Faixa 01: Light Pollution
https://youtu.be/xVdtiPc4iW0

Seus pequenos pés tocavam nas teclas brancas como penas caindo na neve. Uma escadaria em espiral... Infinita. Inacabável até que algo fosse notado. A pequena garota descia as voltas ao lado de Deemo como se estivessem a caminho de um lugar feliz e confortável. O único lugar onde uma pessoa não sente solidão ao estar com outro alguém. A jovem mantinha a mão esquerda no peito sentindo algo... Não compreendia o quê. A sensação era a de estar seguindo um caminho sem volta... Mas do qual não se arrependeria. Para um lugar sem a poluição luminosa. Onde ‘’aquilo’’ nunca acabasse. O que é ‘’aquilo’’ afinal...? Ela se questionava no fundo. O que nós nunca queremos que se vá; o que sempre parte.

Olhando fundo naquelas pequenas esferas brancas com singelas manchas negras ao redor, a pequena garota sentia uma dúvida. Uma que não vinha de seu próprio coração, mas do pouco que o de Deemo podia expressar. Diferente de como sempre ocorria, desta vez ele a estava seguindo... Seguindo seu desejo. Os olhos cor de caramelo... Tão brilhantes... Não pareciam querer ver arrependimento. Desejavam mais. Alcançar algo... Ao mesmo tempo em que a dúvida; a questão, os impunha uma escolha difícil da qual não estavam cientes.

A pequena garota estava maravilhada.

Seus olhos viam brilhos que jamais havia antes conhecido. Uma felicidade que queria manter pela eternidade... Deemo. Sua companhia era como uma luz no fim do túnel. Aquele esforço todo... A ansiedade de retornar por uma causa desconhecida... A sensação de que havia algo lá fora a aguardando... Deemo fazia tudo isso ser menos doloroso. Valer mais à pena sua estadia naquele castelo mágico, porém boa parte do tempo, silencioso. O único som; as únicas vibrações naquela construção mística, eram as notas musicais que surgiam do piano. A vida ali vinha das pontas dos longos dedos de seu instrumentista. Vinha da música.

Após dois dias naquele castelo, a árvore finalmente estava dando frutos! Seu tronco parecia mais resistente; como a armadura de um guerreiro, e suas folhas eram verdes; como o belo vestido de uma donzela. No entanto, ainda que a menina tentasse alcançar aquelas esferas de cor amarelada, era impossível. Sua baixa estatura não permitia. Mesmo assim, era agradável para a pequena garota observá-las... Até pareciam jóias feitas do ouro mais valioso do mundo; refletiam seus olhos sem distorcê-los. Ver todo aquele processo fazia a jovem sentir uma sensação de realização indescritível... A cada música ficava mais perto de chegar ao topo, e o crescimento progressivo da árvore era a principal prova disso. Com o coração cheio de esperança e animação, a menina correu na direção da escadaria que levava à biblioteca da dama mascarada para enfim buscar mais um livro de partituras sem se preocupar em confrontá-la. Desta vez teria de ser algum que pudesse transmitir sentimentos fortes o bastante para fazer a árvore crescer ainda mais do que antes! Sentimentos mais profundos... Aqueles que evitamos processar por não compreendê-los tão bem.

Mais uma vez a pequena garota se via de frente para aquela maçaneta dourada; encarando seu próprio rosto nela. Seu coração palpitava sempre que a mão realizava um movimento em falso para abri-la... Ah, claro... Nós costumamos afirmar que o medo vem do desconhecido, mas é viável crer que isto nem sempre é verdade. Ter de reviver momentos ruins também pode ser assustador... Mas não é mais assustador do que pensar nisso antes deles re-acontecerem. Era mergulhada nesta sensação que a pequena garota se encontrava: Se questionando se seria ou não uma boa ideia entrar. Se choraria novamente. Se a dama mascarada diria mais uma vez coisas que pudessem machucar seu frágil coração. Ainda assim... Havia outro jeito de sair dali se não pela mesma porta que entrara? Uma maneira de voltar para casa sem a árvore...? Refletir sobre isso trouxe uma breve coragem à menina, e então a porta se abriu após o brusco toque na maçaneta.

A pequena garota se deparou novamente com a dama mascarada de capuz.

