A pequena garota abriu seus olhos lentamente. Havia caído num sono profundo... A princípio, mal podia se lembrar do que havia acontecido antes de adormecer, mas logo assimilou os fatos ao se levantar. Por quanto tempo será que esteve sonhando? Ela não fazia ideia. Apenas sabia que antes encostara a cabeça na perna do piano para apagar ali mesmo: Sem muita cerimônia ou protestos pela falta de conforto. Não era como uma cama... Mas parecia aceitável, visto que aquela onda de cansaço viera de repente. Além disso, apesar de ter dormido no canto do piano, a jovem não despertara mal descansada. Seu sonho havia sido maravilhosamente agradável; resultado da música de Deemo. Mas... Aonde será que ele estava?
A pequena garota olhou ao redor e não encontrou Deemo. Mas notou que tudo parecia um pouco mais vivo por ali.
Os vagalumes voavam mais rápido e com mais vontade, as luzes mágicas brilhavam mais, e a água parecia estar mais azul do que cristalina. Os olhos da menina transbordaram felicidade quando ela viu aquele cenário mágico novamente; mais incrível do que antes. Como se houvessem injetado algum tipo de adrenalina nela, a pequena garota sorriu e saltou de cima da base onde estava o piano: Sem medo de se molhar, ou mesmo machucar-se. As leis da física costumam funcionar bem quando algum peso cai sobre uma poça d’água; o mesmo deveria ter ocorrido ali, com a jovem batendo os pés no líquido que cobria o salão. Aconteceu como se um tipo de vidro invisível protegesse todo aquele tom de azul... A água não podia ser tocada. A menina deu um giro rápido assim que se viu sobre a superfície cristalina; ela sentia uma sensação incrível! Como se estivesse num livro de fantasia.
— A água não molha... — O impacto de seus pés naquele espaço gerava efeitos circulares que iam se prolongando gradativamente até desaparecerem, mas seus sapatos se mantinham completamente secos. Era quase como quando um patinho de borracha tenta mergulhar dentro da banheira, mas não consegue. — É como magia... Como no país das maravilhas!
Ela não se lembrava de seu nome. Não se lembrava de onde morava, dos nomes de seus familiares, e muito menos da última coisa que aconteceu antes de chegar até aquele lugar. Mas a pequena garota se lembrava do país das maravilhas; um lugar mágico cheio de criaturas estranhas e fantásticas, onde uma jovem se aventura atrás de um coelho atrasado. Aquele salão era tão silencioso... Apenas sua voz ecoava nele, e embora possuísse alguns aspectos levemente assustadores, era maravilhoso. Pensando nisto, a menina começou a correr ao redor do piano com os braços abertos; como se fosse um aviãozinho. O som de seus sapatos batendo na água mágica... Os brilhos dos vagalumes... Os ecos de suas risadas... A pequena garota se sentia muito contente depois de acordar, e notar estes detalhes fazia ela ficar ainda mais animada.
Ao finalmente se cansar de dar tantas voltas ao redor do piano, a jovem olhou para o alto, vendo aquela janela ainda aberta iluminar o piano logo abaixo. Até parecia que havia se esquecido... Não era ali que deveria estar. Mais séria, ela desceu o rosto e se deparou com um pequeno lance de escadas logo à sua esquerda. Havia uma porta de madeira depois de um curto corredor iluminado por tochas mágicas menores. Aquilo estava ali antes? Uma boa pergunta... Ela não havia prestado tanta atenção após cair lá do alto. Seria uma boa hora para investigar aquele castelo: Quem saberia as coisas incríveis que ela acabaria encontrando?! Sua curiosidade era como um balão de ar; aumentando de tamanho e altura quanto mais combustível tivesse. E claro... Depois de acordar, o que não faltava em seu peito era combustível para queimar em bisbilhotices.
A pequena garota quase se arrependeu de ser tão corajosa ao colocar sua curiosidade em ação.
Aquele curto corredor escuro dava numa porta que escondia uma escadaria espiral cuja descida estendia-se por alguns metros. A menina não tinha certeza da distância, mas parecia ser o suficiente para cavar um poço bem fundo. Não havia iluminação decente por ali; a escuridão era quase um perigo, mas por sorte tinha um corrimão de bronze para qualquer um que estivesse descendo ou subindo poder se apoiar. A pequena garota tropeçou algumas vezes, mas logo conseguiu chegar até o fim. Uma intuição que raramente dava as caras dizia para ela dar meia volta e procurar por coisas legais em outro lugar... Mas e se Deemo estivesse ali? Seria muito chato ficar lá em cima sem fazer absolutamente nada, e ela não fazia ideia de como tocar o piano; nem mesmo se atreveria a encostar com as mãos nele. Temia fazer papel de amadora tentando tocar ‘’Brilha Brilha Estrelinha’’, a única música que talvez fosse capaz de arriscar, mas que mesmo assim, tinha certeza que sairia terrível... Então, o que fazer? Não tinha jeito. Já estava na frente de outra porta fechada; uma bem menor. A maçaneta se encontrava na altura de sua testa. Era dourada e refletia seus olhos amedrontados e receosos nela... Abrir ou não abrir? Após hesitar por alguns instantes que pareciam longos minutos, ela a girou e abriu a porta lentamente.
