. Eu consideraria esta mais chocante que a primeira, então caso tenha gostado de ''Nunca Parta Sem Dizer Adeus'', fique de olho no meu próximo e último trabalho sobre Deemo. Mais uma vez, obrigado por ler. Até breve. :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!