O som quase estridente da folha de papel sendo rasgada causava uma pitada de arrependimento. Havia algo nela... Mas era impossível dizer o que estava escrito sem chegar mais perto, e realizar tal ato parecia uma completa loucura, visto que a mera presença daquela pessoa misteriosa por si só já era nociva. Olhar para a máscara branca causava uma sensação ruim... Talvez por já tê-la confrontado antes; talvez por sua neutralidade tão absoluta. Desimportante: A garota estava ali pelos livros, e deveria se focar em sua pequena missão. Seria o que a levaria para casa, e ter a coragem de pegar ao menos um era essencial. Sendo assim; respirando fundo e esboçando uma expressão de maior seriedade, a jovem caminhou com passos pesados até a estante próxima à dama de branco. Não a cumprimentou ou ao menos pediu permissão. Isso parecia errado, e saber que estava sendo mal educada fazia com que suas pernas tremessem num medo intenso... Mas deveria continuar. Desencadear uma discussão traria apenas problemas desnecessários.

— As coisas eram mais calmas antes de você aparecer. — Afirmou aquela voz abafada pela máscara de porcelana. A frase quase fez a menina pular num susto... Mas a pequena garota permaneceu quieta enquanto buscava algum livro em especial naquela estante. — Ainda não aceitou os fatos...? — Insistia a dama num questionamento.

— Vou voltar pra casa. — Respondeu a jovem; tentando soar o mais convicta possível de sua escolha. Tinha uma determinação envolvida em certa fragilidade, entretanto...

— Não há para onde retornar. — Contestou a dama mascarada.

Nada mais pôde ser ouvido entre elas depois disso. Tentando ser mais fria e centrada do que antes, a pequena garota apenas continuou explorando a biblioteca sem discutir novamente com aquela desagradável pessoa. Nada mudaria depois daquela conversa. A sensação era a de que a dama de branco quisesse apenas feri-la com palavras... Mas também parecia ser sábia e estar certa do que dizia. Havia então uma parcela de dúvida nos sentimentos da garota sobre voltar para casa... Só que independente disso, ela optara por continuar. A ideia de ficar presa ali pela eternidade era um pouco perturbadora... Ainda que Deemo a fizesse uma boa companhia, ali não era o seu lugar...

Com os olhos cor de caramelo viajando por cada lateral de livro, a pequena garota finalmente pareceu ter encontrado algo que a interessasse; mesmo que superficialmente. Um livro minúsculo tingido do vermelho mais intenso que já houvera visto. Apesar de estar num canto empoeirado, se encontrava limpo demais para não ter sido colocado ali posteriormente... O mais estranho, de fato, era seu conteúdo. Não havia título, e a primeira página tinha um amontoado de letras em cima de diversas palavras incompletas. ‘’Frtradprssa’’ estava em negrito sobre o texto fragmentado da mesma exata maneira. A jovem ergueu uma sobrancelha sem entender absolutamente nada do que era aquilo, e folheou um pouco mais na esperança de encontrar alguma partitura... Mas não havia nada. A segunda parte do livro se chamava ‘’Hmrrgintrcrbrl’’ e continha a mesma redação que a anterior... Letras e mais letras formando palavras fragmentadas que; ao serem colocadas lado a lado sem qualquer espaçamento entre si, tornavam o conteúdo do livro completamente ilegível.

Frustrada com o pequeno livro, a garota finalmente optou por deixá-lo de lado e foi repentinamente atraída por um bilhete pendurado na parede. Olhar para ele de longe fez seu coração palpitar por um instante. Como não havia o notado antes...? Ao se aproximar, a pequena garota curvou-se um pouco a fim de tentar descobrir seu conteúdo... Mas infelizmente não havia nada legível ali também. Ao invés de as letras estarem trocadas, o pequeno papel branco era como um prato de leite lotado de cereal de letrinhas. Vê-las se movimentando por todos os lados como se estivessem dançando era engraçado... Mas não saber por que aquele bilhete estava ali e o que deveria estar escrito nele, trazia um leve desconforto.