A pequena garota se deparou com uma dama mascarada e de capuz.
Aquilo era uma biblioteca... Apesar de ser minúscula, ela era quentinha e bem silenciosa. A menina não teve muito tempo para verificar quais tipos de livro tinha ali, ou as coisas interessantes sobre a mesa de sua dona. A dama; que tinha uma máscara totalmente neutra e um capuz com um pompom na ponta, lentamente tirou seus olhos do enorme livro diante de si, em seguida olhando para a garota que escondia boa parte do corpo atrás da porta. A jovem temia tê-la incomodado... Além disso, aquela máscara não era nada amigável; a falta de cor combinada com a inexpressão em seu rosto de porcelana fazia dela um acessório quase assustador. Infelizmente a menina era tímida demais para dizer algo, e estava com muito medo para simplesmente pedir desculpas pelo incômodo e sair. Acabou dando um pulinho antes de correr para trás da porta e subir as escadas rapidamente. Talvez fosse melhor deixá-la em paz... Deemo não estava lá, então seria mais adequado ir procurar em outro lugar.
Um pouco ofegante e já de volta à sala do piano, a pequena garota enfim encontrou Deemo. Certamente ela não saberia prosseguir se ele não estivesse ali, já que não havia muitas opções para onde seguir naquele castelo... Seu tamanho era indiscutivelmente grande, mas a falta de passagens e portas dificultava na hora da exploração. Ainda bem que Deemo tinha voltado... Só de pensar naquela máscara branca, a jovem sentia calafrios. Já mais calma, foi se aproximando do piano num caminhar lento sobre a intocável água do salão. Deemo também estava ocupado... Lia um livro em frente ao instrumento. Será que ele ficaria muito tempo daquele jeito? A menina não podia simplesmente ficar vendo aqueles olhos brancos encararem tantas páginas sem ao menos saber do que se tratavam.
A pequena garota puxou um dos dedos de Deemo de maneira amigável e um pouco tímida, chamando sua atenção. — Deemo... O quê está lendo? — Perguntou com um pouco de receio de também tê-lo incomodado.
Linhas e notas musicais... Números e linhas arqueadas entre mais notas... Quando Deemo virou o livro; parecendo não estar incomodado com a interrupção da curiosa garotinha, ela pôde notar que se tratava de uma partitura. Aquilo era uma música; em sua forma mais rudimentar e imatura. Ainda não fora de fato manipulada, e tratava-se de um amontoado de notas esperando para se tornarem uma melodia fora do papel. Claro que a jovem não fazia a menor ideia de como aquela música; dividida em duas ou mais páginas, ficaria após ser interpretada e aprendida por Deemo. Tocar uma criação pronta é um processo dividido entre aprendizado; a parte teórica, prática, e que mais envolve a paciência em sua totalidade, e interpretação; a parte onde o pianista já sabe quais notas deve tocar, mas deve colocar os próprios sentimentos na música ao dissecá-la. Trata-se de descobrir através dos sons o que o criador da música desejava transferir ao ouvinte. Afinal, toda música transmite um sentimento, pensamento, ou mesmo um mero instinto humano. Como isso será transmitido, cabe ao músico decidir. Uma música pode conter as notas e tons perfeitos para passar ao ouvinte, por exemplo, uma sensação de tristeza... No entanto, a intensidade desta tristeza, ao que ela pode remeter, e qualquer outra sensação além da melancolia que possa vir junto, é algo que somente quem está tocando pode irradiar. Trata-se tornar algo que não é seu, um pouco mais único... Claro que isso já não se enquadra em experiência ou técnica. É algo ‘’mais’’. Algo que vem de dentro...
— Hm... — A pequena garota estava pensativa; mergulhou num mar de dúvidas enquanto observava a partitura. Algo naqueles desenhos dizia que a música não era exatamente o que aparentava... Que transmitia um sentimento além daquele amontoado de notas que; de acordo com o tempo, deveriam ser tocadas rapidamente e talvez fazer quem ouvisse sentir-se mais contente. No entanto, não havia a menor chance dela descobrir o que a melodia escondia em seu âmago; tão pouco de saber como ela de fato seria ao Deemo tocá-la... Se quisesse poder interpretar músicas em um estado tão imaturo, a jovem deveria aprender desde o princípio. — Você algum dia poderia me ensinar a ler partituras e tocar, Deemo!
