A música que a criatura tocava parou subitamente quando a janela no alto do salão mágico se abriu. Não havia sido uma parada delicada... Mas a explicação para isso estava diante do que os olhos pálidos da criatura viram: Uma garota em queda livre; aparentemente desacordada. Conforme a luz lá no alto ficava mais intensa ao ponto de se comparar a um holofote, a velocidade em que a criança caía diminuía progressivamente, até a criatura abrir suas mãos e posicioná-las exatamente sob a base superior do piano, onde a menina provavelmente cairia durante um pequeno, porém doloroso, impacto. Ele havia a salvado... Mas por que ela estava ali?

A pequena garota abriu os olhos e se deparou com uma imagem nada familiar. Sua cabeça era como um círculo desenhado à mão usando um daqueles compassos escolares cujo lápis fica preso no lugar de uma das pontas... Mas totalmente pintado de preto; nem um pouco natural. Seus olhos se pareciam com dois vórtices brancos quando encarados de perto: Suaves e amigáveis. Mas a criatura não tinha boca ou nariz... A primeira coisa na qual a garota pensou sobre isso foi: Como ele respira? Talvez nem mesmo respirasse, afinal. O ser era grande o suficiente para segurá-la como se fosse um bebê, embora, na realidade, a garota mais parecesse possuir cerca de sete ou oito anos de idade. Seus cabelos castanhos; longos e repicados, eram sua marca mais forte. Uma bela franja cobria toda a testa dela, impossibilitando a criatura de ver suas sobrancelhas. Entretanto, apenas o ato de fitar aqueles grandes e intensos olhos escuros era mais do que o suficiente para saber tudo o que ela sentia. Suas roupas eram simples como as de qualquer criança: A jovem usava um vestido branco de um tecido tão leve e confortável quanto a primeira roupa de um bebê. Seus sapatinhos eram vermelhos, e ficavam abaixo de uma meia calça preta que se estendia até os shorts por baixo da roupa clara. Ela tinha um laço perto do pescoço; um pouco abaixo, e usava um par de luvas descoloridas feitas de um tecido frágil e agradável.

A pequena garota não estava assustada.

Seus olhos inocentes refletiam um misto de confusão e soledade. A criatura colocou a garota sobre o piano, e ela ficou algum tempo olhando para baixo até finalmente analisar o indivíduo de pele escura como um todo. Era esguio... Seus dedos tinham finais pontiagudos, mas a gravata branca em forma de borboleta passava uma sensação amigável. A falta de expressão não trazia à garota um incomodo: Como ele poderia ser assustador se sequer era capaz de fazer uma careta? Uma lógica engraçada de se aplicar, de fato... Mas a verdadeira questão não era exatamente esta.

— Ahm... — A jovem tentou dizer algo... Mas se atrapalhou em alguns pensamentos antes de conseguir formular a pergunta: — Onde... Onde eu estou...?

Não. Ela não conhecia aquele lugar... Apesar de alguns aspectos dele parecerem familiares; como o piano, a água cristalina, e as vitórias régias, ela nunca esteve ali. A pequena garota esperou uma resposta do estranho engravatado... Mas ele apenas olhou ao redor e nada respondeu. Manteve-se em pé e estático depois disso.

— Ah... Você não pode falar, não é mesmo? — Questionou a menina, aguardando uma resposta mais gestual. Obteve-a: A criatura negou com a cabeça, logo em seguida olhando para cima. Ele encarou a janela aberta por alguns instantes antes de voltar a fitar a ‘’invasora’’ do castelo. A garota fez o mesmo, tendo analisado o lugar de onde caiu por um momento. Sem dúvidas era uma queda e tanto... — Eu... Vim de lá...?

Não havia absolutamente nada visível atrás daquela pequena janela: Apenas uma luz incessante... Quase cegava aos olhos quando apreciada por muito tempo. Afinal, o quê havia lá? Neste momento, a garota finalmente notou... Ela não se lembrava de basicamente nada sobre sua própria vida.

‘’De onde eu vim?’’ ela se perguntava.

‘’Qual é o meu nome...?’’

