Deemo - Nunca Parta Sem Dizer Adeus
4 A Dama Mascarada
Imersa num tédio sem igual, a pequena garota se encontrava deitada sobre o piano enquanto observava a luz que vinha além da janela lá no alto. Deemo havia tocado para o pequeno broto, este que rapidamente tomou a forma de uma árvore média. No entanto, parecia que repetir as mesmas músicas não surtia efeito nela... Será que aquela árvore tinha uma personalidade difícil? Afinal, uma árvore pode ter personalidade? Que questão complicada... Pensar nisso deixava a garota com sono, mas já havia dormido bastante antes de ficar ali sem fazer absolutamente nada, então não seria prudente ceder. Tudo o que ela queria era alcançar logo aquela janela e voltar para casa, mas não estava sendo uma tarefa tão simples. Imersa em seus pensamentos, a pequena garota acabou tendo uma ideia: E se conseguisse mais livros com partituras para Deemo? Músicas diferentes fariam a árvore crescer mais rápido, e o único lugar com livros suficientes para suprir essa necessidade parecia ser a biblioteca onde havia encontrado a dama mascarada. Sem nem pensar se isso seria uma boa ideia, a pequena garota simplesmente se ergueu e depois saltou de cima do piano, correndo na direção da porta que dava na longa escadaria espiral.
A pequena garota desceu até a sala da exclusa dama mascarada e abriu a porta; sem medo ou hesitação.
Como o esperado, a encapuzada de branco ainda estava lá. Com a cabeça baixa, parecia muito concentrada no conteúdo daquele livro enorme sobre a mesa. Não demorou para erguer o rosto igual fizera da outra vez, olhando fixamente para a menina durante longos segundos. A biblioteca estava um pouco bagunçada... Mas tinha livros de sobra para Deemo descobrir. A pequena garota não poderia se intimidar agora... Depois de finalmente tomar coragem e entrar, decidiu tentar ser gentil.
— O-Olá... — A menina falou com um pouco de timidez. A mascarada se mantinha em silêncio; assistia a gentileza da jovem como se não a compreendesse. Nem mesmo fora educada ao ponto de cumprimentá-la de volta. — Eu posso... Pegar algum livro...?
A dama mascarada continuou estática e olhando para a pequena garota até finalmente fazer um movimento com a mão esquerda. ‘’Vá em frente’’ ela quis dizer. Não precisava usar a voz para responder a aquela pergunta. Talvez simplesmente não se importasse com os livros, pensou a menina. Independente do motivo de ela ter deixado, a jovem começou a explorar a biblioteca. Atrás da grande poltrona vermelha onde a dama mascarada estava sentada, havia um enorme quadro de uma árvore que; de certo modo, lembrava o broto que havia plantado na frente do piano lá em cima. Se aquela pequena árvore se tornasse tão grande quanto a do quadro, com certeza alcançaria a janela no teto! Isso fez a menina ficar um pouco mais animada, mas ela se conteve para poder continuar explorando a biblioteca em silêncio. A parede era enfeitada por dois belos bonsais que pareciam bem cuidados, e uma planta completamente dourada também chamou a atenção da garota por alguns instantes. Ficava perto da entrada. Até parecia ser feita de ouro... ‘’Mas isso é mesmo possível?’’ se questionara... Tudo naquele lugar era diferente do mundo real. Aquele castelo sem dúvidas era mágico, e não havia como pensar em palavras como ‘’’lógica’’ estando em tal situação.
A pequena garota caminhou até um amontoado de livros que estavam jogados num canto da sala e começou a olhar seus títulos. Os nomes nas capas eram familiares; Ludwig van Beethoven, Frédéric Chopin, Wolfgang Amadeus Mozart... No entanto; como num bloqueio de memória, a jovem simplesmente não conseguia ligar aqueles nomes com absolutamente nada que tenha visto ou escutado em toda a sua vida. Será que algum daqueles livros serviria?