‘’Seria magnífico’’ ela pensou. Deemo acariciou sua cabeça e depois voltou a ler; imerso numa serenidade sem igual. Talvez ele pudesse ensiná-la... Mas como faria isso sem poder falar? Seria um desafio e tanto, mas a pequena garota mostrou um olhar de quem estaria disposta a tentar. Quando fosse a hora certa, claro... Por enquanto, se contentava em apenas escutá-lo. Cada música seria como uma viagem a um país diferente; tantas coisas para ver! Sentir! Não importaria se fosse tristeza, amor, mágoa, felicidade, ou mesmo ódio... Alguém um dia a disse que ‘’o sentimento é o que nos faz humanos’’. A garota não conseguia se lembrar quem falou isso... Mas eram palavras marcadas permanentemente em sua memória. Jamais poderiam ser apagadas ou esvanecer pelo tempo.
O corre-corre ao redor do piano parecia não cansar; havia tanta energia para ser gasta! Apesar do susto gerado pela máscara branca da dama na biblioteca, a jovem ainda estava muito animada. Simplesmente por estar ali... Naquele lugar. Mesmo pertencendo ao mundo lá de fora... Ali também era confortável. De repente, então, ela parou ao notar algo em sua visão periférica. Uma planta...? Não, era apenas um broto; ainda estava no início de seu crescimento. A menina se abaixou e começou a observá-lo. Era muito frágil e pequeno... Como a dona daqueles olhos curiosos que o encaravam. Deemo chegou perto e se abaixou, tendo interrompido sua leitura para descobrir o motivo de a garota ter parado de correr ao redor do piano. A jovem se agachou e colocou as mãozinhas no queixo, olhando para o alto, um pouco pensativa. Se aquele brotinho se tornasse uma árvore, poderia ele alcançar a janela ao crescer o bastante para tal? Não... Nenhuma árvore poderia atingir tamanha altura... Mas e se Deemo tocasse para ela? A sensação que a pequena garota teve quando Deemo havia tocado anteriormente era a de algo crescendo dentro de seu peito. Se a árvore também pudesse ser atingida pelos sentimentos na música de Deemo... Talvez também pudesse crescer mais rápido!
A pequena garota removeu a plantinha de seu lugar original com muito cuidado e colocou-a na frente da cauda do piano após cavar um buraco no chão.
Deemo observava bastante curioso. Não parecia fazer ideia do motivo daquilo, já que o pequeno broto também poderia se tornar uma planta maior se continuasse no canto em que antes estava. Mas seria sob a luz da janela lá do alto que ele se tornaria uma árvore grande o bastante para fazer a jovem alcançá-la! Como se o plano fosse completamente infalível, a pequena garota começou a imaginar si mesma na copa da árvore enquanto jogava folhas para todos os lados em uma comemoração histérica. Tinha que dar certo! Com certeza daria!
— Talvez tocar o piano faça ela crescer mais e mais rápido, Deemo! — A garota dizia; ainda imaginando aquela cena maravilhosa. — Com certeza assim vou conseguir voltar pra casa!
Não havia plano melhor do que este. Claro; no mundo real árvores não crescem mais e mais rápido através da música... Mas aquele não era o mundo real.
Deemo olhou para a janela, e depois para a garota. Parecia estar pensando em algo... Talvez na distância até lá; talvez no que havia além daquela janelinha... De qualquer modo, pareceu concordar ao caminhar até o piano e colocar o livro sobre o apoio para partituras, tocando levemente nas teclas como se fosse algum tipo de carícia; um ritual antes do prelúdio. A pequena garota observava a cena com os olhos brilhando de tanta empolgação. Só podia se perguntar se realmente daria certo... Mas tinha uma grande esperança que sim! Seu coração pareceu pipocar quando a primeira nota foi tocada. A música, então, tomou partida...
Faixa 01: Nine Point Eight
https://youtu.be/MrRQ6Wj4pqc
A pequena garota fechou os olhos conforme as notas mais agudas do piano iam entrando em sua mente. Por um momento, sentiu a sensação de estar em outro lugar: No meio do cruzamento de uma cidade movimentada; sozinha, com o vento batendo em seu rosto. Os carros passando, as vozes das pessoas nas calçadas. Os trabalhos. As preocupações... O barulho cessou quando a música ficou mais intensa, e então ela abriu os olhos. Assim como imaginara, estava sozinha no meio de uma metrópole... Mas visualmente não era o mesmo lugar que esperava encontrar. O asfalto estava parcialmente coberto de um verde escuro amigável. Os postes eram vestidos de longas vinhas, e os carros mantinham-se escondidos atrás de grandes quantidades de musgo. Não havia nenhuma pessoa além dela ali... E a música continuava; mesmo sem Deemo por perto.