Após abaixar a cabeça mais uma vez, ela tentou se lembrar... Aonde vivia? Um país... Uma cidade... Um bairro... Não havia nada por trás destas palavras. Qual era seu nome? Ela simplesmente não sabia dizer. Sua própria identidade repentinamente tornou-se um mistério... Era como se houvesse a perdido em algum lugar de seu cérebro para nunca mais ser encontrada. Mas por que...? Por que ela não se lembrava? Por que estava naquele castelo? Como acabou caindo ali? As perguntas pareciam ser muito complexas para se achar uma resposta, embora na realidade fossem extremamente objetivas e simples.

A pequena garota se sentiu triste e confusa.

— Eu não me lembro de nada. Nem de onde eu vim... — Ela juntou um pouco mais as pernas e fechou as mãos com força. Era uma sensação terrível... Ser incapaz de saber o próprio passado. — Isso é estranho... — Disse num tom de voz mais baixo; um pouco choroso.

De repente, a criatura levou sua mão direita até a menina. Não esboçava nada... Mas aquela ação passava a ela certo conforto: Ele acabara de se oferecer para ajudá-la. A jovem olhou nos olhos da criatura e tentou interpretar o que a mesma queria dizer...

— Você vai me ajudar a voltar pro lugar de onde eu vim? — A pequena garota perguntou; apenas para ter certeza. A criatura assentiu, confirmando o que ela imaginara.

Alguém uma vez dissera a ela para não confiar em estranhos... Mas de alguma forma, aquele ‘’estranho’’ não passava uma sensação ruim. Ele não parecia ser mau... Não aos olhos da menina. No final das contas, fora ele que havia a salvado... Então a garota não teve motivos para não confiar no engravatado. Após hesitar um pouco, ela levou sua pequena mão até a dele, repousando-a sobre seu anelar e o dedo do meio. A diferença de tamanhos era tão grande que chegava a ser algo um tanto absurdo, mas mesmo ele não sendo um humano, até então estava sendo tão gentil e amigável quanto um.

— Obrigada... — Ainda que não possuísse memórias de seu passado, ela teve uma boa educação, e precisava agradecer a qualquer um que a ajudasse. — Qual é o seu nome? — Alguns instantes se passaram... E ela finalmente se lembrou. — Ah, eu me esqueci... Você não fala. Bem, meu nome é... — Mais um intervalo de silêncio caiu sobre eles... E mais uma vez ela havia se lembrado. — Ah... Eu esqueci que não me lembro qual é o meu nome...

Que situação constrangedora. Bom, seria constrangedora se ela não fosse apenas uma criança. A criatura inclinou a cabeça, e a garota deu uma risada rápida de seu próprio erro. Acabou mexendo os pés um pouco... O suficiente para descer o esquerdo e logo em seguida o direito de maneira um tanto sincrônica, mas completamente não intencional. Naturalmente, ao atingir as duas teclas brancas do piano, acabou gerando duas notas rápidas: Fá e Dó.

— Ah...! Desculpe! — A pequena garota disse, indo um pouco para trás. A criatura não teve reação... Não parecia se preocupar tanto assim se ela encostasse com os pés nas teclas do piano. Talvez aquele em especial fosse mais resistente que pianos comuns... Os dois ficaram calados por alguns segundos, até que a jovem teve uma ideia. — Que tal... Deemo...? — Sugeriu a menina, colocando as pontas dos pés novamente naquelas duas teclas. O som combinado das duas notas; dando um pouco mais de força na primeira, se parecia com o nome que ela mesma havia criado: Deemo. A criatura não correspondeu... Mas também não negou. — Você gosta? — Ela perguntou. O estranho engravatado assentiu, e então este tornou-se seu novo nome. — Deemo... Deemo! Deemo é um ótimo nome! — A jovem reforçou de maneira animada.

Deemo ajudou a pequena garota a descer do piano, para que logo após ela olhasse ao redor... Aquele lugar era mágico e incrível, mas... Ela sentia que não deveria estar ali. Apesar da momentânea animação ao criar um nome tão maravilhoso para o estranho que a havia salvado, ela ainda sentia aquele aperto no peito. O de não saber o próprio nome ou de onde vinha... Afinal, como ela chegaria até lá em cima? Mesmo com a ajuda de Deemo... Como sair daquele lugar e voltar para casa? Se ela fosse como um daqueles vagalumes gordinhos, poderia alcançar a janela voando... Mas bater os braços não adiantaria, e não importaria o quão alto pudesse pular, jamais seria o bastante para sair dali... A pequena garota perdeu o brilho nos olhos e abaixou a cabeça. Só podia pensar em voltar para casa; mesmo que estar ali pudesse ser uma experiência divertida, em alguns aspectos. Saber que estava ali forçadamente tirava toda a magia da coisa.