— Vocês acham mesmo que tocar para a árvore irá levá-la para casa? — Questionou uma voz abafada de repente; antes que a jovem pudesse abrir aqueles livros. A dama mascarada havia feito uma pergunta fria e insensível, dando um breve susto na pequena garota. Até parecia querer que o plano da árvore desse errado...
— Deemo tocou pra ela... E a árvore cresceu. — Respondeu inocentemente a jovem, já de frente para a encapuzada.
— Hump... — Soou como uma risada irônica. — Você nunca irá sair daqui. Isso por que você está onde deveria estar... Nada mais. — Afirmara a mascarada, arrancando uma folha do grande livro que antes estivera ‘’lendo’’, para então rasgá-la em seguida. O papel não possuía praticamente conteúdo algum. Mas mais importante do que isso, aquelas palavras machucavam a menina, que apenas observava os movimentos da dama de branco com um olhar triste e assustado. A mascarada saltou de cima da poltrona e se aproximou de um grande recipiente que continha um liquido verde claro. Ao jogar o papel amassado dentro do mesmo, a bolinha simplesmente derreteu no ácido... — Memórias... Você tem sorte de não se lembrar de absolutamente nada.
— Sorte...? — Perguntou a pequena garota.
— Sim. Sorte. — Respondeu a mascarada. — Afinal, não se torna mais fácil viver aqui se não souber como era a sua realidade lá fora?
Quando a dama se virou para ela, a menina pôde ver que em seu pescoço havia um relógio pendurado por um colar dourado. Aquele belo tom flavescente era como novo... Mas por algum motivo, o relógio estava parado. Talvez estivesse quebrado, pensou ela. Além disso, aquela máscara branca era ainda mais assustadora quando vista de perto. Por que tinha que usá-la? Por que tinha que esconder seu rosto? As perguntas martelavam na cabeça da pequena garota, que mesmo nunca tendo tido uma conversa sequer com a dama mascarada, parecia estar frente a frente com alguém que de certo modo já a conhecia... Afinal, como ela sabia que a jovem não se lembrava de nada sem que ao menos isso fosse revelado?
— Não quero ter que viver aqui... Quero voltar para casa... — A jovem disse, olhando para baixo.
— Eu não acabei de lhe dizer? Você nunca irá voltar. — Friamente retrucou a mascarada, estática e de frente para a menina.
— Por que você fala essas coisas?! — Já com os olhos começando a ficarem molhados, perguntava a invasora do castelo. Não aguentava aquelas palavras insensíveis da misteriosa encapuzada... Não as aceitava. — Não consegue ter esperança...?!
— Seu desejo de voltar é tolo e cego. — Explicava ela. — Como atravessar os portões da utopia... Suas pernas são pequenas demais para alcançar aquela saída. Você nunca irá deixar este lugar... Aqui é onde deveria estar, pois é aqui que está. Não será doloroso se não se lembrar de nada... Não é simples...?
— Você fala como se eu devesse só... Aceitar... Mas isso não está certo! — A respiração da pequena garota começou a ficar pesada e tensa. — Sei que tem alguém me esperando lá fora!
Algo em seu peito dizia que alguém se importava muito com ela... Que tinha o dever de voltar, pois alguém importante estava lá fora. Só de pensar em ficar presa naquele castelo por toda a eternidade fazia as pernas da jovem tremerem, e seu coração apertar. Mesmo que não se lembrasse de nada... Que não fosse tão doloroso quanto ficar presa ali e se lembrar de sua vida atrás daquela pequena janela... Ainda precisava retornar. Voltar para o lugar ao qual realmente pertencia...
— Ninguém está te esperando. — Disse a dama mascarada de repente, fazendo o coraçãozinho da pequena garota se estremecer em miséria. — Apenas... Aceite. Não há como escapar daqui...