Quando a intensidade do sol aumentou, os prédios começaram a mudar. Imensas flores brotavam uma atrás da outra; cada qual em sua estrutura. O coração da pequena garota se encheu de paz e tranquilidade ao ver as flores copo-de-leite atravessando as janelas do menor dos prédios; o mais tímido de todos. Ao mesmo tempo, cravos vermelhos tomavam conta de um antigo casarão, trazendo uma forte sensação de amor por alguém. Um pequeno restaurante aos poucos era dominado margaridas, e crisântemos rosados encobriram todo um prédio comercial em instantes. Por fim, kalanchoes se espalharam pelo telhado de outro edifício, começando a dominar também as paredes conforme desciam. O cenário pouco a pouco tornava-se mágico e irreal, e como uma pintura criando vida progressivamente, espalhava cores por cima do cinza que ainda restavam naquelas frias paredes de concreto.
Apesar dos sentimentos que as flores passavam; apesar do cenário maravilhoso; e apesar da beleza geral da música, algo nela fazia o coração da pequena garota cair numa tristeza lutuosa. Como se houvesse perdido algo. Como se tivesse sido deixada para trás; mas não abandonada.
Ao olhar para baixo; quase deixando lágrimas escaparem de seus olhos por um motivo que nem mesmo conseguia se lembrar ou compreender, a jovem notou que não estava mais usando as mesmas roupas de antes; seus braços e os pés estavam descobertos, e diante de seus olhos se encontrava um longo vestido branco com desenhos de flores acima do peito. Seus volumosos cabelos agora estavam bem penteados e com tranças que começavam no topo da cabeça, criando algo como um ‘’anel’’ que seguia até a nuca. Lisianthus brancos, rosas-creme, lírios stargazer, e íris de cor violeta, começaram a brotar entre seus pés enquanto as mesmas outras espécies que estavam nos prédios também germinavam rapidamente ao redor de seu corpo. A pequena garota fechou os olhos e levantou a cabeça, deixando o próprio corpo cair para trás enquanto sua mente mergulhava numa sensação de felicidade ardente. Involuntariamente, ela sorriu.
Quando suas costas tocaram no chão, foi como cair sobre um amontoado infinito de almofadas: Não havia dor. O frio na barriga a deixava ciente que estava numa queda. Como quando atravessou aquela janelinha lá no alto... Mas desta vez, consciente do que estava havendo. Mesmo que a garota não se lembrasse de nada de sua vida lá fora, aquilo era como uma escolha de não deixar algo de seu passado desaparecer; se tivesse a chance de concretizá-la, teria feito no momento em que pudesse. Seria um salto para o inferno; abandonando todo o mundo ao redor.
Acordando do breve sonho em que estivera, com lágrimas nos olhos a jovem viu um brilho diante do piano branco. O salão foi preenchido por um estranho clarão que veio do broto que a pequena garota havia plantado naquela terra branca, e então sua singela esperança havia se tornado uma realidade: A planta imediatamente crescera e se tornara uma verdadeira árvore! A magia fazia com que o tronco ficasse envolvido por uma aura clara como as nuvens, e as pequenas folhas verdes lá no alto eram tão vivas quanto a própria menina. Infelizmente uma música só não seria o bastante para fazer a árvore alcançar o topo do salão... Mas havia sido apenas a primeira de muitas outras que ainda viriam.
Deemo se virou e repentinamente foi abraçado pela pequena garota. O sorriso no rosto dela sem dúvidas pagava o esforço de ter improvisado tão bem naquela música... — Funcionou! Funcionou, Deemo! Você viu?! Funcionou mesmo! — Dizia toda feliz.
Deemo a abraçou de volta e acariciou sua cabeça. Tinha uma extrema vontade de também poder compartilhar sua felicidade... Mas era impossível sem ter um rosto ou uma voz. No entanto, o toque era o bastante, e continuar ajudando-a enquanto tocava o piano seria a prova de que se importava e estava feliz por ela.
A pequena garota sentiu esperança. Sabia que algo importante a aguardava lá fora... Mas não tinha certeza do que era. Mesmo depois daquela enorme onda de sentimentos que a música de Deemo despertou em seu peito... Mesmo sem saber o que ela significava... Precisava ir. Ainda que uma aceleração 9.8 fosse se tornar seu destino.
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