Após quase um minuto inteiro tentando desvendar a nota, a pequena garota desistiu e continuou sua busca por livros na biblioteca. A estante ao lado da dama mascarada continha dezenas deles, e a jovem começou a fitar um por um em busca de algum título relevante... Franz Liszt; Johann Sebastian Bach; Claude Debussy; Johannes Brahms... Nenhum daqueles nomes esquisitos parecia familiar. ‘’Liszt’’ era difícil demais de soletrar, e ‘’Bach’’ soava quase tão engraçado quanto ‘’Brahms’’. A jovem tirou ‘’Obras de Claude Debussy’’ da estante e folheou o suficiente para realizar que não conseguia compreender nenhuma partitura que o mesmo continha. Tudo parecia complexo demais... Claro; era música, e seria uma opção para Deemo, mas de alguma forma ela sentia que aquilo não era o suficiente. Que não transmitiria algo forte o bastante... Quando decidiu devolvê-lo ao seu canto, a garota notou um livro azul-bebê escondido atrás de todos aqueles nomes estrangeiros. Será que a dama mascarada havia o espremido ali atrás? Não importava. Com toda a sua curiosidade incontrolável, a menina esticou um pouco o braço até alcançar a capa grossa e enfim puxá-lo para perto de si. Mais uma vez aquela frustração... O misterioso livro de textura agradável não possuía um título e nem mesmo abria. As páginas pareciam estar grudadas de alguma forma... O único conteúdo visível era uma numeração em fonte minúscula; se encontrava bem no cantinho da capa. “121.518549”. A numeração não soava familiar e parecia completamente aleatória. O ponto depois dos dois primeiros dígitos trazia certa dúvida sobre ser algo matemático... Mas a garota se lembrava de sinais como ‘’+’’ ou ‘’-‘’ quando assimilava o que era a matemática, e não pontos entre três e seis números.

Frustrada ao ponto de fazer bico, a pequena garota devolveu o livro ao seu devido e bem escondido lugar, e então sentou-se bruscamente sobre uma grande caixa de bronze, cruzando os braços em seguida. A impaciência chegava a gerar uma raiva que ansiava pela iminente explosão final. Aquela biblioteca tinha tantos livros... Como nenhum deles poderia servir? O que mais incomodava era a absurda quantidade de itens misteriosos que não pareciam ter chance de serem desvendados. O livrinho vermelho era ilegível... O bilhete na parede era confuso demais... O azul nem mesmo abria... Todo aquele desencanto se uniu com a frustração, e a pequena garota levantou-se para dar um chute completamente espontâneo no baú onde se sentara. Mas espere... Aquele baú estava ali antes? Aliás; como não notara ao sentar-se sobre o mesmo? Ao fitar a dama mascarada, a jovem notou que estava sendo observada, e então recuperou a postura abaixando a perna direita.

A pequena garota abriu a arca de bronze com alguma dificuldade e se deparou com um livro negro.

Os cantos eram cobertos por metal; isso dava um certo ‘’charme’’, por assim dizer... Não havia título. Não precisava... Diferente dos livros complexos de antes, aquele não possuía partituras de músicas clássicas feitas por grandes compositores do período barroco, ou gênios pianistas do passado. Os sentimentos que parecia querer passar eram únicos e quase incompreensíveis de tão misteriosos; ameaçavam se revelar apenas através do toque. Olhar para aquela capa de couro escurecido fazia com que a pequena garota sentisse uma vontade incontrolável de descobrir seu conteúdo. Seu coração dizia que não se arrependeria do que ele transmitiria... E seria Deemo aquele a reproduzir a primeira música. O ato de tentar interpretar a partitura fazia a jovem ter certeza que algo assim ajudaria a árvore crescer... Simplesmente por que; de alguma forma, ela sabia que a música seria profunda o bastante para atingir qualquer pessoa.

A dama mascarada viu a pequena garota correr para fora da sala numa pressa descomunal. Subira a escadaria espiral tão rápido que pareceu tê-lo feito em apenas uma dúzia de segundos, e não demorou a encontrar Deemo ainda diante do piano; olhando para a árvore e tocando em suas folhas como se fizesse uma gentil carícia. O ser esguio virou-se para a jovem e não pareceu ter se espantado com o quão ofegante ela estava, mas sim com o fato de ter conseguido chegar até ali correndo com um livro tão pesado em mãos. Antes que pudesse ter um momento de preocupação com a menina, ela levantou os braços e mostrou a ele a capa vazia do livro negro. Sua animação era notável!

— Veja, Deemo! Achei um livro perfeito pra você! — A jovem desgrudou a capa da primeira página, apresentando então a música que de algum modo a atraíra. — Tenho certeza que ela vai fazer a árvore crescer!

Os olhos claros de Deemo encararam a música por alguns instantes. A pequena garota perdeu o sorriso ao ver que ele claramente estava hesitando... Algo não parecia estar certo... Mas Deemo logo tomou a decisão de tocá-la, já que a jovem estava muito determinada; isso voltou a animar aquele coraçãozinho ingênuo. Suas mãos pairaram um pouco antes de finalmente pegarem o livro para colocá-lo no suporte de partituras do piano. As pontas de seus dedos negros delicadamente repousavam sobre as teclas antes de começar. Bastara uma breve leitura da partitura para que ele se sentasse pronto para tocar; um fato impressionante para alguém que acabara de ler o conteúdo técnico da música.