Faixa 01: Lost in the Nowhere
https://youtu.be/zXCBkltL-aI
Já com lágrimas descendo pelas bochechas, a pequena garota simplesmente correu na direção da porta e saiu da biblioteca, subindo as escadarias espirais com pressa. Seu coração estava partido por aquelas palavras frias e insensíveis... Mas uma parte dela acreditava nelas. Uma parte que não tinha fé em seu retorno e muito menos que alguém estaria a aguardando lá fora. Conforme seus pés pisavam nos degraus, era como se a escadaria ficasse mais apertada e longa, tornando-se um tipo de corredor aos poucos. No final, havia uma luz... Ao atravessá-la, a pequena garota se viu num lugar totalmente diferente que o de onde viera. Aquele não era o castelo, mas sim uma realidade mágica e sombria. Seus pés paralisaram ao notar que o chão estava sob uma infinita superfície molhada e lotado de livros; daqueles de capa preta e molenga, geralmente usados como diários por pessoas de gerações passadas. Além da chuva pesada, vários outros livros idênticos aos que já estavam molhados no chão caíam de algum lugar através daquele céu escuro. Não havia nuvens ou mesmo uma lua acompanhada de suas estrelas; apenas centenas de brilhos amarelados semelhantes a brasas voando por todos os lados.
A pequena garota olhou para trás e não conseguiu enxergar nada além de um vazio coberto por água e livros. A escadaria desaparecera... Girando ao redor do próprio eixo, não conseguia encontrar nada além de diários e mais diários. Não havia saída. Não havia como escapar; como a dama mascarada de fato dissera. Apesar disso; apesar do frio, da solidão, e do medo, a pequena garota limpou suas lágrimas e começou a correr. Começou a correr na direção do vazio, torcendo para encontrar uma porta para fora daquela escuridão. Estava perdida em lugar algum. Onde não havia companhia boa ou ruim... Onde não havia felicidade ou sofrimento... Nem mesmo a música de Deemo para trazê-la conforto.
A jovem sentiu-se completamente sozinha. Da mesma forma que se sentia sempre que olhava para aquela janela no alto da sala do piano e pensava no fato de não se lembrar de absolutamente nada de sua vida lá fora. Qual era o sentido de retornar se não fosse se lembrar de nada? Se havia caído ali sozinha, significava que havia sido deixada pelas pessoas que a amavam? O que faria se não pudesse alcançar a saída? Simplesmente enlouqueceria? Ou aceitaria uma nova vida naquele castelo...? Afinal, se não tinha memórias do lado de fora... Que diferença faria? Por que choraria? Pelo quê?
Ainda assim, a pequena garota estava chorando de novo.
Afinal, por qual razão? Pelo fato de não conseguir retornar? Porque estava presa ali? Não ter memórias fazia com que não sentisse saudades de coisas específicas... Mas algo em seu peito dizia que deveria sentir falta de algo. Mas o que era? Algo? Alguém? Sem dúvidas esta era a pergunta que mais a atormentava. Não ter controle sobre a própria mente fazia com que os sentimentos de tristeza deixassem de fazer sentido, mas eles ainda estavam lá.
Conforme continuava correndo, seus pés iam afundando cada vez mais junto com os livros. A água parecia subir, mas na verdade era a garota quem estava indo para uma área mais profunda. Mesmo assim, ela continuou... Mesmo sabendo que provavelmente se afogaria e agonizaria dentro daquela escuridão... Seus passos se tornaram infinitamente mais difíceis e muito vagarosos quando a água já chegava ao pescoço. Foi quando, repentinamente, ela pareceu ter sido puxada para baixo e finalmente afundou por completo no abismo sob a água. Tudo o que seus olhos cor de caramelo podiam enxergar eram os livros afundando ao seu redor... Ela pôde ver um deles aberto... Suas páginas eram completamente brancas. Vazias. Como suas memórias sobre o passado...