Deemo abaixou-se por um momento. Ajoelhado, tocou o queixo da pequena garota levemente, fazendo-a levantar a cabeça e encará-lo nos olhos. Por algum motivo, sua presença a acalmava... O pianista acariciou-a sobre o cabelo, e então sentou-se rente ao piano. Sua postura era perfeita; coluna reta, ombros relaxados, e braços semi abertos. Seus dedos estavam posicionados com as pontas para baixo; relaxados, porém prontos para começarem a tocar. Um pouco surpresa, a garota não sabia o que esperar daquele momento... Mas presenciar aquela cena trazia uma sensação incrivelmente boa. Como se algo maravilhoso estivesse prestes a acontecer... Toda a aflição da menina rapidamente fora esmagada por uma imensa curiosidade, até que a primeira nota fora tocada.

Faixa 01: Wings of Piano
https://youtu.be/PMhWCD6u4fA

Quando Deemo começou a tocar, as paredes escuras do castelo começaram aos poucos a desvanecer. Aquelas mágicas chamas douradas se apagaram como se um vento as levasse para longe, e a água cristalina ao redor do piano mostrava sinais de movimento. A pequena garota girou ao redor de si ao presenciar uma cena de pura magia: O cenário se transformava conforme a música, dando lugar a um céu azul repleto de nuvens branquinhas e em formatos diversos. Quando finalmente toda a construção ao redor do piano se transformou em centenas de pequenos fragmentos brilhantes que voavam na direção que o vento soprava, a jovem pôde ver que a base branca na qual o piano repousava também desaparecera. Era como se ela, Deemo, e o instrumento musical, flutuassem pelo ar... Estavam viajando numa direção só; sem rumo aparente, numa velocidade alta o bastante para se comparar a um carro numa estrada expressa. A vista incrível não permitia que ela sentisse medo. Lá em baixo; sob as nuvens e eles dois, havia o mar; calmo e sereno... Todo um universo para variadas espécies de animais marinhos de todos os tamanhos.

A pequena garota sentiu-se como se estivesse viajando até o céu.

Ao olhar para o lado, ela percebeu que o piano havia mudado; não era mais branco e com formatos gentis e arredondados, mas como um clássico piano de cauda preto. As penas que voavam para todos os lados vinham das costas de Deemo, que repentinamente abriu asas no meio da música. Apesar de estarem completamente paradas e perdendo algumas penas a cada instante, elas eram lindas... Não como as asas de uma pomba ou como as de um gavião. Não haveria ave que pudesse ter asas tão magníficas e cheias de plumas como aquelas. Era como num sonho...

A pequena garota sentiu-se como se estivesse olhando para um anjo.

Assim durou até o final da música, quando a velocidade que os dois atingiram foi alta o suficiente para fazer com que tudo ficasse difícil de enxergar. O vento forte fazia a garota colocar o braço na frente do rosto, e ambos entraram numa luz que parecia nunca se apagar. A jovem sentiu uma profunda serenidade: Como se pudesse chegar até o topo daquele salão e alcançar a janela para retornar de onde veio. Havia determinação em seus olhos... No entanto, depois de tudo aquilo, seu corpo parecia cansado. Certamente antes da música não poderia dormir... Não com tantos pensamentos aflitivos em sua mente. Mas aquelas asas jogaram todos eles para longe; espantando as sombras e acalmando a dor... Assim, a pequena garota conseguiu fechar os olhos e dormir ali mesmo; encostada numa das pernas do belo instrumento de teclas.

Com um sorriso no rosto, a pequena garota sonhava com as asas do piano.

Notas finais
Se você leu e chegou até aqui, muito obrigado. Ficarei feliz com qualquer comentário sobre a forma como ocorre a narrativa. Como a história é muito interpretativa, a forma como ela é desenvolvida é diferente do que eu costumo escrever. Eu gostaria de saber: Você acha que este foi um bom trabalho? Novamente, obrigado por ler, e até o próximo capítulo.