Faixa 02: I Hate to Tell You
https://youtu.be/Hd9zLuyPDo0

Quando a música começou, o leve sorriso de empolgação da garota desapareceu completamente. Seu entusiasmo havia sido esmagado por uma onda repentina de profunda solidão. Uma névoa começou a tomar conta de tudo rapidamente, e a garota se assustou por um momento, caminhando aceleradamente na direção de Deemo em busca de proteção... Ele havia desaparecido. Tão depressa que ela mal pudera subir na plataforma onde se encontrava o piano e seu instrumentista. As paredes do castelo pareciam ter sido substituídas por uma grande floresta de pinheiros ao redor das planícies gigantescas onde a menina agora se encontrava. A música continuava enquanto a primeira de muitas gotas d’água caíra sobre o ombro da menina.

A pequena garota sentiu medo e frio.

Olhando ao redor, não havia nada além de um guarda-chuva caído sobre a grama escura e agora molhada. Com um terrível nó na garganta e as mãos trêmulas, a pequena garota agarrou o objeto e fitou sua falta de cores por um momento, notando que agora seu vestido também estava preto. O vento em seu rosto era gelado... Vinha como uma péssima notícia. Como se algo houvesse sido perdido... Ela não se lembrava. A música despertara um sentimento desesperador que nem mesmo a garota conhecia... A jovem virou-se em silêncio e notou que se encontrava numa grande elevação de terreno diante de todo um mundo coberto pelo impiedoso céu nublado. Caminhando até as bordas daquela montanha, ficou diante de um abismo mortal que não havia como ser alcançado de lá de baixo. E lá estava Deemo... Tão longe... Diante do piano; tocando as notas dramáticas que sobressaíam o som da chuva.

A pequena garota sentia que precisava se despedir. A agonia de não se lembrar de quê ou de quem era a pior parte... Ainda assim, era como se uma parte de seu coração soubesse. Tudo estava desabando... Uma parte dela havia entendido algo impossível de se explicar. Apenas o sentimento; não o fato. Algo não tinha mais esperança lá fora... A fé havia se perdido.

Por que retornar?

Se a jovem voltasse para casa, saberia o significado daquilo. Teria de se despedir... Seria obrigada a enfrentar de frente o fato que naquele momento sua própria mente bloqueava. Seria melhor saber e viver livre? Ou continuar ali; protegida dos problemas e impasses, porém vivendo uma farsa...? Aquela não era sua realidade. Ali; naquele castelo, com Deemo e a dama mascarada... Mas parecia mais confortável do que encarar a verdade. A verdade que algo estava permanentemente perdido lá em cima.

A pequena garota escondeu o rosto com o guarda-chuva preto e notou após alguns segundos que a música finalmente havia acabado. Seu coração ainda parecia estar sendo espremido por outra pessoa... Mas tanto o objeto que estava em suas mãos, quanto o vestido negro, havia desaparecido. O cenário ao seu redor voltara a ser o que era antes, e as paredes do castelo novamente restringiam Deemo e a menina ali dentro. A pequena garota levantou a cabeça lentamente enquanto via a árvore se envolver num brilho dourado e ficar maior repentinamente... Mas por algum motivo aquilo não foi tão mágico como na primeira vez. Encarando sua única saída tão longe lá no alto, ela notou o quão distante ainda estava de voltar para casa... E o quanto ainda gostaria de permanecer ali.

A pequena garota se abaixou e chorou profundamente com as mãos no rosto.

Ainda que Deemo tocasse em sua cabeça e tentasse consolá-la, seus medos pareciam fortes demais para serem tão facilmente derrotados. O apavoramento de ficar presa naquele lugar até o fim de sua vida. O receio de retornar e descobrir que seria melhor ter ficado; que sua vida e seu lar não são felizes do lado de fora daquele castelo místico. Incerteza. Dúvida... Frustração. No entanto, apesar de saber que algo de ruim a aguardava no mundo além da janela, a pequena garota sentia saudades de sua casa. Ainda precisava retornar... Pois certamente alguém precisaria dela lá fora; seu coração dizia que alguém a aguardava. Que havia se esquecido de algo muito importante... E que isso precisava ser lembrado.