Um toque a fez virar o rosto para trás. Alguém agarrara sua mão... A pequena garota pôde ver novamente aqueles pequenos olhos brancos, e conforme afundava, sentia a gravidade diminuindo. Era Deemo. Seus pés tocaram no chão, e toda a água ao redor desaparecera. Aquilo havia sido real? Ou apenas fruto de sua imaginação...? A pequena garota não fazia ideia... Mas sentia uma dor indescritível enquanto Deemo se mantinha estático segurando sua mão direita. Os dois estavam na sala do piano... E lá no alto estava ela; aquela janela. Sempre distante... Inalcançável.
— Deemo... — Sua garganta parecia estar amarrada de tão difícil que era falar. Era como um nó cego numa mangueira aberta. — Eu quero voltar para casa...!
A pequena garota se aproximou do pianista, e os dois se abraçaram. Infelizmente, Deemo não poderia confortá-la com palavras, e por isso o esguio de preto se levantou logo após afagar a cabeça da menina, ainda segurando a mão dela para então caminhar em direção ao piano. A forma como ele parecia acariciar as teclas antes de começar a tocar era como um ritual sagrado que fazia a pequena garota sentir uma paz interior. Já não estava mais com lágrimas descendo pelo rosto quando Deemo tocou a primeira nota, assim despertando mais uma vez a curiosidade da jovem.
Faixa 02: Jumpy Star
https://youtu.be/VOWRaGqppS0
Ao início da música, a pequena garota viu; em sua visão periférica, algo se movendo no alto da sala em média velocidade. Quando cerrou um pouco os olhos para entender melhor o que era, viu que realmente se tratava de uma estrela prateada. Não havia apenas uma... Várias começavam a aparecer conforme a música seguia. Algumas apenas flutuavam pelo ar, enquanto outras pareciam quicar pelas paredes até a superfície azul do salão, voltando para cima numa velocidade maior.
De repente, Deemo saiu de perto do piano e estendeu uma das mãos para a jovem. O instrumento parecia de alguma forma estar tocando sozinho... Sem hesitar, a garota segurou a mão de Deemo e os dois saltaram em cima de uma estrela maior, começando a pular de uma para a outra. Até se pareciam com almofadas... Mas faziam quicar muito mais alto, e se moviam pelo ar conforme o impacto sobre elas. Aquele olhar triste no rosto da menina havia se tornado um sorriso infantil e muito animado. Suas risadas podiam ser escutadas por todo o castelo a cada pulo que os dois davam. Deemo por um momento segurou ela com suas duas mãos, jogando-a na direção de uma estrela maior que se encontrava um pouco mais longe. A pequena garota parecia flutuar no ar, ignorando todo e qualquer conceito básico de física. Após um giro, caiu sobre a estrela e continuou pulando de uma para a outra, tendo se esquecido completamente do impasse que teve com a dama mascarada na biblioteca.
Ao voltarem a ficar de mãos dadas, Deemo e a pequena garota começaram a saltar para as estrelas mais baixas e retornaram à base do piano. O som do jazz se acabou quando Deemo voltou a se sentar em frente ao instrumento e encerrou a música rapidamente, fazendo com que a árvore voltasse a brilhar daquela forma mais uma vez. Estava acontecendo...! Os olhos da jovem então se abriram para o crescimento espontâneo da mesma, que além de ter ficado com um tronco mais escuro, havia alcançado o dobro do tamanho de antes com apenas uma música. Ao chegar mais perto e tocar nela, a pequena garota sentiu uma sensação magnífica... Um calor no peito misturado com uma leveza em todo o seu corpo. Aquela árvore era a prova de que a janela lá no alto podia ser alcançada... Que por mais difícil que pudesse ser, havia como sair daquele castelo. A jovem não tinha certeza se suas memórias voltariam algum dia... Também não fazia ideia se sua vida além daquela janela poderia ser melhor do que ficar ali com Deemo e a dama mascarada. Mas mesmo assim, ela estava decidida a voltar... E se tornaria mais forte em encarar a dama mascarada da próxima vez, se fosse necessário.
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